Comentário ao Evangelho de Lc 21,25-36feito por Santa Teresinha do Menino Jesus
Carmelita, Doutora da Igreja - (1873-1897)
Acto de oblação ao Amor misericordioso

«A fim de aparecerdes firmes diante do Filho do Homem»

Ó meu Deus, bem-aventurada Trindade, desejo amar-Vos e fazer amar¬-Vos, trabalhar para a glorificação da Santa Igreja, a salvar almas. [...] Desejo cumprir na perfeição a Vossa vontade e chegar ao degrau de glória que me preparastes no Vosso Reino; numa palavra, desejo ser santa, mas sinto a minha impotência e peço-Vos, ó meu Deus, que sejais Vós mesmo a minha santidade. Dado que me amastes a ponto de me dardes, para meu salvador e Esposo, o Vosso Filho único, serão pois meus os infinitos tesouros dos Seus méritos: ofereço-Vo-los com alegria, suplicando-Vos que me olheis apenas através da face de Jesus e no Seu coração ardente de amor. [...]

Agradeço-Vos, meu Deus, por todas as graças que me concedestes, em particular por me terdes feito passar pelo crisol do sofrimento. Será com alegria que Vos contemplarei no último dia, levando o ceptro da cruz. Porque Vos dignastes dar-me em partilha esta cruz tão preciosa, espero juntar-me a Vós no céu e ver brilhar no meu corpo glorificado os estigmas sagrados da Vossa Paixão. [...]

Depois do exílio da terra, espero fruir-Vos na pátria. Mas não quero amontoar méritos para o céu, quero apenas trabalhar para o Vosso amor, com o único objectivo de Vos agradar, de consolar o Vosso coração sagrado e de salvar as almas que Vos amarão eternamente. No ocaso desta vida, aparecerei frente a Vós de mãos vazias, porque não Vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todos os nossos actos de justiça terão máculas a Vossos olhos. Quero portanto revestir-me da Vossa própria justiça e receber do Vosso amor a posse eterna de Vós mesmo. Não quero trono nem coroa que não sejam Vós, ó meu Bem-Amado! A Vossos olhos o tempo nada é, um só dia é como mil anos (Sl 89,4), podeis portanto num breve instante preparar-me para aparecer diante de Vós.


Comentário: Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Ficai atentos e orai a todo momento

Hoje, último dia do Tempo Comum, Jesus adverte-nos com clareza meridiana sobre a sorte da nossa passagem por esta vida. Se nos empenhamos, obstinadamente, em viver absorvidos pelos afazeres imediatos da vida, chegará o último dia da nossa existência terrena tão de repente que a própria cegueira da nossa gula nos impedirá de reconhecer o mesmíssimo Deus que virá (porque aqui estamos de passagem, sabia?) para levar-nos à intimidade do Seu Amor infinito. Será qualquer coisa como o que ocorre com um menino malcriado: está tão entretido com os seus brinquedos, que no final esquece o carinho dos seus pais e a companhia dos seus amigos. Quando se dá conta, chora desconsolado pela sua inesperada solidão.

O antídoto que Jesus nos oferece é igualmente claro: «ficai atentos e orai a todo momento» (Lc 21, 36). Vigiar e orar … O mesmo aviso que deu aos seus Apóstolos na noite em que foi traído. A oração tem uma componente admirável de profecia, muitas vezes esquecida na pregação, ou seja de passar de mero “ver” a “observar” o quotidiano na sua mais profunda realidade. Como escreveu Evágrio Pôntico, «a vista é o melhor de todos os sentidos; a oração é a mais divina de todas as virtudes». Os clássicos da espiritualidade chamam-lhe “visão sobrenatural”, olhar com os olhos de Deus. Ou o que é o mesmo, conhecer a Verdade: de Deus, do mundo, de mim próprio. Os profetas foram, não só os que “pregaram o que haveria de vir”, mas também os que sabiam interpretar o presente na sua justa medida, alcance e densidade. Resultado: souberam reconduzir a história, com a ajuda de Deus.

Tantas vezes nos lamentamos da situação do mundo. – Onde iremos parar? Dizemos. Hoje, que é o último dia do Tempo Comum, é dia também de resoluções definitivas. Quem sabe, já está na hora de mais alguém estar disposto a levantar-se da sua embriaguez do presente e ponha mãos à obra de um futuro melhor. Quer ser você? Pois, ânimo! E que Deus o abençoe.