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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 400 – setembro 1995

Escrevem os Bispos da China:

 

"TRABALHEMOS POR MELHORES TEMPOS"

 

Em síntese: O Governo comunista da China provocou a fundação da Igreja Católica Nacional ou Patriótica, à qual pertencem vários Bispos (que ordenam novos Bispos) com seus fiéis. A parte do episcopado fiel a Roma é clandestina, não lhe sendo permitido comunicar-se com a Santa Sé. Eis, porém, que recentemente os Bispos católicos unidos a Roma houveram por bem escrever uma Carta Pastoral, em que exortam os fiéis chineses em geral a manterem fidelidade à Santa Sé; para tanto baseiam-se em razões históricas e eclesiológicas, aproveitando-se da passagem do 700° aniversário da missão do Bem-aventurado João de Montecorvino, Arcebispo de Pequim. O texto é claro e enérgico, revelando coragem e firmeza dos Bispos perseguidos.

 

O Partido Comunista da China conseguiu dividir a Igreja Católica naquele país, criando a Igreja Patriótica ou Nacionalista, tutelada pelo Governo, mas impedida de ter relacionamento com a Santa Sé. Na verdade, uma parte do episcopado chinês aderiu a tal facção juntamente com seus fiéis; ordenam novos Bispos sem autorização da Santa Sé (o que é considerado pelo Direito Canônico como falta gravíssima) e burlam as normas do Sumo Pontífice. A outra parte do episcopado mantém-se unida ao Santo Padre de maneira clandestina, sujeita a encarceramento e maus tratos. O Governo Chinês tem-se mostrado duro para com os católicos fiéis à Sé de Pedro e fechado ao diálogo com esta. Eis, porém, que os Bispos clandestinos, reunidos em Conferência Episcopal, houveram por bem publicar uma Carta Pastoral dirigida aos seus fiéis, exortando-os a se manter fiéis a Roma apesar da agressividade dos comunistas. Essa Carta não traz assinaturas, como se compreende, mas fontes informativas de Hong-Kong estimam que cerca de trinta Bispos aprovaram a respectivo texto. O documento foi publicado aos 31 de janeiro de 1995 em chinês e em inglês pela Fundação Cardeal Küng nos Estados Unidos. Transmitimo-lo, a seguir, em tradução brasileira a partir do texto francês editado por La Documentation Catholique, de 7/5/1995, n°2115, pp. 441-444.

 

1.0 DOCUMENTO

 

"Caros Irmãos e Irmãs em Cristo,

O amor de Deus nosso Pai, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo estejam com todos vós. Neste ano ocorre o 700° aniversário da missão do bem-aventurado João de Montecorvino, Arcebispo de Pequim na China. Coincide também com o quinto aniversário da fundação da Conferência Nacional dos Bispos Católicos Romanos Chineses. Abençoados por estes dois grandes eventos, queremos dirigir-nos a vós nesta Carta Pastoral.

 

A História da Evangelização na China

 

A história da evangelização na China é longa. Desde a Ascensão de Nosso Senhor e o seu mandamento de proclamar a Boa Nova da salvação a todas as nações, o Apóstolo São Tomé viajou, ao menos, até a índia. Algumas pesquisas mostram que chegou até a China. Uma revista francesa discutiu o assunto precisamente antes que a China se tornasse comunista em 1949. Um arqueólogo descobriu uma cruz de ferro gravada num texto que se refere à Igreja e acompanhada por um emblema de Sun Wu dos três Reinos; estas são provas de atividade missionária na China no decorrer dos primeiros séculos. O Imperador Taizong, da dinastia dos Tang, deu ordem, ao seu Primeiro Ministro, de receber um missionário nestoriano com benevolência e como um hóspede de honra. A seguir, nos tempos do Pe. Matteo Ricci, foi escavado um monumento de pedra no Shanxi com a inscrição seguinte: ‘A difusão do nestorianismo na China'. O nestorianismo é uma heresia e constitui uma igreja cismática.

 

A história da China considera o Arcebispo Montecorvino como o pioneiro das atividades missionárias ocidentais na China. Neste 700° aniversário da sua missão na China sentimo-nos impelidos a comemorá-lo. A data, o lugar e a forma dessa comemoração não têm importância. A tônica deve ser colocada, antes, sobre o modelo que ele nos oferece em suas relações com os outros, na sua proclamação do Evangelho por milhares de quilômetros, sem receio das dificuldades e dos perigos de vida que ele corria, na fidelidade ao Espírito de Jesus Cristo. Nele temos um exemplo de fidelidade à Santa Sé, de obediência e lealdade à missão recebida do Santo Padre.

 

Numa carta dirigida ao futuro Arcebispo Montecorvino em 1307, S. Santidade o Papa Clemente V louvava-o nestes termos:

 

'Sabemos de fonte digna de fé que, há longos anos, dás provas de um grande zelo missionário. Com a autorização do teu Superior, foste à capital da Mongólia (hoje Pequim) para proclamar o Evangelho ao povo. Guiado pelo Espírito Santo, trabalhaste muito e batizaste a muitos. Por conseguinte, Nós te outorgamos agora uma especial autoridade. Após a tua ordenação episcopal terás a licença de ordenar outros Bispos, sacerdotes e diáconos e poderás enviar Religiosos como missionários no reino Yuen (China); terás também autoridade para governá-los como Nós governamos a Igreja no Ocidente. Pela presente carta damos o mesmo poder especial ao sucessor do Arcebispo de Han Ba Li (Pequim). Todavia estas faculdades são concedidas sob uma condição: haja obediência e submissão à autoridade suprema do Pontífice Romano, inseparáveis da aceitação do pallium  (1) de Arcebispo. Desejamos lembrar-te também, como aliás, já o fizeste outrora, que utilizeis pinturas que descrevem cenas do Novo Testamento para ornamentar vossas futuras igrejas, a fim de que mesmo aqueles que não sabem ler nem escrever, possam contemplar os mistérios da obra de Deus nessas imagens'.

 

1              O Pallium é a insígnia dos Arcebispos. (N.d.R.)

 

Esta carta do Papa pode ensinar-nos muitas lições importantes e benéficas; é uma fonte de inspiração para nós. Primeiramente, ficamos sabendo que o Arcebispo Montecorvino era obediente ao seu Superior. Os transportes naqueles tempos eram muito difíceis. Durante o longo trajeto da Itália para a China, muitos companheiros do Arcebispo haviam falecido. A seguir, somos informados de que a faculdade especial de ordenar Bispos não é algo de recente. Esta prática na China tem a idade de setecentos anos. Mais importante: os Bispos ordenados devem obedecer e submeter-se à autoridade suprema do Sumo Pontífice, pois a obediência ao Papa, como Vigário de Cristo na terra, é a condição fundamental da autoridade própria do Bispo. É importante, por conseguinte, que voltemos a observar este preceito e este ensinamento essenciais do Papa, que se aplicam ao tempo presente. Em conseqüência, convocamos os clérigos e todos os seus irmãos e irmãs na China a se unir e a estudar seriamente o ensinamento constante dos Papas para o imprimirmos em nosso espírito e o pormos em prática. Chamamos todos para compartilhar essa doutrina com vossos familiares e amigos, a fim de completar a missão gloriosa que Deus nos entregou.

 

A Divisão da Igreja

 

Infelizmente, por causa da interferência de fatores estranhos à Igreja, a Igreja Católica da China está atualmente dividida. Uma parte da Igreja é reconhecida pelo Governo; chama-se 'Igreja Oficial' e seus Bispos são ditos 'Bispos oficiais'. Embora esses Bispos oficiais se digam católicos e reconheçam São Pedro como o Príncipe dos Apóstolos e o Papa como o sucessor de São Pedro, consideram o Papa tão somente como Chefe espiritual da Igreja Católica universal. Não querem reconhecer que o Papa possui a autoridade suprema legislativa, executiva e judiciária na Igreja. Também não querem reconhecer a autoridade do Papa para nomear e governar os Bispos católicos do mundo inteiro, inclusive os da China. Todavia nossa fé católica nos ensina que o Papa é o Pastor Supremo da Igreja Universal e que ele tem o poder imediato, total, supremo, universal e ordinário sobre todos os fiéis católicos do mundo inteiro.

 

Todos os clérigos e os leigos, sem exceção, estão obrigados, em consciência, a se submeter ao poder supremo do Sumo Pontífice.

 

Alguns membros da 'Igreja' foram mais longe no caminho da divisão da Igreja. Em 1957 fundaram a Associação Patriótica dos Católicos Chineses; em 1980 fundaram a Conferência das Igrejas da China e a Comissão dos Assuntos Religiosos Católicos Chineses. Em setembro de 1992 encontraram-se em Pequim para abrir o Quinto Congresso Nacional dos Representantes Católicos. Na ocasião desse encontro os participantes declararam: 'A consolidação das três Organizações Nacionais no colégio dos Bispos da China e a Associação Patriótica dos Católicos Chineses têm a vantagem de desenvolver simultaneamente o amor pelo país e o amor pela Igreja. Preservam o princípio de uma Igreja apostólica independente, autônoma e auto gerenciada. Após a respectiva consolidação, essas duas Organizações - o colégio dos Bispos Católicos da China e a Associação Patriótica dos Católicos Chineses- devem prestar contas ao Congresso Nacional dos Representantes Católicos'. Esta estrutura manifesta que o Congresso Nacional dos Representantes Católicos dá autoridade administrativa aos membros do colegiado dos Bispos Católicos da China. Por conseguinte, se essas pessoas escreverem um Catecismo, qual será a sua resposta a esta importante questão: 'Quais são os deveres dos diferentes membros da Igreja?' A resposta correta deveria ser: 'Os fiéis seguem os ensinamentos dos padres; os padres seguem os ensinamentos dos Bispos, os Bispos seguem os ensinamentos do Papa'. É esta união que faz de nós um rebanho guiado por um pastor, conforme o mandamento de Cristo. Mas é muito provável que a resposta a tão importante pergunta seria elaborada pelos Bispos do Colegiado dos Bispos da China nos seguintes termos: Os fiéis escutam o padre; os padres escutam os Bispos, os Bispos escutam o Congresso Nacional dos Representantes Católicos'. Neste caso o Congresso Nacional dos Representantes Católicos escuta a quem?

 

A autoridade do Congresso Nacional dos Representantes Católicos está acima da do colegiado dos Bispos Católicos. Quem confere tal autoridade ao Congresso Nacional dos Representantes Católicos? Cristo jamais ensinou tais coisas, nem algum dos teólogos o ensinou. A autoridade do Congresso Nacional dos Representantes Católicos é uma grande descoberta, sem precedentes, dos sábios do nosso país.

 

Uma 'nova Igreja' foi criada

 

Uma das características específicas da Igreja Católica é a comunhão da Igreja universal com o Romano Pontífice. A Igreja é dirigida e governada pelo Papa. Todavia o Colegiado dos Bispos da China não traz esta característica. A sua autoridade não provém do Papa nem do Colegiado dos Bispos dirigidos pelo Papa, mas do Congresso Nacional dos Representantes Católicos. Por causa da sua formação, da sua constituição e da sua autonomia frente ao Papa e da sua responsabilidade frente ao Congresso Nacional dos Representantes Católicos (e não frente ao Sumo Pontífice), nós, Bispos, membros da Igreja Católica Universal, declaramos solenemente que o Colegiado dos Bispos Católicos da China e as igrejas por eles dirigidas se tornaram uma nova Igreja, diferente da Igreja Ortodoxa, da Igreja Protestante e certamente diferente da Igreja Católica, Una, Santa e Apostólica. Os Bispos e os clérigos que pertencem a essa nova Igreja e ao Colegiado dos Bispos Católicos da China não estão em comunhão com o Papa, nem com os Bispos que guardam comunhão com o Papa. Os fiéis cristãos que não se declaram separados do Colegiado dos Bispos da China, já não são membros da Igreja Católica. Nenhum membro do clero da Igreja Católica pode estar em comunhão sacramentai com eles.

 

É desolador estar separado da Igreja. Devemos rezar freqüentemente por esses irmãos e essas irmãs separados a fim de que o Senhor misericordioso lhes conceda a graça do arrependimento. Devemos procurar persuadi-los com amor e compaixão, estimulá-los com fé, a fim de que eles também sejam cheios do Espírito Santo e testemunhas corajosas de Jesus Cristo. Possam navegar suavemente sobre o barco da nossa Mãe Igreja com São Pedro no leme e voltar à casa da Igreja Universal dirigida por nosso Sumo Pontífice.

 

A Perseguição da Igreja

 

O Evangelho foi pregado ao grande povo da China durante vários séculos. Um número incalculável de pessoas corajosas seguiram os passos de Jesus Cristo. Por causa do seu amor a Cristo, foram presos, banidos e por Ele derramaram seu sangue. Sofreram a provação da tortura física e mental. 'Bem-aventurados são os perseguidos por causa da justiça; o reino dos céus lhes pertence... Sede felizes e regozijai-vos, pois vossa recompensa será grande nos céus' (Mt 5,10-12a). 'Lembrai vos da palavra que eu vos disse: o servidor não é maior do que o mestre. Se perseguiram a mim, perseguirão também a vós' (Jo 15,20).

 

Enxuguemos nossas lágrimas e limpemos nossas feridas, renovemos nosso espírito de testemunhas cheias da chama do amor de Deus e vivamos sob a direção do Espírito Santo. Caminhemos sobre o campo de batalha para proclamara palavra de Deus com fervor, coragem, simplicidade e apresentemos o dom da salvação à comunidade que está ao redor de nós. Falemos de Cristo com nossos irmãos e vivamos segundo Cristo. Em companhia de Cristo sejamos sábios como as serpentes e simples como as pombas (cf. Mt 10,16), a fim de evitaras ocasiões de pecado. Se há uma assembléia acessível, procurai-a para servir a Deus na adoração. Se não há nem igreja nem local de reunião, segui o exemplo da Sagrada Família reunindo-vos em família a fim de agradar ao nosso Pai do céu. Para aqueles que não têm nem mesmo esta oportunidade, fazei do vosso coração o templo de Deus, e falai a Deus na intimidade em todo momento. Adorai a Deus em espírito e verdade. Glorificai-o e salvareis almas, as vossas e as dos vossos vizinhos.

 

A perseguição da Igreja hoje é como uma tempestade que afoga o mundo, semelhante a uma advertência que vem antes do fim do mundo. Tal acontecimento não é obra do homem. O poder perseguidor é desencadeado pelas forças do inferno. Esta tempestade é criada por um movimento político que desafia a vontade do povo e a quer aniquilar. É responsável pelo atual estado de perseguição religiosa existente no mundo sob diferentes modalidades contra Deus, contra a santidade, contra a humanidade, contra a Santa Igreja, contra a autoridade sagrada do Vigário de Cristo. Tal poder existe na China como existe em outras partes do mundo. Nossa Igreja na China deve confiar-se a Nossa Senhora da China, a todos os anjos e a todos os Santos, que nos orientam do alto a fim de que nossas obras sejam dignas e proclamemos uma mensagem de fé na salvação, modelo para o mundo inteiro.

 

Estamos não somente num tempo de desafio raro, mas também num período de tempestade, de prostração e de agitação. Temos que reerguer e construir; se não, envergonhar-nos-emos de ter perdido tal ocasião. Peçamos ao Espírito Santo que encha nossos corações e nos torne todos - desde os Bispos da nossa Conferência Episcopal até nossos sacerdotes fiéis, nossos leigos e nossos Religiosos - capazes de nos reconciliar passando por cima das nossas diferenças e das nossas faltas. Temos que examinar nossas consciências, ponderar atentamente o conselho dos outros homens de boa vontade, arrepender-nos profundamente das nossas atitudes mesquinhas e reanimar o nosso espírito. Com a ajuda do Espírito Santo e a nossa própria diligência, deveríamos poder obter melhores tempos para o Catolicismo. Quando estes tempos vierem, não utilizaremos saudações tais como 'Bom Dia!' ou 'Até outra ocasião!', mas diremos 'Louvado seja Jesus Cristo!'".

 

 

2. COMENTANDO...

 

A Carta atrás transcrita chama-nos a atenção por três motivos principais:

 

1) É digna de nota a coragem dos Bispos clandestinos da China, que, apesar de cruel perseguição, levantam a voz para lembrar a seus fiéis verdades básicas do Cristianismo. Este tem um Pastor Supremo visível, instituído por Jesus Cristo, e assistido pelo Espírito Santo para que conserve incólume o depósito da fé e da Moral do Evangelho. Lembrá-lo aos fiéis é dever dos pastores que queiram o bem de seu rebanho e desejem evitar o subjetivismo deletério na interpretação da Palavra de Deus.

 

2) Os Bispos aludem à perseguição sofrida pelos católicos. Julgam-na compreensível e até mesmo sinal de autenticidade dos católicos, pois, como disse Jesus: "Se perseguiram a mim, perseguirão também a vós" (Jo 15, 20). Exortam à perseverança corajosa, a qual se torna possível desde que os discípulos de Cristo se fortaleçam na prece. Daí a exortação a que todos se dediquem à oração, seja comunitária, seja particular.

 

3) Os Bispos terminam com uma palavra de esperança e confiança. Se os fiéis souberem levar uma vida digna, dócil às inspirações do Espírito Santo e pronta ao arrependimento e ao perdão, poderão obter melhores tempos para a Igreja, unidos aos irmãos hoje separados num único louvor a Jesus Cristo.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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