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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 369 – fevereiro 1993

"Fazei Penitência"

(Mc 1,15)

 

Aos 24/02 do corrente ano abre-se o período da Quaresma; são quarenta dias que preparam o cristão para a celebração da Páscoa, festa máxima do ano litúrgico.

 

Celebrar a Páscoa não é apenas recordar solenemente o passado, mas implica tomar parte no evento celebrado, ou seja, na Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor feita presente na S. Liturgia. A vida inteira do cristão, aliás, deve desenvolver este programa de configuração a Cristo, pois o Batismo implica morrer com Cristo para o pecado e ressuscitar para uma vida nova. Todavia a Quaresma é o tempo em que, por excelência, tal tarefa é vivenciada pelos cristãos.

 

"Fazei penitência»." é a primeira exclamação da pregação de Jesus, conforme Mc 1,15. O vocábulo "penitência" não é do agrado do homem contemporâneo, incitado por fatores diversos ao hedonismo e ao consumismo. Todavia tem importância capital na cosmovisão cristã.

 

"Fazei penitência", em grego, diz-se metanoeite, isto é, "mudai de mentalidade". Antes do mais, portanto, a penitência implica alteração da escala de valores; o modo de ver meramente natural ou racional do cristão tem que ceder a uma visão de fé, que transcende as categorias filosóficas. A fé descobre valores onde a razão não os percebe. A fé vê na Cruz a árvore da vida, na renúncia ao pecado e ao velho homem a passagem para a vida plena (cf. Jo 12,24s). Por isto a penitência cristã se traduz necessariamente em ascese ou em exercícios que propiciem a harmonização do ser humano em si, a subordinação dos apetites e paixões ao ideal cristão. O jejum e a abstinência de carne são as práticas que, por excelência, possibilitam esses frutos; com efeito, implicam o treinamento e o fortalecimento da vontade, que aprende assim a dizer um Não espontâneo aos prazeres lícitos, que são postos de lado para que o cristão esteja habilitado a dizer Não quando assaltado pelos impulsos desordenados da natureza.

 

"Fazer penitência" corresponde ao hebraico shub. Este vocábulo apoia-se numa imagem plástica muito significativa: exprime a mudança de rota que se faz indispensável quando alguém verifica que tomou o caminho errado. Na verdade, o pecado e as concessões covardes aos afetos desregrados vêm a ser caminho errado, que é preciso abandonar incontinenti. - Ora precisamente a Quaresma é o tempo em que estas idéias básicas voltam à mente do cristão. Colocam-no diante da questão do sentido da vida; é esta que dita a escala de valores de cada pessoa. Possa o caminheiro do Absoluto tomar consciência dos possíveis desvios de sua rota e retificá-la, aproveitando a grande oportunidade deste kairós ou deste momento de graça!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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