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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 524 – fevereiro 2006

"ELE PRIMEIRO NOS AMOU"

(1 Jo 4,19)

 

Se quiséssemos compendiar a mensagem cristã em poucas palavras, encontraríamos a formulação exata em São João: "Ele primeiro nos amou" (1Jo 4, 19). - Analisemos sumariamente estes dizeres.

 

"Ele nos amou". E ama, pois em Deus não há passado nem futuro. Deus é amor... e amor voltado para o homem. Esta afirmação tem significado enorme, cujo alcance talvez escape ao cristão acostumado a ouvir falar do amor de Deus. Com efeito, proferida no século I d.C, tal sentença era revolucionária. Sim, a filosofia grega chegou ao seu auge em Platão (+347 a.C.) e Aristóteles (+322 a.C). Ora, segundo Platão, existe um amor cobiçoso ou interesseiro do homem para a Divindade, pois esta é perfeita e pode enriquecer o ser humano, mas não existe resposta da Divindade para o homem, pois o Divino nada tem a ganhar ao amar o homem; não há portanto reciprocidade. Para Aristóteles, Deus que é Ato Puro, suscita a cobiça ou o amor interesseiro do homem, mas nem sequer conhece o ser humano, pois a sua perfeição exclui o contato com seres imperfeitos; de novo, portanto, encontra-se aí o amor interesseiro da criatura sem resposta, porque a Divindade não tem interesse em amar o homem. Ora é precisamente sobre este pano de fundo que ressoa "subversivamente" a palavra de São João. Jamais a razão humana, entregue à sua própria capacidade, teria chegado a conceber tão ousada afirmação. Eis por que se pode dizer que ela resume toda a mensagem cristã. Deus é amor, não como o amor dos homens, inseguro e sujeito à traição; Ele é amor irreversível e incansável, mesmo quando o amor do homem se retira. Todo ser humano pode ter a certeza de que foi criado por amor (para participar da bem-aventurança divina), é acompanhado pelo amor divino, que o quer coroar na glória celeste.

 

Mas não somente Ele ama. Há mais: Ele amou primeiro, isto é, teve a iniciativa de amar não somente ao criar o homem, mas também ao recriá-lo; na verdade, o homem disse NÃO a Deus pelo pecado dos primeiros pais; nessas condições o Pai enviou seu próprio Filho feito novo Adão para redimir o primeiro Adão e sua linhagem. Deus Pai revelou assim a grandeza do seu amor tal que jamais o homem a imaginaria.

 

São Paulo acrescenta: essa entrega do Filho aos homens compreende todas as graças de que o homem precisa como peregrino do Absoluto: "Aquele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos terá dado tudo com Ele?r (Rm 8, 32). E como entregou tudo aos homens entregando Cristo? - Entregou tudo porque Cristo veio santificar todas as situações da existência humana, passando por elas numa atitude de profundo amor ao Pai e aos irmãos.

 

Estas verdades básicas não podem deixar de estruturar a vida cristã, fazendo-a passar de eventual tibieza para uma resposta mais generosa ao Amor que primeiro nos amou e aguarda para nos receber em seu regaço. Possa a nossa Quaresma vindoura ser impregnada de tal convicção! "O amor é forte, é persistente como a morte" (Ct 8, 6).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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