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Católicos Online - Bíblia Online Católica

A IMPORTÂNCIA DO DOMINGO E  A OBRIGAÇÃO DA LITURGIA DOMINICAL

 

Prof.: Ricardino Lassadier* (04/06/2011)

 

 

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O título deste breve escrito provavelmente causará incomodo em muitos católicos modernos (talvez mais modernos do que católicos), justamente por causa da palavra obrigação. Muitos dizem que a participação na liturgia dominical deve ser motivada pela busca de um conforto espiritual, seria um “reabastecer-se” para a semana que se inicia, pode ser também um encontro com a comunidade etc. Mas obrigação? Não! É muito “pesado”! Essas opiniões resultam da somatória de uma catequese superficial com um aburguesamento espiritual.

 

No presente texto, pretendemos desenvolver uma simples reflexão catequética e mostrar que a obrigatoriedade da liturgia dominical é expressão do amor Deus e da Igreja por nós. O domingo enquanto dia do Senhor é dia da alegria, dia da esperança, dia da nova criação, dia da fé. Entretanto, gostaríamos de centrar nossa atenção na questão do preceito dominical, na obrigação da participação na Missa dominical, justamente por ser a “feição” que mais incomoda nosso espírito católico (?) moderno.

 

Iniciemos lendo o que está escrito no Catecismo da Igreja Católica (CIC 1389): “A Igreja obriga os féis ‘a participar da divina liturgia aos domingos e nos dias festivos’ e a receber a Eucaristia pelo menos uma vez ao ano, se possível no tempo pascal, preparados pelo sacramento da reconciliação. Mas recomenda vivamente aos fiéis que recebam a santa Eucaristia nos domingos e dias festivos, ou ainda com maior freqüência, e até todos os dias”.  A Igreja é Mãe, e como toda mãe educa, disciplina, direciona o filho para o bem ainda que ele não entenda.

 

O domingo é o dia em que Cristo derrotou a morte, logo, é o dia do Senhor vivo que permanece conosco: “Eu estarei sempre convosco até a consumação dos tempos” (Mt 28,20). O Ressuscitado tem o seu dia e esse dia é o domingo, é o dia em que a Igreja celebra a presença do seu divino esposo presente em nosso meio. Somos (nós católicos) parte da esposa de Cristo que é a Igreja. Isso significa que não basta uma manifestação individual da fé já que esta não é propriedade privada, vejamos o que nos ensina o papa João Paulo II em sua encíclica Dies Domine (DD, 31): “Com efeito, todos os que receberam a graça do batismo não foram salvos somente a título individual, mas enquanto membros do Corpo místico de Cristo, que entraram a fazer parte do povo de Deus. Por isso, é importante que se reúnam para exprimir em plenitude a própria identidade da Igreja, a ekklesía, assembléia convocada pelo Senhor Ressuscitado, que ofereceu a sua vida ‘para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos’ (Jo 11,52)”.

 

Quando os fiéis, no domingo vão participar da celebração eucarística eles manifestam sua identidade batismal de pertencimento à Cristo Jesus, isto é, de ser Igreja. Daí podemos começar entender que afirmar “Jesus é o Senhor”, mas não se sentir obrigado a participar da celebração eucarística dominical é não atender o chamado, a convocação do Ressuscitado, é não se reconhecer identificado com a Igreja, é não se reconhecer identificado com Ele. Notemos o que significa essa identificação ou esse identificar-se e como se efetiva.

Nossa identidade católica tem inicio com o batismo que é um sacramento, mas para que possamos entender melhor nossa identidade estudemos o sentido de sacramento em geral e do batismo em particular. A palavra sacramentum em sentido original, decorrente do latim, significa juramento ou consagração que era realizada pelo oficial romano ao Império de Roma e ao imperador (cf. BETTENCOURT, E. p.38). Ao realizar o juramento o oficial recebia em seu corpo um selo, um sinal (tatuagem) gravado pelo resto da vida, pois implicava em um comprometimento de fidelidade e, mais ainda, de pertencimento. Ou seja, quando o soldado romano realizava sua consagração manifestada exteriormente pelo sinal ele estava efetivando o sacracamentum e a partir daí sua vida, sua existência não era sua e sim de Roma, ela era sua senhora. Podemos entender aí o sentido do senhorio: dizer que alguém era seu senhor na antiguidade (logo em sentido original), era afirmar que a existência do declarante estava toda ao serviço do objeto da declaração, portanto, do senhor. A Igreja fez uso desse termo para indicar que ela é consagrada a Cristo, pertence a Ele; e é, ao mesmo tempo o sacramentum (sinal) de Jesus no mundo, assim, quem participa, quem assume esse sacramentum torna-se Igreja e pertence ao seu Senhor: Jesus e, Nele à SS Trindade.

 

Batismo é um sacramento que nos marca com o selo de Cristo, a Ele pertencemos como criaturas novas (cf 2Cor. 5,7), pelo batismo “fazemos parte da Igreja. Aquele que foi batizado faz parte da família de Deus e como tal tem suas obrigações” (BORTOLI, J.p. 13).  Todo batizado pertence a Cristo, pertence à Igreja isso significa que a vida do batizado fiel, sua existência só tem sentido em Cristo e na Igreja dele. Atenção: a Igreja é de Cristo, pertence a Cristo. E os fiéis, na medida em que pertencem a Igreja também pertencem a Cristo. O que significa dizer que o dom da fé não é propriedade de um indivíduo é um dom que recebemos, ou melhor, que participamos, mas que é da Igreja. Dizendo de outra forma, a fé é minha na medida em que sou Igreja. Então, à obrigação do preceito dominical não é percebido como um peso e sim como a realização da minha identidade. Sabemos, no entanto, que a nossa natureza é rebelde (e diante dessa rebeldia que se manifesta, por exemplo, como preguiça ou comodismo), por isso é bom lembrar que o preceito dominical é um mandamento da Igreja, vejamos: “O mandamento da Igreja determina e especifica a lei do Senhor: ‘Aos domingos e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da missa” (CIC 2180). A obrigação refere-se à responsabilidade de um compromisso assumido para o nosso próprio bem.

 

A Eucaristia é o centro do domingo daí a necessidade de participar da celebração eucarística. O domingo sem a liturgia eucarística fica sem sentido, é reduzido a um mero dia de folga. Enquanto muitos católicos modernos (como já dissemos, mais modernos do que católicos) não se sentem obrigados à eucaristia dominical, não faltam belos testemunhos de católicos que preferiram o martírio a renunciarem a participação na celebração dominical, é o que nos conta o papa João Paulo II: “Quando, durante a perseguição de Diocleciano, viram as suas assembléia interditadas com a máxima severidade, foram muitos os corajosos que desafiaram o edito imperial, preferindo a morte a faltar à Eucaristia dominical. É o caso daqueles mártires de Abitinas, na África proconsular, que assim responderam aos seus acusadores: ‘Foi sem qualquer temor que celebramos a ceia do Senhor, porque não se pode deixá-la, é a nossa lei’; ‘não podemos viver sem a ceia do Senhor’. E uma das mártires confessou: ‘Sim, eu fui à assembléia e celebrei a ceia do Senhor com os meus irmãos, porque sou cristã” (DD 46). Notemos bem o que disseram os futuros mártires: “é a nossa lei”; há, portanto uma consciência da obrigação. Uma doce obrigação, é verdade, porém, obrigação. Também fica claro por esta citação que no início da Igreja havia uma forte consciência do que significava ser cristão: configurar-se à Cristo, identificar-se com o Senhor. Vale ressaltar que identificar significa o reconhecimento de algo que me faz ser o que sou e sem o qual não posso continuar sendo eu mesmo.

 

Enquanto cristãos, católicos nossa existência se torna plena na medida em que Cristo é em cada um de nós. Por mais paradoxal que pareça é preciso fazer-se nada para que Jesus seja tudo na pessoa e quando esse fenômeno acontece aquele que se faz nada se torna tudo no Todo que é Jesus. Cada pessoa há de se tornar outro Cristo, isso significa conformar nossa vida a Vida que é Ele. É verdadeiramente um processo de cristificação. Ser cristificado, configurado ao seu Senhor eis a tarefa do católico. Os sacramentos nos mergulham, proporcionam e estimulam esse processo. Segundo Igino Giordani (1986, p. 39): “Com o Batismo sou incorporado ao Corpo de Cristo; torno-me membro Dele, substância viva Dele, sou Cristo, em parte, misticamente.

 

Os sacramentos e as graças me encaminham o espírito de Deus, de tal modo que o corpo me vem Dele, o espírito é redimido por Cristo, infuso no Espírito Santo. Eis porque pela Encarnação, no dizer de Santo Agostinho, Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus.

A Eucaristia, de modo particular, lança nas minhas artérias o próprio sangue de Cristo, tornando-me seu consangüíneo”.

 

 

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Os primeiros cristãos tinham essa consciência por isso a Igreja não precisava prescrever a obrigatoriedade da participação da missa dominical, mas eis que veio o desleixo e a Igreja teve que prescrever a obrigatoriedade, para lembrar aos discípulos de Cristo sua identidade. É uma obrigatoriedade que visa salvaguardar nossa identidade. Assim está escrito no CIC (2182): “A participação na celebração comunitária da Eucaristia dominical é um testemunho de pertença e de fidelidade a Cristo e à sua Igreja. Assim, os fiéis atestam a comunhão na fé e na caridade. Dão simultaneamente testemunho da santidade de Deus e de sua esperança na salvação reconfortando-se mutuamente sob a moção do Espírito Santo”. Essa fidelidade/identidade remonta ao período apostólico: “Eles perseveravam em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão (Eucaristia), e nas orações” (At. 2,42). Observemos bem a citação anterior e procuremos responder com sinceridade, não é a descrição da “espinha dorsal” de nossa eucaristia dominical, de nossa Missa?

 

O domingo marca um tempo que, em certo sentido, aponta para a eternidade, é o tempo em que a temporalidade é enriquecida pela eternidade, por isso devíamos ter em mente que o tempo dominical é um convite, um chamado de Deus para saborearmos, ainda que não plenamente a atemporalidade. Nesse aspecto não podemos viver o domingo como os outros dias da semana, mas como antecipação de uma realidade que denominamos paraíso. O domingo tem um sabor escatológico. A centralidade desse tempo especial que alude à eternidade é a liturgia eucarística.  O domingo é expressão e síntese do Cristianismo, pois é nesse dia que fica evidenciada a relação do fiel com Cristo e sua Igreja. No dies Domine (dia do Senhor) precisamos parar e dirigir nossa olhar para Deus, reconhecer sua Divindade e assim reconhecermos nossa humanidade. Não basta estabelecer que o domingo é um dia e de lazer, de folga e, ao mesmo tempo negar sua essência que é o aspecto sagrado, fazer isso implica em expulsar Deus da criação, do mundo. Expulsando Deus do mundo o homem se “coisifica”, se desumaniza, promove seu próprio reducionismo: concebe-se mecanicamente, torna-se uma máquina que para continuar funcionado precisa de um tempo para repouso e reparo. O romano pontífice João Paulo II nos ensina que o dies Domine é “abençoado por Deus e por Ele santificado, isto é, separado dos demais dias para ser, entre todos, o dia do Senhor” (DD 14).

Registros dos primeiros tempos da Igreja indicam que a frequência da celebração dominical “tenha tido origem na própria Igreja-mãe de Jerusalém, pois os apóstolos estavam reunidos no 50 dia (Pentecostes), que era domingo, quando receberam o Espírito Santo (cf. At 2,1-3). Este quis se comunicar não num sábado, como Cristo também não quis ressuscitar num sábado, mas no dia seguinte, domingo” (BETTENCOURT, 1997, p. 43). Mas, o Espírito Santo que os apóstolos receberam em Pentecostes, foi-lhes concedido pelo Ressuscitado na tarde de domingo, no mesmo dia em que foi instituído o sacramento da confissão: “Ao anoitecer daquele dia. O primeiro da semana, os discípulos estavam reunidos com as portas fechadas, por medo dos judeus. Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: ‘a paz esteja convosco’. Dito isso, mostrou-lhes as mãos e os lados. Os discípulos, então, se alegraram por verem o Senhor. Jesus disse de novo: ‘a paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos envio’, então soprou sobre eles e falou: recebei o espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes ficarão retidos” (Jo 20, 19-23). Observemos que oito dias depois, isto é, no domingo seguinte, os discípulos estavam novamente reunidos e Jesus aparece para confirmar a Tomé a ressurreição. Tomé ao confirmar com seus olhos a verdade da ressurreição professa sua fé na divindade de Jesus, pois somente Deus seria capaz de vencer a morte (cf. Jo 20, 28). Os quatro evangelhos mostram que foi no domingo que Jesus ressuscitou e apareceu aos apóstolos e discípulos (cf. Mt 28, 1-10/ Mc 1, 1-8/ Lc 24, 1-35/ Jo 20 1-18).

 

É por tudo isso que a guarda do domingo está prescrita no Código de Direito Canônico (CDC), basta conferir o Cânon A 1246: “O domingo, dia em que por tradição apostólica se celebra o mistério pascal, deve ser guardado em toda a Igreja como o dia de festa por excelência”. Atenção, o CDC nos permite compreender que a guarda do domingo nos insere na tradição apostólica, dizendo de outro modo, guardar o domingo é garantia de que estamos essencialmente ligados à fé de São Pedro, São Mateus, São Thiago e aos outros apóstolos, isto é, da Igreja desde os primeiros tempos: “No primeiro dia da semana (o domingo), estavam reunidos para fração do pão. Paulo, que devia partir no dia seguinte, dirigia a palavra aos fiéis e prolongou o discurso até a meia-noite” (At 20, 7).

 

Era no domingo – muito provavelmente na “fração do Pão” – que era realizada a coleta para atender os necessitados. Vejamos as orientações de São Paulo: “Todo primeiro dia da semana (o domingo), cada qual separe livremente o que tenha conseguido economizar, de modo que não se espere minha chegada para então recolher os donativos” (1Cor 16, 2). E por qual motivo no “primeiro dia da semana” (domingo)? Por ser neste dia que a comunidade, a Igreja nascente se reunia para realizar a “fração do pão” (Eucaristia). Assim era nos tempos apostólicos. Não é assim até hoje?

 

 

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Esta estabelecido no CDC (Cân. 1247): “No domingo e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da missa; além disso, devem abster-se das atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso de mente e de corpo”. Variadas considerações poderia ser feitas sobre a passagem citada, no entanto, vamos deter-nos em apenas duas. Primeira: Notemos que o CDC liga a observância do preceito dominical à fidelidade. Fiel é aquele que cumpre o preceito, logo, ser católico e não buscar guardar é o mesmo que ser infiel. Segunda: Também constitui infidelidade dedicar-se a atividades, negócios de modo a impedir o preceito dominical. É verdade que, hoje em dia, muitas pessoas são obrigadas a trabalhar no domingo e não têm como participar da missa. É muitas vezes uma questão de sobrevivência. Em tais casos a Igreja, que é Mãe, recomenda que a pessoa participe da missa no seu dia de folga, aqui não está caracterizada infidelidade, mas na medida do possível há de se guardar o domingo. Ao mesmo tempo, a pessoa que se encontra em tal situação deve rezar, dizer ao Senhor de seu desejo, deve pedir para que o Deus mude tal situação e, logicamente deve fazer contatos. O desleixo para com o domingo fere diretamente o Terceiro Mandamento (Guardar Domingo e Dias de Festa), mas fere indiretamente o Primeiro Mandamento (Amar a Deus Sobre Todas as Coisas) pois, está colocando Deus Criador em segundo (ou terceiro, ou quarto, ou quinto...) lugar; está sendo negligente e ingrato para com Cristo Jesus, o Verbo Encarnado que padeceu para nos salvar; está desprezando a ação santificadora do Espírito através do Sacramento celebrado pela Igreja.

 

Sabemos que muitas comunidades padecem pela falta de padres e este padecimento resulta em carência de Eucaristia e demais sacramentos, diante de uma realidade assim o que fazer? Fica-se dispensado de guardar o domingo? De modo algum! Verifiquemos o que a Igreja ensina: “Por falta de ministro sagrado ou por outra grave causa, se a participação na celebração eucarística se torna impossível, recomenda-se vivamente que os fiéis participem da liturgia na Palavra, se houver, na igreja paroquial ou em outro lugar sagrado, celebrada de acordo com as prescrições do Bispo diocesano; ou então se dediquem à oração por tempo conveniente. Pessoalmente ou em família, ou em grupos de famílias de acordo com a oportunidade” (CDC, Cân 1248, 2). Simplificando: Se não é possível realizar e participar da Celebração Eucarística, deve-se realizar a Celebração da Palavra. Não sendo possível aos fiéis comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor, devem buscar recebê-lo mediante a Palavra, através da leitura e meditação da Sagrada Escritura feita em comunidade, ou mesmo em família. Mas se, por algum motivo, nem isso for possível, a Igreja ensina que o fiel ou os fiéis devem procurar reservar um tempo adequado para a oração. Quantas comunidades, quantas famílias que carecem de missa e, mesmo assim permanecem fiéis, realizando a Celebração da Palavra, ou ainda se encontram para recitarem juntos, a oração do Santo Terço. Que beleza! Não duvidemos que nessa carência, Deus se faz presente e faz chover graças. Por outro lado há os que moram perto de igrejas, podem escolher o horário e, por vezes onde participar da missa e mesmo assim não fazem. Que tristeza! Não duvidemos que nessa negligência satanás se faz presente, propagando desgraça.

 

Já na primeira Aliança o preceito do sábado (propedêutico do domingo da Aliança definitiva) era extremamente respeitado pelos nossos “irmãos mais velhos”, os judeus. Ainda hoje o preceito de guardar o sábado está enraizado no coração desse povo de forma que a sexta feira é um dia de preparação “para o dia santo que terá início ao entardecer. A casa é toda limpa, flores nos vasos, a comida preparada, a mesa é posta com a melhor toalha e a melhor louça, e sobre ela os dois castiçais com as velas de shabat (sábado). Antes do anoitecer tudo deve estar pronto. As crianças e os adultos com os melhores trajes aguardam a hora de ir à sinagoga ou somente para o Jantar de sábado” (COELHO, 1999, p. 37), a mãe ascende às velas do sábado e faz uma oração, e daí em diante tudo é de Deus (cf. DD 15), ou como nos relata Antonio Coelho (1999, p. 38): “A partir desse momento, quando as velas de shabat são acesas, o clima do sábado domina o espírito da família. Nenhum trabalho mais é feito. A casa se enche de paz e de uma alegria indescritível. As velas acesas têm um brilho diferente de todas as outras luzes. O dia sagrado substitui o profano; é um tempo que o relógio não marca, pois o homem está mergulhado no tempo de Deus”. Como é belo constatar a fidelidade dos irmãos da antiga Aliança e, ao mesmo tempo como é triste observarmos nossa tibieza espiritual. Para eles a obrigatoriedade do mandamento é o reconhecimento da liberdade, para muitos de nós a “liberdade” está na negação da obrigatoriedade do mandamento!

 

O relaxamento em relação à observância do preceito dominical é um perigoso sinal de “anemia” espiritual. O Santo Padre Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (SC, 73) diz que “a vida de fé corre perigo quando se deixa de sentir desejo de participar na celebração eucarística em que se faz memória da vitória pascal. A participação na assembléia litúrgica dominical, ao lado de todos os irmão e irmãs com os quais se forma um só corpo em Cristo Jesus, é exigida pela consciência cristã. Perder o sentido do domingo como dia do Senhor que deve ser santificado é sintoma de uma perda do sentido autêntico da liberdade cristã, a liberdade dos filhos de Deus”.

 

Portanto, a obrigatoriedade da missa dominical é expressão de amor da Igreja por seus filhos, afinal ela quer que realizemos nossa vocação: sermos santos. Entretanto, a santidade requer compromisso, responsabilidade, fidelidade ao amor de Deus que nos ama. Ou alguém já viu algum santo infiel, irresponsável? Muitos de nós ainda somos - e o pior é que parecem que desejam continuar sendo – imaturos na fé, que obviamente, é carente de razão. É triste constatar que muitos de nós ainda não compreendemos que o domingo “é, por excelência, o dia da relação, no qual o homem eleva a Deus o seu canto, tornando-se eco da inteira criação” (DD 15). Peçamos a Deus para que o homem viva adequadamente o dia do Senhor e a partir daí reconheça-O como seu Senhor.

 

*O autor é graduado (Licenciado e Bacharel), em Filosofia (UFPa), Especialista em Filosofia (Epistemologia das Ciências Humanas/ UFPa). Especialista em Teologia (Teologia e Realidade com ênfase em bioética/CESUPA). Professor do IRFP (as disciplinas “História da Filosofia Moderna”, “História da Filosofia Contemporânea” e “Filosofia da Ciência e da Natureza”). Lecionou na Escola Diaconal Santo Efrém da Arquidiocese de Belém (disciplinas:“Antropologia Teológica”, “Escatologia”). Lecionou no Curso de Teologia (CCFC), as disciplinas “Teologia Fundamental”, “Mariologia” e “Escatologia”. Nesta mesma instituição ministra o curso “Razões e Fundamentos da Fé: Estudo do Catecismo da Igreja Católica”. É professor da Rede pública estadual (colégios: Ruth Rozita e Barão de Igarapé Miri), onde leciona Filosofia.

 

 

Bibliografia:

- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2003.

- JOÃO PAULO II. Encíclica Dies Domine. São Paulo: Paulinas, 1988.

- BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB. São Paulo: Paulinas, Paulus, Ave Maria, Salesiana, Loyola; Aparecida-SP: Santuário; Petrópolis-RJ: Vozes: 2001.

- BENTO XVI. Exortação Apostólica Sacaramentum Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.

- BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de Liturgia (Escola Mater Ecclesiae). Rio de Janeiro: Lumen Christ.

- Católicos Perguntam. São Paulo: O Mensageiro de Santo Antonio, 1997.

- BORTOLINI, José. Os sacramentos em sua vida. São Paulo: Paulus, 1981.

- COELHO, Antonio Carlos. Encontros Marcados com Deus: Expressão da unidade do Povo Judeu: As festas judaicas e o Cristianismo. São Paulo: Paulinas, 1999.

- GIORDANI, Igino.  Diário de Fogo. São Paulo: Cidade Nova, 1986.

 

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