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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 373 – junho 1993

Quem é?

 

SANTO ANTONIO DE CATEGERÕ

 

Em síntese: Santo Antonio de Categeró não consta do catálogo dos Santos da Igreja Católica; terá sido um franciscano africano do século XVI. Parece não ter existido. — É estranho que uma denominação cristã oriental (siriana), separada da Igreja Católica, e a Igreja Brasileira façam a propaganda da devoção a esse Santo (que não era oriental nem brasileiro), atraindo fiéis católicos com promessa de milagres, com orações e novenas. Que interesses estão subjacentes a este tipo de propaganda piedosa?

 

Têm-se espalhado folhetos que divulgam a devoção a "Santo Antônio de Categeró", cujo santuário seria a igreja paroquial de Nossa Senhora da Anunciação, da Igreja Católica Ortodoxa Siriana, no Rio de Janeiro. A população católica se vê perplexa diante desses panfletos, pois tal Santo é tido como grande taumaturgo, mas é desconhecido na Tradição da Igreja. Vejamos o que a respeito dizem os impressos de propaganda e o que se pode pensar a respeito.

 

 

1. O QUE SE DIZ

 

Lê-se o esboço biográfico do Santo num dos folhetos em pauta:

 

"Nasceu o nosso Santo de pais infiéis, maometanos, perto da cidade de Barca na África. Deportado para a cidade de Noto, na Sicília, como prisioneiro, foi vendido a João Landuvula, que fez de Antônio pastor de seus grandes rebanhos. Convivendo com os cristãos, compreendeu o erro em que vivia na religião de Maomé e pediu para ser batizado, tendo recebido o nome de Antônio. Uma nova vida começou para Antônio, agora feito cristão e seguidor de Cristo. Inimigo dos vícios e do pecado, chegou ao grau heróico das virtudes evangélicas; amava a Deus e ao próximo intensamente. Ajudava os pobres, tomava conta dos doentes, assistindo-lhes e aliviando suas dores, rezava, trabalhava e fazia penitências. Chorava o tempo passado fora do Cristianismo e agradecia a liberdade obtida, aperfeiçoando-se na vida religiosa até chegar à santidade. Faleceu no dia 14 de março de 1549 em Noto e ali foi enterrado na igreja de Santa Maria de Jesus. No dia 13 de abril de 1559, cinqüenta anos depois de sua morte, aberto o seu sepulcro, foi encontrado o seu santo corpo íntegro e incorrupto. Inúmeros os milagres que Deus operou por sua intercessão. Quem experimentou o seu patrocínio, sabe que nenhum pedido de graça a ele feito fica sem resposta. Fique devoto de Santo Antônio de Categeró e visite a sua imagem verdadeira, vinda diretamente da África. Venerada em seu altar-mor".

 

Celebra-se a festa do santo em 14 de março e 13 de junho.

 

Há orações a Santo Antônio de Categeró nos impressos difundidos com a lacônica rubrica "Com Aprovação Eclesiástica"; não se diz qual o signatário da "Aprovação".

 

Os devotos são convidados a doar dinheiro para as obras do Santuário do Santo na Agência X da Caixa Econômica Federal, conta Y.

 

São também convidados a pedir graças e mandar celebrar, em agradecimento, três Missas na igreja do Santo e distribuir gratuitamente "100 novenas" (cem folhetos portadores de orações para novena?).

 

Uma imagem do Santo atribui-lhe semblante de africano e hábito franciscano.

 

 

2. QUE PENSAR?

 

1. Antes do mais, é preciso dizer que nenhum Martirológio ou Catálogo de Santos da Igreja Católica apresenta Santo Antônio de Categeró. Mais: nenhuma das Enciclopédias mais usuais entre nós ([1]) conhece o nome Categeró. A pretensa súmula biográfica do Santo atrás transcrita não menciona Categeró; terá sido uma cidade do itinerário de vida de Antônio? Este terá nascido em Barca e morrido em Noto.

 

Este silêncio das fontes leva a crer que Santo Antônio de Categeró nunca existiu, pois um Santo franciscano de época relativamente recente (século XVI) não poderia deixar de figurar no catálogo hagiográfico da Igreja.

 

2. Não é a Igreja Católica que propaga a devoção a tal Santo (pois a Igreja não o conhece); mas é a chamada "Igreja Católica Ortodoxa Siriana". Este título designa um grupo dissidente, que não é fácil identificar através do respectivo título:

 

  a designação Católica compete às comunidades que guardam a comunhão com a Sé de Pedro ou com o Papa. A Igreja tem quatro notas: una, santa, católica, e apostólica;

  a designação ortodoxa refere-se aos cristãos que se separaram de Roma em 1054, sob Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla. São ditos ortodoxos, porque não aderiram às heresias cristológicas do século V: o nestorianismo, condenado pelo Concílio de Éfeso em 431, e o monofisismo, condenado pelo de Calcedônia em 451. Guardaram naquela época a reta fé ou a ortodoxia;

  o predicado Siriana pode indicar a circunscrição ortodoxa da Síria. Parece, porém, designar no caso uma comunidade independente das comunidades ortodoxas orientais, ou seja, uma comunidade síria monofisita. Se assim é, o título ortodoxa siriana perde o seu significado, pois implica contradição.

 

3. Como quer que seja, é muito estranho que uma comunidade oriental separada da Igreja Católica explore a devoção a um pretenso Santo ocidental católico (franciscano), com todo o aparato de sugestões e preces que lhe dão aparência de culto católico. Por que usar um artifício que tanto fala ao povo simples, prometendo-lhe milagres, se os sirianos não compartilham a fé dos ocidentais ou a fé que terá tido "Santo Antônio de Categeró"? Este não foi sírio, se cremos na lenda, mas foi africano. Será que, exaltando-o, os sirianos querem atrair gente para os seus ofícios e o seu santuário?... gente, porém, ludibriada, pois os fiéis convidados imaginam que vão entrar num templo católico quando, na verdade, passam a freqüentar uma corrente religiosa não católica.

 

Haverá boa fé nessa propaganda de devoção? São os interesses do Reino de Deus que animam os promotores dessa piedade? Por que celebrar a festa de S. Antônio de Categeró precisamente no dia 13 de junho, quando os fiéis católicos costumam cultuar Santo Antônio nascido em Lisboa, mas residente em Pádua?

 

Temos informações de que também a Igreja Brasileira propaga a devoção a S. Antonio de Categeró. Recorre ao mesmo engano para atrair incautos.

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Barsa, Mirador, Larousse, Círculo do Livro..


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#0•A751•C539   2014-04-20 18:14:44 - Convidado/[email protected]
Santo Antônio de Noto, dito de Categeró (Caltagirone, na Sicília) ou Etíope não aparece na lista de santos simplesmente porque ele é beato. Para obter informações sobre ele, procure os livros de Monsenhor Salvatore Guastella (da diocese de Roma), nascido em Noto, e que fez profundas pesquisas sobre o "santinho negro". Antonio de Noto ou Categeró foi um jovem mouro do norte da África capturado por sicilianos e escravizado. Após quase quarenta anos, foi alforriado e conseguiu ser acolhido por um convento franciscano. Segundo ele mesmo disse perto da morte, teria recebido o hábito de irmão secula......

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#1•R539•C826   2016-07-02 18:15:43 - Convidado/[email protected]
Em 1492, na vila de São Vicente, (embrião de São Paulo), foi criada a “Irmandade do Milagroso Santo Antônio de Categeró". Essa expressão entre aspas era o nome. Que se mantém até hoje em sua oração.
O autor que relata a criação da irmandade é a Doutora Maria Cristina Caponero, em sua Tese à USP. E nome com a expressão, não usual de "milagroso" está na pesquisa da acadêmica, que informa que a data verdadeira da fundação deve ser anterior, visto o tempo que levava para uma regularização, que dependia de ser tomada após demandas em Portugal.
É o primeiro servo de Deus, talvez nem f......

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