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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/Março 2007

Protestantismo

Livro polêmico:

"CONVERSAS COM LUTERO"

Por Elben Lenz César

Em síntese: Numa entrevista fictícia, concedida a um repórter, Martinho Lutero narra sua vida muito acidentada e faz severas críticas à Igreja nem sempre fundamentadas (como no caso da "venda de indulgências"). Trata-se de uma discreta apologia de Lutero, que não refere senão valores decorrentes da sua obra contestatária.

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O Sr. Elben Lenz César é o diretor-redator da revista protestante ULTIMATO; tem escrito várias obras de cunho religioso, das quais a mais recente tem o título "Conversas com Lutero. História e Pensamento". Em 30 capítulos (conversas) Lutero, entrevistado ficticiamente, fala da sua origem familiar e das suas relações com o Papa, o Imperador e os nobres alemães, a Maravilhosa Graça, a Virgem Maria, a morte, o fim do mundo... As afirmações de Lutero são, em parte, tiradas das suas próprias obras, e em parte correspondem ao que Lutero diria na época da entrevista, que ocorreu a partir de 2 de julho de 1545 (um ano antes da sua morte).

A seguir, serão analisadas algumas das sentenças propostas pelo livro em foco.

1. "Mudou a face da terra"

À p. 19 lê-se uma frase de Paul Tillich: "O único que realizou uma verdadeira transformação que mudou a face da terra foi Martinho Lutero".

Estes dizeres contrapõem-se à afirmação constante de que foi Jesus Cristo quem mudou a face da terra, dignificando o homem e a mulher e pregando o seu Evangelho; Ele dividiu os tempos em "anteriores" e "posteriores" a Cristo, dando origem a uma contagem dos anos adotada por todos os povos; todos reconhecem explícita ou implicitamente que estamos no ano 2007 depois de Cristo.

Lutero transformou a face da Religião cristã, que se estende pelo universo inteiro, comunicando à Religião duas características negativas e não positivas:

1.1. Subjetivismo e individualismo

O princípio básico da mensagem de Lutero ensina que "cada indivíduo é livre para interpretar a Bíblia segundo julgar melhor". Em consequência cada discípulo de Lutero está habilitado a fazer seu próprio Credo e sua própria igreja. Daí o esfacelamento do Cristianismo protestante, que em nossos dias conta centenas ou mais de comunidades eclesiais, nem sempre devidamente estruturadas e por vezes atendendo a interesses pecuniários do respectivo fundador.

A mentalidade individualista e subjetivista passou para o campo da filosofia ocasionando a tese de que a verdade é relativa. Pode-se observar na sociedade moderna um forte cunho individualista expresso pela fórmula existencialista: "Eu e minhas circunstâncias", quase em paralelo com o axioma "Eu e minha Bíblia".

1.2. Antiintelectualismo

São dizeres de Lutero: "O diabo se apossou de tal modo dos sofistas e das universidades que eles próprios não mais percebem o que falam ou ensinam... Para ser mais preciso e talvez mais virulento, devo denunciar que o reitor geral de todas as universidades não é Cristo nem o Espírito Santo nem o Anjo do Senhor; é Abadon em hebraico ou Apoliom em grego - aquele anjo do Abismo que encontramos no Apocalipse (Ap 9, 11)." (p. 66).

Lutero propugnava o estudo da Bíblia pela Bíblia sem recurso à Filosofia como razão humana; esquecera o valor de grandes escritores da Tradição cristã, anteriores a Lutero, como S. Agostinho, S. Atanásio, S. Basílio de Cesaréia... e outros, que contribuíram para a definição de verdade cristã nos sete primeiros Concílios da história... verdade cristã que as heresias (ariana, macedoniana, nestoriana, monofisita...) ameaçavam diluir.

Esse antiintelectualismo se deve à tese de que, para Lutero, a natureza humana está vulnerada pelo pecado, de modo que nada pode produzir de útil para a fé cristã e a teologia. Esta afirmação é equivocada, pois, com a graça de Deus, a razão pode contribuir para ilustrar os dogmas: como pode Deus ser uno e trino, como pode Jesus ser Deus e homem, como pode Jesus dizer que o pão é seu corpo... Sem as luzes da razão, o cristão pode cair na superstição e nas crendices, que desfigurem a face do Cristianismo.

A bem da verdade, deve-se dizer que Lutero é herdeiro do antiintelectualismo que começou no século XIII com Sigero de Brabante (haveria duas verdades - a da razão e a da fé, podendo uma contradizer à outra, sem que o estudioso despreze uma ou outra). A corrente assim iniciada passou pelo voluntarismo de Guilherme de Ockham (a verdade depende unicamente da vontade de Deus, de modo que 2 + 2 poderiam ser 3, se Deus o quisesse).

Individualismo e antiintelectualismo, eis duas atitudes que, sem dúvida, receberam forte impulso da parte de Lutero e hoje em graus diversos, marcam a humanidade.

2. Os pecados dos filhos da Igreja

No livro em foco, Lutero se detém longamente no relato de mazelas de filhos da Igreja. Estas devem ser reconhecidas, sem dúvida, mas não eram, nem são, motivo de cindir a Igreja. Ao contrário, pode-se dizer que correspondem à previsão de Jesus na parábola do trigo e do joio: o patrão não quis arrancar o joio antes da messe, mas desejou que o trigo e o joio crescessem juntos até o momento da colheita; por conseguinte um campo sem joio ou uma igreja sem pecadores são utopias e não a Igreja de Cristo; esta terá sempre em seu bojo filhos pecadores, que não poluem, nem poluirão, a graça de Deus que vem através dos canais da Igreja (cf. Mt 13, 24-30). Donde se vê que não se pode repetir a fundação da Igreja, que Cristo fundou. O que importa é que seus membros sejam santos e colaborem para a santificação de seus semelhantes.

Sabemos que Lutero não queria o cisma, mas ele não se pode eximir de uma parte de responsabilidade na ocorrência do cisma.

É oportuna a distinção entre a Mãe Igreja e os filhos da Igreja. A Mãe Igreja é o que nela há de indefectível, porque Cristo lhe assiste até o fim dos tempos (Mt 28, 18-20). Os filhos da Igreja somos nós, que nem sempre procedemos de acordo com as normas ditadas por essa santa Mãe, Esposa de Cristo sem mancha nem ruga (cf. Ef 5, 25). Quem considera as falhas dos filhos da Igreja, repudie-as, mas não se separe da Mãe Igreja; antes procure cooperar para sanar os irmãos enfermos e os setores da Igreja afetados por eles.

3. Venda de indulgências

O autor do livro em foco refere-se, muitas vezes, à venda de indulgências.

Ora a Igreja nunca propôs venda de indulgências, como freqüentemente já foi dito em PR; ver 442/1999, p. 127ss; 309/1988, p. 95ss; se algum pregador apregoou tal abominação, ele o fez por conta própria, ao contrário do que ensina a Igreja. O que houve, é o seguinte: todo pecado, mesmo depois de perdoado, deixa suas raízes na alma do penitente (tanto que este facilmente recai nas mesmas faltas). Tal amor desordenado ao pecado deve ser extirpado mediante um amor mais forte a Deus. Consciente disto, a Igreja propõe aos seus fiéis obras que, praticadas com total repúdio do pecado e pleno amor a Deus, podem contribuir para eliminar os amores desregrados remanescentes na alma do penitente; tais obras "indulgenciadas" são, e eram, orações, práticas de caridade, esmolas...

 

Os frutos dessas boas obras podem ser aplicados, à guisa de sufrágios, em favor das almas do purgatório. Note-se bem: as esmolas podiam ser enriquecidas de indulgências, o que dava a impressão de que eram o preço simoníaco de algum valor espiritual, interpretação falsa. É de salientar também que as indulgências supunham o perdão dos pecados pelo sacramento da Reconciliação e incidiam apenas sobre as raízes do pecado remanescentes após o perdão.

Seria para desejar que nossos irmãos protestantes tomassem consciência disto e não imputassem aos católicos a venda de indulgências. Verdade é que não lhes é fácil compreender o arrazoado atrás exposto, visto que, para Lutero, o homem está irremediavelmente vendido ao pecado e não há como extinguir os resquícios do mesmo persistentes na alma do pecador após o perdão.

4. Justificação e Salvação

É freqüente admitir-se a identidade de justificação e salvação, como se lê à p. 224 da obra em foco:

São atribuídas a Lutero as seguintes palavras: "Em Cristo fui salvo (isto é justificação), estou sendo salvo (isto é santificação) e serei salvo (isto é glorificação).

A respeito observamos:

Justificar é "fazer justo", tirar alguém do pecado e torná-lo amigo de Deus; é a entrada na vida da graça ou o começo de uma vivência cristã. Tal dom é gratuito; não se deve a anteriores obras da pessoa, mas apenas requer a fé. Salvação é a perseverança na graça de Deus até a última hora; esta persistência não ocorre se não são praticadas boas obras, como diz São Tiago (Tg 2, 19): a fé morta ou sem obras é a do demônio. Não basta ter fé para ser salvo, mas são exigidas obras de amor a Deus e ao próximo correspondentes à fé. Como se vê, São Paulo insiste na suficiência da fé para receber a graça da conversão, ao passo que São Tiago trata da necessidade de obras boas (praticadas com a graça de Deus) para chegar à salvação no fim da vida terrestre.

Também esta concepção deve parecer estranha a quem segue Lutero, que diz o seguinte:

"A Escritura propõe um ser humano não só amarrado, miserável, cativo, enfermo e morto, mas também dominado por mais uma miséria, a miséria da cegueira. De modo que ele se crê livre, beato, solto, potente, são e vivo. Embora descrito como corrupto e cativo, o ser humano ainda despreza e ignora soberbamente sua corrupção e seu cativeiro" (p. 152).

O ser humano é um cavalo, ora montado por Deus para fazer o bem, ora montado pelo diabo para fazer o mal (p. 154).

Quem assim pensa, não pode conceber obras boas livres e meritórias.

Não nos deteremos sobre outros pontos do livro em foco, mas citamos, à guisa de complemento:

PR 397/1995, p. 271 (principais linhas doutrinárias do protestantismo);

PR 368/1993, p. 48 (fé e obras);

PR 455/2000, p. 156 (Lutero e justificação):

PR 429/1998, p. 82 (Lutero e Maria SSma.).

Em conclusão, reconhecemos o zelo religioso do Sr. Elben César nosso amigo, mas, a bem da verdade, julgamos necessário propor tais comentários a seu livro sobre Lutero.

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