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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 349 – junho 1991

É mais fácil um camelo. .."

O Camelo e o Fundo da Agulha

 

Em síntese: As palavras de Jesus que afirmam ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus, recorrem a uma hipérbole surpreendente. Com efeito; são muito distantes um do outro o fundo de uma agulha e um camelo. Por isto alguns autores querem atenuar a disparidade, alegando que o texto grego do Evangelho não se refere a um buraco de agulha, mas a uma corda ou a uma porta de pouca altura em Jerusalém. Tais interpretações são despropositadas, porque se pode provar, por citações várias, que, para ilustrar o impossível, os semitas se valiam do contraste entre um grande animal e um minúsculo receptáculo.

 

Tem causado problemas de interpretação o texto que se segue:

Mt 19,23: "Em verdade eu vos digo que dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. 24 Digo-vos ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus".

Para entender estas difíceis palavras de Jesus, será preciso, antes do mais, lembrar o episódio que lhes deu ocasião (cf. Mt 19,16-22; Mc 10,17-22; Lc 18,18-23).

Um jovem rico, cheio de ardor, foi certa vez perguntar ao Divino Mestre o que devia fazer para conseguir a vida eterna. Jesus lhe indicou os mandamentos da Lei de Deus. Tendo o jovem respondido que já os observava desde a juventude, o Senhor aconselhou-lhe vendesse as suas posses, distribuísse o preço entre os pobres e, voluntariamente pobre, seguisse o Mestre. Contudo, "ao ouvir estas palavras, o jovem afastou-se entristecido, porque era proprietário de grandes bens" (Mt 19,22).

Foi esta atitude do jovem entravado pelo amor aos seus haveres que ocasionou as observações acima transcritas.

Essas afirmações devem agora ser analisadas. Examinaremos, em primeiro lugar, o sentido da comparação contida no v.24; depois deduziremos a mensagem geral expressa pelo Senhor nas frases transcritas.

 

1. A comparação

 

Jesus, querendo inculcar a dificuldade com que alguém se salva, cita o caso de um camelo, animal de grandes proporções, que quisesse entrar pelo orifício de uma agulha, buraco de mínimas dimensões; certamente não o conseguiria. Tal seria a sorte dos ricos perante a salvação eterna!

Veremos em breve o sentido doutrinário desta afirmativa; no momento interessa apenas explicar o seu aspecto literário, ou seja, a menção do camelo e da agulha como termos de comparação.

Deveremos dizer que tal linguagem enfática ou hiperbólica, longe de ser estranha aos semitas, era bem familiar a um círculo de judeus: deviam entender um camelo tal qual e o pequeno furo da agulha como ele se apresenta na sua realidade natural; a desproporção, o contraste quase absurdo, não os espantava. Com efeito, lê-se em outros textos judaicos semelhante comparação: para dizer que algo era impossível, os rabinos lembravam o caso de um elefante (em lugar de camelo) que tentasse penetrar o fundo de uma agulha.

Tenham-se em vista as seguintes palavras do Talmud (coletânea de sentenças dos rabinos ou dos mestres judaicos):

"Raba (352) afirmou: 'Ninguém imagina, nem mesmo em sonho, uma palmeira de ouro ou um elefante que passe pelo buraco de uma agulha'".

Também se lê no Talmud, à guisa de provérbio: "O elefante não dança em um gab (= medida de exígua capacidade)".

Cf. Talmud da Babilônia: Berach. 55 b e Baba Mesia 38 b.

Muito antes de Jesus, o elefante tornara-se famoso na cultura oriental, visto o papel que desempenhara nas guerras da Macedônia e da Síria; nos tempos de Cristo, porém, era mais conhecido e vulgar o camelo. Daí provavelmente a menção que o Senhor faz de camelo, e não de elefante, no Evangelho.

O livro bíblico dos Provérbios (17,12), recorrendo a análogo modo de falar, assevera que "é melhor encontrar uma ursa a quem tenham sido arrebatados os filhotes do que defrontar um insensato em delírio". O profeta Jeremias (13,23), também numa comparação enfática, pergunta:

 

"Pode um etíope mudar a própria pele?

Ou um leopardo apagar as malhas do pêlo de que se reveste?

E vós como podereis praticar o bem se estais impregnados de maldade?"

Jesus mesmo no Novo Testamento, dirigindo-se aos fariseus, diz que filtram um mosquito, mas engolem um camelo (cf. Mt 23,24).

Quanto ao buraco de agulha, servia freqüentemente de comparação nas escolas judaicas.

Assim falava um mestre em Israel: "Se em um odre houver um orifício do tamanho do fundo de uma agulha, bastará para que todo o líquido escorra por ele". Outro atribuía ao Senhor Deus a exortação seguinte: "Fazendo penitência, abris para mim uma passagem do tamanho do buraco de uma agulha, e eu vos abrirei uma porta por onde os veículos e os carros poderão passar".

Contudo alguns antigos leitores do Evangelho julgaram estranha demais a comparação ocorrente em Mt 19,24. Por isto S. Cirilo de Alexandria (+444) queria abrandá-la, diminuindo o tamanho do camelo, isto é, entendendo o camelo (kámelos, em grego) não no sentido de um animal, mas como se fosse a corda grossa ou o cabo (kámilos, em grego) ao qual os navegantes prendem a âncora de bordo; assim, por exemplo, se lê na tradução latina da obra desse apologeta dirigida contra o Imperador Juliano o Apóstata:

"Accipit ergo demonstrationem.foramen acuset camelus; non animal, ut opinatur Julianus impius et omnino insipiens et idiota, sedpotius rudens crassus qui in omni navi. Ita enim mos est nominandi iis qui docti sunt res nautarum" Giuliani imperatoris librorum contra Christianos quae supersunt. Teubner 1880, pág. 56).

"O Senhor recorre a uma comparação, lembrando o buraco de uma agulha e um camelo:não camelo animal, como julga o ímpio Juliano... mas antes um cabo grosso tal como se encontra em toda nave. Tal é o expressionismo próprio dos peritos em navegação".

Alguns outros poucos autores antigos interpretavam "camelo" do mesmo modo. Eis o que diz o "Tractatus de divitiis" (XVIII 1 e 2), atribuído ao bispo Fastídio (410-450) ou ao escritor pelagiano Agrícola (cerca de 429):

"Sed non de ca mel lo dictum est, inquies, cui per foramen acus transire penitus impossibile est, sed de camelo, id est, de náutico quodam fune.

Não se trata de um camelo propriamente dito, pois a este animal é de todo impossível passar pelo buraco de uma agulha, mas trata-se de um cabo usual em navegação".

 

Outros comentadores de Mt 19,24, também desejosos de suavizar a hipérbole, julgam que Jesus tinha em vista pequena porta da cidade de Jerusalém chamada "Buraco da Agulha", pequena porta pela qual os animais de carga só poderiam passar se fossem despojados da bagagem e dobrassem os joelhos; os homens só transitariam por aí caso se encurvassem. Assim pensam alguns antigos e modernos intérpretes. Contudo a existência dessa porta é controvertida por arqueólogos competentes. Vão seria fundar a explicação dos dizeres de Jesus sobre tal hipótese. Não há dúvida, a acepção literal do "camelo" e da "agulha" está bem na linha do pensamento semita; Jesus terá usado realmente essa comparação forte. Resta-nos então analisar o que o Divino Mestre queria dizer mediante tal força de expressão.

 

2. A mensagem das palavras de Cristo

 

O Senhor não condena o dinheiro ou as posses materiais como tais. São instrumento para o bem, quando se acham nas mãos dos bons; instrumento para o mal, quando se acham nas mãos dos maus. O dinheiro bem pode servir de meio para que o homem cultive o amor a Deus e ao próximo, praticando boas obras, e assim, mediante esse bom uso, mereça entrar na vida eterna (as boas obras seriam "amigos que nos receberiam nas mansões eternas", conforme Lc 16,9). Tal homem é dito "rico para Deus" (cf. Lc 12,21), em vez de ser rico para si, isto é, rico de maneira egoística e prazenteira. Jesus reconhece a existência de pessoas ricas e boas, como era, por exemplo, Zaqueu, o qual restituía quatro vezes mais, quando verificava ter lesado alguém (cf. Lc 19,8-10).

Tenha-se, pois, por certo que o Evangelho de modo nenhum condena a propriedade particular. Esta é baseada no direito natural; constitui a expressão da personalidade humana e, por assim dizer, uma das condições normais de desenvolvimento da personalidade. É preciso que todo homem possua seu aconchego próprio e indevassável, como ele tem o seu próprio "eu" inconfundível (uns possuirão menos, outros possuirão mais, de acordo com as qualidades e a capacidade de cada um).

Contudo Cristo em Mt 19,24 quer lembrar que a posse de dinheiro é algo de perigoso, pois tende a absorver e avassalar o homem ou, no mínimo, a embotar-lhe a consciência. "Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração", dizia o Senhor em Mt 6,21. É com vistas aos que voluntariamente cedem à absorção e materialização que o Senhor assevera a impossibilidade de se salvarem; e, para incutir enfaticamente tal impossibilidade, recorre à comparação do camelo e da agulha.

As riquezas acariciadas em sentido materialista, isto é, como fonte de toda esperança e como limite ao qual se confinam as aspirações do homem, exercem verdadeira tirania, diria S. João Crisóstomo (+407). Fomentam diversos vícios (a ambição, a luxúria, a gula, o egoísmo, etc.) e desvirtuam até mesmo o que possa haver de bom no indivíduo. Por isto São Paulo considera a avareza como raiz de todos os males:

"Aqueles que querem tornar-se ricos, caem na tentação, no laço, em numerosos desejos insensatos e perniciosos, que mergulham os homens na ruína e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Levados pelo desejo de possuí-lo, alguns se desviaram para longe da fé e atormentam a si mesmos com muitas aflições" (1Tm 6,9s).

 

Em conseqüência, exortava o Apóstolo:

 

"Aos ricos deste mundo prescreve que não sejam orgulhosos, nem ponham sua esperança na instabilidade das riquezas, mas sim em Deus, que nos concede tudo em grande abundância para nosso uso; pratiquem o bem, tornem-se ricos de boas obras, dêem com liberalidade, repartam do seu e, deste modo, acumulem para si um tesouro, que será sólido cabedal para o futuro, a fim de alcançarem a verdadeira vida" (1Tm 6,17-19).

O espírito de pobreza ou a superioridade do homem frente aos bens materiais dificilmente se pode conservar sem um ambiente de sobriedade e parcimônia; a tendência a evitar posses supérfluas é necessário esteio do domínio do homem sobre a matéria. Quem vive continuamente no gozo, acariciado pelos favores desta vida temporal, arrisca-se a perder o controle sobre a matéria e a amesquinhar-se ou mesmo escravizar-se.

Ainda uma observação: o evangelista S. Marcos (10,24.26) refere que as palavras de Jesus concernentes às riquezas muito surpreendiam os Apóstolos. Isto se explica, pois, como genuínos filhos de Israel, os primeiros seguidores de Jesus deviam ser inclinados a crer que os haveres temporais são sinal de bênção de Deus e quase prenúncio ou penhor de salvação eterna; a pobreza, ao contrário, significaria maldição divina. Tal era o modo de pensar predominante entre os antigos judeus, cuja mentalidade ainda se ressentia de rudez ou infantilidade. É essa falha de pensamento que o Senhor, entre outras coisas, deseja remover no Evangelho: "ser abençoado e amigo de Deus" não quer necessariamente dizer "vir a ser dotado de bem-estar e de consolo terrestres"; verifica-se mesmo que Deus "repreende e castiga os que Ele ama" (Ap 3,19); é assim que Ele os purifica e dilata, emancipando-os dos grilhões do egoísmo.

Eis, pois, em síntese, a mensagem decorrente das palavras do Senhor em Mt 19,24: as posses temporais são uma dádiva, e dádiva boa do Bom Deus. É preciso, porém, que o homem não se deixe avassalar nem absorver pelos seus haveres, mas, antes, os domine e administre de modo a dar glória ao Criador, beneficiar o próximo e enobrecer a sua própria alma.

 

Dom Estêvão Bettencourt


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