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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 344 – janeiro 1991

Fim do Cristianismo?

1994...: Uma Profecia?

 

Em síntese: O escritor italiano Ferruccio Parazzoli escreveu o romance de ficção "profética" intitulado "1994. La Nudità e la Spada", em que imagina o fim do Catolicismo para 1994. Julga estar apoiado pelo fato de que o Catolicismo já não tem ressonância no mundo de hoje. — A revista "II Sabato" resolveu entrevistar personalidades italianas a respeito da tese do romancista; entre os vários depoimentos assim colhidos, destacam-se aqueles que enfatizam a queda dos regimes ateus no Leste Europeu e a procura de uma resposta religiosa nos países ocidentais por parte dos povos recém-libertados do regime ateu marxista. O Cristianismo é apto a dar essa resposta, pois o Evangelho hoje é o mesmo que respondeu ao Império Romano pagão; conserva todo o seu vigore a sua capacidade de atrair. Acontece, porém, que a força do Evangelho pode estar atenuada, caso os católicos não creiam seriamente nela ou queiram mesclar a mensagem do Evangelho com mensagens heterogêneas, cedendo à impressão de que o Evangelho como tal está defasado. Na verdade, não é o Evangelho que está defasado, mas talvez a têmpera de alguns dos seus arautos esteja debilitada ou anêmica.

 

O escritor italiano Ferruccio Parazzoli escreveu o romance de ficção "1994. La Nudità e la Spada" (1994. A Nudez e a Espada), no qual imagina o fim do Catolicismo para 1994: o Papa fugirá para Manilha (Filipinas), o Cardeal Martini, de Milão, será fuzilado juntamente com Don Giussani no pátio da residência arquiepiscopal de Milão. Serão vítimas do poder maçônico-mafioso instalado nos Governos europeus. Muitos católicos — clérigos e leigos — hão de se exilar voluntariamente, enquanto outros perecerão na perseguição, assinalando o fim da história bimilenar do Cristianismo. Mas ninguém pranteará esse desaparecimento. Somente um punhado de pessoas sentirá a necessidade de se encontrar uma vez por ano nas novas catacumbas das grandes cidades para repetir os ritos da Páscoa cristã. Todavia o homem da rua não experimentará essa necessidade; ficará indiferente. E como pensar que não será assim? Para ele, o Cristianismo, com suas crenças abstratas e com seus fastidiosos ritos dominicais, é coisa do passado. Ele já se acostumou à ausência do Cristianismo.

O autor julga que não se trata de um romance de ficção, mas de previsão de algo que já começou a acontecer, como se a Barca de Pedro fosse um Titanic qualquer, sujeito ao naufrágio definitivo entre as ondas da história. — Parazzoli conta como concebeu a idéia de escrever tal romance:

"Lembro-me: era um domingo como tantos outros, no mês de maio de dois anos atrás. A Igreja estava semi-vazia, a Missa era a mesma, havia os mesmos semblantes distraídos, liam-se as mesmas palavras do Evangelho, que já não interpelavam ninguém. .. Então pensei comigo mesmo, deixando a imaginação trabalhar: e, se se desencadeasse uma perseguição anticatólica, ficaria algum vestígio visível da Igreja já hoje assim reduzida?" Tendo respondido "Não" a si mesmo, o autor pôs-se a recolher material: "Então, durante alguns meses comecei a colecionar recortes de jornais, revistas e livros que pudessem, de algum modo, oferecer um suporte real à minha,hipótese fantástica".

Nas suas considerações, o autor leva em conta a acolhida simpática e solene que o Papa tem encontrado em suas viagens pastorais; pondera também a queda dos regimes comunistas do Leste Europeu, regimes que proclamavam o fim da religião como "ópio do povo".

"Sim, vi também eu pela televisão as cenas da viagem do Papa a Praga. . . Sim. Foi um espetáculo grandioso. . . Mas a nós, a nós ocidentais, que dizem aquelas imagens tão excepcionais e distantes? Nada... Além de uma efêmera emoção, nada. . . Talvez porque já vimos o vazio e a morte que existem por trás daquela liberdade que as populações do Leste começam a desfrutar, cinqüenta anos depois de nós".

O romance de Ferruccio Parazzoli toca certamente problemas reais da vida católica de hoje; o choque entre a fé e a mentalidade do homem contemporâneo, muitas vezes distante do Evangelho, tem sacudido a Igreja. Dentro da própria Igreja os fiéis — clérigos e leigos — se agitam, querendo repensar o Catolicismo à luz dos parâmetros de nossos dias, mas nem sempre convergindo para as mesmas conclusões.

A revista italiana "II Sabato", após haver registrado a publicação da obra de Parazzoli, foi colher depoimentos sobre o assunto junto a pensadores diversos, a fim de perceber o que julgam sobre a "profecia" do romance. A seguir, transcreveremos alguns desses testemunhos e lhes acrescentaremos breves comentários.

1. Depoimentos

São muito diferentes uns dos outros os testemunhos de pensadores contemporâneos a respeito da "saúde do Catolicismo de hoje". Vejamos o que se segue:

 

1.1. Pe. Antonio Caruso SJ.: "Moscou chora, Roma não ri"

 

O Pe. Antonio Caruso, jesuíta, outrora colaborador da revista "La Civiltà Cattolica" em matéria política, publicou o livro La Croce del Sud (A Cruz do Sul), que se tornou um pequeno best-seller nos ambientes da Cúria Romana, pois o autor trabalha na Secretaria de Estado do Vaticano. É urna obra realista, que procura ser objetiva e afirma:

"Se Moscou chora, Roma não ri. . . E, se o mundo comunista dá sinais de rápido e simultâneo desmoronamento, isto não permite pensar que o mundo cristão esteja em perfeito estado de saúde".

O Pe. Caruso levanta a hipótese de que as nações católicas da Europa poderiam, em breve, ter o destino dos países que viram nascer o Cristianismo (Palestina e Próximo Oriente). Hipona, a cidade de S. Agostinho no Norte da África, não está hoje reduzida a ruínas recobertas de areia e flageladas pelo vento do Saara?

 

Caruso vai mais longe, e diz:

"A crise geral do Catolicismo hoje é tanto mais grave quanto muitos se comprazem em negá-la. . . Essa crise é devida aos insidiosos ataques de uma nova gnose,(*) que, tendo conseguido implantar-se dentro do Corpo da Igreja, tem numerosas células ativas em via de multiplicação rápida. .. Que resultará disso?"

(*) Gnose seria um conhecimento pretensamente superior, mais profundo e fundamentado do que a fé no seu sentido clássico.

 

E continua:

"O que mais desatino suscita nas fileiras dos católicos fiéis é ver um número não pequeno de eclesiásticos aplicar-se à tentativa de esvaziar o Cristianismo. E por 'eclesiásticos' entendo os clérigos em toda a extensão do leque, com exclusão do Pontífice Romano. . . mas incluindo figuras portadoras de mitra episcopal".

 

Comentaremos o depoimento sob o subtítulo 2 deste artigo.

 

1.2. Salvatore Abbruzzese: Duas possibilidades de desfecho da crise

"A crise do Cristianismo e a sua redução a um humanismo filantrópico são a conseqüência, esperada e receada, de um longo processo de secularização.([1]) No decurso deste processo não faltaram momentos em que a Igreja Católica foi posta de lado ou mesmo desprestigiada e perseguida. Paralelamente à secularização, apareceram livros que analisavam a situação e enfatizavam os perigos e até mesmo a irreversibilidade desse processo; tenha-se em vista o romance de Hugh Benson: 'O Senhor do Mundo', recentemente reeditado pela Ed. Jaca Bock. Pois bem. Verificar que o conflito entre religião e modernidade não é novidade de nossos dias não equivale a subestimá-lo. Todavia, hoje como ontem, a redução do Cristianismo a uma insossa filantropia, que serviria ao laicismo dominante, é apenas uma das possíveis conseqüências desse inevitável conflito entre religião e modernidade. Não se poderiam imaginar outras conseqüências ou outros desfechos desse conflito, desde que se levem em conta outros fatos históricos, muito concretos e presentes em nossos dias, como sejam: a persistência da mais alta espiritualidade religiosa no bojo da cultura européia do século XX, os testemunhos heróicos oferecidos pelo Cristianismo nos campos de extermínio ou ainda a imperecível pertinácia do solidarismo católico na época contemporânea?

A vertente filantrópica, essa espécie de 'Cristianismo fraco', está, por certo, sujeita a todo tipo de crítica no plano eclesial; pode ser criticada como sintoma de uma fé ineficaz e insuficiente. Tem seu paralelo em outras vertentes, que sacudiram a Europa, como os sincretismos mágico-religiosos da religiosidade popular. O humanitarismo filantrópico é o sinal de uma pertença imperfeita à Igreja. Todavia o fato mesmo de existir esse humanitarismo filantrópico atesta a existência de algumas interrogações fundamentais; é o sinal de uma secularização semi-frustrada e apenas parcialmente realizada; é o sinal de que a grande partida entre a religião e o mundo moderno ainda está para ser jogada.

Não falamos aqui dos novos movimentos religiosos, das afirmações fortes e das reivindicações abertamente religiosas — fatos estes sociologicamente inexplicáveis, se se admite que a secularização já ganhou a batalha e não volta atrás. O processo de secularização pode ter um desfecho bem diverso da morte da religião".

O autor, em suma, quer dizer que os sintomas do mundo de hoje não levam apenas a prognósticos de ateísmo e morte da religião, mas, ao contrário, permitem prever também o surto muito vivaz do sentimento religioso sempre presente (embora, por vezes, um tanto latente) na história da humanidade.

1.3. Massimo Fini: "Nós, leigos, nos desorientamos"

"Parece estranho falar de fim do Cristianismo num momento em que a Igreja Católica, mediante as grandes viagens do Papa e os recentes acontecimentos nos países comunistas, parece estar triunfando retumbantemente. Não obstante, segundo vejo, existe uma crise do Cristianismo. O que o Cristianismo e, em particular, o Catolicismo ganhou em ecumenismo, ele o está perdendo em profundidade e intensidade. Principalmente nos ditos países ocidentais, a Igreja se debruçou demais sobre a modernidade, sobre o industrialismo, sobre a tecnologização; não tomou as devidas distâncias. Por isto no momento atual, como contragolpe à modernização e ao seu hedonismo desumanizante, surge nas sociedades ocidentais uma forte procura de sentido ou, ao menos, de espiritualidade; esta demanda já não é tão dirigida à Igreja Católica (que parece demais comprometida com os 'tempos modernos'), mas dirige-se a outras formas de religiosidade, que certamente são mais toscas e elementares (tenhamos em vista as seitas, os vários esoterismos e os fenômenos ligados à astrologia, à cartomancia, ao espiritismo, formas religiosas tidas como mais novas e estimulantes).

Como se compreende, para mim, que sou um leigo, isto tudo equivale a uma perda".

1.4. Mario Luzi: Neurose milenarista

"A fé que se confronta com a anti-fé, com a incredulidade. . . Foi assim desde as origens. Creio que será assim em todos os tempos. Não gosto desse retorno periódico do milenarismo, que já se tornou um gênero literário. É uma dramatização inútil, devida talvez ao cansaço, a neuroses, à imaginação. Por certo, muitas facetas do Catolicismo passam, mas passam porque cumpriram sua tarefa e esgotaram sua razão de ser. Mas, quando termina uma modalidade de era cristã, pode começar outra, ou um Cristianismo mais próximo de Cristo. Há algo que é mais íntimo e maior no Cristianismo..., maior do que as formas históricas que a Igreja assume. . . e isto fica para sempre.

Fala-se do fim do Cristianismo em tom apocalíptico. Mas esse fim pode conter um recomeço, pois o Espírito sopra onde quer. Jesus no Evangelho se interessa por dissipar todas as seguranças cômodas e por ensinar-nos que a força de Deus se revela na fraqueza do homem. Isto sempre me fascinou vertiginosamente... ".

 

1.5. Emanuele Severino: Paradoxos que pedem explicação

"Fim do Cristianismo? Sim; está no ocaso, mas é preciso saber explicar por que precisamente em nossos dias, neste ocaso, o Cristianismo parece triunfar. Não basta declarar o fim do Cristianismo. É preciso saber explicar o sucesso real da Igreja em nosso tempo. Hoje a Igreja consegue apresentar-se como expressão das necessidades e das exigências do homem... Mas então como se explica o paradoxo de um Catolicismo que seria apenas uma realidade passada e ultrapassada, mas que parece emergir como o Grande Vencedor neste momento histórico?

Pensamos que pode haver retorno ao grande passado do Ocidente (e o Cristianismo é o elemento mais grandioso desse passado), porque a cultura contemporânea não conseguiu acabar por completo com esse passado. A própria crítica que Nietzsche fez a esse passado, não foi peremptória. Por isto o Catolicismo pode ressurgir não somente de fato, mas também com pleno direito.

Quem poderá provar que o passado não pode em absoluto retornar? Enquanto não se puder provar isto, o passado que o Catolicismo representa voltará e poderá reafirmar-se plenamente, como acontece clamorosamente em nossos dias. Na verdade, a cultura contemporânea abre esse espaço ao Catolicismo".

 

1.6. Pe. Angelo Macchi S.J.: "Uma nova fase de luz"

 

"O momento atual é, para o Cristianismo, como a aurora de um novo dia que está para vir. As ideologias que presumiam excluir Deus da história humana já percorreram a sua parábola histórica. Tanto o coletivismo marxista quanto o liberalismo capitalista faliram. Hoje não há uma única pessoa ou corrente de pensamento no mundo que possa reivindicar a mesma força cultural e autoridade de que goza a Igreja Católica. Por conseguinte, como falar de fim do Cristianismo? É um absurdo.

E, se o Papa desempenha neste contexto um papel certamente fundamental, o renascimento atual da fé não é redutível apenas à sua extraordinária personalidade. Penso, por exemplo, no grande e positivo influxo que o Oriente exercerá sobre o Ocidente. Os preciosos depósitos de religiosidade e de espiritualidade que um regime ateu manteve aferrolhados durante tantos decênios, serão abertos de novo e com certeza muito nos enriquecerão. Assim haverá um intercâmbio fecundo entre Oriente e Ocidente. . . . Das nações orientais nos virá o testemunho de uma religiosidade mais profunda, purificada no crivo da perseguição. Serão eles os verdadeiros mestres da fé.

Estamos no início desse processo. Mas tudo faz prever que um tempo cheio de luz aguarda a Igreja. Como uma nova Idade Média".

2. Refletindo ...

O teor do romance e os depoimentos anexos sugerem-nos algumas ponderações.

2.1. O Fim do Cristianismo?

Alguns dos pensadores que deram seu testemunho, enfatizaram o fato de que os regimes ateus do Leste Europeu caíram bruscamente em 1989/90, após uma experiência de decênios fracassada: em nações cristãs quiseram construir uma cultura nova, sem o Cristianismo ou mesmo hostil ao Cristianismo, tido como "ópio do povo"; decretaram o fim do Cristianismo. E, em última instância, quem pereceu não foi o Evangelho, mas os seus adversários e algozes! Tal é a vitalidade do Cristianismo! Fato paralelo se deu nos primeiros séculos da Igreja, ou seja, entre 64 (primeira perseguição aos cristãos, decretada por Nero) e 313 (Paz de Milão, fim das perseguições).

Os povos recém-libertados do Comunismo voltam-se agora para o Ocidente, à procura de uma mensagem diferente ou religiosa, correspondente à índole mística congênita em todo homem. O problema que se coloca, consiste em que o Cristianismo ocidental corre o perigo do "achatamento" ou do "desfibramento", pois a civilização do bem-estar e do consumo o ameaça; em conseqüência, as seitas vão ocupando os espaços vazios deixados pelo Cristianismo desvirtuado.

Donde se vê que a eventual fraqueza ou anemia do Cristianismo não se deve aos seus princípios doutrinários e morais (embora entrem, não raro, em choque com a mentalidade moderna), mas, sim, ao esvaziamento que lhe infligem aqueles que o deveriam sustentar. A mensagem autenticamente cristã, por mais desambientada que pareça no mundo de hoje, continua a ser a Grande ou a Única Resposta para a humanidade conturbada.

O Evangelho hoje é o mesmo que outrora; atravessou séculos de perseguição violenta sem se deixar apagar. São também as mesmas as carências do homem, que sempre teve e tem sede de valores sólidos e profundos, embora exigentes. A própria Moral católica, com suas normas, por vezes, rígidas, é garantia de bom senso e dignificação do ser humano.

Perguntamos então: por que se pode falar, com certo fundamento na realidade, de fim do Cristianismo? — Respondemos, em parte, apontando o desfibramento ou a descrença de católicos, que, impregnados da mentalidade deste mundo, desvirtuam a força e a riqueza espiritual da mensagem cristã.

Passemos a outras considerações, complementares destas reflexões.

2.2. A mentalidade moderna

As correntes de pensamento contemporâneas oferecem inegavelmente muitos pontos positivos; mas também entram em conflito com a mensagem cristã em não poucos tópicos, como vai exposto a seguir.

1) Hedonismo

A mentalidade moderna é hedonista ou, ao menos, avessa ao sacrifício e à renúncia. A filosofia de Sigmund Freud incutiu o horror ao "contrariar a si mesmo", alegando que isto pode tornar o indivíduo neurótico. Deste princípio se segue uma tendência crescente à liberdade de conduta, que chega a ser libertinagem. Se o indivíduo não se acostuma a dominar seus impulsos (não raro cegos e incoerentes), torna-se escravo dos mesmos, em vez de conquistar liberdade. — Ora o Cristianismo apregoa o autocontrole, o valor da cruz motivada pela aspiração a bens maiores; a Mensagem da Cruz de Cristo, que é loucura e escândalo (cf. 1Cor 1,23), é inerente à pregação do Evangelho, não por masoquismo ou pessimismo doentio, mas porque sem Cruz ou renúncia não há crescimento interior nem grandeza de personalidade.

 

2) Antropocentrismo subjetivista

O principal referencial do pensamento contemporâneo é o homem, sua promoção e seu bem-estar. Quem admite Deus, não raro admite-o em função do homem, fazendo da religião uma espécie de terapia ou de serviço ao homem. Este vem a ser a medida ou o padrão para julgar todas as coisas. — Ora o Cristianismo é essencialmente teocêntrico, afirmando que a plena realização do homem não está no próprio homem, mas em Deus; aliás, entre a glorificação de Deus e a consumação do homem não há antítese, mas, ao contrário, convergência. "Servir a Deus é reinar", diz a Liturgia.

3) Antiintelectualismo e relativismo

A corrente existencialista disseminou certa aversão à Metafísica e até mesmo ao intelectualismo. O homem contemporâneo crê no valor do intelecto no setor da matemática e das ciências ditas "exatas", mas, fora deste, parece não admitir verdade perene e absoluta; daí professar certo relativismo em matéria de Ética, Direito, Filosofia, Religião. Ora o Cristianismo professa o Absoluto da Verdade não só no tocante às ciências exatas, mas também no que concerne à Filosofia e à Religião; pela fé o homem dá sua adesão à verdade que Deus lhe revelou.

 

São estes alguns pontos que explicam o conflito existente entre o autêntico Cristianismo e a mentalidade contemporânea. Esta é, sem dúvida, mais cômoda, mais "compreensiva"; além do quê, é incutida pelos poderosos meios de comunicação, dentre os quais sobressai a televisão. Por isto o Cristianismo é ameaçado em sua sobrevivência e sofre a tentação de se diluir ou descolorir, a fim de poder encontrar aceitação no mundo de hoje.

Levemos adiante ainda a nossa reflexão, perguntando:

2.3. E que colocaríamos em seu lugar?

 

Algumas cosmovisões ou concepções gerais de vida se oferecem ao homem de hoje, fora do Cristianismo.

 

1) O materialismo

 

Este assume diversas modalidades (a econômica, a hedonista, a pansexualista. . .). Parece, porém, que nenhuma delas satisfaz ao ser humano, preenchendo suas aspirações mais profundas. — A experiência marxista, que prometia ao homem a felicidade mediante a redistribuição da economia (bens materiais), malogrou, dando lugar a novo surto de tendências místicas. Os Estados Unidos, país onde mais riqueza existe, são também um país onde numerosas crenças religiosas pululam ao lado de uma libertinagem sexual pouco construtiva e gratificante (os abusos sexuais estão freqüentemente ligados à violência e ao crime, pois excitam paixões desenfreadas, como se depreende do artigo das pp. 36-46 deste fascículo). O aparecimento de novas e novas correntes místicas espiritualistas em meio ao mundo materialista é como que uma réplica do ser humano como tal às propostas do materialismo.

 

2) As novas "Místicas"

 

O fenômeno das novas "Místicas", generalizado no mundo ocidental, é muito significativo das aspirações do homem ao Transcendental. Contudo é falho, pois não resiste ao crivo da razão; as emoções e as atitudes desarrazoadas e passionais preponderam em muitos casos, levando até mesmo a aberrações lamentáveis, como noticiam os jornais (há pais que matam filhos, há pessoas que obedecem cegamente às ordens de um líder ou de um guru, aceitando mesmo o suicídio por obediência).

 

3) O Islã

 

O Islã é a corrente religiosa que atualmente mais cresce no mundo inteiro. Seria o substitutivo do Cristianismo?

 

— Não se podem negar os valores de piedade, cultura e mística da Tradição islâmica. É inegável, porém, que se trata de uma corrente religiosa fortemente ligada aos povos árabes e ao nacionalismo respectivo. Entre os fatos contemporâneos, seja mencionada a posição recentemente assumida pelo Presidente Saddam Hussein,(1) no Iraque, para hostilizar as nações ocidentais: apela para os valores religiosos do islamismo. O líder iraquiano, aos 10/08/90, acusava os próprios árabes sauditas (ou da Arábia Saudita) de "ter desafiado a Deus no dia em que colocaram a Meca e o túmulo do profeta sob a proteção,do estrangeiro" (3) (ou seja, dos norte-americanos). Dias mais tarde, Saddam Hussein exortava:

"Ê tempo de que vós, muçulmanos, assumais o vosso papel. Abre-se diante de vós a via do Jihad,([2]) que provocou a cólera do impudico Bush".

(1) Saddam Hussein nasceu em Takrit (região ao Norte de Bagdá), de modestos camponeses sunitas. Os sunitas são maometanos seguidores da Sunna ou da Tradição que codificou os ditos e gestos de Maomé e os comentários feitos a este patrimônio; vêm a ser minoritários no Iraque e majoritários no mundo árabe, onde a minoria é chiita (discípulos de um descendente da filha Fátima de Maomé e de seu esposo Ali).

Órfão desde cedo, Saddam foi educado sem religião por um tio nacionalista fervoroso e antimonarquista. Começou a estudar as primeiras letras com oito anos de idade. Após a escola primária, foi enviado para o Liceu Al Karkh de Bagdá, foco de nacionalismo. Aos 19 anos de idade, aderiu ao Partido Baas (Renascimento) fundado em 1947 em Damasco por Michel Aflak, nacionalista árabe ao extremo. Dois anos mais tarde, um golpe de Estado levou ao poder o General Kassem. O Partido Baas, descontente com o Governo deste chefe, houve por bem assassiná-lo; Saddam Hussein fez parte do Comando encarregado do assassínio. Todavia, como a tentativa de homicídio foi malograda, Saddam foi exilado para o Egito (Cairo). Em 1963, o Baas tomou o poder e Saddam Hussein foi subindo na hierarquia governamental; tornou-se Vice-Presidente da República e homem forte do regime em julho de 1968. Em 1979 veio a assumir a Presidência da República do Iraque.

O nacionalismo de Saddam leva-o a valorizar a religião muçulmana como parte integrante do patrimônio cultural árabe. É isto que explica os discursos religiosos do Presidente, que na verdade é pouco familiar à religião em geral. O regime de Saddam Hussein é oficialmente um regime leigo, embora não contrário à religião.

 

Saddam Hussein parece realizar concretamente a predição feita por Michel Aflak: "Dias virão em que os nacionalistas árabes serão os únicos a defender os verdadeiros valores do Islã".

Comparando o Cristianismo com o Islã sob tal aspecto, verificamos que o Cristianismo também cedeu outrora à tendência de empreender guerras religiosas (não é o caso de discutir se eram justas ou não), mas é certo que o Cristianismo, por sua índole mesma, paira acima de qualquer nacionalismo; ele é católico, universal, aberto a todos os povos e tende a se inculturar em todos, à diferença do seu tronco judaico, no qual religião e descendência de Abraão estão intimamente associadas entre si. O Cristianismo prega a igualdade de todos os seres humanos entre si, independentemente de raça, sexo e idade; foi precisamente por isto que conseguiu penetrar e converter o Império Romano e o mundo ocidental antigo, apesar das perseguições cruentas que sofreu.

Em conseqüência, não se poderia dizer que o Islã é o substitutivo jovem e vigoroso de um Cristianismo velho e decrépito que esteja a desaparecer. Num juízo objetivo e destituído de preconceitos, pode-se dizer que não se encontra no mundo de hoje uma corrente de pensamento tão significativa e tão expressiva para o homem e suas interrogações básicas quanto o Cristianismo.

Surge então a pergunta:

3. E que falta ao Cristianismo?

 

Cremos que nada falta à mensagem cristã tanto no plano da doutrina quanto no da Moral. A fé é sempre escândalo e loucura, mas aquele escândalo e loucura que leva o homem a sair de suas categorias limitadas e mesquinhas para mergulhar em Deus, o Bem Infinito; foi esse escândalo-loucura que venceu a fúria "sábia" dos perseguidores até 313.

O que falta ao Cristianismo, é, sim, uma tradução mais autêntica e coerente, da parte dos seus adeptos; falta talvez um testemunho mais lúcido e vigoroso, menos desfibrado, mesclado e atenuado do que o testemunho dado por muitas comunidades católicas em nossos dias. Ora, é o desejo de salvar o Cristianismo da rejeição ou o desejo de tornar suave e agradável o Cristianismo que vem a ser a causa de sua anemia e fraqueza! Jesus mesmo disse: "Se o sal da terra perder o seu sabor, com que se há de salgar? Para nada mais vale senão para ser lançado fora e pisado pelos homens" (Mt 5,1J3).

Se os cristãos não querem que o Cristianismo seja pisoteado e rejeitado pelos homens, hão de procurar ser mais autenticamente cristãos, portadores do genuíno sabor do Evangelho no mundo de hoje. Isto não quer dizer que se empreenda agressão ou polêmica religiosa em nome de um autêntico Cristianismo, mas implica a vivência pura e simples da fé até as suas últimas conseqüências.

Seja esta a conclusão incutida pelo romance "1994. . ." de-Ferruccio Parazzoli. Não se creia na ruína daquela casa que Cristo fundou sobre a Rocha (= Pedro), mas tome-se consciência de que aos católicos compete, em resposta, conceber nova estima pela Igreja e reconhecer o valor insubstituível da mensagem cristã e a necessidade de vivê-la com a máxima coerência possível para atender aos anseios de um mundo que "foi feito para Deus e não pode repousar senão em Deus" (S. Agostinho).

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Secularização, no caso, significa: apagamento do sagrado, laicização da vida pública. Mais adequado seria falar de secularismo neste contexto.

[2] O Jihad é o combate sagrado para promover o Islamismo. O Grande Jihad consiste em lutar contra as más tendências do crente muçulmano. O Pequeno Jihad consiste em combater os inimigos do Islã.

3 A grande mesquita da Meca e o Túmulo do Profeta Maomé em Medina são os dois mais importantes santuários do Islã; o terceiro é a Mesquita de Omar em Jerusalém. Para os muçulmanos, o território saudita é como uma Grande Mesquita.


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