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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 370 – março 1993

A Solidão

 

A solidão espanta muitas vezes as pessoas; provoca tédio e repúdio. Este fenômeno é significativo, pois dá a ver que o ser humano não foi feito para encontrar em si mesmo a resposta às suas aspirações mais profundas; foi feito, sim, para outrem.

 

O Cardeal Josef Ratzinger comenta o fato:

"A solidão é, sem dúvida, uma das raízes básicas das quais surge o encontro do homem com Deus. Onde o homem experimenta a solidão, verifica, ao mesmo tempo, quanto a sua vida representa um brado pelo tu e quão pouco o homem é apto a ser um puro eu, encerrado em si mesmo.

A solidão pode manifestar-se ao homem em profundezas diferentes. Primeiramente ela satisfaz-se com o encontro de um tu humano.

Mas desdobra-se um processo paradoxal, descrito por Claudel: cada tu que o homem encontra, revela-se finalmente como uma promessa irrealizada e irrealizável, porque todo tu, no fundo, representa de novo uma desilusão; há um ponto em que encontro nenhum é capaz de vencer a derradeira solidão. E exatamente o achar e o ter-achado voltam a ser um retorno à solidão, um grito pelo TU real e absoluto" (Introdução ao Cristianismo, Herder, São Paulo 1970, p. 68).

 

Em suma, o autor lembra que, para vencer a solidão, é espontâneo a todo homem procurar outra criatura que possa compartilhar seus anseios e responder-lhes. A experiência, porém, ensina que toda criatura é limitada, de modo que as esperanças depositadas no encontro com um(a) semelhante são, cedo ou tarde, desiludidas. Por mais que repita a busca de resposta em algum ser humano, o homem se dá sempre por insatisfeito... E retorna à sua solidão de origem, consciente de que só o Bem Infinito é capaz de responder aos seus mais nobres desejos. Aflora assim, mais nitidamente do que nunca, a convicção de que o homem é um brado vivo em demanda do Bem Infinito.

 

S. Agostinho ilustra esta procura de Deus: "Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar, que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu..., interroga todas essas realidades. Todas te respondem: 'Vê, nós somos belas'. A sua beleza é uma confissão. Essas coisas belas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, não sujeito à mudança?" (sermão 241, 2).

 

Possa a Quaresma em curso propiciar o aprofundamento de tais verdades, principalmente numa fase da história em que tantas decepções evidenciam ao homem o vazio das bolhas de sabão!

 

Dom Estêvão Bettencourt


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