HISTóRIA (3172)'
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Artigo

A Evolução do Judaísmo

O judaísmo "evoluiu" (se é que se pode usar este termo, que pressuporia uma melhora!), ou melhor, mudou tanto e tão tremendamente nestes últimos dois mil anos, que a ligação entre judaísmo rabínico e o(s) judaísmo(s) do tempo de Nosso Senhor é hoje mais identitária que religiosa.

No tempo de Nosso Senhor, o judaísmo era dividido basicamente em farisaísmo (aceitando o Templo, crendo na Tradição Oral, na Ressurreição, etc.), saduceísmo (aceitando o Templo, que controlavam, não crendo na Tradição Oral nem na Ressurreição, etc.), essenismo (não aceitando o Templo, crendo na Tradição Oral, na Ressurreição e em um Apocalipse próximo) e em várias outras formas (desde a prática simples dos ignorantes até formas bastante elaboradas de apocalipcismo).

Após a Ressurreição e o início da Igreja, com os confrontos com os romanos e com o cristianismo crescente, desapareceram primeiro o saduceísmo e depois o essenismo, tornando-se mais importante um ramo nacionalista do farisaísmo, o dos chamados sicários, ou zelotas, frequentemente com aspectos apocalípticos misturados a preocupações rituais tipicamente farisaicas. Os últimos
essênios teriam se unido aos zelotas na guerra. Os zelotas aceitaram como Cristo um sujeito chamado Simão Bar-Kochba, mas evidentemente não deu muito certo e foram massacrados pelos romanos.

O judaísmo rabínico é uma religião que tem sua origem nas compilações de tradições orais do farisaísmo (a vertente do judaísmo cuja ortodoxia Nosso Senhor mais respeitava, dizendo que os rabinos fariseus estava no trono de Moisés e recomendando que se fizesse o que eles diziam, mas não o que eles faziam), feitas a partir do final do Século I, após a derrota dos sicários, com o objetivo de recriar o judaísmo para que fosse possível ser religioso sem o Templo, destruído pelos romanos. O ambiente cultural da época era de confronto entre os judeus-cristãos e os judeus-anti-cristãos; cabe lembrar que apenas no século III foi proibido aos cristãos usar filactérios, o que mostra que o uso de filactérios por cristãos mais de cem anos depois ainda era grande o suficiente para merecer repreensão pública!

O resultado é que os Talmudes (as compilações de que falei acima) pregam um judaísmo que em grande medida se define pela oposição ao cristianismo, proibindo coisas pq eram práticas adotadas pelos cristãos, definindo (e diminuindo) o cânone bíblico de modo a impedir a aceitação do Novo Testamento, etc.

Mais tarde, com a ascensão das filosofias gnósticas (já combatidas por São João em seu Evangelho) de origem neo-platônica, houve uma absorção de enorme quantidade de doutrinas neo-platônicas no judaísmo rabínico, afetando pontos cruciais, como se percebe a própria cosmogonia cabalística, evidentemente de origem gnóstica neo-platônica, na pregação da possibilidade de reencarnação, etc.

O ramo asquenazita (centro-europeu) do judaísmo sofreu ainda várias mudanças provocadas pelo contato com o cristianismo, adotando ou abandonando práticas por causa do cristianismo.

O ramo sefaradita (espanhol e médio-oriental) sofreu enorme influência muçulmana, adotando entre outros o costume da poligamia.

Com o advento da modernidade, houve ainda enorme influência do iluminismo, com a criação de ramos do judaísmo (conservativo e reformista) que têm uma matriz, respectivamente, racionalista e protestante.

Resumindo, o judaísmo mudou muitíssimo mais que o cristianismo, sendo possível hoje considerar que é uma religião *descendente* da religião dos judeus contemporâneos da Encarnação, mas certamente não a mesma religião. O judaísmo rabínico é tão distante dos judaísmos do tempo de Nosso Senhor quanto, por exemplo, o luteranismo é distante das "testemunhas de Jeová".

Carlos Ramalhete


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