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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 379 – dezembro 1993

Mundo Atual

A sensação fantasiosa:

"JESUS ERA UM EXTRATERRESTRE"

por J.J. Benitez

 

Em síntese: J.J. Benitez deu uma entrevista ao jornal O GLOBO, cuja tese fundamental é a existência de seres extraterrestres; estes explicariam tópicos do Evangelho e outros fenômenos. Ora no mesmo dia 29/08/93, o JORNAL DO BRASIL publicou uma notícia segundo a qual está comprovado que em nosso sistema solar não existem condições de vida; os pesquisadores têm procurado detectar sinais de seres inteligentes habitantes de outros sistemas solares, mas até hoje nada conseguiram captar, apesar da sofisticada aparelhagem aplicada. Esta notícia, sóbria e fundamentada como é, vem a ser o melhor argumento para dissipar a literatura de ficção de J.J. Benitez.

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Juan José Benitez é autor espanhol que se tornou famoso entre nós e em muitos países por seus livros de literatura fantasiosa no plano da religião. Já escreveu "O Cavalo de Tróia", "Os Astronautas de Jaweh" (cf. PR 332/1990, pp. 44-46 e 336/1990, pp. 211-219) e recentemente publicou uma obra sobre Jesus Cristo intitulada "O Enviado". J.J. Benitez procura explorar "mistérios" fascinantes e empolgantes; diz ter provas da existência de discos voadores e habitantes de outros planetas — o que certamente lhe vale um público muito amplo, semelhante ao de Paulo Coelho.

J.J. Benitez deu uma entrevista ao jornal O GLOBO de 29/08/93, Caderno de TV e Cinema, p. 7. Diz aí que "Jesus durante a sua vida terrestre teve relacionamento com seres que vieram do espaço", e expõe considerações que merecem atenção pelo seu caráter agressivo e fantasioso. Comentaremos essa entrevista nas páginas subseqüentes.

 

1. J.J. BENITEZ: DEPOIMENTO

 

Poremos em destaque quatro tópicos da entrevista.

 

1.1.  Jesus Cristo e a Igreja

Para Benitez, "Jesus foi o grande extraterrestre... filho de Deus, de origem divina, ou seja, extraterrestre". Teve contato com extraterrestres.

 

"As religiões são como um sarampo, uma enfermidade infantil, que passa... As religiões atuais são muito dogmáticas, têm a pretensão absoluta da verdade. Eu não acredito em ninguém que tenha o controle da verdade".

 

"Alguns setores muito conservadores da Igreja Católica ficam irritados, porque eu questiono muito... Sei que há uma campanha de desprestígio por parte de pessoas que qualificam meus livros como um subgênero literário".

 

1.2. Contato com extraterrestres

 

Pouco adiante Benitez declara ter avistado naves espaciais de seres extraterrestres:

 

"O GLOBO — O senhor já teve contato com extraterrestres?

 

BENITEZ — Eu já vi objetos em São Paulo, na Espanha e no Mediterrâneo, mas não cheguei a falar com os tripulantes. Mas existe tanta informação de pessoas que já os viram que não tenho a menor dúvida de que eles existem. Depois de 21 anos de estudos, se eu duvidasse, seria um completo idiota. Aliás, quando alguém maneja muita informação sobre este tema - sobretudo informações classificadas como secretas pelas Forças Armadas — pode estar sujeito a controle de telefonemas e correspondência.

 

O GLOBO — Como foi essa experiência em São Paulo?

BENI TEZ — Foi em 1989, no centro da cidade, quando saía de um jantar. O céu estava nublado e se abriu como uma espécie de túnel. Baixou uma luz muito forte até o solo. Foi um momento só, e depois voltou a subir. Era muito grande, não se comportava como um avião ou helicóptero. Ninguém teve dúvida de que era um objeto."

 

1.3. Os milagres

 

"O GLOBO — O senhor acredita em milagres?

 

BENITEZ — Não. O milagre é contra as leis físicas. Hoje nós sabemos que basta apertar um botão e o gravador funciona, mas isso teria sido um milagre há 200 anos. E é apenas uma técnica e nada mais. Quanto aos milagres de Jesus relatados pelos apóstolos, era falta de informação. A água se converte em vinho. Hoje isso parece impossível, mas dentro de cinco mil anos, pode haver uma técnica. "

 

1.4. O Santo Daime

 

"O GLOBO - Tem planos de trabalhar no Brasil?

BENÍTEZ — O Brasil é um universo. Não é um planeta, mas um universo onde é preciso trabalhar durante anos. É um país onde há de tudo: qualquer tema mágico, misterioso, está presente ali. Tenho um projeto que se chama "A galáxia insólita" e quero dedicar um volume exclusivamente ao Brasil. Penso em passar uma longa temporada lá. Na última viagem que fiz ao Brasil lembro que o investigador Claudeir Cobo me disse que havia reunido 12 casos de raptos. Há outro tema que me interessa: as civilizações antigas. Para isso é preciso entrar na selva e nas próprias lendas brasileiras, já é material para um longo trabalho. Quando estive no Rio para fazer um documentário para a TV espanhola, experimentei o daime e me senti mal, vomitei muito, mas tive uma experiência muito bonita. Dias antes, telefonei à minha mulher, que estava em casa, e pedi que ela colocasse algo no chão do quarto sem me contar o que era. No dia da experiência com o daime, fiz o "vôo", passeei pela casa e vi que era uma fotografia colorida. Conto isso no livro 'Meus enigmas favoritos' ".

Uma vez apresentados os tópicos principais da entrevista de Benitez ao jornal O GLOBO, procuremos tecer-lhes alguns comentários.

 

2. QUE DIZER?

Repassemos os pontos abordados por Benitez.

2.1. Extraterrestres

A tese básica de Benitez é a afirmação de que existem seres extraterrestres que visitam a Terra a bordo de naves adequadas ou o que se chama "discos voadores".

Ora no mesmo dia 29/08/93 a imprensa publicou uma notícia que, como tal, vem a ser o melhor demonstrativo de quanto é fantasiosa e falsa a concepção de Benitez. Com efeito, no JORNAL DO BRASIL de 29/08/93, p. 20, sob a rubrica Ciência/Ecologia lê-se o seguinte:

 

"ESTRELAS DISTANTES SÃO A ULTIMA ESPERANÇA DE VIDA EXTRATERRESTRE

Sondas espaciais acabaram com mito da civilização marciana

Ao pousar nos desertos marcianos, em 1976, a sonda espacial Viking não detectou sinal de vida inteligente.

Os problemas com a nave Mars Observer, esta semana, levaram um grupo de entusiastas da vida extraterrestre a acusar a Nasa de ocultar a existência de marcianos. Para a agência espacial americana, os extraterrestres não estão em Marte e sim nas estrelas mais distantes. Em setembro do ano passado, a Nasa iniciou o projeto Seti, sigla de busca por extraterrestres inteligentes. Usando enormes antenas parabólicas em Goldstone, na Califórnia, e Arecibo, em Porto Rico, os astrônomos tentam captar sinais de rádio emitidos por uma civilização semelhante à nossa. Até agora a equipe da astrônoma Jill Tarter já registrou 164 sinais misteriosos no espaço, mas nenhum durou tempo suficiente para ser identificado.

A busca pela vida extraterrestre começou no século 17, quando Galileu Galilei apontou sua luneta para o céu. Em 1610, Galileu descobriu que a Lua e os planetas eram mundos no espaço. A idéia de que fossem mundos habitados tornou-se popular e foi incentivada por escritores imaginativos. No século 19, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli comunicou a observação de canais em Marte. O americano Percival Lowell confirmou a descoberta e afirmou que eram obra de seres inteligentes.

Com o início da exploração do espaço, em 1957, as hipóteses sobre vida em Marte foram derrubadas.

Em 1964, a sonda espacial Marine 4 fotografou o planeta, mostrando que os canais eram ilusão de ótica. Em 1971, a Mariner 9 revelou que Marte é um planeta morto, com mares e rios secos, imensos desertos e vulcões extintos com 20 quilômetros de altura. É possível que Marte tenha abrigado algum tipo de vida há milhões de anos, mas para procurar os fósseis desses animais seria preciso enviar homens ao planeta vermelho, o que custaria US$ 200 bilhões com a tecnologia atual.

A busca pela vida extraterrestre se deslocou para os pontos mais remotos do espaço. As naves Pioneer e Voyager mostraram que os planetas gigantes são frios demais para ter vida. Júpiter, Saturno, Urano e Netuno são mundos gasosos, sem superfície sói ida. Mercúrio é quente como um forno e em Vênus chove ácido sulfúrico. Resta a possibilidade de que existam mundos como a Terra orbitando estrelas distantes. Se houver civilizações como a nossa, poderemos captar seus sinais de rádio e televisão.

 

Baseado nessa hipótese, o astrônomo Carl Sagan iniciou o projeto Meta em 1991. Ele usa duas antenas parabólicas, uma na Argentina e outra nos Estados Unidos, para tentar captar sinais artificiais no espaço. A Nasa usa antenas mais poderosas, com o mesmo fim. Até hoje não descobriram nada".

 

Quanto aos discos voadores, ainda se lê:

 

"As 'visões' dos discos voadores

 

Para a maioria das pessoas a palavra extraterrestre se associa à imagem de discos voadores cruzando o céu. A palavra disco voador é uma tradução errada do termo americano flying saucers, que significa pires voadores. Foram aeronaves em forma de pires que o piloto Kenneth Arnold afirmou ter visto no dia 24 de junho de 1947, iniciando uma onda de relatos sobre aparições de supostos veículos e seres extraterrestres.

 

Algumas pessoas afirmaram ter visitado discos voadores e conversado com seus tripulantes, homens e mulheres vindos de Vênus. Em 1962, americanos e russos enviaram sondas espaciais para a Lua e Vênus e a fantasia acabou. A Lua era vazia e sem ar, Vênus tinha temperaturas de 600 graus centígrados, nuvens de ácido sulfúrico e pressões esmagadoras. Não poderiam existir seres humanos por lá.

 

Cientistas como Carl Sagan acham que tudo não passa de fantasia. O biólogo Stephen Jay Gould lembra que criaturas de outro planeta dificilmente teriam forma humanóide. Além disso, uma viagem da Terra às estrelas distantes levaria centenas de anos. Se algum dia recebermos a visita de uma nave extraterrestre, é mais provável que ela seja uma sonda automática."

Estes dizeres, sóbrios como são, emanados de fonte científica, dissipam as afirmações de Benitez. Pode-se crer que, em torno de extraterrestres, a imaginação tem sido fecunda, produzindo noções fantasiosas que sugestionam o grande público e levam muitas pessoas a julgar que tiveram ou têm contato com astronautas e naves misteriosas.

De resto, a fé católica nada tem a opor à hipótese de haver seres inteligentes em outros planetas. Deus revelou-nos o necessário para que nos santifiquemos juntamente com nossos irmãos na Terra, independentemente de haver ou não habitantes em sistemas solares distantes. Por conseguinte, a questão concernente aos extraterrestres é da alçada das ciências naturais: aos pesquisadores do espaço toca dizer se conseguem ou não conseguem perceber sinais de vida fora da Terra; importa ao cristão não misturar esse assunto com falsa mística e religião, pois isto deturpa as autênticas noções da fé.

 

Há mesmo teólogos que presumem haver seres inteligentes fora da Terra, pois lhes é difícil conceber tanta matéria esparsa pelas galáxias do universo sem alguma inteligência que a reconheça e dê glória a Deus, o seu Criador. Este arrazoado é válido, mas só pode ser confirmado mediante averiguações de ordem científica.

 

Quanto a Jesus Cristo e sua identidade professada pela fé, não é necessário tecer aqui longas considerações, visto que as declarações de Benitez não têm efeito impugnativo que mereça ulterior atenção; tal autor sai fora dos parâmetros do raciocínio e da ciência, de modo que não há necessidade de o refutar. Diz o adágio: "O que gratuitamente se afirma, também gratuitamente se pode negar".

 

2.2. Os milagres

 

A fé católica admite a possibilidade e a realidade de milagres, que o Evangelho de São João chama semeia ou sinais de Deus, sinais para dirimir alguma dúvida ou autenticar algum mensageiro ou ainda atender a uma prece humilde.

 

Para que algum fato portentoso possa ser reconhecido como milagre em Teologia, requer-se o preenchimento de três condições:

1)   seja um fato real, histórico, e não uma estória vaga e imprecisamente contada. Esta exigência elimina muitas narrativas de prodígios falsos ou imaginários.

2)   o fato real seja totalmente inexplicável pela ciência contemporânea ao evento. A ciência pode e deve investigar o ocorrido com toda a sagacidade; se suspeita de alguma possibilidade de explicação natural do fenômeno, a Igreja o descarta do rol dos possíveis milagres. Dizemos que basta que a ciência contemporânea não consiga explicar o fato, pois o milagre, como se sabe, é um sinal de Deus para os homens de determinada época.

3) o fato real e inexplicável é também examinado por teólogos para averiguarem os traços religiosos do fenômeno: terá ocorrido em resposta a prece humilde de fiéis? Ou houve algo que Deus não possa abonar, como charlatanismo, interesse comercial, vaidade...?

 

Somente quando preenchidas as três condições, a Teologia fala de milagre. A Igreja é sóbria em relação a tudo que é extraordinário, de modo que ela reluta para admitir milagres; há mesmo, nos processos de canonização dos Santos, um "Advogado do Diabo", que tenta contraditar os argumentos aduzidos em favor de portentos.

 

2.3. O Santo Daime

 

Benitez narra uma experiência de vôo fora do corpo em conseqüência do uso do chá de ervas dito "do Santo Daime". Devemos dizer que todos os relatos desse tipo são derivados da fantasia do narrador. A alma humana é o principio vital do corpo; caso saia deste para "passear pelos ares", dá-se a morte do indivíduo; um corpo sem alma não tem vida. Em sonho as pessoas podem imaginar estar voando fora do corpo, mas sonho não é realidade.

Estas ponderações evidenciam suficientemente quanto é capciosa e ilusória a posição de Benitez. Se faz tanto sucesso, isto se deve ao fato que ele mesmo registra: "As pessoas estão cheias de problemas e necessitam urgentemente de um pouco de paz, segurança e sorte e acreditam que podem encontrar isso com os adivinhos, a magia e o esoterismo". — Na verdade, as pessoas cansadas e desanimadas estão inconscientemente mais dispostas a admitir respostas e soluções mágicas, pois estão decepcionadas pelas teorias convencionais; o seu senso crítico está embotado, pois o desejo de sair dos seus problemas as leva a não refletir muito sobre as propostas "maravilhosas" de solução que lhes são feitas.

De resto, já diziam os antigos romanos: "Vulgus vult decipi. — A massa quer ser enganada". Há, sim, no fundo de cada adulto um pouco daquele gosto da criancinha, que gosta de ouvir coisas maravilhosas e dar-lhes crédito; o maravilhoso é muitas vezes mais interessante e atraente do que o real. Quem não desperta seu senso crítico, corre o risco de se deixar enganar. Não seja este o caso dos leitores de J.J. Benitez!


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