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Artigo

As relíquias, o protestantismo e a sola Scriptura

 

15 de dezembro de 2017

Por Fábio Tucci Farah e Carlos Evaristo

Fonte: Paraclitus

 

A igreja protestante festejou, em 31 de outubro, os 500 anos em que Martinho Lutero pregou – na porta da Igreja de Todos os Santos do Castelo de Wittenberg – o pergaminho com as 95 teses contra a Igreja Católica. Esse santuário abrigava a magnífica coleção com mais de vinte mil relíquias do Príncipe Frederico III, Eleitor da Saxónia, exposta para veneração dos fieis na Solenidade de Todos os Santos. O protesto contra o culto de Todos os Santos e de suas sagradas relíquias foi o início da Reforma Protestante, inaugurando uma nova fase na história da Igreja, a valorização da Palavra de Deus e o desprezo pelos sacramentais, santos, santuários, relíquias e atos piedosos devocionais e de penitência.

 

Dez anos após o começo da bravata solitária do ex-monge agostiniano, um exército comandado por Carlos V – instigado pelo recém-criado movimento cismático – promoveu o que se tornou conhecido como Saque de Roma. Centenas de católicos foram massacrados sobre o túmulo de São Pedro e inestimáveis relíquias cristãs tornaram-se alvo da ira protestante. Em um espetáculo infernal, várias delas foram destruídas e os santuários que as guardavam sacrilegamente profanados. Conta-se que a cabeça de São João Batista se transformou em bola de futebol e a lança que perfurou o torso de Cristo foi exibida como troféu de guerra.

 

Menos de duas décadas após a barbárie imperial, um francês lançaria um novo ataque às relíquias, perpetuando entre os protestantes o repúdio injustificado contra o tesouro sagrado e, consequentemente, contra sua guardiã: a Igreja Católica. No início do Tratado das Relíquias, João Calvino fundamenta sua refutação: “O primeiro vício, que podemos considerar a raiz de todo o mal, foi deixar de buscar Cristo na Palavra, nos Sacramentos e nas graças espirituais, para, segundo o costume do Mundo, entreter-se com vestes, capas e tecidos, deixando de lado o principal para ir atrás do acessório. O mesmo foi feito com os apóstolos, mártires e outros santos”.

 

Desde o início, os baluartes do protestantismo se basearam no princípio da sola Scriptura, reconhecendo apenas a Bíblia como fonte da doutrina cristã. A possibilidade de interpretar livremente as Sagradas Escrituras, ignorando a Tradição e o Magistério, permitiu o surgimento de inúmeras seitas. A necessidade de condenar o catolicismo – e ignorar quase um milênio e meio da Igreja que Cristo prometeu jamais abandonar – criou, para repetir as palavras de Calvino, o “primeiro vício”, “a raiz de todo o mal”. A despeito de excessos cometidos em relação às relíquias – que sempre escandalizaram os verdadeiros devotos e foram justamente criticados – condená-las é um grave erro. Não precisa ser doutor em teologia para defender a veneração às relíquias recorrendo-se à sola Scriptura.

 

O trecho da obra de Calvino anteriormente citado traz à tona uma passagem descrita nos três Evangelhos Sinópticos. Em São Mateus: “Ora, uma mulher atormentada por um fluxo de sangue, havia doze anos, aproximou-se dele por trás e tocou-lhe a orla do manto. Dizia consigo: ‘Se eu somente tocar na sua vestimenta, serei curada’. Jesus virou-se, viu-a e disse-lhe: ‘Tem confiança, minha filha, tua Fé te salvou’. E a mulher ficou curada instantaneamente”. Há algumas interpretações possíveis para o episódio. Seria interessante vê-lo à luz de um outro, que também salta aos olhos com o texto de Calvino: “… pelas mãos de Paulo, Deus operava milagres não comuns. Bastava, por exemplo, que sobre os enfermos se aplicassem aventais e lenços (chamados de brandea) que houvessem tocado seu corpo: afastavam-se dele as doenças, e os espíritos maus saíam”.

 

É bastante claro – aparentemente não o era para Calvino e seus pares – que a mulher que tocou nas vestes de Cristo e os doentes e possessos curados pelas relíquias de São Paulo não agiam “segundo o costume do mundo”, não estavam a “entreter-se com vestes, capas e tecidos”. E também é evidente que as relíquias jamais foram condenadas por Deus. Ao contrário, Ele se utilizava – e se utiliza – delas para operar “milagres não comuns”. E os milagres não ficaram restritos a vestes e tecidos sagrados. Ainda em Atos dos Apóstolos, a simples sombra de Pedro curava os doentes: “Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor. De maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles”.

 

E o que dizer dos corpos santos, tão caros aos primeiros cristãos? Deveriam simplesmente ser descartados como, usando as palavras de Calvino, “coisas corruptíveis e vãs”, capazes de provocar “um completo afastamento de Deus”? Para os huguenotes, protestantes franceses majoritariamente calvinistas, sim. Quase vinte anos após a publicação do Tratado das Relíquias, eles destruiriam os corpos de alguns santos. Entre eles, São Martinho e Santo Hilário

 

Uma passagem do Antigo Testamento oferece uma importante chave para a compreensão desse debate. Para os judeus, os corpos mereciam um sepultamento digno. No entanto, eram considerados impuros. Quem tivesse contato direto com um cadáver deveria se purificar antes de regressar à comunidade ou participar do culto divino.

 

Em II Reis, “Eliseu morreu e foi sepultado. Guerrilheiros moabitas faziam cada ano incursões na terra. Ora, aconteceu que um grupo de pessoas, estando a enterrar um homem, viu uma turma desses guerrilheiros e jogou o cadáver no túmulo de Eliseu. O morto, ao tocar os ossos de Eliseu, voltou à vida, e pôs-se de pé”. Em vez de lenços e aventais, Deus operou um milagre extraordinário por meio dos ossos de um justo, revelando que suas relíquias, seus restos, seus despojos, não eram impuros. Por meio deles, as graças divinas poderiam ser distribuídas aos Seus Filhos. Embora pouco compreendido na época, o episódio tornou-se claro após a ressurreição de Cristo e o amadurecimento da crença na ressurreição dos justos e na glorificação final dos corpos.

 

Mil e quatrocentos anos após o martírio de Santo Inácio de Antioquia e de São Policarpo de Esmirna – temas de um próximo artigo – Calvino contradizia a tradição cristã de preservar as relíquias ao afirmar: “Era dever dos cristãos deixar os corpos dos santos em seus sepulcros, para obedecer a essa sentença universal de que todo homem é pó e ao pó retornará, ao invés de elevar esses corpos em pompa e suntuosidade, como uma ressurreição antes do tempo”. Talvez por descuido, talvez por soberba, Calvino censurou o próprio Deus, que deixou descoberto o corpo de Eliseu e realizou o milagre da ressurreição através dele. Como realizaria milhares de outros no decorrer dos séculos por meio das relíquias de seus santos.

 

A reta devoção às relíquias está, conforme discutido, profundamente enraizada nas Sagradas Escrituras. É uma justa veneração aos santos dos quais fizeram parte. E se sustenta apenas em relação à Cristo, a quem eles devotaram a vida, tornando-se membros de Seu corpo. É Deus quem sempre distribui as graças. A oportuna e maliciosa confusão entre veneração das sagradas relíquias e adoração de “criaturas mortas” é uma falácia que reverbera nos púlpitos protestantes desde a Reforma. Ao longo da história, diversos santos notáveis – como São Jerônimo, São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis e São Carlos Borromeu – tiveram um especial apreço pelas relíquias. Seria temerário acusá-los de terem cometido um “sacrilégio execrável”. Seria vergonhoso chamá-los de “idólatras” e “contaminados com superstições”. No entanto, há um pecado mais grave do que esse. O Saque de Roma – e inúmeros outros crimes contra as relíquias – ecoa uma advertência de Cristo: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem”.

 

E os primeiros cristãos compreenderam isso muito bem. Relíquias preciosas da Paixão e morte de Cristo foram escondidas pelos discípulos ou disfarçadas de outras relíquias, na tentativa de preservá-las do tabu que proibia contato com objetos fúnebres. É o exemplo do hoje mundialmente conhecido Santo Sudário, venerado em Turim. Inicialmente, a relíquia foi apresentada como um pano de rosto dobrado e emoldurado, guardado por São Judas Tadeu. Seria o véu no qual Cristo teria deixado impresso o vulto sagrado ao limpar o suor. Quando a lenda foi exportada para Roma, surgiu a história do véu de Verônica, matrona de Jerusalém que teria enxugado o rosto de Jesus a caminho do Calvário. Verônica não é mencionada nos evangelhos e seu nome deriva da natureza da relíquia. Vera Icona: verdadeira imagem de Cristo, inexplicavelmente impressa no lençol que amortalhara Seu corpo.

 

Acabado o tabu, desdobrou-se a mortalha que se tornou conhecida com o nome equivocado de Sudário (Pano de Suor). Repudiar as relíquias que os santos e apóstolos arriscaram a vida para preservar é zombar do tesouro celeste, que também representa um bem cultural de valor incalculável. Profaná-las por ódio ou desprezo é chafurdar na lama do Inimigo.

 

 

Carlos Evaristo é arqueólogo, historiador e representante do Gabinete dos Patronos dos Museus do Vaticano para países lusófonos. Especialista em Iconografia Sacra Medieval e perito em relíquias sagradas de renome internacional, já examinou e autenticou, nos últimos 30 anos, as principais relíquias da Cristandade. Diretor de vários museus, é presidente da Fundação Histórico Cultural Oureana para a Pesquisa Religiosa e fundador e presidente da International Crusade for Holy Relics e do Apostolado pelas Relíquias Sagradas.

 

Fábio Tucci Farah é membro do Apostolado pelas Relíquias Sagradas, cavaleiro guardião de relíquias da International Crusade for Holy Relics (ICHR) – e seu delegado no Brasil –, especialista em relíquias da Arquidiocese de São Paulo e fundador e diretor geral do Departamento de Arqueologia Sacra da Academia Brasileira de Hagiologia (ABRHAGI)


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