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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 398 – julho 1995

Apologética

Celeuma sensacionalista:

 

A ENTREVISTA DE JACQUES DUQUESNE

 

Em síntese: Jacques Duquesne deu uma entrevista à rede GLOBO, na qual contestou vários pontos da exegese dos Evangelhos e da doutrina da fé, embora se dissesse autor católico. Ora verifica-se que Duquesne repete objeções já levantadas e refutadas, relativas aos irmãos de Jesus, à data do nasci­mento de Cristo, aos magos e à visita ao Menino... No artigo presente são reconsideradas duas das dificuldades propostas por Duquesne: 1) os irmãos (adelphoí) de Jesus e o uso das palavras gregas anépsios (primo) e syngenís (parente) no texto grego da S. Escritura (LXX e Novo Testamento); 2) o silêncio do Evangelho sobre o pecado original. A questão dos magos em Belém fica para o artigo seguinte.

Uma atenta consideração dos dizeres de Duquesne revela o tom superfi­cial do autor, que não conhecia as línguas semitas nas quais foram escritos os originais do Antigo Testamento e das quais se serviram os primeiros pregado­res do Evangelho.

* * *

Aos 19/02/95 o programa FANTÁSTICO da TV GLOBO emitiu uma entre­vista dada pelo Sr. Jacques Duquesne, que se dizia católico e havia escrito um livro sobre Jesus. O programa de televisão foi precedido por duas páginas do jornal O GLOBO, que propunha a mesma temática com alguns erros grossei­ros. Estas duas transmissões da rede GLOBO suscitaram alarde no público, de mais a mais que Duquesne diz professar a fé católica.

À guisa de esclarecimento, transcrevemos, a seguir, uma carta escrita ao jornal O GLOBO e publicada por este aos 13/02/95; após o quê abordaremos os temas atinentes aos "irmãos" de Jesus e ao pecado original. A questão dos magos em Belém será considerada no artigo seguinte.

 

1. A CARTA A "O GLOBO"

"O artigo publicado por esse jornal no último dia 03, às páginas 1 e 2 do Segundo Caderno, sobre o livro de Jacques Duquesne causou surpresa não pela importância das novidades que trazia, mas pela leviandade com que tra­tou o assunto 'Jesus Cristo'.

Antes do mais, chamam a atenção dois erros grossos: Jesus teria nascido no século V ou VI a.C., quando na verdade se deveria dizer: no ano 6o ou 5o antes do início da era cristã; além disto, à página 2 está dito que Jesus poderia ser o filho de Cristo, em vez de "Filho de Deus".

O artigo supõe que a Igreja 'guarde a sete chaves conclusões de especi­alistas'; na verdade, porém, nenhum cientista liberal pede licença à Igreja para publicar os resultados de suas pesquisas. Na Igreja nada há de esotérico, ocul­to, 'reservado a uma casta de sábios'.

 

O fato de São Paulo dizer que Jesus nasceu de uma mulher não contradiz à notícia da virgindade de Maria: parthénos (virgem) e gyné (mulher) em grego não se excluem mutuamente.

Ademais as pretensas contradições dos Evangelhos são explicadas pelos estudiosos que se dão ao trabalho de reconstituir os gêneros literários dos antigos. Em suma, poder-se-iam fazer outras ponderações, que não caberiam no espaço de uma carta". Pe. Estêvão Tavares Bettencourt (Rio).

 

2. ULTERIORES COMENTÁRIOS

Abordaremos dois dos pontos discutidos por Duquesne, visto que vários deles já têm sido repetidamente esclarecidos em números anteriores de PR.

2.1. Os "irmãos" de Jesus

Jacques Duquesne não podia deixar de tocar neste assunto. Já o temos considerado em PR 358/1992, pp. 119-123; 370/1993, pp. 124s; 376/1993, pp. 414s. Ao que acrescentaremos os seguintes dados:

Os ditos "irmãos de Jesus" são primos do Senhor, como já demonstrado, ou seja, filhos de Cleófas ou Alfeu, irmão de São José. - No caso, os primos são chamados "irmãos", porque o aramaico (língua em que foi primeiramente pregado o Evangelho) é idioma pobre, no qual diversos tipos de parentesco são designados pelo vocábulo genérico "irmão" ('ah). Eis, porém, que Duquesne observa que, embora o aramaico não tivesse a pluralidade de vocábulos ne­cessária no caso, o grego (língua em que os evangelistas escreveram) tinha essa pluralidade: para dizer primo, usava-se o vocábulo anépsios, e não adelphós (irmão) e, para dizer parente, usava-se syngenís. Ora, se os evangelistas não recorreram a estes vocábulos existentes em grego, mas fala­ram de adelphoí (irmãos), conclui Duquesne que Jesus tinha mesmo irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe.

A propósito observamos: uma atenta pesquisa do texto grego da Bíblia (Novo Testamento e tradução grega do Antigo Testamento dita "dos Setenta") revela que as palavras gregas anépsios e syngenís são aí muito raras e não ocorrem onde deveriam ocorrer segundo o bom uso da língua. Assim, por exem­plo, só uma vez no Novo Testamento aparece o termo anépsios, e isto numa carta de São Paulo, não nos Evangelhos, onde só se lê adelphoí: com efeito, Marcos é dito anépsios (primo) de Barnabé em Cl 4,10. O uso quase nulo de anépsios e syngenís, no texto grego da Escritura, explica-se pelo fato de que nenhum deste termos tem seu correspondente em hebraico ou em aramaico: estas duas línguas semitas empregam "irmão" e "irmã" para exprimir qualquer tipo de parentesco próximo. Veja-se, por exemplo, o livro de Tobias: o original aramaico perdeu-se, mas temos dele duas traduções gregas feitas dois sécu­los talvez antes da era cristã. Verifica-se que

-    segundo Tb 7,2, Ragüel em Ecbátana recebe Tobias (o filho) e diz à sua esposa: "Como este jovem é parecido com meu irmão Tobit (o pai)!" Na verda­de, Tobit (pai) era primo de Ragüel. Ora uma das duas traduções gregas expri­me-o mediante o vocábulo anépsios e a outra mediante adelphós;

-    a filha de Ragüel, Sara, que há de ser dada em casamento a Tobias, é apresentada como irmã de Tobias doze vezes, como evidenciam as próprias traduções vernáculas; ver Tb 7,10.12; 8,4. 27... Este linguajar é tão caracterís­tico que a nota m a Tb 7,12 na TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia) observa:

"Tobias emprega muito amplamente os termos irmão e irmã para desig­nar os correligionários (1,3...), os parentes (6,19) e os esposos (5,22; 7,12.15; 8,4-21; 10,6.13).

No Cântico dos Cânticos 4,9, a noiva é dita irmã do noivo protagonista do enredo".

É preciso levar em conta este costume lingüístico, que estava vivo nos tempos de Jesus e na época em que a Boa-Nova começou a ser anunciada em aramaico. Caso não considere este dado filológico, o intérprete há de supor no texto sagrado categorias de expressão ocidentais e anacrônicas, o que leva a conclusões exegéticas errôneas.

 

2.2. Jesus e o Pecado Original

Duquesne alega que Jesus não falou de pecado original. Por isto não se deve dar crédito à doutrina do pecado original como é ensinada pela Igreja.

 

A respeito observe-se o seguinte:

Nem tudo o que é de fé ou de Moral cristã está contido explicitamente no Evangelho. O próprio São João termina seu Evangelho observando que, fora do livro respectivo, ficou muito do que Jesus disse e fez; cf. Jo 20,30s e 21,25. O raciocínio de Duquesne levaria a dizer que o homossexualismo é lícito, por­que Jesus não o condenou; semelhantes conclusões poderiam ser deduzidas do silêncio do Evangelho. Para entender devidamente a mensagem do Senhor, é preciso levar em conta também a Tradição oral, que é anterior ao Evangelho escrito e o acompanha até hoje na Igreja, a quem Jesus prometeu sua assis­tência infalível; cf. Mt 16,16-19; Lc 22,31s; Jo 21,15-71.

Em Rm 5,12-14, segundo comentadores antigos e modernos, há uma insinuação do pecado original. O texto é controvertido, mas, sem ser violenta­do, pode ser tomado como testemunho de uma doutrina que se tornou clara no decorrer dos tempos.

Quanto à data do nascimento de Jesus, ver PR 300/1987, pp. 204-211. O assunto é relativamente secundário, pois não afeta a mensagem do Evangelho.


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