IGREJA (400)'
     ||  Início  ->  
Artigo

ALIENAÇÃO DO FERVOR RELIGIOSO

 

“A era moderna é tão religiosa como qualquer período histórico anterior e, em alguns lugares, é ainda mais”.

Peter Berger, Sociólogo e Teólogo

Professor na Universidade de Boston, EUA.

 

Depois do dia 11 de setembro de 2001, do funeral impactante do papa João Paulo II, da sinistra doença da depressão e da guerra contra o terrorismo mundial atraiu uma atenção especial para o papel da religião no nosso mundo pós-moderno.

A alienação do fervor religioso tem a mesma velocidade da internet e a mesma visibilidade do Facebook.

 

Vivemos a era da “rede internacional da alienação religiosa”. O senso crítico não existe na multidão. A manipulação em nome de Deus é um escândalo, é um atentado a verdade e a dignidade da pessoa humana. Escreveu a romancista e poetisa inglesa Edith Sitwell: “O público acreditará em qualquer coisa, desde que não esteja fundamentada na verdade”.

 

O pensamento cristão foi e sempre será da qualidade transubstancial da vida humana. Afirma o cardeal Dom Geraldo Magella: “Nós não queremos quantidade, queremos cristãos autênticos”.         A visão profética dos cristãos autênticos é a glória do martírio pela pregação da verdade que liberta o ser humano de toda e qualquer alienação: política, social, econômica, cultural e principalmente religiosa. É mais fácil enganar as pessoas em nome de Deus e da fé, do que em outro contexto.

 

“O mundo deseja ser enganado”, dizia o poeta e humanista alemão Sebastian Brant. Os cristãos autênticos decretam: “O mundo precisa encontrar a verdade”. Somente o conhecimento da verdade cristã, liberta o alienado, o manipulado e do engano dos falsos líderes religiosos, que pregam um fervor religioso escravocrata.

 

O papa Bento XVI afirma: “As religiões são consideradas todas equivalentes. Mas isso é falso. Existem, de fato, formas religiosas degeneradas e corruptas, que não edificam o homem, mas o alienam”. Diz sobre as seitas: “A cada dia nascem novas seitas e se realiza aquilo que diz São Paulo Apóstolo sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro”.

 

“A igreja está definitivamente na moda”, diz Adriano Schwartz, doutor em teoria literária pela USP. Qual é a igreja que está na passarela da moda? Não é a Igreja de Cristo e dos santos apóstolos, dos Padres do Deserto, dos mártires, dos apologistas, dos monges, da tradição patrística, dos santos doutores, da Sagrada Escritura, como Palavra de Deus, da Teologia da Cruz, do Patriarca, do Papa e da Santíssima Eucaristia. Não é a Igreja definida pelo Doutor da Graça, Santo Agostinho como: Una, Santa, Católica e Apostólica. Não é a Igreja que luta pela justiça social.

 

A igreja que está na moda é a que prega a teologia da prosperidade, o fervor religioso carismático emocional e da catarse, é a igreja do discurso pétreo dos três ‘pês’: “placebo, paliativo e panaceia”, é a igreja da corrupção política e econômica, é a igreja dos profissionais oportunistas, é a igreja da espetacularização celebrativa e capitalista.

 

Afirma o Dr. Haroldo Malheiro D. Verçosa, professor de direito comercial na USP: “Verdadeiramente existe no fundo de tudo uma luta pelo poder político e econômico, na qual a religião participa como um pretexto, frequentemente cooptada por oportunistas, tal como fez o imperador Constantino no passado”.

 

A matriz do pandemônio da alienação do fervor religioso é o Estados Unidos. O pesquisador George Barna calcula que, só nos Estados Unidos, mais de 10 milhões de pessoas que se definem como nascidos de novo encontram-se atualmente sem igreja. As pessoas ficaram desiludidas e cansadas e muitas não querem voltar para a igreja local na sua condição atual.  O teólogo americano Philip Yancey declara que há muita gente desapontada com a Igreja nos Estados Unidos. O teólogo protestante diz mais: “Parece-me que a Igreja está mais propensa a afastar as pessoas de Deus do que a aproxima-las Dele”.

 

O presidente da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos Jack Graham disse: “A Aliança Batista Mundial (ABM) está se tornando uma organização marginalizada e vem tendo uma influência cada vez menor para o Evangelho de Cristo no mundo”. A crítica desse porte a ABM demonstra a decadência protestante nos Estados Unidos.

 

O resultado dessa mudança hoje nos Estados Unidos e em outras partes do mundo é a alienação do fervor religioso. Daí o fundamentalismo, fanatismo e o “evangelho sem cruz”. “Qualquer evangelho que proclama o amor de Deus sem ressaltar que seu amor O levou a pagar, na pessoa de seu Filho, na cruz, o preço final pelos nossos pecados, é um falso evangelho”, diz o pastor James Montgomery Boyce.

 

A miserabilidade da “graça barata” dos crentes americanos envergonha o mundo. É o que diz a reportagem dos três jornalistas de Atlanta e Nova Iorque: William C. Symonds, Brian Grow, John Cady, de cujo título: Igreja Evangélica é grande negócio nos Estados Unidos (Jornal Valor, 07 de Julho de 2005, p. A12).

 

Igreja é o que não falta em Houston, uma cidade mergulhada no coração do chamado Cinturão Bíblico americano. Portanto, é surpresa que a maior da cidade – e dos EUA – esteja localizada em uma esquina deteriorada que a maioria da população jamais sonharia em visitar. Ainda assim, 30 mil pessoas enfrentam nos fins de semana o trânsito ruim das vias estreitas que levam à Igreja Lakewood, para ouvir o pastor Joel Osteen com suas mensagens de otimismo.

 

Um homem de 42 anos e aparência jovem, com um sorriso constante no rosto, ele garante aos milhares que aparecem a cada um dos cinco cultos do fim de semana que “Deus tem um grande futuro para você”. Seus cultos são tocantes e sempre incluem sua esposa, Victoria, que lidera os fiéis e sua mãe Dodie, que discute passagens da Bíblia. Osteen é tão popular que quase quadruplicou a frequência desde que assumiu o púlpito de seu falecido pai em 1999, conseguindo fiéis de outras igrejas, além de multidões de não convertidos.

 

Osteen diz: “Outras igrejas não evoluem e perdem fiéis por não mudarem com os tempos”.

 

O pastor Joel é um dos empreendedores evangélicos da nova geração que estão transformando sua ramificação do protestantismo em um dos grupos religiosos mais influentes e de mais rápido crescimento nos EUA. O sucesso fulminante desses empreendedores é moldado no setor empresarial. Eles tomam emprestadas ferramentas que vão do marketing de nicho à contratação de profissionais com MBA para conseguirem números maiores de fiéis.

 

Para atingir essas massas, os lideres mais espertos estão criando Escolas Dominicais que se parecem com a Disney World e cafés nas igrejas com o mesmo tipo de apelo da rede Starbucks. Embora a maioria mantenha uma visão religiosa rígida, eles descartam os hinos antiquados em favor da adoração multimídia e criam serviços para atender todos os tipos de necessidades do consumidor, de aconselhamento em divórcios e ajuda a pais com filhos autistas.

 

Como Osteen, muitos oferecem uma mensagem de otimismo entrelaçada com uma religiosa. Para fazer os novatos se sentirem em casa, alguns deixam de lado o simbolismo religioso padrão – até os quesitos básicos como a cruz e os bancos – e projetam igrejas que se parecem mais com casas de espetáculos modernas do que com locais tradicionais de adoração. (Ler: Rm 12:1,2; Tg 4:1-6; I Pd 1:14-19; I Jo 2:15-17).

 

Os novos líderes dessas igrejas estão disseminando suas ideias de todas as maneiras possíveis. O Novo Testamento, por exemplo, está sendo encartado em revistas de moda voltadas para diferentes segmentos de mercado – existe até uma versão hip-hop e uma voltada para garotas adolescentes.

 

A música cristã atrai milhões de jovens – que de outro modo jamais pisariam em uma igreja – proporcionando de tudo, de rock alternativo ao punk e o “screamo” (músicas com letras religiosas que não são cantadas e sim gritadas). (Ler: Hab 2:9,10; Amós 5:23, Ef 4:31).

 

No entanto, na medida em que eles prosperam, tensões crescentes estão havendo com os protestantes da corrente principal, que se sentem ofendidos por suas políticas conservadoras e marketing descarado. “Jesus não era capitalista; é só ver o que ele diz sobre o quanto é difícil entrar no céu se você é um homem rico”, afirma o reverendo Robert W. Edgar, secretário geral do Conselho Nacional de Igrejas de tendências liberais.

 

Especialmente controvertidos são líderes como Osteen, que defendem a riqueza material e dizem aos seus seguidores que Deus quer que eles sejam prósperos. Em seu livro, Osteen fala do desejo de sua esposa, Victoria – uma loira exuberante que se veste com roupas da moda - de querer comprar uma bela casa alguns anos atrás, antes que o dinheiro entrasse no orçamento da família. Ele achou que seria impossível. “Mas Victoria teve mais fé”, escreveu ele. “Ela me convenceu de que poderíamos viver em uma casa elegante... e vários anos depois isso aconteceu”. (Ler: Mt 6:19-21; 19:21,22; Lc 14:33; I Tm 6:7-11).

 

“Daquele que acredita que o dinheiro pode fazer tudo, pode-se suspeitar com fundamento que será capaz de fazer tudo por dinheiro”, afirmou o cientista americano Benjamim Franklin.

 

Alguns líderes evangélicos reconhecem que o materialismo flagrante pode aumentar o espectro da comercialização. Kurt Frederickson, um diretor do Seminário Teológico Fuller, de Pasadena, na Califórnia, alerta: “Precisamos ser cuidadosos quando um pastor vira um executivo-chefe e passa a se orientar pelo mercado, caso contrário poderá haver uma reação contra as mega-igrejas, assim como há contra a Wal Mart”. Muitos evangélicos afirmam estar só tentando atender as demandas não cumpridas pelas igrejas tradicionais. Craig Groeschel fez uma pesquisa de mercado com pessoas da área que não frequentam igrejas – e ouviu muita coisa. “Eles diziam que as igrejas estão cheias de hipócritas e que são chatas”, lembra-se. Então, criou a “igreja da Vida” para acabar com esses preconceitos, com animados serviços multimídias em um ambiente que se parece com algo entre um concerto de rock e uma cafeteria.

 

Uma vez estabelecidas, algumas igrejas ambiciosas transformam a disseminação de seu conhecimento em um grande negócio. A Igreja Comunitária de Wilow Creek, em IIlinois, criou um braço de consultoria chamado Wilow Creek Assn. Ele ganhou US$ 17 milhões no ano passado, em parte com a venda de consultoria de marketing e administração para 10.500 igrejas –membros de 90 denominações.

 

Jim Mellado, o MBA por Harvard que o administra, comprou em 2004 um número surpreendente de 110 mil igrejas e prepara líderes para fazerem seminários sobre tópicos como liderança eficiente. “O impulso empresarial vem do mandamento bíblico de transmitir a mensagem”, diz o fundador da Wilow Creek, Bill Hybels, que contratou Greg Hawkins, MBA por Stanford e ex-consultor da Mckinsey, para conduzir a administração diária da igreja. Os métodos da Wilow Creek viraram caso de estudo na Harvard Business School.

 

A abordagem voltada para o consumidor adotada por Hybels é evidente na Wilow Creek, onde ele aboliu vitrais, bíblias e até a cruz no recém-construído santuário para 7.200 pessoas, de US$ 72 milhões. O motivo? Uma pesquisa de mercado sugeriu que esses símbolos tradicionais podem afastar pessoas que não vão à igreja. Todo esse crescimento, mais o dízimo que muitos evangélicos encorajam, está gerando rios de dinheiro. Uma igreja americana tradicional possui menos de 200 membros e um orçamento anual de US$ 100 mil. Uma mega-igreja atrai em média US$ 4,8 milhões, segundo estudo feito em 1999 pelo Hartford Seminary, um dos poucos que existem sobre o assunto. O dinheiro está alimentando o boom de construção dessas igrejas.

 

Apesar de seu sucesso, cuja continuidade aparentemente não tem como ser impedida, os evangélicos precisam lutar com forças poderosas da sociedade americana. As fileiras de americanos que não demonstram ter nenhuma preferência religiosa quadruplicaram desde 1991, para 14% segundo pesquisa recente.

 

As grandes denominações – incluindo a Igreja Metodistas Unidos e a Igreja Presbiteriana – vêm encolhendo há décadas e já perderam mais de 1 milhão de membros somente nos últimos dez anos.

Hoje, os protestantes da corrente principal respondem por apenas 16% da população dos EUA, segundo o cientista político John C. Green, da universidade de Akron.

Rica, bela e bem-sucedida, a cantora pop star Madonna disse: “Nós, americanos, somos obcecados por valores totalmente errados, como ser bonito, ter dinheiro no banco, ser bem sucedido”.

Muitas igrejas ditas evangélicas estão vivendo na porta larga e no caminho espaçoso, (Mt 7:13,14). Seguem mudanças a luz dos seus próprios interesses.

 

Na Reforma Protestante foi dito:

Cristo sim, Igreja não.

 

Na Revolução Francesa:

Deus sim, religião não.

 

Na Revolução Científica:

Evolucionismo sim, criacionismo não.

 

Na Revolução Comunista:

O homem sim, Deus não.

 

No Pluralismo Religioso da pós-modernidade os axiomas são:

Relativismo sim, dogmatismo não.

 

Não a ortodoxia da fé cristã bíblica é a cisão de muitos líderes religiosos. Os chefes e seus crentes renegaram a sã doutrina apostólica, (II Timóteo 4:1-5).

Peter Berger diz: “O que a modernidade traz consigo, mais ou menos inevitavelmente, não é secularização, mas pluralismo – a coexistência pacífica de distintos grupos raciais, étnicos ou religiosos na mesma sociedade”.

 

O fervor dos verdadeiros cristãos deve ser na luz do divino Espírito Santo, com fundamento da interpretação exegética bíblica e teológica, tradição e magistério para eliminar radicalmente qualquer traço de alienação, manipulação, fundamentalismo, fanatismo, relativismo e capitalismo.

“Se alguém tem o dom do serviço, exerça-o como capacidade proporcionada por Deus, a fim de que em todas as coisas, Deus seja glorificado, por Jesus Cristo, a quem pertencem à glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém. (II Pedro 4:11).

 

Tudo deve ser realizado para exaltação de Cristo, a centralização do seu Evangelho e a salvação das pessoas à Casa do Pai Eterno.

 

Frei Inácio José do Vale

Professor e conferencista

Sociólogo em Ciência da Religião

Formador dos Irmãozinhos da Fraternidade de Charles de Foucauld

E-mail: [email protected]

 

Fontes Consultadas:

R N. Chaplin, J.M. Bentes. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora e Distribuidora Candeia, 1991, Volumes 1 e 2.

El Wella A. Walter. Enciclopédia Histórica Teológica da Igreja Cristã. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1988, Volumes 1,2 e 3.

Revista Carta Capital, 13/Abril/2005, p.22.

Revista Veja, 27 Abril/2005, pp.74 e 76.

Revista Impacto, nº 39, Jan/Fev.2005, p.22

Revista Graça/Show da Fé, Fev.2004, p.82.

Revista Fé para Hoje, nº 7, 2000, p.19.

Revista Seu mundo, Ano 1, nº 00, 2005, p.04.

Jornal Valor, 03/Maio/2005, p. A12.


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
2 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 

:-)