PRáTICA CRISTã (645)'
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Artigo

Modernismos e supostas dubiedades

O Cristo é sempre o mesmo, mas para o modernista tudo é ruído

Discussões paralelas fazem com que se ignore o próprio Cristo entre nós

A Revelação acabou com a morte do último dos Apóstolos. Escreveu São Paulo: “Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema” (Gl 1,8). A Doutrina cristã não muda, nem pode mudar. O que acontece é apenas um aprofundamento na compreensão de algumas de suas consequências, sem que isso jamais tenha de alguma forma o dom de modificar a Doutrina revelada.

Mais ainda: a Doutrina cristã não é uma série de regras, de listinhas de coisas proibidas e coisas obrigatórias, mas o próprio Cristo — “Eu sou a verdade”, disse-nos Ele; a Verdade é uma Pessoa — e sua vivência a própria Imitação do Cristo. Ela tampouco é uma ideologia, um sistema de pensamento que se considera apto a transformar a realidade pela sua aplicação prática.

Já a modernidade é fundamentalmente ideológica. Desde o Cogito de Descartes (“Penso, logo existo”) predomina o erro segundo o qual o pensamento, a ideia, é o que tem existência real. A realidade, segundo o pensamento moderno, é incognoscível mas ao mesmo tempo, talvez por isso mesmo, plástica e maleável, e deve ser dobrada à força da ideia. Isto se expressa no âmbito eclesial com força tremenda no dito Primeiro Mundo — Europa e América do Norte — onde o pensamento moderno conseguiu dominar a sociedade praticamente toda. A moral, nos meios modernos, foi substituída por listinhas de proibições e obrigatoriedades. É “imoral”, para eles, atravessar a rua com o sinal fechado para pedestres, mesmo que não venha carro algum. É a ideia tomando a frente, a ideia dirigindo a realidade, de forma que faz lembrar os pecados dos fariseus que Nosso Senhor condenou, como quando colocavam seus bens formalmente “à disposição do Templo”, nomeando-se usufrutuários, e por isso negavam auxílio aos próprios pais idosos, alegando que tudo o que tinham “pertencia ao Templo”. Era a letra da Lei sendo usada, num golpe de judô do Pecado, contra a própria Lei maior.

O farisaísmo voltou vitaminado com a Modernidade. Uma das formas fundamentais desse pensamento moderno, que alguns percebem como imitação do maometanismo, é a idolatria do papel escrito. O que é posto no papel — na lei civil, penal ou mesmo administrativa, por exemplo — teria o dom mágico de transformar a realidade, justamente por ser a forma preferencial de transmissão da ideia que deveria modificar a realidade. Isto vira de cabeça para baixo a ordem natural das coisas, que pressupõe que a ideia seja testada pelo confronto com a realidade, não o contrário. A Verdade é a adequação do intelecto à coisa, não da coisa ao intelecto. Menos ainda da coisa ao papel, como um triste alemão parado às três da manhã em uma avenida deserta porque uma luz colorida o proibiria de atravessar.

Quis a Divina Providência, contudo, que para ajudar a Igreja a se levantar da crise moderna, provavelmente a maior crise por que a Igreja já passou, fosse elevado ao trono de Pedro um Papa “do fim do mundo”, de um lugar aqui ao lado (estamos também no fim do mundo!) aonde a modernidade não chegou, ou — como aqui — chegou apenas de forma extremamente superficial, num discurso da boca para fora das elites, sem que jamais tenha havido engajamento real nela, sem substituição da moral pela lei, sem idolatria do papel. “O papel aceita tudo”, dizemos nós. E “mais vale ter amigos na praça que dinheiro em caixa”. Esses ditados são incompreensíveis no contexto da modernidade, mas orientam a nossa vida e a vida do Santo Padre.

Pensemos numa boa senhora do Apostolado da Oração, ou simplesmente em qualquer brasileiro de bom senso. Se alguém faz uma lista de proibições alimentares devidas a uma dieta, e não proíbe explicitamente comer ração de cachorro, disso não se pode inferir que se esteja propondo uma dieta à base de ração de cachorro. A ideia, por absurda que é, não se coloca nem tem como se colocar.

Não é este o caso, todavia, quando se trata do pensamento moderno. O que vale é o papel, o- que vale é a ideia. Se a ideia for “mais longe” que o papel, ele é mesmo assim usado como suposta base para voos maiores. Foi o que ocorreu quando os modernistas esqueceram o texto do Concílio Vaticano II, ou no máximo limitaram-se a usar uma que outra frase fora de contexto, para pregar um falso “espírito do Concílio” que nada tinha a ver nem com ele, nem com a Sã Doutrina, nem com a verdade que é nosso Senhor Jesus Cristo. O papel idolatrado serve como trampolim, como rampa de lançamento de foguetes para que as ideias, sempre as ideias, cada vez mais distantes do real, ganhem força e tentem modelar a realidade. Tal é a prática moderna desde seus primórdios, como se pode perceber em todo tipo de pensamento ideológico, como se pode perceber em toda a prática política e social do Primeiro Mundo nos últimos séculos. E é esse mecanismo vicioso que levou a Auschwitz, é esse mecanismo hediondo e doentio que levou aos Gulags russos e aos campos de morte do Camboja comunista. Os participantes da Revolução Cultural chinesa brandiam um livrinho vermelho de citações do Camarada Mao como se aquilo fosse a chave do Reino dos Céus, e é assim que eles se sentiam: a ideia abrir-lhes-ia as portas de uma realidade maior e sonhada.

No âmbito eclesial, o modernismo — como já escrevi alhures — caracteriza-se por não perceber como real a Sã Doutrina, que é o próprio Cristo. Em outras palavras, a realidade da Encarnação do verbo lhes é alheia, tendo sido substituída pela ideia. Ideia de liturgia, ideia de política, ideia de igualitarismo ou de clericalismo (ou de ambos!), ideia que se propõe a transformar uma realidade plástica. Assim, para o modernista, de direita ou de esquerda, a realidade da vida cristã desaparece, e a própria Doutrina cristã — que é basicamente uma longa explanação de quem é o Cristo em Quem vivemos — torna-se uma espécie de joguinho mental de teologia, afastado da realidade.

Se tomarmos as palavras de Nosso Senhor, veremos que Ele nos mandou fazer coisas. Ele nos indicou qual é a forma de ação do cristão, que deve dar comida a quem tem fome, água a quem tem sede, vestir quem está nu, etc. Desde os primórdios da Igreja, o pensamento teológico foi sempre um aprofundamento na autoridade de Quem ensina: os primeiros sete Concílios ecumênicos são basicamente dedicados a discernir e explicar Quem é o Cristo.

Mas a Fé cristã é a Fé no Cristo. Não é a fé na explicação de quem é o Cristo. Em outras palavras: a senhora do Apostolado da Oração sabe que Nosso Senhor é Deus verdadeiro e homem verdadeiro, mas sabe mais ainda que ela deve rezar por ela mesma e pelos demais, que deve pedir a intercessão da Santíssima Virgem, Medianeira de Todas as Graças, deve dar comida a quem tem fome, e por aí vai. A Fé deve ser vivida. Uma fé teórica, uma fé livresca, não é uma Fé verdadeira.

Mas o modernismo não é capaz de perceber a realidade, não é capaz de perceber a vivência da Fé, e por isso a ignora completamente, em prol de uma suposta situação fluida no terreno das ideias. Como eles não são capazes de perceber a imutabilidade de Deus e de Sua Doutrina, é para eles evidente que mudanças podem acontecer o tempo todo — afinal, basta pensar em algo diferente e já se tem uma “coisa” mental mais real que a própria realidade! Eles vivem em um perpétuo devir, como quem flutuasse em um rio e precisasse nadar para trás para tentar permanecer à vista de algo valioso… ou como se a própria corrente fosse percebida como a fonte de toda maravilha. São estes os modernistas de direita e de esquerda, respectivamente: ambos imersos na mudança, no devir, na corrente, sem perceber que na verdade estão, ou deveriam estar, assentados na Rocha do Senhor pela força do seu batismo.

Daí a estranhíssima — e em muitos aspectos, como aponta frequentemente o Santo Padre, farisaica — relação dos modernistas com os textos. Eles são por um lado objeto de idolatria, assumindo — como portadores da Ideia — poderes extraordinários. Uma notinha de pé de página de uma exortação apostólica teria o dom mágico de romper com dois mil anos de Doutrina, de provocar ações e transformações da realidade completamente inauditas. Por outro, a letra do papel é apenas um trampolim para outros atos (decorrentes das ideias, mas para eles menos importantes que elas). Desta forma, Se eles lerem, na sua estranha hermenêutica que não leva o próprio Cristo em consideração e percebe tudo como em perpétuo devir, que algum cisne é negro, passam rapidamente a afirmar que todos os cisnes são negros, ou que os buracos negros são gigantescos bandos de cisnes voadores. É isso o que fizeram com o Concílio Vaticano II e o famigerado “Espírito do Concílio”.

Vale notar que o mesmo fenômeno acomete os modernistas de direita e de esquerda. Ambos, por exemplo, acreditam no “Espírito do Concílio”; a única diferença é que os de direita ficam horrorizados com ele — no seu afã de nadar rio acima para permanecer no mesmo lugar — enquanto os de direita ficam encantados. É por isso que os modernistas de direita tendem a mostrar fotos de missas em que o celebrante está vestido de palhaço, ou abusos semelhantes, como se elas fossem o modelo da celebração pelo Missal de Paulo VI: eles acreditam num “Espírito do Concílio” que realmente faria com que esse fosse o ideal, mas por não gostar dele o mostram de forma “feia”. Já os modernistas de esquerda fazem a mesma coisa, ao tentar “desconstruir” a liturgia para torná-la antropocêntrica. Ora, nenhum Missal jamais foi antropocêntrico, que dirá alguma Missa. Pode-se até esconder uma Missa com bandinhas de roque ou mesmo bandeiras vermelhas e enxadas sobre o altar (meninos, eu vi), mas a Missa será sempre o Sacrifício de Nosso Senhor tornado novamente presente de forma incruenta. E a senhora do Apostolado da Oração sabe disso. E o Papa sabe disso. Mas os modernistas preferem se ater ao acidental. Há mesmo modernistas de direita que, por falta de Missa celebrada em algum rito que corresponda à sacrossanta ideia que adoram, ao invés de ir à Missa assistem vídeos de Missas no Youtube! É a vitória final do acidental sobre o essencial, das aparências sobre a verdade, da ideia sobre a realidade. É a perdição e o pecado. É a Abominação da Desolação.

A realidade é sempre muito maior e muito mais vívida que qualquer ideia. Descartes achava que sua cadela era uma máquina; nós hoje sabemos que a complexidade dos sistemas fisiológicos do cachorro é tamanha, que ninguém consegue entender perfeitamente como funcionam. A cadela é um ser vivo, não uma máquina. Conhecemos cachorros brincando com eles, caçando com eles, apegando-nos a eles e vendo-os crescer e morrer, adestrando-os, dando-lhes banho e escovando-os. Não conhecemos cachorros matando-os e abrindo-lhes as barrigas para pesar cada órgão interno. Só o que conheceremos assim será um cadáver de cachorro, que não é em absoluto a mesma coisa que um cachorro. De certa forma, o cadáver de um cachorro é a própria negação do que é ser cachorro: ele já não ama mais, e um cachorro é puro amor.

A complexidade gigantesca da realidade faz com que ela não seja, nem nos delírios mais grandiloquentes dos modernistas, totalmente apreendida. Até mesmo a forma de funcionamento de nossos órgãos dos sentidos é assim: se enxergamos uma floresta, não enxergamos as árvores individuais.

E aí entram as dificuldades dos modernistas em relação à Teologia Moral. Um bom manual de Teologia Moral terá definições e até casos, mas a realidade sempre será maior e mais rica que o maior e mais detalhado dos manuais. O mundo real não tem manual. Enquanto os modernistas, tanto de direita quanto de esquerda, enxergam a teologia moral como algo binário, em preto e branco, negativo e positivo, e, mais ainda, algo binário flutuando num devir constante em que o negativo pode se tornar positivo se não houver uma forte ação de manutenção, na realidade a sua casuística prática — a realidade moral — poderia ser comparada a uma enorme várzea de rio, em que se encontra desde a coisa que se dissolve na água até a que se resseca ao sol, com milhares, milhões, de microcondições possíveis de exposição ao sol e à umidade.

No caso de segundas núpcias, por exemplo, não se pode comparar uma senhora de setenta anos que se casou, foi abandonada pelo marido com poucos anos de casada e tomou outro homem, tendo filhos com ele e sendo-lhe fiel durante décadas, até os dias de hoje, quando por razões de idade não têm mais relações conjugais, e um adúltero crônico, que se case e descase por gosto e já esteja na terceira ou quarta mulher, uma modelo-e-manequim eslovena ou coisa parecida. Eles estão em pontos diferentíssimos dessa enorme várzea da moralidade. Ela não tem mais relações conjugais com o companheiro, mas não é por gosto nem por virtude, sim pela idade. Como pesar isso? Como calcular isso? O que é essa relação dela? E a outra, que não se casou porque foi convencida de que precisaria fazer uma festa gigantesca, e não tem dinheiro para isso porque tem filhos para criar e ganha uma miséria?

Estes são casos que poderiam ser reais. São casos como os que os sacerdotes e os Bispos irão encontrar pela frente e ter que medir, sopesar, lidar. Quem está em estado de graça? Santa Joana d’Arc, ao ser interrogada sobre se estava, disse que se estivesse pedia a Deus que nele a mantivesse, e se não estivesse pedia a Deus que a ele a trouxesse. E é muito mais penoso a um juiz de almas no tribunal do confessionário discernir isso. Onde está o Cristo?

Mas para os modernistas, presos no seu perpétuo devir, a questão simplesmente não se coloca. Os de esquerda aceitam o que vier — lembro-me de uma modernista de esquerda que, quando o Presidente Clinton comungou(!), disse que era como se um passarinho comesse uma hóstia consagrada(!!). Os de direita tendem a fazer exatamente o mesmo binarismo, mas em sentido oposto, tentando aplicar cegamente à realidade uma ideia idolatrada de uma santidade que consistiria em adesão a uma série de gostos particulares e questões da moda. Para eles, é necessário que tudo seja em preto e branco, e, mais ainda, é necessário que se nade fortemente contra uma corrente que tudo arrastaria. Eles não percebem que esse devir é ilusório, que a Igreja está assentada sobre a Rocha.

É por isso que temos esse horrendo mal-entendido constante, que hoje vem chegando, pelo comportamento de alguns prelados, às raias do escandaloso: o que ensina o Santo Padre é sempre tomado como de alguma forma bizarra independente ou mesmo contraditório com a Sã Doutrina, o que é por si absurdo, na medida em que o que o Papa faz é justamente ensiná-la. Assim, se se tem uma frase que diga que há cisnes negros, percebe-se uma necessidade absurda de explanações sobre como nem todos os cisnes são negros, ou como os buracos negros não são compostos de bandos de cisnes.

Isto ocorre porque a hermenêutica com que lidam com qualquer coisa escrita é a modernista: a coisa escrita é sempre percebida como ao mesmo tempo imensamente poderosa, modificando a própria estrutura da realidade, e como um trampolim para voos mais altos, e sempre imersa num devir que a tudo arrasta. Assim, dá-se, para começar, uma importância absurda a qualquer coisa escrita.

Em segundo lugar, considera-se que — devido à imersão na fortíssima corrente do devir — a coisa vai transformar a realidade em um sentido “progressista”, a não ser que haja uma ação forte para bloqueá-la em sua descida de rio, preferencialmente com uma muralha de outras coisas escritas. Assim, não basta mencionar nosso pai Adão: é preciso contar de novo toda a história do Pecado Original, ou os modernistas — de direita e de esquerda — presumiriam que ao falar de Adão sem contar a história da Queda se estaria negando a Queda em ato ou em potência. E então eles tomariam esse texto que menciona Adão como trampolim para outras ideias, cada vez mais distantes da realidade, chegando efetivamente a negar a Queda e achando-se plenamente justificados por terem sido “autorizados” a isso por um pedaço de papel com letras impressas. Isto é a essência da modernidade, e a essência do modernismo, a “síntese de todas as heresias”, a heresia mais fluida e mais perigosa que já atacou a Igreja, exatamente por sua indiferença para com a realidade.

O que o Santo Padre está fazendo é tentar combater esse fenômeno. Para isso, ele se nega a entrar nas maluquices e picuinhas dos modernistas, e simplesmente os ignora. Ele ensina o que deve ensinar, principalmente que se deve ter uma vida cristã — pois a Fé cristã não é uma fé sem obras, não é uma fé intelectual, sim uma Fé vivida, a Imitação de Cristo, a imersão na Santíssima Trindade, o acolhimento e imitação do Sim mariano, a entrega nas mãos da Mãe da Divina Graça. Se aparecem modernistas querendo incluí-lo em seus joguinhos de palavras, ele os ignora com razão. Responder seria dar-lhes razão, seria fortalecê-los no erro e fazê-los crer que a realidade seria, sim, esse devir plástico e permanente que eles creem que seja, coisa que nega em última instância o próprio Deus, a Encarnação do Verbo e a Eternidade. Seria como se o Cristo da ilustração acima fosse responder a cada besteira que os transeuntes ao seu redor dizem.

O Papa não é nem um pouco ambíguo. Ele simplesmente toma, como deve tomar, a Fé cristã em sua íntegra como pressuposto hermenêutico. Tudo o que ele diz está de acordo com tudo o que sempre foi crido por todos e por toda parte. A única maneira de negá-lo é partir do pressuposto hermenêutico modernista do perpétuo devir, da descontinuidade absoluta entre um momento e outro. O Papa Bento XVI tentou ensinar isso, ao falar da “hermenêutica da continuidade”, ou seja, o óbvio pressuposto hermenêutico de que o que é ensinado hoje está em continuidade com o que foi ensinado antes. No Pontificado de São João Paulo II, do mesmo modo, uma forte instrução aos teólogos já dizia a mesma coisa. É o óbvio, mas para o modernista é um imenso mistério. Talvez o próprio Mistério da Iniquidade, a Abominação da Desolação, que é a negação do Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre.

Infelizmente, a leitura feita pelos modernistas de direita foi de que o Papa Bento XVI os estaria apoiando em sua tarefa auto imposta de nadar para trás para não serem arrastados por uma corrente inexistente num mundo de descontinuidade absoluta, e a feita pelos de esquerda foi uma mera desconstrução do texto de forma a transformá-lo — exatamente como o fizeram os modernistas de direita — numa espécie de predileção pessoal papal por roupas rendadas e paramentos dourados antigos.

Como os modernistas estão imersos nesse perpétuo devir, eles sempre encontrarão “dubiedades” como falar de Adão sem explicar a Queda. Tudo o que existe para eles num dado momento é aquela dada ideia, é aquele dado papel. Ele existe sem continuidade alguma, sem ligação alguma com todo o resto da estrutura da realidade, e por isso ele deve sempre ser autossuficiente.

Ora, isso é simplesmente impossível. Não há como fazer declarações autossuficientes. Se se diz que Deus é amor, o modernista quererá saber o que é Deus, o que é amor, e o que é a relação indicada pelo verbo “ser”. Sem um outro pedaço de papel que elimine essas possibilidades, “Deus” pode ser Vishnu ou Brahma, “é” pode ser “está”, “amor” pode ser “luxúria”. É esse o temor absurdo dos modernistas de direita, e essa a razão da alegria dos modernistas de esquerda, todos unidos numa hermenêutica da descontinuidade absoluta.

O Papa tem toda razão: existem os catecismos, existem as encíclicas e todo o Magistério Ordinário e Extraordinário, existe a Sagrada Escritura, existe a Tradição Oral, e é nisso tudo que se deve procurar a “solução” de qualquer suposta “dubiedade”. A realidade não é feita de pedacinhos de papel escrito, muito menos de delírios supostamente justificados por eles. Um cisne negro não diz nada sobre a formação dos buracos negros. O múnus papal de ensinar não pode ser coibido por demandas absurdas de quem nega a própria realidade.

A Europa, graças ao último Consistório, já está finalmente em minoria no Colégio Cardinalício. Falta diminuir a representação da América do Norte, e a presença modernista já estará diminuída o bastante para que se possa continuar a árdua tarefa de evangelizar, sem ser parado a cada segundo por demandas absurdas de reiterar o que é e sempre foi evidente.

Oremos pelo Santo Padre, na sua dura batalha!

 

Carlos Ramalhete

Fonte: Medium


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