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Artigo

Triste Venezuela em 3 atos

 

Sergio Sebold

Economista e professor independente

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1º - O que está acontecendo

 

Segundo a Agência Fides, não é difícil encontrar pessoas vasculhando latas de lixo nos restaurantes, no centro das grandes cidades venezuelanas, em busca de comida (não são pedintes de rua), porque os supermercados (estatais) estão com as prateleiras vazias. Claro, tudo culpa da “exploração” capitalista, segundo Maduro, fiel escudeiro do sonhador Chaves que já bandeou para o outro lado da vida. Não o Chaves mexicano do programa humorístico, mas o venezuelano, que o nomeou como herança política, que de “maduro” em democracia não tem mais nada.

 

A derrocada econômica de depender de um único produto de exportação está levando o país à condição de plena miséria. Para completar, assumiram o enfoque ideológico do socialismo que alguns malucos pretendem ressuscitar. Muitos marxistas empedernidos não se conformam com a derrota da história, onde ficou confirmado seu fracasso ideológico, econômico, social e cultural.

 

O país do socialismo latino do século XXI está se transformando no país das filas sem fim para obter o básico, e quase sempre voltar com as mãos vazias e a barriga roncando de fome; tal como terminou a Ex-União Soviética.

 

Este é o resultado para aqueles que forem pedir as bênçãos de Fidel, o pai de santo no terreiro de Cuba. Assim como quase toda a ingênua America Latina, - Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Uruguai e outras do Caribe - que caíram na lábia do megalomaníaco Chaves, por pretender “unir” toda a América Latina, antigo sonho do compatriota Simão Bolívar. Por exemplo, hoje UNASUL.

 

O sonho de Bolívar era visão oportuna de um estadista, mas os de hoje são meros leitores do catecismo de Marx e Cia., contra o “capitalismo predador” sugeridos pelo guru cubano. Aliás, teve um que nunca leu um livro na vida, do que se ufana. Coitado.

 

Todos que caíram no encanto socialista estão pagando ou, pagarão caro pelos problemas econômicos e sociais que criaram. Vejam Cuba estendendo as mãos de desespero pedindo socorro no mar da miséria que se meteu, onde o Papa Francisco interferiu pedindo aos EUA que os salvassem; o ranço da história não mais se justifica segundo o Papa argumentou. Infelizmente a Venezuela (por enquanto) está seguindo o mesmo caminho da história socialista.

 

Segundo o Pe. Luciano Toller, Brusque/SC que recentemente esteve na Venezuela, “é triste ver um país em ruínas, onde nas estradas mal conservadas se veem carros abandonados por não haver mais peças de reposição; o racionamento chegou ao ponto onde cada família tem uma caderneta emitida pelo governo para receber um kit básico de ração por mês (que nunca é suficiente) ”.

 

2º - Socialização da economia

 

Na minha infância, quando uma fruta estava “madura” se apanhava e comia. Mas o fruto que se está comendo na Venezuela está adquirindo um sabor cada vez mais amargo pela política socializante adotada naquele país. Alias, já estão comendo pela miséria que o país está passando nas mãos de um doente mental, desequilibrado.

 

Usando uma manchete de efeito: “Socialismo venezuelano é onde se geme de fome e o que sobra a inflação come” (Luiz Dufaur). Este é o atual país que no passado tinha a glória da segunda maior jazida de petróleo do mundo; enriquecida na década de 70 com o salto do preço do petróleo. Agora, não tem mais moral de interferir nos preços mundiais pelo sucateamento industrial de sua produção, passando à condição de subserviência.

 

Atualmente para fazer compras no mercado tem que ficar 6 horas numa fila para poucos produtos disponíveis. De cada 10 que se procura 8 não existem. Para amenizar o problema, foi criado um limite de compras que, dependendo do último algarismo da identidade, haverá um dia para que possa fazê-la. Pela lógica numérica somente se pode comprar “livremente” cada 10 dias, se houver mercadoria.

 

O sistema educacional é de razoável para bom. Infelizmente a saúde é dolorosa, um martírio, falta tudo, médicos, hospitais, equipamentos, remédios, principalmente naquilo que dependa de importação. O país não tem mais reservas para suas compras no exterior. A grande fonte de renda externa que foi o petróleo minguou; para complicar, a queda atual dos preços internacionais do petróleo arrasou com a economia dependente. O nacionalismo imposto por Chaves de expulsar as multinacionais e de nacionalizar continuou no período de Maduro. Hoje falta de tudo, de pasta de dente até papel higiênico. Neste particular é comum encontrar produtos básicos brasileiros nas prateleiras dos supermercados; quando os há.

 

A violência tomou conta do país já quase sem controle, pelas dificuldades de se satisfazerem as necessidades básicas da população. Não houve no passado incentivo à cultura de produção própria, desde a agricultura até aos produtos cotidianos; tudo era importado, pela força da abundância dos dólares promovidos pelo petróleo, que agora secou. Para os economistas a Venezuela foi afetada pela “doença holandesa”. A cidade de Caracas, no passado símbolo de opulência e beleza arquitetônica é hoje totalmente rodeada pelos “barrios” (favelas) onde impera a miséria dramática.

 

Apesar de todos os aspectos chocantes, o que mais impressiona é a fé viva cristã do povo, segundo Pe. Toller, uma herança da colonização espanhola cultivada através dos séculos pela presença dos padres jesuítas. Por outro lado, a crise também chegou até a Igreja Católica, pois há falta até de farinha para a produção de hóstias para as missas.

 

A America Latina está correndo o risco da história do saco de batatas: quando algumas ficam podres, podem contaminar as demais.

 

3º - Consolidação comuno/política

 

O governo assumiu o controle total das comunicações (rádio e TV), só veicula informações do interesse de Maduro que, pelo culto à personalidade, se veste ridiculamente com a bandeira venezuelana; a população vive hoje sob a égide do tacão. Se alguém for denunciado por falar mal do governo estará sujeito sumariamente a ser preso e, dependendo de sua posição de risco ao governante, só Deus sabe seu destino.

 

É inegável a virtude de Chaves de ter levantado a autoestima do povo pelo lado nacionalista, enaltecendo o valor indigenista, que corre forte nas veias dos venezuelanos. Seu carisma se mantém até hoje. O atual candidato ao governo para mais um pleito legislativo, manipulando novas eleições “democráticas”, não tem o mesmo carisma de Chaves dentro da sociedade.

 

Desde a queda do muro de Berlim, marco do fracasso comunista, vozes do chamado comunismo tardio procuram ressuscitá-lo em outras plagas do planeta. Na América Latina, intelectuais e ideólogos encabeçados pelo guru cubano, estão procurando ressuscitá-lo, com o intuito de se manter no poder. De lá para cá tudo mudou, tanto as condições do modelo capitalista (mercado) como o modelo socialista, onde a democracia alcançou soberanamente seu auge pela ordem política. Os comunistas sabem que terão de se adaptar (simular) à democracia para ter algum êxito; implica então permitir a existência de partidos de oposição, mas subornados a peso de ouro onde a corrupção corre solta; tudo de fachada. Assim alimentam a fé ingênua do povo de ter a chance de decidir o futuro pelas eleições*; o que nunca vai ocorrer.

 

Outra estratégia é fazer mudanças nas forças armadas (FFAA) sem sobressaltos, sutilmente remanejando* generais do alto comando, do ministério da defesa; sendo substituídos por simpatizantes do regime ou lacaios pagos do partido que está no poder. Na Venezuela ao longo do período Chaves, e no de Maduro, foram substituídos 300 postos de comandos, na forma institucional, como manda a democracia.

 

Quando seguros com o controle das FFAA, começam se tornar prepotentes, ousados; e quando a sociedade se apercebe, já é tarde. Na Venezuela as FFAA nunca reagiram porque foram substituídas por “assessores” cubanos em todos os níveis hierárquicos convenientes. A soberania ficou subserviente aos mandatários da ilha de Cuba.

 

O clima de terror já se instalou no país. A classe dominante de comunistas é hábil em simulação, jamais fazem eles mesmos o “trabajo sucio”; criam-se grupos armados fora da lei, treinados para que atuem por eles; distribuem motos, armas e dinheiro, chamados “comunas” que fazem o “trabajo” para o governo. Numa manifestação pública de rua, a Guarda Nacional recua quando chegam “los comunas”, para fazer a chacina; logo, foram os baderneiros*, não o governo.

 

Para se assegurarem cada vez mais no poder, mudam as leis. Numa segunda instância, usam o dinheiro, sem qualquer controle (inflação 60% a.a. - 2014), gastar, porque necessitam movimentar o dinheiro para a economia não ficar parada e com isso criar confiança na sociedade. Tudo está bem, tudo está funcionando.  As novas leis de seu interesse, principalmente aquelas que destroem a moral do povo (aborto, drogas, agenda gay etc.), são aprovadas na calada da noite*, sem qualquer discussão.

 

Na constituição venezuelana, existem cláusulas pétreas que não podem ser modificadas pelo congresso. Então se inventaram plebiscitos sofismados para serem aprovados pelo povo e, com isso, dar legitimidade e segurança às ações da camarilha* do poder.

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* Qualquer semelhança é mera coincidência...

 


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