TEOLOGIA (985)'
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Artigo

DEUS CRIADOR E MISERICORDIOSO

 

“Eu concordo com a sua opinião [sobre o movimento de um éter]. Deus criou o mundo com mais inteligência e elegância”. Eis as palavras com que o famoso cientista alemão Albert Einstein inicia uma breve carta dirigida a seu colega Giovanni Giorgi, professor na Universidade Sapienza de Roma e especialista em eletromagnetismo, no dia 12 de julho de 1925.

 

Escreve o Bispo e Doutor da Igreja Santo Agostinho de Hipona: “Deus onipotente, bom, justo e misericordioso, fez todas as coisas boas; tanto as grandes como as pequenas, quer as mais altas, quer as ínfimas; as visíveis – assim como no céu, a terra e o mar, as árvores, os arbustos e os animais de cada espécie; e todos os corpos celestes e terrestres; e as invisíveis – como os espíritos com os quais os corpos se animam e se conservam vivos. E fez o homem à sua imagem para que assim como Ele mesmo por sua onipotência governa toda a Criação assim o homem por sua inteligência, pela qual inclusive conhece e honra o seu Criador, governasse todos os animais da terra. Criou também para ele, como auxiliar, a mulher. Não para a concupiscência carnal, visto que não tinha corpos corruptíveis antes que a condição mortal os invadisse como castigo do pecado. Criou-a para que o homem, orientando-a para Deus e oferecendo-se a ela para ser imitado pela santidade e pela piedade, tivesse na mulher um título de glória; e ele próprio, indo no encalço da sabedoria divina, seria a glória de Deus. Deus, que deu o livre arbítrio para que o adorassem não por servil necessidade mas na condição de homens livres, deu-o também aos anjos”  ( 1).

 

Por Que Deus Permite Tais Coisas?

“Receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?” (Jó 2,10).

 

Essa é uma pergunta comum. E quando as pessoas questionam, elas têm em mente as guerras, fomes, doenças, terrorismo, catástrofes naturais e outras coisas terríveis. Permita-me fazer outra pergunta: saúde, emprego, geladeira cheia de comida, etc.? Deus é obrigado a nos dar essas coisas? Ou ele o faz por sua bondade?

 

Imagine a vida em uma grande cidade. Quanta mentira, violência, corrupção, perversão sexual e tamanha brutalidade, Deus observou nas últimas 24 horas? Isso não será desconsiderado. Como Deus reage? Ele mandou descer fogo do céu? Ele fechou a porta da graça, da reconciliação e do perdão? De jeito algum! Os habitantes de tais cidades continuam a desfrutar dos dons de Deus, assim como nós. Mas quem se lembra de agradecê-lo? Quem gasta um minuto para pensar no Doador de “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito” (Tiago 1,17)? Quem tem tempo para o bom Deus? Quem fala de Deus e quem fala com Deus?

 

Quando o sofrimento entra em nossa vida, o nome de Deus de repente surge em nossos lábios só para questionarmos o porquê das coisas, Jó conhecia essa pergunta. Mas ele aceitou a bondade de Deus com gratidão. E ele não tirou Deus de seu sofrimento, mesmo não tendo recebido qualquer resposta por um longo período. A questão principal não é saber a razão dos sofrimentos humanos; é se render ao maior dom que Deus nos concedeu: seu amado Filho, pois ele é a resposta para todos os questionamentos. Sem Jesus Cristo nada tem sentido: não há vida, não há resposta e não há felicidade aqui e eterna.

 

O NOME ACIMA DE TODO NOME

“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3,14).

 

“EU SOU O QUE SOU” é como Deus disse a Moisés o Seu nome. Esta estranha designação nos faz pensar. Deus não tem necessidade de prestar contas a ninguém, nem mesmo ao mais crítico entre nós, quanto ao porquê de Ele ser o que é sem qualquer exceção. Deus tampouco tem necessidade de Se adaptar às ideias ou demandas humanas, as quais têm mudado tanto ao longo dos séculos. Ele não muda simplesmente para agradar ao homem ou obter o seu favor. Ele é o Deus eterno que é, era e sempre será. Como escreveu Tiago em sua epístola: “Em quem não há mudanças nem sombra de variação” (1,17). Ele não seria Deus se fosse de outra forma.

 

Deus se apresenta a nós em toda a sua grandeza: demasiado grande para ser forçado a entrar numa camisa de força da imaginação humana. E todo crente pode chamar a este Deus de Pai por intermédio de Jesus Cristo. Somos filhos de Deus de Pai por intermédio de Jesus Cristo. Os filhos de Deus podem confiar nele diariamente e a toda hora. Ele verdadeiramente é justo ao se descrever, grande em bondade e poder, imutável em todas as coisas.

 

“Não há outro Deus fora de mim, Deus justo e salvador não existe, a não ser Eu. Voltai-vos para mim e sereis salvos, todos os que confins da terra, porque eu sou Deus e não há nenhum outro!” (Isaías 45, 21e 22).

 

DEUS É O DEUS QUE FALA

“Havendo Deus antigamente falando muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho. Vede que não rejeiteis ao que fala; porque se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus” (Hebreus 1,1; 12,25).

 

Desde os tempos imemoriais as pessoas têm adorado estátuas e deuses sem vida, e apesar de todas as súplicas de seus devotos, elas jamais deram uma resposta. Nesta época de meios de comunicação tão avançados, não seria trágico se tivéssemos um deus que nunca fala? Após tantos pedidos de ajuda, o silêncio é desesperador. O verdadeiro Deus é um Deus que se comunica intensamente. Ele criou o mundo por sua palavra, e desde o primeiro instante da história do homem ele procurou contato com sua criatura (Gênesis 1 e 2). No entanto, Adão não quis ouvir a voz de seu Criador e desobedeceu, e, ao fazê-lo, a primeira atitude dele foi se esconder de Deus.

 

Mas Deus continuou falando por séculos através da voz de inúmeros profetas. Após isso, quando os ouvidos da maioria já estavam surdos às suas promessas e advertências, ele falou à humanidade diretamente por Jesus Cristo, seu Filho, que veio a este mundo como Homem, semelhante a nós, mas sem pecado. Durante sua vida, o Senhor Jesus Cristo foi a revelação máxima do amor de Deus para nós, e isso foi demonstrado não só com palavras, mas com ações concretas.

 

E Deus ainda continua falando conosco, especialmente pela Bíblia Sagrada e pela santa Igreja. Quem deseja ouvir Deus tem de começar a ler a Bíblia e viver na comunidade cristã, de preferência pelos evangelhos. Ali descobrimos o quanto Deus nos ama e quer se relacionar conosco. Quem crê no que Deus fala se reconcilia com o Pai e se torna filho amado, em comunicação direta com seu coração.

 

HABITAÇÃO DE DEUS

“Por que assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito” (Isaías 57,15).

 

Nosso Deus tem relativamente dois lugares diferentes de habitação: a eternidade e o coração humano. Um dos palácios de Deus é o coração humano, daqueles que são mansos e humildes de coração.

A distância das estrelas cuja luz leva milhões de anos para viajar até a terra é inimaginável, mas elas são nada comparadas a distância que separa a criatura do Criador. E a distância é ainda maior para o pecador irreconciliável! Contudo Deus condescende em habitar com o humilde, contrito de espírito! Oh, que indescritível, inimaginável condescendência é esta! Isto é a Onipotência habitando com a fraqueza, o infinito com o finito, Deidade com pó! O Absoluto transcendente no imanente!

 

O salmista pergunta muito naturalmente: “ Quem é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (SL 8,4). Pensando desta forma, respondemos: “Senhor, prepare meu coração para recebê-lo; destrua toda partícula de orgulho; faça-me humilde e mantenha-me humilde; lembra-me que nada tenho para me orgulhar e que preciso ser dependente continuamente da tua generosidade; ajuda-me a compreender que minha existência, saúde, força e razão estão em tuas mãos, e que, num piscar de olhos, minha força pode me deixar, minha mente declinar, e a vibração de uma vida jubilosa cessar”.

 

Somos ainda mais dependentes espiritualmente. Necessitamos de amor e da graça redentora de hora em hora. Somente ao habitar na presença daquele que desceu e foi à cruz – mas que agora está exaltado na mais alta glória – que aprendemos o que é ser verdadeiramente humilde. O coração contrito é espaço especial à recepção do eterno amor de Deus. O humilde viver do amor de Deus.

 

“Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas? O qual se inclina, para ver o que está nos céus e na terra! Levanta o pobre do pó, e do monturo levanta o necessitado, para o fazer assentar com os príncipes” ( SL 113, 5- 8).

 

O DEUS SEM LIMITES

“E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, a tua fidelidade também na congregação dos santos... O Senhor Deus dos exércitos, quem é poderoso como tu, Senhor?” ( Salmo 89, 5, 8).

 

O Deus a quem servimos não conhece limites – ele é completamente ilimitado no tempo, no espaço e nas condições. Ele é todo-poderoso, tem toda a autoridade, e é todo criativo. Absolutamente nada é impossível para ele. Não há limite para Sua generosidade, suas habilidades, Seu amor, misericórdia, e Seu desejo de abençoar os seus filhos. Deus é tão grande que cabe em nosso coração. Deus é tão santo que habita no vaso de barro. Deus é bondade pura e amor total que caminha juntinho com o pecador com uma profunda amizade fraternal.

 

A fidelidade de Deus e a confiabilidade de sua palavra são temas constantes na Bíblia Sagrada. Provamos de sua fidelidade quando nos defrontamos com tentações. Então Deus “não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10,13).

 

A fidelidade de Deus também é a base da nossa segurança da salvação. Podemos “estar firmes”, “porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10,23). Ele não é como as pessoas que mentem, que fazem promessas que depois mudam de opinião, ou oferecem e não fazem o bem (Números 23,19). É impossível Deus mentir (Hebreus 6, 18). Daí a nossa a radical confiança em servi-Lo de modo agradável, com submissão e temor (Hebreus 12, 28).

 

A fidelidade de Deus é demonstrada no fato dEle ter nos dado Sua Palavra. De que outra forma poderíamos saber que ele está constantemente procurando redimir o homem do pecado e arrancá-lo das trevas? Em Sua Palavra vemos que ele tem a solução para nossos problemas e que, portanto, não deveríamos duvidar nem abandonar nossa esperança ao primeiro sinal de oposição e dificuldade.

 

Por causa de Seu ilimitado poder e fidelidade, podemos andar com confiança, mesmo quando tudo dá errado. Se de fato confiarmos em sua Palavra, então creremos e nunca iremos abrir nossa boca para reclamar (2).

 

DEUS ESTÁ CONOSCO

 

Nosso Deus não dorme, Ele é um guarda atento a nos vigiar diuturnamente. (Salmos 120, 3,4) Ele trabalha no turno da noite de nossa vida. Enquanto nossas forças adormecem e nossa vitalidade descansa, Deus faz ronda em nossa existência, enfrenta e afasta os demônios que nos espreitam. Sob o olhar de nosso Deus podemos descansar em paz (2Cro 16, 9), pois é Ele quem nos sustenta.

 

Deus nos cumulou de inteligência e sabedoria para que possamos encontrar saídas, formular soluções, tomar novos rumos, fazer escolhas. E isso ocorre dezenas de vezes ao dia. A todo instante decidimos, escolhemos, realizamos, sem nem mesmo nos darmos conta de que uma série enorme de saberes está sendo utilizada. Deus age através de nossas capacidades, sem jamais nos furtar o direito ao livre arbítrio, o que pressupõe nosso consentimento. É muito triste quando as pessoas ignoram sua inteligência e responsabilidade e se esquivam de tomar as próprias decisões. Ver, julgar e agir são dons divinos aos seres humanos, utilizá-los sob a luz da sabedoria do Criador é a mais sensata escolha da inteligência humana.

 

Há, porém, situações na vida, que ultrapassam nossa capacidade, tais como: o infortúnio de uma enfermidade, a perda de uma pessoa amada, algumas questões financeiras, catástrofes, a morte etc. Diante de tais fatos, e outros semelhantes, somos impotentes. Nestes momentos o melhor a fazer é abandonarmo-nos nas mãos do Senhor. “Deus é o nosso refúgio e a nossa força, um socorro sempre alerta nos perigos” (Salmo 46, 1.2).

 

Afirma de modo tão feliz o missionário católico Aristides Luiz Madureira: “Assim, poderemos repetir com o apóstolo Pedro: a quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. (Jo 6, 68-69). Esta verdade é segurança e consolo para o espírito humano. A quem temerei? Cantava o rei Davi nos Salmos capítulo 26, 1ss. Também nós podemos dizer com ele: A quem temeremos? Ao que temeremos? Deus é conosco” (3).

 

CONCLUSÃO

A nossa fé no Senhor Deus Criador e a nossa confiança na sua misericórdia é o fundamento da nossa vida no seu amor e na sua eterna bondade. Vivemos pela fortaleza da sua graça e pelas maravilhas do Verbo que nos torna proclamadores da Boa Nova do Reino dos Céus. A Boa Nova é a alegria da fé que dá sentido pleno a nossa vida na consolação e no encorajamento do Espírito Santo (At 9,31).

 

A nossa missão é de anunciar com muita alegria as bênçãos, o amor infinito e a misericórdia do bom Deus para curar, libertar e salvar as almas. No projeto de Deus temos a solidariedade universal e o cuidado com toda criatura e a glória da vida eterna. Amar a Deus é tudo!

 

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja

Instituto de Teologia Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: [email protected]

 

Notas:

(1)               Santo Agostinho. A instrução dos catecúmenos. Teoria e prática da catequese. 2 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1978, pp. 74e 75.

(2)               Calendário Devocional Boa Semente de 2015.

(3)               Madureira, Aristides Luiz. Resgatado a alegria de servir. Uberlândia, MG: 2015, pp. 44 e 45.

 

Para aprofundamento

Bibliografia

BERKHOF, LouisTeologia Sistemática. Trad. Odayr Olivetti. Campinas: LPC, 1990.

BRAATEN, Carl E. & JENSON, Robert W. (eds.) Dogmática Cristã. 2 vols. Trad. G. Delfstra et alli. São Leopoldo: Sinodal, 1990.

BOFF, ClodovisTeoria do Método Teológico. Petrópolis: Vozes, 1998.

FIORENZA, Francis S. & GALVIN, John P. (org.) Teologia Sistemática. 2 vols. Trad. Paulo Siepierski. São Paulo: Paulus, 1997.

HODGE, CharlesTeologia Sistemática. Trad. Valter Martins. São Paulo: Hagnos, 2001.

McGRATH, Alister ETeologia: Sistemática, Histórica e Filosófica. Trad. Marisa de Siqueira Lopes. São Paulo: Shedd, 2005.

 


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