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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 062 - fevereiro 1963

 

A EMPRESA UNILABOR

SOCIOLOGIA

ASSISTENTE SOCIAL (Salvador): «Ultimamente tem-se falado de 'Unilabor', revolução na estrutura da empresa. Trata-se de uma tentativa de resolver sobre bases genuinamente cristãs o problema das relações entre trabalho e capital. Em que consiste essa tentativa?  Como avaliá-la?»

 

A empresa «Unilabor» é, pelo seu próprio idealizador e promotor, Frei João Baptista Pereira dos Santos O.P., apresentada ao público no livro do mesmo nome (Livraria Duas Cidades, São Paulo, SP).

As páginas que se seguem, procurarão resumir o histórico e a mensagem de tão original empreendimento.

 

1. O histórico

 

Os problemas sociais merecem a atenção não sòmente dos sociólogos e economistas, mas também da Igreja e de seus ministros. A Igreja tem, sim, alguma coisa a dizer desde que se trate de dar ao homem um nível de vida condizente com a sua dignidade. Eis por que o S. Padre João XXIH se pronunciou a respeito na encíclica «Mater et Magistra»...; eis por que alguns sacerdotes se têm envolvido na organização de obras que abrem estradas para resolver a questão social. Entre tais homens de Deus, está o frade dominicano Frei João Baptista Pereira dos Santos, com a sua arrojada empresa.

 

Como terá surgido essa obra?

 

Frei João Baptista foi enviado à França após a guerra de 1939-45, com a missão de estudar «Economia e Humanismo» sob a orientação do famoso Pe. Lebret O.P. Observou então o empreendimento da «Communauté Boimondau», perto de Grenoble, e resolveu fundar algo de semelhante no Brasil.

 

Tratava-se de uma comunidade de trabalho ou de uma empresa de cogestão, empresa em que os operários tomam parte na gestão ou na administração da firma em que labutam.

 

Note-se que o sistema vigente de remuneração do trabalhador consiste em dar a Este um salário monetário ou mesmo uma participação nos lucros da empresa. Tal sistema excita frequentemente o desejo de maiores salários, provocando conflitos; na verdade, porém, constitui remuneração assaz enganadora, pois muitas vezes, em lugar de erguer e nobilitar o nível de vida do trabalhador, só serve para o degradar: melhores salários tornam-se não raro ocasião de maiores despesas em jogo, bebida e deboche... Em vista disto, os estudiosos têm pensado, nos últimos tempos, em remunerar o trabalhador de maneira menos material e mais humana, atribuindo-lhe responsabilidade no andamento mesmo da empresa (isto não pode deixar de beneficiar profundamente o operário, excitando nele os valores da inteligência e da dedicação, promovendo-o no plano social e jurídico, não sòmente no plano material).

 

A Igreja, por voz de seus Papas, tem dado aprovação a tal sistema. Considerem-se, por exemplo, as palavras da enciclica «Mater et Magistra» de João XXIII:

 

«Seguindo a direção indicada pelos Nossos Predecessores, também Nós julgamos que é legitima nos trabalhadores a aspiração a participarem" ativamente na vida das empresas em que estão inscritos e trabalham... Cremos que devem ser atribuídas aos operários partes ativas nos negócios das empresas em que trabalham, sejam estas de particulares, sejam do Estado; deve-se tender sempre para que a empresa se torne uma comunidade humana por cujo espirito sejam totalmente influenciadas as relações individuais, o número e a variedade dos ofícios» (no 38).

 

Naturalmente, a participação dos operários na gestão ou na administração de uma empresa supõe, da parte dos mesmos, certo preparo ou certo nível cultural e técnico; por falta disto, fracassaria qualquer tentativa de tal gênero.

 

Ora foi justamente um ensaio de cogestão ou de comunidade de trabalho que Fr. João Baptista começou a planejar desde que regressou ao Brasil em setembro de 1948. Contudo somente em setembro de 1954 conseguiu realizar o intento : em um pobre barracão de 20 x 10, na Estrada Vergueiro (São Paulo), o frade instalou-se com três sócios : Justino Cardoso, engenheiro industrial; Geraldo de Barros, artista e bancário, e Antônio Thereza, ferramenteiro. Depois de alguns ensaios, resolveram dedicar-se à fabricação de móveis, constituindo uma empresa intitulada «Unilabor», palavra forjada em latim para designar «comunidade de trabalho»: «uni» significaria «comunidade; «labor», trabalho. A fim de iniciar a obra, erguendo o barracão num terreno doado e comprando modesta maquinaria, Frei João Batista conseguiu, ao cabo de um ano de conversações e negociações, levantar um empréstimo de 200.000 cruzeiros. Desde que se colocou ao encalço deste dinheiro, ouviu os comentários mais desalentadores possíveis: passava por sonhador e louco, até que um belo dia, tendo exposto o plano de criar uma comunidade de trabalho ao Diretor-Presidente de famoso banco paulista, ouviu a seguinte resposta: «Depois dizem que a Igreja Católica é atrasada e o clero reacionário; aí está uma revolução na estrutura da empresa que o nosso Banco se sentirá por certo muito honrado em financiar». Dito isto, o Diretor abriu-lhe o crédito de 200.000 cruzeiros, renovável de seis em seis meses.

 

Postas estas bases, a empresa, aos 15 de outubro de 1954, obteve na Junta Comercial o seu registro de sociedade por quotas de responsabilidade limitada, com sede à Estrada Vergueiro, 3662 (São Paulo, SP) e capital social de duzentos e um mil cruzeiros; sua denominação completa seria «Unilabor, Indústria de Artefatos de Ferro, Metais e Madeira, Ltda.».

 

Desde os primeiros meses de funcionamento, foi elaborado o regimento interno ou a Constituição de «Unilabor», documento curto e simples, que em parte reproduz as normas de Boimondau. Dada a importância de tal documento, vão aqui transcritos os seus parágrafos mais salientes:

 

«1 - Da Finalidade e da Organização Interna da Empresa

Art. 1») A Unilabor... funcionará... como comunidade de trabalho, fora do regime capitalista. Não haverá portanto nela distinção entre empregado e empregador.

Art. 2') Todos os que nela entrarem, após alguns meses de estágio, no máximo um ano, deverão ser admitidos como companheiros, com participação no lucro e na direção.

Art. 4») A participação na propriedade não confere contudo a cada membro o direito de se considerar proprietário de uma fração da fábrica. O proprietário será a comunidade, que deverá ser considerada como uma pessoa constituída de todos os seus membros.

Art. 8") Os lucros, se os houver, serão divididos anualmente em três partes iguais: — uma terça parte caberá aos companheiros, uma outra terça parte irá para o fundo de reserva da comunidade e a última terça parte será aplicada em obras de cultura e aperfeiçoamento humano e social...

Art. 9°) Como comunidade não significa ausência de autoridade, haverá um chefe de comunidade, eleito pela Assembleia geral por maioria absoluta e para um período de três anos, podendo ser reeleito.

 

2 — Da Moral Comum aos Companheiros

 

Artigo único — A Comunidade de Trabalho Unilabor não poderá ser compreendida nem seu espirito respeitado, se não houver entre seus membros um entendimento básico sobre certos valores mínimos, como sejam a vida e o homem, a família e a sociedade, o trabalho e o bem comum, etc. Numa palavra, não pode haver comunidade sem moral comunitária. Por isso, nós, companheiros da Unilabor, aceitamos e subscrevemos para devida observância os seguintes pontos dessa moral comum:

1o) O homem não pode viver sem ideal. Cada companheiro deverá • escolher uma finalidade para a sua vida e ser capaz de justificar essa escolha a qualquer momento.

3o) Todo companheiro se compromete a respeitar as regras Corais mínimas da Comunidade, que são:

          Amarás a teu próximo.

          Não te apossarás dos bens alheios.

         Não mentirás.

          Serás fiel à palavra empenhada.

          Ganharás teu pão ao suor de teu rosto, isto é, com teu trabalho honesto.

          Respeitarás o teu próximo, sua pessoa e sua liberdade.

          A fim de lutar contra o mal que há no mundo, lutarás primeiro contra ti mesmo, contra todos os vícios que diminuem o homem, contra todas as paixões que o escravizam e impedem a vida social: orgulho, avareza, luxúria, inveja, gula, cólera, preguiça.

           Tu sustentarás que existem bens superiores à própria vida: a liberdade, a dignidade humana, a Verdade, a Justiça.

4o) A disciplina livremente aceita é a condição primeira para a vida social. Todo aquele que obedece ou trabalha só porque é vigiado, é um covarde e nós o expulsaremos da Comunidade.

5o) Não há vida social possível sem um mínimo de amor pelo próximo. Ora é impossível aos homens se amarem sem-se conhecerem: Nós procuraremos conhecer-nos melhor uns aos outros e nos interessaremos pelos problemas uns dos outros.

6o) A verdade é indispensável à vida social. Expulsaremos do nosso meio a mentira e os mentirosos.

9) O orgulho é o inimigo número um de todo o progresso moral; lutaremos contra ele em qualquer de suas formas : inveja, ciúme, rancor, susceptibilidades...

8°) Toda a nossa luta será em campo aberto. Será uma luta conjunta. O que se chama vulgarmente espírito de porco não terá lugar entre nós.

9°) Os erros profissionais e as faltas morais de qualquer um de nós deverão servir para a educação de todos.

10o) Cada qual é livre de optar pró ou contra uma ideia. Mas não zombará nunca nem fará pouco caso da ideia dos outros.

II9) A comunidade não será formada de seres perfeitos. Ela aceitará cada qual como ele é, só lhe pedirá que caminhe com boa vontade e energia rumo ao ideal escolhido.

12o) Mas a falta desta boa vontade e energia, se persistir depois, de várias advertências, será motivo para exclusão da comunidade. Todo companheiro deve saber que o individualismo é o pior inimigo do ideal comunitário.

139) Os homens são iguais em natureza, mas desiguais em valor. Nem todos receberam os mesmos dons. Devem, pois, aceitar que a Comunidade os utilize segundo seu valor humano total.

14') O Chefe da Comunidade deverá ser sempre o melhor, isto é, aquele que para uma dada função possui o maior valor humano total. Ele deve ser aquele que dá o exemplo, que educa, que ama, que -se dedica e que serve.

15') Devemos lutar contra toda manifestação de individualismo. Não toleraremos que alguns se sirvam da Comunidade para fins individuais, que são sempre mesquinhos.

Mas sustentaremos que a Comunidade está a serviço da pessoa humana. A dignidade da pessoa humana está acima da Comunidade. A Comunidade existe para que a pessoa humana dos que nela trabalham possa desenvolver-se, adquirir maior valor e assim realizar seu destino na terra.

16o) A nossa meta final, o motivo pelo qual nos reunimos em comunidade é elevar o homem e torná-lo digno do seu destino espiritual, e não construir um formigueiro no qual o homem seja apenas um número, um elemento e nada mais. Somos comunitários, mas personalistas. Somos contra o individualismo capitalista. Mas somos também contra toda transformação do homem em mero fator econômico, em simples peça de uma imensa máquina coletiva de produzir riquezas.

17o) A nossa comunidade de trabalho se situará, pois, na luta social como uma célula-testemunho entre a anarquia individualista e o Estado invasor dos direitos da pessoa.

18o) Todos os companheiros se comprometem a levar uma vida particular, familiar e pública, no sentido da moral mínima da Comunidade.

19o) Eles autorizam a Comunidade e os companheiros a lhes fazerem as advertências necessárias e igualmente se comprometem a advertir os outros sempre que julgarem necessário.

20o) Cada companheiro se compromete a adotar uma posição religiosa ou filosófica, entendendo-se aqui por filosofia o modo de encarar o homem e a sua vida na terra, o universo e as suas leis.

21o) Todos se comprometem a observar a mais larga tolerância e a respeitar sinceramente as diferentes crenças ou posições ideológicas.

22o) A comunidade facilitará a prática ou o estudo e mesmo a procura livre de uma fé ou posição filosófica, por parte de qualquer de seus membros.

23o) Sanções graves serão aplicadas contra todo companheiro que deixar de respeitar esse compromisso que a Comunidade Unilabor considera essencial».

 

«Tal é a constituição que até hoje vem regendo a vida interna e a evolução da Unilabor. Alguns artigos do capítulo primeiro sofreram com o tempo alteração. No artigo 2*, por exemplo, em vez de 'no máximo um ano' leia-se 'no máximo dois anos'. A experiência levou-nos a prolongar mais um ano o período de estágio. O artigo 8» que trata dos lucros foi alterado também» (Unilabor, pág. 40-48).

 

A Constituição de «Unilabor», notória pela elevada mentalidade que a inspira, será comentada no parágrafo 2 deste artigo.

 

Para completar o esboço histórico iniciado, apenas realçaremos que no seu primeiro ano de funcionamento a empresa sofreu forte abalo financeiro, devido à exígua experiência dos respectivos membros no trato de dinheiro. Contudo mediante um empréstimo de cem mil cruzeiros a longo prazo e juros baixos, assim como maior esmero na administração da obra, conjuraram em poucos meses o perigo.

 

Novos companheiros foram sendo admitidos, atingindo hoje o total de cinquenta membros na empresa. As reuniões de direção passaram a realizar-se com a máxima regularidade todas as sextas-feiras; por elas os operários dirigiam de fato a firma, pois nada de importante era decidido e efetuado sem que dessem o respectivo voto.

A «Unilabor» tem prosperado. Atualmente, conta com uma fábrica que funciona em área de 1.500 m2, dispõe de quarenta e oito máquinas e aparelhos diversos, além de importante quantidade de ferramentas de mão e apreciável estoque de madeira e diversos metais. Possui outrossim um escritório bem montado e duas lojas na cidade de São Paulo, sendo que uma destas, destinada à venda de móveis, se acha no centro da capital paulista, em plena Praça da República, atrás da Estiolá Normal; foi aberta dois anos depois de fundada a empresa, isto é, em janeiro de 1957; ocupa área de mais de 100 m2 e possui telefone, decoração e pintura modernas: tudo, pela irrisória quantia de 50 mil cruzeiros.... O patrimônio da «Unilabor», devidamente somado, atingia em abril de 1962 a casa dos dez milhões de cruzeiros, (dez milhões que se fizeram a partir de um empréstimo de duzentos mil cruzeiros em 1954!). Ora tais resultados vêm a ser inegável testemunho não somente da bênção de Deus, mas também da benevolência com que os homens, mesmo os mais céticos, têm acolhido o ideal da «Unilabor»; Este tem-se imposto por si mesmo. — Dai o interesse que agora nos leva a considerar de mais perto

 

2. A mensagem de «Unilabor»

 

Vamos resumir em algumas proposições as ideias-mestras que «Unilabor» representa e transmite ao mundo de hoje:

 

1) Nem individualismo egoísta (que fomenta o capitalismo) nem socialismo (que despersonaliza), mas estima da pessoa humana e dos seus deveres para com a sociedade.

 

Como se pode depreender da Constituição de «Unilabor», um dos grandes princípios que norteiam esta empresa, é o respeito à pessoa humana.

 

Por «pessoa humana» entende-se o ser humano na medida em que é dotado de inteligência e vontade, ... na medida em que é aberto para outros valores que não os da matéria e do tempo,... na medida em que é aberto para o Invisível, para o Infinito...; nessa medida, o ser humano é indevassável a qualquer criatura, e goza de direitos que ninguém lhe pode contestar nem subtrair.

 

Esta concepção de personalidade é, sem dúvida, cristã. Mas não é sòmente cristã; não depende de fé; é filosófica e racional; depende apenas de bom senso e reto raciocínio. Por isto, a «Unilabor», erguendo-se sobre esse conceito, não limita a sua mensagem aos trabalhadores cristãos, mas dirige-se a todo e qualquer homem de bem.

 

Contudo o respeito à personalidade humana não quer dizer que a esta seja licito gozar de irrestrita liberdade no desenvolvimento de seus planos e atividades. Não; a liberdade irrestrita redundaria em liberalismo egoísta ou egocêntrico, com graves perigos para o bem comum; cobiça e ganância seriam assim estimuladas, acarretando acúmulo de muitos bens em mãos de poucos (capitalismo). Donde se.vê que, pelo fato de dar primazia à personalidade humana, o cristão (ou simplesmente o homem de bem) não apregoa liberalismo egoísta nem capitalismo. O cristão sabe muito bem que, além de ter uma abertura para o Alto ou para Deus, a pessoa humana possui também uma abertura para o lado ou para o próximo, para a sociedade e a vida temporal. Isto quer dizer : o personalismo cristão é social, comunitário.. O cristão se preocupa com os mesmos problemas que solicitam a atenção do socialista e do comunista; não menos do que o marxista, deve ele procurar servir ao próximo e remover as injustiças sociais. Contudo o cristão se diferencia do comunista num ponto essencial: o comunista coloca a personalidade totalmente a serviço da coletividade, fazendo de cada cidadão uma simples unidade produtora utilizada pela grande máquina que vem a ser a sociedade ou o Estado; destarte o comunismo despersonaliza, desconhece direitos indevassáveis e liberdade dos cidadãos; o Absoluto, aquilo que faz as vezes de Deus no sistema comunista, é o Estado; a Este o cidadão cede incondicionalmente os seus direitos e serviços. —- É claro que um cristão não pode compartilhar tais ideias; o discípulo de Cristo afirma, antes, que o cidadão tem deve- res para com a sociedade e o Estado; o desempenho, porém, desses deveres visa apenas fazer que a sociedade e o Estado possam por sua vez desincumbir-se de seus deveres para com cada cidadão, favorecendo a expansão da personalidade de cada um.

 

Apraz citar aqui uma passagem em que o. próprio fundador da «Unilabor» expõe esta sua posição intermediária entre individualismo liberal, egoísta, fautor de capitalismo, e comunismo nivelador, sufoca- dor da personalidade:

«Para os comunistas, a pessoa humana nada é e não tem direito algum. O que deve existir e possuir todos os direitos, é a sociedade humana, sociedade industrial constituída de indivíduos essencialmente produtores.

 

O erro dos comunistas é pensar que o cristão, por ser personalista, é individualista, e favorece o capitalismo considerado como sistema de apropriação individual dos bens produtivos...

 

Somos comunitários e personalistas. Somos contra o individualismo capitalista, mas somos também contra toda transformação do homem em mero fator econômico, em simples peça de uma imensa máquina coletiva de produzir riquezas.

 

Devemos lutar contra toda manifestação de individualismo. Não toleraremos que alguns se sirvam da comunidade para fins individuais, que são sempre mesquinhos. Mas sustentaremos que a comunidade está a serviço da pessoa humana. A comunidade existe para que a pessoa dos que nela trabalham se possa desenvolver, adquirir maior valor e realizar assim seu destino na terra» (ob. cit. pág. 64s).

 

Seja lícito frisar bem: o ideal da «Unilabor» —que é o ideal do bom senso e, naturalmente, do Cristianismo — consiste em promover o equilíbrio entre pessoa e comunidade, de modo a não haver sufocação nem de uma nem de outra, mas, ao contrário, pleno desabrochar dá personalidade livre dentro do serviço prestado à coletividade. O cristão não é favorável nem ao comunismo nem ao capitalismo, pois em um e outro destes sistemas ê o capital que prevalece sobre a pessoa humana é a esmaga: no caso do capitalismo, é, sim, o capital detido nas mãos de poucos proprietários que avassala a massa proletária; no caso do comunismo, é igualmente o capital, desta vez detido nas mãos do Estado apenas, que subjuga a população inteira.

 

De resto, o autor de «Unilabor» lembra oportunamente que ninguém pode deixar de ser contrário ao comunismo sem ser igualmente contrário ao capitalismo, pois no fundo (embora pareçam contrapor-se) capitalismo e comunismo coincidem entre si: «... piada que circula, dizem, nos países soviéticos: capitalismo é exploração dó homem pelo homem; comunismo é exatamente o inverso» (ob. cit, pág. 28).

 

2) Para se manter a igual distância tanto do capitalismo como do estatismo ou comunismo, o cristão valoriza de maneira especial o trabalho.

 

O trabalho é, sim, a expressão da personalidade humana, da sua inteligência e do seu amor, ao passo que o dinheiro ou o capital às vezes não representam a personalidade, mas antes a deturpam; por isto é • normal (admitindo-se naturalmente exceções necessárias) que todo cidadão viva do seu trabalho, seja estimulado neste e colha os frutos correspondentes ao mesmo. Foi justamente a oportunidade de viver plenamente do seu trabalho que «Unilabor» quis proporcionar aos seus membros, criando uma «comunidade de trabalho» (em oposição a uma «empresa econômica»)

 

Deixemos que o fundador mesmo de «Unilabor» exponha o que ele entende por «comunidade de trabalho»:

«Estudando a realidade social da 'Communauté Boimondau', o Pe. Lebret conclui ser impossível agrupar comunitàriamente os homens em torno de uma atividade exclusivamente produtiva.

 

A Comunidade de trabalho ideal seria, pois, aquela que considerasse como trabalho toda e qualquer atividade humana capaz de conduzir realmente , o homem a seu fim, ficando entendido que a atividade produtora é apenas uma entre multas outras, tanto ou mais necessárias a uma verdadeira comunidade de homens.

 

A comunidade de trabalho ideal seria então aquela que agrupasse em seu seio não só os produtores de bens econômicos, mas todos aqueles que se dedicam a atividades complementares: professores, médicos, enfermeiras, auxiliares domésticas e todas as famílias dos companheiros, visto serem as atividades da mulher em casa e as da criança na escola tão indispensáveis a uma comunidade humana integral quanto as atividades da produção. Os recursos desta última deveriam ser repartidos entre todos os membros em razão direta da sua Inserção não na vida profissional, mas na vida comunitária.

 

A comunidade de trabalho ideal seria, pois, uma comunidade de famílias que. através do trabalho descobrissem progressivamente seu destino comum e procurassem realizá-lo...

 

Vê-se logo por ai que, para tornar-se humana, uma comunidade de trabalho tem que perder seu caráter de empresa exclusivamente econômica. A empresa passa a constituir a função econômica da comunidade.

 

Qualquer solução do problema social que vise exclusivamente a repartição equitativa e justa dos bens produzidos nas fábricas e nos campos está fadada ao fracasso. Aquilo de que os homens precisam, ê uma sociedade humana,, eu não tuna sociedade meramente econômica, simples produtora e distribuidora de bens....

 

O que temos a fazer no mundo desumano de hoje é isto: pensar o homem como ele é, evitar confiná-lo em compartimentos estanques onde ele tem que viver uma série de vidas paralelas que nunca se podem encontrar: uma vida religiosa que nada tem a ver com a vida em família, uma vida de família que nada tem a ver com a vida que se leva na indústria ou no comércio de bens ou na troca de serviços, uma vida profissional que nada tem a ver com a vida do espirito, com a arte, a cultura, a política e a religião» (ob. cit. pág. 50-53).

 

Mais uma proposição faz parte integrante da mensagem de «Unilabor»:

 

3) Como se vê, o cristão não precisa de recorrer a ideologias estranhas para propor a solução da questão social.

 

Em outros termos: inconsistente ou falso é o dilema frequentemente sugerido ao discípulo de Cristo em nossos dias: «Se não és marxista ou esquerdista, és capitalista, burguês, fascista, reacionário, etc.». A encruzilhada assim proposta impressiona muitos católicos que, para não passar por amigos do capitalismo ou do totalitarismo da extrema direita, abraçam a designação de «católicos da esquerda» e aceitam colaboração com o comunismo.

 

O dilema não passa de um sofisma. Na verdade, existem princípios e valores genuinamente cristãos, que são independentes tanto do marxismo como do capitalismo, e que bastam para dar solução aos problemas da sociedade contemporânea. É o que as encíclicas papais têm demonstrado amplamente no plana doutrinário; é o que os empreendimentos de «Unilabor», Boimondau e outros congêneres têm evidenciado no plano prático ou concreto.

Tenha mais uma vez a palavra o fundador de «Unilabor», que no início do seu livro explica:

 

«Podemos dar à história o sentido de marcha triunfante para a frente e para o alto, sem precisar para tanto de nos inspirar em outra fonte que não seja a Igreja de Cristo.

 

Por que havemos nós, nesta época tão decisiva da história do mundo, de nos desviar dela, como se Ela não mais pudesse livrar-nos da miséria e da fome? Ela é Mãe. MATER. E essa mãe com vinte séculos de história tem muito que nos ensinar. ET MAGISTRA.

 

Ai vai, pois, uma história, uma história pequenina e breve; de um punhado de homens semelhantes a todos os outros, que realizaram- uma empresa industrial e comercial, tendo em vista os princípios cristãos que aprendemos da Igreja.

 

Esta história aconteceu realmente. E acho que vai continuar acontecendo por muitos anos ainda. Porque ela tem uma lógica: a lógica da Encarnação. E ela tem um dinamismo: o dinamismo da fé. Fé em Deus que nos salva e nos oferece todos os-meios. E fé no homem que é filho de Deus, no homem que trabalha e produz e pode comprar e vender e organizar a sua vida da terra sem dobrar, os joelhos ante os falsos deuses do mundo que se chamam o Poder, o Dinheiro, a Dominação e a Glória» (ob. cit. pág. lis).

 

Mais adiante, diz o escritor com muita sabedoria:

«O cristão, enquanto cristão, é obrigado a rejeitar o capitalismo, ... enquanto este significa egoísmo, injustiça e opressão. O cristão, enquanto cristão, tem que rejeitar igualmente o marxismo, não que ele tenha algo contra a organização socialista do mundo, mas porque marxismo significa sempre no mundo violência e extermínio, opressão e construção insolente da cidade dos homens sem Deus e contra Deus.

...Não se pense, porém, que ser cristão é ser essencialmente reacionário, direitista, capitalista, fascista ou imperialista. O cristão, para ser cristão, não precisa de ser nada disto, nem ser anti coisa alguma, nem ser de direita ou de esquerda. Ele precisa só de ser de Cristo. Ser cristão é fazer mais do que revolucionar as estruturas do mundo; é renovar constantemente a si próprio e ajudar os outros a se renovarem a si. mesmos. A renovação do homem por dentro: eis a revolução verdadeira, a mais difícil de se fazer, mas também a mais eficaz. Pois o homem renovado por dentro é o que renova as estruturas do mundo.

... Não basta humanizar as estruturas; o que é preciso é humanizar o próprio homem, fazê-lo voltar às fontes do humano, destruindo em si mesmo o que é de origem diabólica e principio do anti-humano» (ob. cit. pág. 131-33).

 

Com outras palavras, verifica-se que

 

4) O cristão também apregoa uma revolução na hora presente.

 

Revolução, porém, no sentido cristão e no quadro que aqui visamos, não significa subversão da ordem nem emprego de violência contra os homens, mas renovação ou volta às fontes, revigoramento das estruturas básicas e centrais do Cristianismo; etimologicamente, o conceito de «evolução» lembra o de «volta»; o conceito de «revolução» lembra o de «retorno» ou de «volta às fontes».

 

«Há revolução e revolução.

Péguy dizia que revolução autêntica é somente aquela que ultrapassa a realidade histórica em profundidade, apelando de uma tradição menos perfeita a uma tradição mais perfeita e remontando das águas paradas do imobilismo e do conservantismo a uma fonte mais profunda de renovação constante e de progresso. Literalmente, uma revolução é uma volta às fontes ou, como ele dizia em francês, 'un ressourcement'.

 

É isto mesmo: a revolução cristã, comunitária e personalista, é uma volta às fontes do humano. É um humanismo verdadeiro, ou melhor, uma reumanização do mundo, sempre ameaçado de perder seu centro, que não está no homem, mas acima dele, em Deus. E é nisto que reside justamente a sua atualidade permanente. Em qualquer período da história humana, o Cristianismo é sempre unia força revitalizante e renovadora. De onde se conclui que, para ser revolucionário, o cristão não precisa absolutamente renegar as suas fontes. Quanto mais remontar a elas, quanto mais apelar para a sua origem, mais 'original' ele é, e mais atual e mais humano também» (ob. cit. pág. 141s).

 

Esta observação é altamente significativa : o cristão que quiser ser útil ao mundo na hora presente, torne-se mais perfeito cristão, mais consciente e cioso dos valores que ele traz no próprio patrimônio da sua fé. A esperança do cristão na hora presente está baseada unicamente e simplesmente no valor mesmo do Cristianismo ou no revigora- mento da vida cristã em cada um de seus membros. Ê o que Fr. João Baptista diz do seu modo, relatando o seguinte episódio:

 

«Certo dia, em conversa com um amigo... militante comunista que fez móveis na Unilabor, tive que responder a um ataque dele contra a Igreja, 'essa Igreja que se mete na política, que só faz clericalismo ou proselitismo e não cumpre nada daquilo que Ela mesma diz que tem missão de pregar à humanidade1. Eu disse sòmente a ele: 'Você é batizado, meu amigo, essa Igreja que você critica é você também, a Igreja somos todos nós. Os erros, as faltas e as omissões que a ela atribuímos, somos nós que cometemos. Nós todos somos... infiéis à Igreja, tendo apenas por cima de nós a capa de cristãos'.

 

Se quisermos ser «cristãos no pleno sentido da palavra, comecemos por fazer o que fez o Cristo. Ele, para abalar o mundo, não foi atrás do que é grande ou descomunal... Mas durante anos a fio, humilde e silencioso, Ele segurou nas mãos a plaina e o martelo, elevando assim o trabalho humano à dignidade de uma ação divina» (ob. cit. pág. 159).

 

Justamente o que faz o segredo do avanço do marxismo no mundo presente, é a crença que os seus militantes têm em seus princípios ideológicos, é a sua fé no poder de renovar o universo que eles atribuem ao regime comunista.

É mais uma vez o fundador de «Unilabor» quem escreve:

 

«Agora eu lhe direi por que é que a teoria marxista parece nova e por que exerce ela tanta atração sobre os espíritos jovens e generosos mesmo dos países já desenvolvidos, tanto ou mais até que nos países desprovidos de progresso material...

 

É que o marxismo, muito mais que uma teoria socioeconômica, é uma filosofia, uma visão do mundo e do destino humano, e muito mais que uma filosofia, é uma fé, uma espécie de religião secular, uma mística da humanidade em marcha, um messianismo, uma doutrina da salvação, uma esperança da redenção que virá através de uma luta, a luta de uma classe inocente e justa, oprimida e sofredora, que é a classe dos que trabalham na produção dos bens» (ob: cit. pág. 128s).

 

Não permita, pois, o cristão, por sua inércia, que os valores religiosos sejam usurpados, contra a Religião por homens que dizem não ter Religião, mas que na verdade não fazem senão aspirar a Deus e à verdadeira Religião. Que o cristão viva mais e melhor a sua Religião, não somente na igreja, mas também no lar, no escritório, na fábrica, na escola...

 

Nos quatro tópicos que acabam de ser mencionados, parece resumir-se o essencial da mensagem do Cristianismo aos seus discípulos e ao mundo na hora presente, mensagem solidamente credenciada pela experiência da «Unilabor» e empresas similares. Oxalá tais vozes encontrem o merecido acolhimento por parte dos homens sequiosos.

 

Dom Estevão Bettencourt (OSB)


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