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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – 061, janeiro 1963

 

CORRIGIR O CRESCIMENTO DA CRIANÇA?

CIÊNCIA E RELIGIÃO

EDUCADORA (Santos): Que dizer, do ponto de vista cristão, a respeito do emprego de hormônios sexuais para corrigir defeitos no crescimento das crianças?»

 

A estatura física de uma pessoa é assunto em si indiferente à consciência cristã: tanto os homens baixos como os de alto tamanho são iguais perante Deus; hão de ser tratados como filhos de Deus. Acontece, porém, que a deficiência ou também o exagero de crescimento em idade infantil ou adolescente podem acarretar questões de estética e vaidade, ou complexos de inferioridade e neuroses, que de perto ou de longe atingem a consciência moral do cristão.

 

É inegável que, seja por motivos de estética, seja por motivos de saúde, muitas pessoas (principalmente nos países em que a Medicina mais progrediu) procuram intervir no desenvolvimento de seus filhos, tentando remediar ao crescimento anômalo dos mesmos. — Com que direito o fazem? Dentro de que limites lhes será licito praticar isso? Eis as questões a que nos dedicaremos abaixo.

 

Para fazê-lo devidamente, consideraremos, em primeiro lugar, o que a ciência pode asseverar a propósito do ritmo e das causas de crescimento do organismo humano; a seguir, veremos o que os médicos têm feito para influir no crescimento e, por fim, procuraremos julgar essas práticas à luz da consciência cristã.

Os dados de ciência abaixo foram colhidos na revista «Science et Vie» no 539, agosto de 1962.

 

1. A respeito de crescimento, consta...

A. O ritmo

 

O crescimento do organismo se dá geralmente até a idade dos vinte anos, seguindo ritmo que está longe de ser equiforme, mas é assaz desigual e misterioso.

 

a) Assim, no decurso do primeiro ano de vida é que o ser / humano cresce mais aceleradamente. Nos seus doze primeiros meses a criança chega à estatura de 70 ou 75 cm, o que equivale a um crescimento de 40 a 50%. O crânio, que nos primeiros dias pode medir 36 cm de periferia, atinge então os 46 cm; depois do primeiro ano, esta medida só aumentará de 10 a 12 cm; destarte se vê que o volume do cérebro cresce tanto durante os doze primeiros meses quanto durante todo o resto da vida.

 

Até a idade de quatro anos, o crescimento da estatura da criança é assaz notável: 10 cm por ano. Depois dos quatro anos, reduz-se, em média, a 5 cm por ano... até o limiar da puberdade, em que nova aceleração se produz: de fato, entre os 10 e 12 anos (nas meninas), entre os 12 e 14 anos (nos rapazes), registra-se não raro um crescimento de 10 a 12 cm em menos de um ano. O desenvolvimento mais lento do organismo masculino explica que até os onze anos, por exemplo, as meninas muitas vezes ultrapassam os meninos em tamanho e em peso.

 

O aumento de estatura ainda é notório até o fim da puberdade (15 anos no sexo feminino; 17, no masculino). Daí por diante, o ritmo é retardado, para cessar definitivamente aos 18 ou 20 anos de idade.

 

b) Nota-se que cada idade é caracterizada não somente por sua estatura, mas também por proporções determinadas: assim a cabeça equivale a uma quarta parte do conjunto quando a criança nasce;... a uma quinta parte, na idade de dois anos;... a uma sexta parte, na, idade de dez anos; a uma sétima ou oitava parte, na idade de adulto.

 

Escreve o Dr. Koupernik:

«Considerai esse bebê recém-nascido; considerai-o com toda a objetividade, não com os olhos enternecidos de sua mãe. Sejamos francos: com a sua cabeça relativamente desproposital, com os seus membros minúsculos e encolhidos, parece uma caricatura... Aos quatro anos de idade, os membros inferiores já triplicaram o seu comprimento; finalmente, entre os dez e doze anos a criança aparece devidamente proporcionada. Então, porém, dá-se novo desequilíbrio: a cabeça e o tronco dos adolescentes parecem pequeninos em relação às suas intermináveis pernas. Tudo entra na ordem definitiva na idade da puberdade».

 

O fato de que a criança muda simultaneamente de proporções e de estatura exige que os exames de saúde não se limitem a apreciar apenas um aspecto do seu desenvolvimento, mas considerem as várias facetas características, chamadas «Índices de maturação». Estes, reunidos, ocasionam a «ficha morfológica» da pessoa.

 

B. Os fatores influentes no crescimento

 

Sabe-se que o crescimento é, antes do mais, um fenômeno dos ossos. Na extremidade de cada qual dos ossos longos do esqueleto (fêmur, tíbia, úmero, etc.) encontram-se cartilagens de ligação que, durante a infância e a adolescência, estão sujeitas a intensa multiplicação celular. Quando essas cartilagens se calcificam (o que se dá geralmente no fim da puberdade), já se torna impossível o crescimento do organismo.

 

Ora o processo de calcificação das cartilagens é irregular. Há jovens de 12 anos, cujas cartilagens já estão como só deveriam estar aos 18 ou 20 anos. Outros há que têm 16 anos de idade, mas possuem suas cartilagens como aos 11 anos (para estes, há grandes esperanças de crescer, ao contrário do que se dá no caso anterior). Alguns jovens «recuperam o tempo perdido» ou começam a crescer após os 15 anos de idade.

Tais variações se devem à multiplicidade de fatores que influem sobre o crescimento da pessoa.

É lógico, portanto, indagar : quais seriam esses fatores?

Eis os principais:

 

a)          o sol. Na África é que se encontram os homens de mais baixa estatura no mundo, ao passo que na Escócia vivem os mais elevados: um negro da tribo Akka mede geralmente 1,38 m de altura, enquanto um escocês de Galloway chega a 1,89 m. Isto se explica pelo fato de que o clima quente faz despertar mais cedo a sexualidade do individuo; em consequência, as atividades das glândulas e os hormônios do organismo se dispersam, dando menor vigor às funções do crescimento; por isto é que os indivíduos dos países quentes têm estatura física pouco elevada. Nas terras nórdicas, ao contrário, onde a vida sexual só mais tarde começa, há aproveitamento das energias do organismo em vista do aumento da estatura.

De passagem, note-se que, à luz destas observações, a continência dos jovens, principalmente antes do matrimônio, só pode redundar em benefícios para o respectivo organismo, como já foi explicitamente assinalado em «P.R.» 36/1960, qu. 4.

À guisa de ilustração dos dizeres acima, sejam citados os seguintes tópicos: conforme o Prof. Gilberto Dreyfus, pode-se retardar o desenvolvimento sexual de um marreco, criando-o em um porão escuro; o mesmo desenvolvimento, porém, é ativado caso se exponha a retina do animal à ação de raios ultravioletas.

Está averiguado que em Dunkerque (extremo setentrional da França) a idade da puberdade tem início um ano mais tarde do que em Marselha (extremo meridional francês).

Levem-se em conta também

 

b)          as influências de raça e herança biológica. É pouco provável, por exemplo, que numa linhagem de gerações de baixa estatura apareça um cidadão muito alto; também há de crer que uma mulher de 1,55 m casada com um varão de 1,65 m nunca venha a conhecer um filho de 1,85 m... Faz-se mister, porém, lembrar que a hereditariedade biológica produz efeitos bem remotos e, por vezes, misteriosos; assim é que, a trezentos anos de distância, o rei Afonso XIII da Espanha parece ter herdado o prognatismo de seu antepassado Carlos V da Alemanha.

É a hereditariedade biológica que explica que os negros de certas tribos do Alto Nilo sejam fisicamente tão avantajados quanto os escoceses de Galloway.

Merece atenção igualmente

 

c)          o regime alimentar. Não basta encher o estômago das crianças, mas é preciso fornecer-lhes os elementos oportunos para a configuração normal do esqueleto: proteínas, ácidos aminados, cálcio e a longa série de vitaminas conhecidas (além das vitaminas A e B, muito utilizadas, recomenda-se a vitamina D, ótimo instrumento de combate ao raquitismo). Principalmente nos períodos de restrições ocasionadas pelas últimas guerras verificou-se que as deficiências alimentares podem acarretar notáveis empecilhos para o crescimento físico: em 1944, por exemplo, nas escolas da região de Lião (França) a estatura média dos meninos era de 1,48 m; em 1962, já era de 1,56 m.

Também se deve dar atenção às

 

d)          uniões matrimoniais. Nos últimos cinquenta anos, a estatura média dos homens tem aumentado de 1 cm de dez em dez anos. Isto se explica provavelmente pela influência benéfica que possam ter sobre a prole as cópulas matrimoniais variadas na vida moderna. Os progressos dos meios de comunicação e transporte têm largamente favorecido os enlaces conjugais entre pessoas oriundas das mais diversas e distantes regiões.

Contudo a influência preponderante no crescimento da criança se deve ao fator

 

e)          glândulas endócrinas e respectivos hormônios. Principalmente a tiroide, a hipófise e as glândulas sexuais exercem ação de grande alcance no caso.

Verificou-se, por exemplo, que a extração da tiroide de gatos, cabritos, pássaros... provoca repentina estagnação do crescimento; as experiências nunca desmentiram esta conclusão. Ao contrário, os extratos de tiroide de cavalo dados a um cãozinho fazem-no crescer mais rapidamente do que em circunstâncias normais, contanto, porém, que não se apliquem doses excessivas; estas têm por efeito calcificar as cartilagens de ligação dos ossos, provocando estatura anã.

Também a ablação do lobo anterior da hipófise acarreta paralisia do crescimento em cães, ratos, batráquios, etc. Verificou-se que os extratos desse lobo anterior podem suscitar no animal um verdadeiro gigantismo; assim certos ratos submetidos a tal tratamento tornaram-se três vezes maiores do que os seus congêneres. Está mesmo comprovado que o lobo anterior da hipófise segrega um hormônio de crescimento, denominado «hormônio somatotrópico».

Quanto aos hormônios sexuais, sabe-se que são dois: o masculino dito «testosterona»; e o feminino, chamado «foliculina». Derramados em grande quantidade no sangue por ocasião da puberdade, aceleram a calcificação das cartilagens, com efeitos daninhos para o crescimento; em pequenas doses, porém, exercem ação estimulante sobre o crescimento físico.

De posse destes conhecimentos, importa-nos agora averiguar o que na realidade se tem feito para influir no crescimento das crianças.

 

2. O que se tem feito

 

1. O método mais antigo para favorecer o desenvolvimento da estatura de alguém é a ginástica acompanhada de alimentação adequada.

Na verdade, a ginástica não influi sobre a multiplicação das células ósseas obtendo verdadeiros aumentos de estatura, mas pode corrigir defeitos de porte: ela reergue, por exemplo, a coluna vertebral encurvada, fazendo que o adolescente passe a caminhar bem erguido; ora isto pode equivaler a um aumento de estatura de 4 a 5 cm. A ginástica também é eficaz no tratamento dos «pés chatos», das pernas arqueadas, das atitudes escolióticas e de outros males menores ligados ao crescimento.

A melhor maneira de corrigir os pés chatos, por exemplo, será o caminhar descalço sobre a areia ou sobre as rochas à beira-mar; recomenda-se também o ciclismo (uso dos pedais da bicicleta), o exercício de apanhar bolas com os artelhos, etc.

 

2. Contudo o recurso mais eficiente para se modificar a estatura de uma criança que aparentemente goze de boa saúde é a aplicação de hormônios. Recurso, é verdade, um tanto misterioso e revolucionário,... recurso controvertido. E por que controvertido?

 

— Os melhores peritos estão inclinados a usar de preferência o hormônio sexual feminino para crianças de 7 a 11 anos, qualquer que seja o sexo destas; o hormônio masculino, dizem, é forte demais, de modo que se torna necessário dosá-lo sempre com grande cuidado; caso não se faça isto, em vez de se estimular o crescimento, pode-se provocar paralisia definitiva, calcificando as cartilagens ósseas.

 

Existem também hormônios gonadotrópicos, segregados pela hipófise, os quais agem sobre as glândulas genitais. Apresentam as mesmas características que os hormônios sexuais masculinos. Podem ser utilizados no tratamento de jovens na idade da puberdade, principalmente rapazes.

 

De resto, asseveram os médicos, que se faz mister coordenar sempre a ação de diversos hormônios: os sexuais, os gonadotrópicos, os da tiroide e os somatotrópicos. — Os hormônios somatotrópicos, na realidade, são menos eficientes do que se poderia julgar, pois os que existem no comércio têm origem animal e só desenvolvem atividade muito fraca sobre o corpo humano (à diferença da maioria dos outros hormônios, os do crescimento, para serem eficazes, deveriam ser colhidos no ser humano mesmo).

 

Quanto aos resultados obtidos, julga-se que um crescimento de 3 cm em quatro meses já é sucesso. A idade mais receptiva de tratamento vai dos dez aos doze anos para as meninas, e dos doze aos quatorze para os meninos.

Após a explanação desta tática, resta a delicada questão:

 

3. Será lícito?

 

A Deontologia médica e, consequentemente, também a consciência cristã se mostram hesitantes no seu juízo sobre o emprego de hormônios sexuais para corrigir defeitos de crescimento.

Sejam aqui propostos os grandes princípios donde se deduzirá a solução para cada caso de per si.

 

1) O motivo do tratamento que vise influir na estatura de alguém, deve ser digno de um cristão: mera vaidade ou razões de simples estética, capricho e fantasia não poderiam, de modo algum, justificar as despesas e os diversos riscos que. tal. tratamento acarreta (principalmente quando se faz por via de hormônios).

A propósito faz-se oportuno lembrar o que já foi dito a respeito dos tratamentos de estética em «P.R.» 60/1962, qu. 5. Pode contudo haver neuroses, complexos de inferioridade e outros males de saúde que justifiquem intervenção no crescimento ou na estatura de determinada pessoa.

Suposto um destes casos, ou seja, suposta a Iiceidade do tratamento, requer-se que

 

2)  Os esforços da Medicina tendam a ajudar a natureza (masculina ou feminina) do paciente, sem a subverter.

Verdade é que todo individuo traz em si certa dose de hormônios do sexo oposto. É o que pode tornar lícito o emprego de hormônios masculinos para tratar de organismo feminino, e vice-versa. Contudo será sempre necessário temperar cautelosamente as doses, a fim de que o tratamento não inflija violência à natureza do paciente, mas, antes, a secunde devidamente. Ora justamente a dosagem adequada constitui o ponto difícil, ponto que provoca hesitações... Com efeito,

 

3)  O tratamento por via de hormônios sexuais ainda é algo cujas consequências, tanto fisiológicas como psicológicas, não são de pleno domínio dos cientistas.

A consciência cristã rejeita tratamentos que arrisquem a psicologia e a personalidade do paciente a sofrer qualquer deturpação que seja. A pessoa humana exige respeito para si, e não pode ficar exposta a curas ou experiências médicas cujos resultados não sejam cientificamente previsíveis. Em consequência, vê-se que, quanto mais incerta é a hormonoterapia em questões de crescimento das crianças, tanto mais reservada e restritiva há de ser a consciência cristã perante tal tratamento. A Moral exige que só se empreguem recursos de Medicina cujos efeitos sejam suficientemente conhecidos e possam ser devidamente controlados pelo homem de ciência.

 

A aplicação deste princípio a cada situação particular decidirá se o uso de hormônios sexuais em tal caso é lícito e, dado que sim, dentro de que limites será lícito...

 

Para facilitar a formação da consciência do leitor, transcrevemos aqui o depoimento do articulista François Bruno, que na revista «Science et Vie» no 539, agosto de 1962, trata do assunto:

 

«Assim me falou um pediatra parisiense de grande renome, cuja experiência se estende a mais de dez mil casos:

 

'Não vejo em nome de que princípios se poderia contestar a eficácia dos hormônios no tratamento dos atrasos da crescimento... Sustento que os tratamentos por via de hormônios são totalmente inócuos... Os hormônios são inofensivos, desde que os saibamos aplicar devidamente. Toda a nossa arte consiste em dosar as nossas intervenções, de modo a auxiliar a natureza sem a subverter. De resto, em cada etapa do tratamento, recorremos a uma série de exames de controle : pulso, tensão arterial, maturação óssea, etc. Caso não se empreguem tais cautelas, os hormônios podem, sem dúvida, apresentar perigos. Mas será que o mesmo não se dá com todos os remédios, até mesmo com a aspirina, suposto que não os saibamos utilizar ?'» (1. c. pág. 96).

 

Dado que realmente tais processos de controle garantam ao médico o domínio sobre os efeitos do tratamento, pode-se admitir a liceidade do mesmo. Acontece, porém, que a confiança do pediatra parisiense acima citado não é compartilhada por todos os seus colegas, que julgam haver ainda pontos obscuros nas táticas de hormonoterapia aplicada a modificações do crescimento das crianças; comportamento psíquico e personalidade podem ser afetados. Enquanto as dúvidas persistirem, será necessário que as pessoas envolvidas em cada caso concreto formem a sua consciência levando em conta as circunstâncias próprias da respectiva situação.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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