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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 399 – agosto 1995

Livros em Destaque

Mais "revelações":

"MENSAGENS DE MARIA PARA O MUNDO"

por Annie Kirkwood

 

Em síntese: O livro de Annie Kirkwood é de inspiração esotérica, panteísta, "Nova Era". Atribui a Nossa Senhora a predição de terríveis catástrofes que caracterizarão a década de 1990 e 2000. Acrescenta 'traços biográficos" de Maria SS. E S. José, que terão passado por várias reencarnações!

O livro é desacreditado por si mesmo, pois prediz catástrofes para 1990 e 1994 que nunca aconteceram. Carece de autoridade, chegando a afirmações ridículas sobre Maria SS. e S. José.

Estranha é a aceitação que tem merecido da parte de certo público. É preciso lembrar que a fé não dispensa critérios de credibilidade: não está desligada da razão, que deve investigar sempre por que crer nisso e nisto e não naquilo outro.

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Tem sido divulgado o livro de Annie Kirkwood intitulado "Mensagens de Maria para o Mundo. Revelações da Mãe de Jesus a respeito das Transformações que ocorrerão neste final de milênio". Obra da Editora Record/Nova Era ([1]), tem despertado o interesse de certa faixa do público pela índole aparentemente profética de que se reveste. Como em nossos dias outras várias revelações são atribuídas a Maria SS., as que Annie Kirkwood publica parecem adquirir seu direito de cidadania também entre os fiéis católicos. Todavia o livro se desacredita por si mesmo, pois contém predições com data precisa.... data precisa que já passou sem que acontecesse o previsto. Como quer que seja, apresenta pontos capciosos que alguns leitores desejam ver esclarecidos. - Eis por que será sumariamente abordado esse livro nas páginas subseqüentes.

1. AS MENSAGENS

1.1. Observações Preliminares

Antes do mais, convém notar que o editor procura iludir os católicos, fazendo logo à p. 4 a advertência:

"Em consideração aos católicos, esta obra obedece às diretrizes publicadas pelo papa João Paulo VI em 4 de outubro de 1966 relativas a novas aparições, revelações, profecias, milagres, etc.".

Ora nunca existiu o Papa João Paulo VI. Deve tratar-se de Paulo VI. Em que sentido o livro obedece às normas deste Papa? - Disserta livremente sobre assuntos que tocam a fé católica, afirmando graves erros sem restrição ou sem atenção alguma à Igreja Católica.

Ademais à p. 5 o autor traz uma nota de apoio do arcebispo Frank R. Bugge, da arquidiocese australiana da Igreja de Antioquia. - Trata-se de um monofisita, não de um católico.

Na quarta capa, lê-se o texto de aplausos assinado por Dom Raul Clementino Smania, Catedral de N.S. Menina, Porto Alegre (RS). É membro da Igreja Brasileira e não da Igreja Católica.

Estes artifícios astuciosos geram confusão.

1.2. A autora e as catástrofes

Annie Kirkwood é enfermeira judia, que diz receber locuções interiores de Nossa Senhora (ver p.4). Estranhou que Maria SS. falasse a ela, judia, mas a SS. Virgem lhe terá respondido que a própria Virgem Maria não é católica, mas judia (p.13).

O livro quer ser um apelo caloroso à oração motivado pela previsão de horrendos flagelos que devem assolar a terra neste decênio de 1990 a 2000. Percebe-se, com facilidade, quão fantasiosas são essas previsões pelo fato de que algumas delas, com data fixa prevista, não se realizaram. Assim

"Em 1994, o estado e a cidade de Nova York começarão a ser inundados com a elevação dos litorais. O nível das águas dessa costa subirá, e a maior parte da cidade de Nova York terá de ser evacuada. A evacuação será permanente" (p. 35).

"Durante a época do Natal, em dezembro de 1990, haverá muitos fenômenos estranhos no céu... Luzes estranhas virão do espaço, como jamais se viu na Terra. Fragmentos de rocha vindos do espaço serão lançados na Terra, causando crateras e alterações na superfície do planeta" (pp. 27s).

"Nos últimos cinco anos (antes do ano 2000) ocorrerão todos os tipos de fenômeno. Os OVNIs serão vistos quase diariamente. Eles virão em grande número e tentarão fazer com que os governos da terra entendam que estão vindo em paz. Estabelecerão estações em áreas do planeta pouco habitadas. Existem poucas regiões apropriadas, mas eles estabelecerão subestações nas montanhas e em algumas regiões desertas. Em outros planetas próximos à Terra, já existem estações que têm sido preparadas e abastecidas para a chegada dos homens. Nos últimos dias elas acolherão muitas pessoas e garantirão sua sobrevivência.

Nos últimos cinco anos, haverá muita atividade no céu, e muitas novas estrelas serão descobertas e vistas a olho nu. Alguns cometas cruzarão o seu sistema solar. Alguns serão cometas novos e outros serão cometas muito antigos, que não passam por essa parte do universo há milhões de anos"(p.37).

 

Outros exemplos de falsas profecias se poderiam citar.

As catástrofes assim mencionadas terminarão com a inauguração de nova era na história da humanidade, conforme Annie Kirkwood:

"Alguns animais que vivem hoje na Terra, não sobreviverão às mudanças iminentes. Eles terão o mesmo fim que os dinossauros e mamutes. O homem mudará radicalmente. Ele evoluirá para uma nova espécie.

O sistema solar será diferente. Um novo sol surgirá. Este será um sistema solar binário. Os dois sóis ativarão células que serão nutridas pelos raios solares. A necessidade de ingerir alimentos será complementada pela nutrição proveniente dos raios solares" (pp. 208s).

Não é necessário insistir sobre o caráter altamente imaginoso e gratuito dessas previsões. Não merecem ser levadas a sério, dada a sua índole irracional e, de certo modo, anticientífica. Nenhum leitor de certo senso crítico levará em consideração tais predições.

O livro, porém, chama a atenção ainda por outros traços, que revelam tratar-se de obra de inspiração panteísta, esotérica e quiçá aquariana (da corrente dita "da Nova Era"). É o que se verá a seguir.

1.3. As proposições religiosas do livro

Annie Kirkwood professa a teoria da reencarnação, dentro da qual ela enquadra a Virgem SS. e S. José.

Maria terá vivido na Terra em duas encarnações durante a Idade Média, sempre como freira: na primeira ajudou a estabelecer a Ordem das Irmãs da Caridade para cuidar dos doentes: "Não tive uma existência muito longa. Também contraí uma doença e logo estava de volta ao nosso verdadeiro lar (o além)" (p.83). - Na outra encarnação Maria SS. foi freira discípula de S. Francisco de Assis:

"Em uma existência, José e eu retornamos juntos como freiras e éramos amigas íntimas nesse serviço, mas José não gostava de viver como mulher, e nas existências seguintes retornou como homem" (p. 83).

Na sua encarnação na Palestina, quando foi Mãe de Jesus, Maria morreu aos sessenta anos, quando Jesus ainda era vivo (p.82)... Isto é dito apesar de se ler no Novo Testamento que Jesus morreu durante a vida terrestre de Maria; esta assistiu a seu Divino Filho pregado à Cruz (cf. Jo 19,25-27) e recebeu o Espírito Santo em Pentecostes juntamente com os Apóstolos (cf. At 1,14).

A respeito de Maria SS. e S. José muitas outras notícias fantasiosas vêm consignadas no livro.

Quanto ao ser humano, está dito: "O espírito é a essência, a parte de Deus que existe em você" (p. 171). - Estes dizeres são inspirados pelo panteísmo; o homem seria uma centelha de Deus envolvida pela matéria do corpo.

Não há porque reproduzir outros traços do exuberante livro de Annie Kirkwood. Os que até aqui foram apresentados, sugerem uma reflexão.

 

É surpreendente o fato de que um livro tão pouco científico e racional, tão dado à fantasia solta, encontre tamanha aceitação por parte do público, a ponto de ter sido traduzido do inglês norte-americano para o português. Tal fato evidencia a existência de forte senso religioso "místico" no homem contemporâneo, infelizmente, porém, desligado da razão e do bom senso. Tem-se a impressão de que, em matéria de religião, tudo pode ser afirmado sem o controle da lógica; antes, quanto mais fantasiosos e absurdos forem os dizeres, tanto maior acolhida encontram em certa faixa de leitores. O fenômeno evidencia mais uma vez a necessidade de que as pessoas de fé exercitem sua razão diante de proposições de "mística". A fé tem suas credenciais; estas atendem às exigências, da razão, de querer saber por que crer..., porque crer nisto e não naquilo. O que prejudica o senso religioso do homem moderno e o leva a atitudes ridículas ou loucas, é o desligamento do raciocínio; tudo seria acreditável no terreno religioso, pois a fé seria simplesmente um salto no desconhecido e maravilhoso. Na verdade, a fé é um salto para dentro do mistério de Deus, mas salto de uma criatura a quem Deus quis dar inteligência e raciocínio para orientarem os seus passos.

O livro de Annie Kirkwood é um espécimen muito nítido da fé irracional, que cai no ridículo.



[1] - 135x210 mm, 240 pp. Tradução de Valéria Charmon.


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