REVISTA PeR (1783)'
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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 58 – outubro 1962

 

VIDA COMUNITÁRIA NO PROTESTANTISMO

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO OBSERVADOR (Niterói): «Ouve-se falar de restauração de mosteiros e da vida comunitária no Protestantismo contemporâneo. Que haverá de certo a tal propósito?»

 

Visando responder da maneira mais satisfatória possível, exporemos primeiramente o problema doutrinário que a vida em convento ou mosteiro constituía para os Reformadores do séc. XVI. A seguir, verificaremos como esse problema vai sendo superado por correntes renovadoras do Protestantismo em nossos dias.

 

1. O problema dos votos religiosos na teologia protestante

 

1. Lutero, ex-frade agostiniano, ao abandonar o seu convento, concebeu alguns princípios teológicos que deveriam justificar a sua atitude. Com efeito, em 1521 publicou a obra «De votis monasticis iudicium», em que proferia o seu juízo a respeito dos votos monásticos; em síntese, pode-se dizer que duas são as razões em virtude das quais o Reformador condena a vida religiosa conventual:

1)         Somente a fé salva (o princípio de «sola fide»). Ora a Regra e os votos religiosos obrigam o cristão a cumprir boas obras (celibato, pobreza, obediência) como se estas tivessem maior valor para a santificação e a salvação da alma. O monge e o frade, por seus compromissos religiosos, estariam afirmando que os atos humanos podem ser meritórios para a vida eterna, como se não bastasse apenas a fé. Daí a oposição de Lutero à profissão de vida religiosa.

2)         A piedade do Reformador e da Reforma era estritamente individualista, e não comunitária. Com efeito, a fé — centro da vida cristã, conforme Lutero — é uma adesão pessoal a Deus, que santifica diretamente o crente; a comunhão dos crentes ou a Igreja não interfere nesse processo. Donde se segue que a vida em comunidade perde sua importância para a santificação do protestante; fazer profissão de viver em comunidade equivale a valorizar algo que não o merece. Dai decorria nova «justificativa» para a oposição dos Reformadores aos votos monásticos.

 

Contudo Lutero, apesar das suas invectivas contra os conventos e mosteiros, não deixava de lhes reconhecer um papel educativo e pedagógico; admitia mesmo que pudesse haver na sua Reforma comunidades religiosas, cuja função seria preparar futuros pregadores ou ministros da palavra de Deus. Eis significativo trecho do «De votls monasticis»:

«É mister corrijamos as opiniões e os cultos ímpios, conservando, porém, associações e mosteiros. Pois a juventude que um dia estará na direção da Igreja, não se pode contentar com o estudo em livros; ela precisa, mediante uma disciplina espiritual, de se exercitar na prática da Liturgia e da vida cristã... Se alguns cristãos que têm inclinações especiais para a vida monástica (comunitária), preferem viver em comunidade, uma vez corrigidos os ímpios cultos e opiniões, nós não as censuramos, contanto que não atribuam valor aos votos religiosos. Ao contrário, conscientes de que muitos homens santos e notáveis viveram cristãmente nos mosteiros, nós, animados por essa intuição, desejamos haja tais comunidades de homens sábios e consagrados a Deus, nas quais o estudo da doutrina cristã seja cultivado para a utilidade comum da Igreja, e nas quais os adolescentes sejam não somente instruídos pelos dogmas, mas também habilitados à vida litúrgica mediante exercícios espirituais e a pedagogia da liturgia; isto, porém, se deve fazer de tal modo que não sejam pelos votos religiosos nem entravados nem detidos, com perigo para a sua consciência. Seria santo e agradável a Deus tal gênero de vida destinado à utilidade da Igreja, à instrução e à formação dos homens, dentre os quais poderiam ser escolhidos os doutores da Igreja».

 

Infelizmente estes dizeres do Reformador não tiveram repercussão prática. As diversas denominações protestantes extinguiram os conventos e mosteiros. O próprio anglicanismo, que pretendia ser mais conservador, não foi mais benigno para com as Ordens religiosas: ainda quando vivia Henrique VIII, seu ministro Cromwell começou a fechar os cenóbios. No século passado, Pusey, renovador da piedade anglicana, os quis restaurar, não, porém, em nome de princípios protestantes, mas em nome da antiga tradição cristã e de certas idéias católicas que haviam permanecido no seio da Reforma anglicana. O puro Protestantismo havia de se contentar com a criação de agremiações caritativas e sociais, que não teriam senão afinidade periférica com as comunidades religiosas católicas.

 

2. Acontece, porém, que nos últimos decênios se tem verificado nova abertura de mente no Protestantismo ou nova compreensão de valores que sempre foram caros à genuína piedade; registra-se assim, entre os evangélicos, uma «volta às fontes» mais puras da vida cristã. Tal tendência se concretizou na França e na Suíça pela fundação de casas protestantes de retiros fechados (o que já em si é novidade entre os evangélicos); tais casas são administradas por comunidades religiosas que já apresentam profundas analogias com as suas congêneres católicas Na raiz de todo esse movimento está o pastor Wilfred Monod, fundador da chamada «Ordem Terceira dos Vigilantes».

 

Dessas casas de retiro, a primeira a ser fundada foi a de Grandchamp, à margem setentrional do lago de Neuchâtel (Suíça), em meio a uma paisagem muito aprazível, que costuma ser comparada com a da Galiléia. A fundadora, Margarida de Beaumond, organizou o estabelecimento segundo as normas da pobreza evangélica e do silêncio, com a celebração diária da santa ceia, a oração mental e a recitação de um Oficio litúrgico. A casa de Grandchamp recebe grupos de retirantes de todas as categorias trazidos por seus pastores, assim como senhoras pensionistas que lá se queiram deter por mais tempo. A diretora e suas colaboradoras trajam um hábito religioso e são designadas por «Irmã».

 

Com a mesma finalidade existem a Abadia de Presinge (cantão de Genebra), confiada às diaconisas de Berna sob a direção espiritual dos pastores Ricardo Bäumlin e Jean de Saussure, assim como a Casa de Retiros de Pomeyrol, na região de Vaucluse (França).

 

Contudo a fundação comunitária protestante que, por sua originalidade e autenticidade, mais atenção merece, é a de Taizé-Cluny, cujas características importa agora observar de perto.

 

2. Surto e organização de Taizé-Cluny

1.        Pouco antes da última guerra mundial, estudava na Faculdade de Teologia protestante de Lausanne um jovem idealista chamado Rogério Schutz.

 

Era calvinista de tradição, muito inteligente e sincero, dotado de nobre espírito conciliador; sabia associar em si o tino prático e a veia mística; familiares e amigos muito o animavam a desempenhar a elevada missão a que parecia destinado.

 

Rogério Schutz iniciou a realização do seu ideal, congregando em torno de si um grupo de jovens estudantes suíços e franceses, que viviam em comunidade, orando e trabalhando fraternalmente; de certo modo tendiam a reproduzir o gênero de vida dos estudiosos e ascetas de Port-Royal (cenóbio que muito marcou a espiritualidade do séc. XVIII; cf. «P. R.» 31/1960, qu. 7).

 

Visavam, por sua conduta de vida e suas atividades, dar o testemunho de Cristo ao mundo, principalmente aos operários; desde cedo tiveram relações cordiais com equipes de trabalhadores comunistas, dos quais não poucos foram atraídos e convertidos pelo exemplo dos jovens estudantes.

 

Dentro do Protestantismo, tal instituição significava inovação e, como tal, tinha futuro incerto. Por graça de Deus, porém, encontrou o valioso apoio de conceituados teólogos evangélicos, como o Professor F. Leenhardt e o escritor e pastor J. de Saussure. As vocações começaram a afluir, promissoras tanto pelo número quanto pelas qualidades: eram jovens cientistas, médicos, artistas, seminaristas evangélicos, dos quais muitos desejavam consagrar-se inteiramente à Igreja, observando o celibato. Diante disto, Rogério Schutz resolveu organizar dois círculos de membros da sua instituição: a «Grande Comunidade» e a «Comunidade Regular».

 

A «Grande Comunidade» constaria de cristãos evangélicos que, vivendo no século em família, procurariam seguir um plano único de estudo e de ação, sob a orientação de um diretor, o qual coordenaria os esforços de todos. De dois em dois meses, reunir-se-iam, a fim de orar e debater em comum seus trabalhos passados e seus futuros programas. Ficariam sempre em contato com a Comunidade Regular, recebendo desta as inspirações e o dinamismo necessários. Os membros da «Grande Comunidade» seriam apóstolos ambulantes e casados, ao passo que os da «Comunidade Regular» seriam estáveis e celibatários, desempenhando o papel de orientadores espirituais dos primeiros.

 

Para a Comunidade Regular, o pastor Schutz escolheu, como lugar de residência, uma propriedade situada no departamento de Saône-et-Loire na França, perto do mosteiro medieval beneditino de Cluny: adquiriu ai, por ocasião do Natal de 1940, o castelo de Taizé (donde o nome de «comunidade de Taizé-Cluny» que toca à sua instituição), no ápice de uma colina cuja população estava quase totalmente descristianizada.

 

2.        Como se configura o regime de vida aí estabelecido? Baseia-se em três pilastras tradicionais: pobreza (no sentido de posse comunitária dos bens temporais), obediência ao «Irmão mais velho», celibato. O candidato deve primeiramente fazer a experiência de um ano de noviciado no mínimo, após o qual se compromete por três anos e, finalmente, para o resto da vida.

 

A Regra cenobítica, em seu núcleo primitivo, é muito simples, compreendendo uma máxima e três princípios, que lembram um pouco a Regra de São Bento (1):

«Ora et labora, ut regnet (Ora e trabalha, para que Ele reine).

Em tua jornada, trabalho e repouso sejam vivificados pela Palavra de Deus.

Conserva em tudo o silêncio interior, para permaneceres em Cristo.

Penetra-te do espírito das bem-aventuranças: alegria, misericórdia, simplicidade».

A este texto de base Rogério Schutz em 1952/53 acrescentou considerações e normas referentes à vida espiritual e ao gênero de vocação dos monges de Taizé; tal é hoje a «Regra de Taizé» em seu teor completo. Está toda impregnada do espírito do Evangelho e inspirada pela vida comum dos primeiros cristãos.

 

O horário do cenóbio de Taizé é, em suas linhas gerais, o seguinte :

«Ao levantar-se, a comunidade se reúne para ouvir e meditar brevemente a Regra.

A seguir, tem inicio o culto matinal. É um culto litúrgico, que compreende leitura e canto de salmos, orações, leitura e meditação de um trecho do Evangelho.

Vem a meditação, estudo particular de uma passagem do Novo Testamento. Em um ano, são estudadas e meditadas todas as epístolas, assim como as partes essenciais do Evangelho, dos Atos e do Apocalipse.

Depois disto, a manhã inteira é consagrada ao trabalho intelectual. A fim de se colocar de novo na presença de Deus e santificar o trabalho, a comunidade se reúne às 10 h para breve momento de adoração, que lembra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos em Pentecostes. Lê-se e medita-se então um versículo tirado do texto da meditação da manhã. Outro versículo do mesmo texto é meditado durante a refeição do meio-dia, a qual se desenrola em silêncio.

A tarde é livre até 4 h.

Às 4 h recomeça o trabalho.

As 6,30 h entregamo-nos à oração da tarde. Introduzida pela simples leitura de uma seção do Antigo Testamento (o qual dentro de um ano é lido por inteiro, ao menos em suas partes essenciais), a oração é espontânea.

A refeição da noite é tomada em silêncio — o que permite realizar melhor a comunhão fraterna e orar por todos aqueles que estão sentados à mesma mesa.

Depois da refeição, o serão é livremente empregado em colóquios, leituras, cânticos e música.

 

(1) Não foi em vão que o pastor Schutz escreveu, como tese para obter a licença em Teologia, o estudo intitulado «L'Idéal monacal jusqu'à saint Benoit et sa conformité avec l'Évangile».-

Nessa obra, o autor procurava mostrar a concórdia da sua instituição com os princípios da Reforma evangélica do séc. XVI.

 

Antes de se deitar, a comunidade procede ao culto da noite, durante o qual é lido um trecho de epístola do Novo Testamento (em grande parte do ano, o mesmo que o da meditação da manhã, a fim de que o dia inteiro seja marcado pela mesma Palavra); além disto, lê-se uma seção dos Atos ou do Apocalipse.

A seguir, a comunidade se recolhe em silêncio para o repouso da noite».

 

Este programa tem passado por pequenas modificações recomendadas pela própria experiência. A santa ceia é celebrada diariamente. Além disto, desde Pentecostes de 1948 os irmãos adotaram a praxe do Ofício noturno: às 3,15 h da manhã, levantam-se, revestem-se de túnica branca ajustada por um cinto; dizem o «Aperi» como está no Breviário Romano, e vão para a igreja, onde cantam em francês um dos Noturnos do Oficio de Vigílias do rito católico romano.

 

A comunidade se desempenha deste seu programa com fervor que impressiona os visitantes; tem sabor de juventude, frescura e alegria. Um dos jovens teólogos da comunidade, o pastor Max Thurian, redigiu um livro de normas referentes à «Vida meditativa», onde enaltece o método de meditação de São Francisco de Sales e analisa os diversos graus da vida de oração. Recomenda também a prática da «Via Sacra», após haver modificado o conteúdo de algumas estações.

 

Em Taizé-Cluny, os irmãos praticam a abertura de consciência, que vem a ser uma verdadeira confissão de pecados feita aos pastores da comunidade. Estes pronunciam então a fórmula de absolvição como se encontra no Ritual Romano, cancelando apenas as palavras concernentes à bem-aventurada Virgem Maria e aos santos.

 

No início de 1960, a comunidade de Taizé contava cerca de quarenta membros, reformados (calvinistas) ou luteranos, provenientes de diversas nações (França, Suíça, Holanda, Alemanha ...). Aproximadamente a metade dos irmãos residia em Taizé, enquanto a outra metade se achava espalhada pela França, Alemanha, a Algéria, os Estados Unidos da América do Norte e a Costa de Marfim (África); são «irmãos em missão», encarregados de dar o testemunho de Cristo; a primeira fraternidade, constituída de dois ou três membros, foi enviada a regiões operárias, para viver como trabalhadores, primeiramente em Montceau-les-Mines; a seguir, em Marselha. Todos, porém, se reúnem periodicamente em Cluny, seja para celebrar as principais festas do ano cristão, seja para fazer em comum uma semana de retiro anual. Desta forma até os irmãos de vida mais agitada se retemperam e aprofundam na espiritualidade.

 

Desde novembro de 1953, o gênero de vida de Taizé, aprimorado pelas experiências de mais de dez anos,- foi introduzido na comunidade feminina protestante de Grandchamp (perto de Neuchâtel, na Suíça), comunidade que conheceu seu grande desenvolvimento ao mesmo tempo que Taizé, embora com autonomia, sob a direção de Madre Genoveva Micheli.

Resta agora considerar

 

3. O significado de Taizé-Cluny

 

1.          Os irmãos de Taizé-Cluny, procurando sinceramente viver a perfeição evangélica, foram levados a descobrir elementos muito caros à tradição monástica ou cristã, elementos que os Reformadores do sec. XVI por motivos acidentais cancelaram entre os seus fiéis: vida comunitária, celibato, pobreza pessoal, obediência a um Superior (que faz as vezes do próprio Deus), Liturgia com seu louvor diurno e noturno, retiros espirituais, etc.. — Todos esses elementos, os teólogos de Taizé-Cluny os justificam à luz tanto da Reforma como do Cristianismo dos primeiros séculos.

 

Tal mentalidade e tais práticas não significam apenas notável enriquecimento para a teologia e a piedade protestantes; têm também profundo sentido ecumênico ou o valor de etapa de aproximação entre os discípulos de Cristo. Os irmãos de Cluny representam e vivem concretamente um genuíno espírito unionista; não sem motivo em Taizé se têm verificado encontros sinceros e proveitosos entre católicos e protestantes. Em consequência, deve-se dizer que a importância espiritual ou religiosa dessa comunidade (a qual se acha ainda em fase de formação) ultrapassa de muito a sua importância numérica; constitui em nossos dias uma verdadeira promessa..., promessa em que a ação da Providência Divina parece manifesta.

 

2.          A fim de melhor evidenciar o espírito reinante em Taizé-Cluny, transcrevemos abaixo alguns dos textos mais significativos dos princípios ai observados:

 

a) Sobre o celibato escreve Rogério Schutz, atuai Prior do cenóbio:

«A Reforma, preocupada com os fundamentos bíblicos, restaurou muitas vezes a mentalidade do Antigo Testamento no tocante ao celibato. No séc. XVI os Reformadores consideravam, antes do mais, os abusos do celibato... e pouco se preocuparam com o seu valor evangélico...

Por que renunciar ao celibato? Trata-se de obedecer a uma ordem do Evangelho, que não é a da natureza (cf. Lc 14,26s)... A vocação ao celibato reveste-se de todo o seu valor quando ela se concretiza em homens e mulheres, seres de carne e sangue às vezes movidos por uma alma de fogo, seres suscetíveis de paixões, muito ricos de possibilidades humanas e de sensibilidade... O celibato vem a ser o extremo sinal de contradição em melo a um mundo endurecido,... a um mundo de ouvidos fechados, que precisa de sinais visíveis. No clima sexualizado do mundo ocidental, uma vida vivida em autêntica castidade por amor a Cristo sugere uma questão de grande importância» (Vivre 1'aujourd'hui de Dieu. Taizé 1960, pág. 112-114).

 

A Regra de Taizé-CIuny, por sua vez, declara:

 

«Nosso celibato não significa nem extinção dos afetos humanos, nem indiferença, mas implica em transformação do nosso amor natural. Somente Cristo realiza a conversão das paixões em amor total ao próximo. Quando o egoísmo das paixões não é superado por uma generosidade crescente, quando o coração não é constantemente cheio de imenso amor ... seu celibato se te torna pesado».

 

b) Sobre a pobreza voluntária (ou a «comunhão de bens», na linguagem de Taizé), ensina a Regra do cenóbio :

«A audácia de utilizar do melhor modo possível todos os bens de hoje, sem assegurar capital, sem medo da possível pobreza daí decorrente, isso dá força incalculável... O pobre do Evangelho aprende a viver sem ter segurança para o dia de amanhã, na alegre confiança de que Deus a tudo proverá! O espírito de pobreza não consiste em tornar alguém miserável, mas em dispor na simples beleza da criação... O espírito de pobreza consiste em viver na alegria do dia de hoje... Há uma graça especial para todo homem que dá aquilo que ele recebeu de Deus».

 

c) Sobre a obediência (ou «aceitação de uma autoridade», no vocabulário de Taizé-CIuny) estipula a Regra :

 

«Sem unidade de espírito, não há esperança de corajoso e total serviço a Jesus Cristo. O individualismo desagrega e detém a comunidade era sua caminhada».

O legislador acrescenta uma advertência séria ao Superior ou Regente da comunidade:

«Tomar decisões é tremenda responsabilidade para o Prior. Ao dirigir as almas, trate de não as sujeitar, mas, antes, de edificar todo o corpo da comunidade no Cristo. Examine quais os dons particulares que Deus concedeu a cada irmão, a fim de os tornar conhecidos a cada um. Não considere seu cargo superior aos demais, mas também não o exerça com falsa humildade; guarde consciência apenas de que as suas funções lhe foram confiadas por Cristo, a Quem deverá prestar contas. Quebre em si mesmo toda tendência ao autoritarismo, mas nem por isto ceda à fraqueza, ao procurar conservar os Irmãos no plano de Deus. Não permita que os autoritários prevaleçam, e restaure nos fracos a confiança. Procure revestir-se de misericórdia e peça-a a Cristo como sendo a graça mais importante para o Prior da comunidade».

Por fim, sejam aqui consignadas algumas palavras com que o Prior Rogério Schutz se refere à unidade dos cristãos. Os leitores católicos entendem este texto não como censura à Santa Igreja, mas como exortação dirigida a todos os filhos da Igreja na medida em que estes não correspondam à santidade de Cristo e da sua Esposa:

”Sejam um só, como nós somos um... a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17,21s).

Na véspera da sua morte, Cristo pressentia o drama das nossas divisões. Por isto, antes de nos deixar, formulou mais ardentemente a prece: sejam um só. Desta forma Ele dirigiu aos cristãos de todos os tempos um chamado à unidade. Se aqueles que confessam o seu nome, se opõem uns aos outros, se não há unidade entre eles, o mundo não poderá crer que os cristãos são filhos do mesmo Pai. A hipocrisia, censurada nos fariseus por Cristo, será de novo introduzida no mundo pelos próprios cristãos.

‘Cristo hão pode estar dividido' (1 Cor 1,13), o Corpo de Cristo é uno. Todos aqueles que trazem o nome de 'cristãos', devem cuidar de preservar a unidade. Caso contrário, os não cristãos não terão o direito de se rir de nós, que tão facilmente confessamos um Deus de amor, mas ao mesmo tempo nos vamos desprezando uns aos outros...? Se isto se dá, não nos surpreendamos quando os homens lançam o interdito sobre o testemunho que procuramos dar às massas descristianizadas e aos pagãos das terras de missão.

A tomada de consciência de que existem multidões não cristãs hostis àqueles que professam o Cristo,... fará que muitos descubram a urgência da nossa unidade e nos abrirá para o sentido elementar de catolicidade...

Alguns cristãos... afirmam que já agora existe a unidade da Igreja ... em Cristo e invisivelmente. Mas que unidade espiritual seria essa, incapaz de se traduzir por fatos? E principalmente como poderíamos nós pedir... ao mundo que olhe para nós com o olhar da fé? O mundo crê naquilo que ele vê, e o que ele vê atualmente é uma Cristandade dividida. Somente a nossa unidade visível será capaz de provar ao mundo que somos filhos do mesmo Pai, fiéis ao mesmo Cristo» (R. Schutz, Vivre 1'aujourd'hui de Dieu, pág. 78-81).

 

Na verdade, estas palavras, sugeridas por autêntico espírito ecumênico, traduzem bem a mensagem de Taizé ao mundo, principalmente ao mundo cristão. A comunidade cluniacense de nossos dias constitui, sim, eloquente testemunho de quanto a sinceridade e a rejeição de interesses particulares contribuem, e ainda contribuirão, para se restaurar a unidade da família cristã.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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