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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 56 – agosto 1962

 

DESEJAR A PRÓPRIA MORTE

«Não será lícito a alguém desejar a sua própria morte?»

 

Sobre a liceidade do desejo que alguém (como G. Faita) possa conceber, de deixar a vida presente e morrer, observe-se o seguinte:

 

O desejo de morte não é necessariamente desejo de suicídio. Na verdade, uma coisa é «desejar infligir a mim mesmo a morte»; outra coisa é «desejar que a morte natural me liberte da vida presente». Ao passo que o suicídio ou o desejo de dar a si mesmo a morte é sempre ilícito (disto tratará o próximo número de «P. R.»), o desejo de que a morte venha naturalmente, pode ser lícito ou não, de acordo com o motivo que inspire tal anelo.

 

a)   Se o motivo é a aspiração à definitiva união com Cristo na glória celeste, desejar a morte não é algo de ilícito; pode ser mesmo louvável, como se dava no caso de São Paulo (cf. Flp 1,23). Um tal desejo é perfeitamente compatível com a plena submissão à vontade de Deus; aceita, sem hesitação, o dia e as circunstâncias da morte que a Providência Divina queira assinalar à pessoa fiel; antes, esse mesmo amor a Cristo que leva a desejar a morte, leva igualmente a aceitar o prolongamento da vida na terra, desde que Deus o haja por bem (a fim de que a pessoa possa servir ainda um pouco ao reino de Cristo neste mundo).

 

b)   O desejo da morte própria pode ser motivado pela vontade de escapar às tribulações da vida presente... Esse desejo não é mau em si (embora menos nobre do que o anterior); na verdade, será sempre permitido ao cristão desejar humildemente, na presença de Deus, o alívio ou a cessação de seus padecimentos, pois o Criador não fez o homem para que sofresse, e, sim, para que fosse feliz. Tal desejo, portanto, será lícito desde que não implique em desespero ou revolta ou não equivalha a descaso dos desígnios da Providência; o cristão pode concebê-lo, contanto que o subordine totalmente à santíssima vontade de Deus e aceite na fé aquilo que o Senhor lhe quiser enviar; lembre-se outrossim de que o sofrimento é um valor, é testemunho de benevolência divina, pois purifica e santifica.

 

Somente a covardia consciente ou a voluntária falta de fé faria de tal desejo da morte uma ofensa a Deus, ofensa ora mais grave, ora menos grave, conforme o grau de lucidez de espírito de que gozasse o paciente. Há pessoas que, em momentos de irreflexão ou perturbação de ânimo, desejam a morte, como se tivessem perdido a confiança em Deus; tais atos não hão de ser julgados com grande severidade, pois em geral não são plenamente deliberados nem voluntários.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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