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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 56 – agosto 1962

ADORAÇÃO DA CRUZ

 

H. DOGMÁTICA

SIR BAFAM (São Paulo): «A adoração da cruz na sexta-feira santa não vem a ser homenagem prestada a um pedaço de madeira ou idolatria?»

 

A palavra «adoração» vem do termo latino «adoratio», composto de «ad os» (à boca, aos lábios). Significa etimologicamente o gesto de levar a mão aos lábios a fim de a oscular e, em seguida, estender ó ósculo a uma figura tida como divina. Este gesto devia designar, conforme os antigos, a homenagem suprema que um devoto possa prestar a Deus ou o reconhecimento da absoluta Majestade de Deus e da total sujeição da criatura.

 

O Cristianismo ensina que a adoração só pode ser tributada a Deus, ao único Deus, do qual as Escrituras Sagradas nos falam.

 

Deus, porém, pode ser considerado em Si mesmo, em sua entidade puramente espiritual e invisível, como também pode ser contemplado através de manifestações sensíveis que Ele tenha concedido aos homens no decorrer da história. Ora uma das manifestações mais ricas de Deus e, em particular, do amor de Deus para com os homens, é a Paixão de Cristo (verdadeiro Deus feito verdadeiro homem); a Paixão, por sua vez, é manifestada ou simbolizada pela Cruz. Se, por conseguinte, algum cristão quer adorar a Deus nesta sua prova suprema de amor que é a Paixão redentora, pode voltar-se para a verdadeira Cruz de Cristo (conservada em fragmentos ou relíquias espalhadas pelo mundo inteiro) ou para uma reprodução da mesma (feita por carpinteiros ou escultores posteriores) e, mediante a Cruz, tributar a Deus a sua adoração. Neste caso, fala-se de «adorar a Cruz», mas, como se vê, num sentido impróprio; a adoração é toda relativa, isto é, refere-se toda ao próprio Deus, e de modo nenhum ao lenho como tal; este vem a ser considerado apenas como símbolo de uma realidade invisível e como estímulo sensível da devoção (a natureza humana foi feita de tal modo que lhe é normal passar às coisas invisíveis mediante as visíveis).

 

A adoração sendo, antes do mais, uma atitude interior, é somente a pessoa que a pratica que pode dizer se está adorando ou não. Um ósculo, uma prostração ou uma genuflexão não significam necessariamente adoração. Caso a signifiquem, podem significar adoração absoluta ou relativa; tudo depende da intenção de quem realiza tais atos. Ora o católico professa que, quando ele se prostra diante da santa Cruz e a oscula, ele entende adorar a Deus, e a Deus só, mediante um dos símbolos do seu amor. E não há quem lhe possa contradizer.

 

A respeito de adoração, ver «P. R.» 43/1961, qu. 5.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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