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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 56 – agosto 1962

 

ASTRONÁUTICA E REVOLUÇÃO DO PENSAMENTO

 

CIÊNCIA E RELIGIÃO

HOMEM PERPLEXO (Rio de Janeiro): «As viagens ao espaço vêm provocando uma série de prognósticos revolucionários. São tantas as inovações no nosso modo de pensar que se pergunta se ainda ficarão de pé as tradicionais ideias de Deus, Religião, pecado, virtude... Que pode haver de sensato nessas dúvidas?»

 

Vivemos numa época em que realmente basta abrir um jornal, uma revista ou ligar um aparelho de rádio para ser sobressaltado por notícias imprevistas: novas e novas conquistas da ciência e da técnica levam o homem moderno a sentir que tudo cambaleia em torno dele e que o futuro reserva grandes (quiçá assustadoras) surpresas.

 

Procuraremos abaixo proferir um juízo sobre o significado dessas conquistas. Antes do mais, porém, faz-se mister apontar um ou outro dos mais recentes dados que provocam a surpresa e a perplexidade dos homens contemporâneos.

 

1. Fatos, comentários e prognósticos...

 

A. Fatos...

 

Eis algumas notícias (de tom quase humorístico, mas muito sintomáticas) referentes ao «gigantismo» da vida moderna e colhidas como que a esmo em jornais ou revistas da atualidade.

 

1) «Alunissagem». Foi levada à Academia de Ciências da França uma petição no sentido de se adotar oficialmente o vocábulo (neologismo) «alunissage», a fim de designar os desembarques na Lua previstos para os próximos tempos. A palavra «alunissage» formar-se-ia exatamente segundo o modelo «aterrissagem».

 

A Academia resolveu recusar a proposta, apresentando o seguinte motivo: «Seria ridículo querer dar nome especial a qualquer operação de descida sobre algum planeta» (transcrito da revista italiana «Orizzonti» de 7/III/62, pág. 44).

 

Como se vê, a resposta, embora seja negativa, de modo nenhum fecha a perspectiva de chegada do homem a astros ainda mais longínquos do que a própria Lua!

 

2) Colônia de repouso na Lua. Refere a revista «Science et Vie» (mars 1962, pág. 29) o seguinte:

«A Lua, próximo centro de repouso.

Ao cabo de suas mais recentes experiências, os médicos da Divisão das Ciências da Vida da 'Aerojet General Corporation' chegaram à conclusão de que a Lua seria, sem dúvida, uma colônia de férias tão vantajosa quanto uma viagem pelas Antilhas ou seis semanas na Côte d'Azur.

A diminuição da força da gravidade poderia, por exemplo, assegurar ao coração um repouso apreciável; com efeito, na terra o coração funciona lutando contra a atração, que faz que os nossos oito litros de sangue pesem aproximadamente oito quilos...

Não poucas doenças encontrariam talvez uma evolução mais favorável e mais rápida nos «selenários» imaginados [«seléne» = Lua, em grego].

Note-se que a força da gravidade na Lua é seis vezes mais fraca (1/6) do que na terra, de modo que, por exemplo, uma máquina de cinco toneladas lá só pesaria 825 kg.

Contudo é certo que isto não se daria antes do ano 2000».

 

Assim como se aplica o tratamento por hibernação sobre a terra, aplicar-se-ia o tratamento por «lunação»: «Onde vamos parar?», pergunta o observador perplexo.

 

3) A mesma revista «Science et Vie» (mars 1962, pág. 68-83) traz um artigo sobre veículos lunares, apresentando uma série de modelos que poderiam entrar em funcionamento sobre o solo da Lua : máquinas com patas ou «grilos» mecânicos, tanques em forma de lagartos com anéis («chenillettes»), puladores mecânicos ou «pulgas» automáticas («chariots-fusée-pour-sauts-de-puce»), «jeeps», locomotivas a jato, balões que pairem acima do solo. As condições sanitárias do homem para poder transitar sobre a Lua são estudadas com cuidado. Tudo isso parece romance de ficção; contudo observa o articulista:

 

«Os romances de antecipação hoje em dia se escrevem nos escritórios de estudos de 'General Motors', 'General Electric', 'Aerojet' e de uma série de outras firmas conceituadas: transitar sobre a Lua tornou-se assunto 'terra a terra'» (ib. pág. 83).

 

Fala-se de «lunamóveis»... Calcula-se que 50% do solo da Lua possam ser facilmente percorridos por um veiculo; 40% serão abordáveis com dificuldade; 10%, totalmente inacessíveis.

 

4) Ainda em «Science et Vie» (février 1962, pág. 40), Charles-Noël Martin expõe novos argumentos que fazem crer haja vida em outros planetas, e termina com o seguinte «comentário-gracejo» :

 

«O universo inteiro é um formigueiro espantoso de vidas que foram, são e serão; é preciso então que levemos muito a sério os dizeres de um astrônomo inglês— de origem australiana, sem dúvida — segundo o qual existe certamente em algum recanto do universo, sobre um planeta qualquer, a milhões de anos-luz de distância, uma equipe de 'rugby* capaz de derrotar a equipe da Austrália».

 

Até os jogos de esporte vão sendo colocados, embora em tom de pilhéria, dentro das perspectivas interplanetárias, O que é cotidiano e corriqueiro (como o «rugby», o futebol...), vai tomando proporções inauditas; talvez, na fantasia de mais de um leitor de tal notícia, se desperte a imagem de um jogo de «rugby» amistoso entre a Austrália e a equipe de Marte ou Venus!

 

5) Enquanto ainda se discute a respeito de «alunissagem, lunação, lunamóveis», já não se hesita em empregar a expressão «planetarização da vida e do homem nos tempos atuais». Tenha-se em vista o título do livro de Jacques Leclercq, professor da Universidade de Louvain : «O cristão diante da planetarização do mundo» (coleção «Je sais — Je crois» no 94). O autor, no limiar da obra (pág. 9), observa com muito bom senso:

 

«Não me agrada o título deste volume. Não fui eu, porém, que o inventei; foi-me apresentado, e eu sou de temperamento dócil.

 

A palavra 'planetarização' está na moda; que quer ela precisamente dizer?...

 

Quando se fala atualmente de planetarização, trata-se do homem. O homem é planetarizado...; isto quer dizer que a atividade do homem se estende a todo o planeta».

 

As dimensões do vocabulário são sintomáticas; exprimem naturalmente novas dimensões do pensamento ou um modo de pensar em rebordosa.

 

Quem lê essas noticias e observações, talvez seja afetado por uma espécie de volúpia ou mesmo de vertigem interior: assim como as perspectivas do homem moderno se vão deslocando do mundo material terrestre em que vivemos, para outros mundos, assim parece também que as categorias do pensamento habitual têm que ser revolvidas e remodeladas. Em particular, as ideias religiosas, para muitos, sofrem impacto; uma onda de relativismo religioso tende a se introduzir na mentalidade contemporânea, que se reflete bem nas seguintes frases:

 

«Ainda terá valor a ideia de Deus, tradicionalmente associada à do nosso mundo terrestre? Não terá que ser removida ou, ao menos, reformada, de modo a dar lugar a tantos deuses quantos mundos habitados possa haver?

 

E as categorias do bem e do mal não seriam algo de transitório, sujeito a revisão, já que a vida moderna se torna, de um lado, tão mais cômoda e sedutora para o homem, mas, de outro lado, tão mais impressionante e enervante?»


B. Comentários e prognósticos.

 

A perplexidade que essas notícias provocam espontaneamente no público, é explorada pelos comentários da propaganda materialista de nossos dias.

 

1) Um dos espécimes mais arrojados dessa propaganda são os dizeres do jornal comunista de Franga «L'Humanité» de 13/IV/61. Pierre Courtade aí exaltava a então recente (12/IV/61) viagem de Yuri Gagarin ao espaço nos seguintes termos:

 

«Durante milênios os homens consideravam o céu acima de suas cabeças como o domínio do invisível e do desconhecido. A 'ascensão' e a 'assunção', elevação miraculosa de Jesus Cristo ao céu e de Nossa Senhora aos céus levada pelos anjos, foram descritas como verdadeiros deslocamentos de corpos materiais no espaço e como provas da onipotência divina. Hoje é o homem quem dá a si mesmo esta prova de onipotência».

 

No mesmo número de jornal, Jeannette Vermeersch escrevia sob o título «A PROVA DE ONIPOTÊNCIA DO HOMEM»:

 

«Hoje ocorre a festa da Ascensão. Não é ascensão de um ser suposto, inventado, milagrosamente elevado. Não; é um robusto e belo jovem de 27 anos, um jovem comunista, Youri Alexeievitch Gagarin, que foi elevado mais alto que o céu».

 

2) A Rádio Soviética na mesma data proclamava :

 

“Glória ao povo criador que envia seu filho aos céus!”

 

Palavras que constituem como que um eco ao «Glória a Deus nas alturas» do S. Evangelho.

 

3) German Titov, o segundo cosmonauta russo, ateu convicto, declarava, como refere a revista russa «Ciência e Religião» de janeiro de 1962:

1)                 

«Perguntam-me frequentemente se, no meu voo pelos espaços, encontrei Deus, os anjos e os santos. Que dizer a tal propósito? Quando me achava nos ares, ouvi pelo rádio as emissões de uma estação japonesa, que, em língua russa, falava de Deus, dos santos, dos anjos e de outras semelhantes tolices. Pensei em mandar àquela emissora uma saudação, mas refleti: 'Para que? Eles ainda julgam que Deus de fato existe'. As orações dos devotos não chegam a Deus, porque, ali onde ele se deveria encontrar, não existe nem sequer um pouco de ar».

 

Texto transcrito da revista italiana «Orizzonti» (8/III/1962) pág. 7. O articulista Nazareno Fabbretti aí observa : «... O argumento do ar — eis um argumento que, por certo, de modo nenhum recomenda a autoridade de Titov nem a da revista que refere as suas declarações». De fato, querer provar a não-existência de Deus pela não-existência de atmosfera é infantilidade ou sinal de falta de padrão intelectual; está totalmente desprestigiado quem assim argumenta.

 

4) Seja outrossim mencionada a mensagem de Khruchtchev dirigida a Gagarin logo após a primeira viagem ao espaço:

 

“O voo espacial abre o caminho para nova era, que marcará a conquista do espaço pelo homem. Os corações soviéticos transbordam de felicidade e orgulho, em sua inabalável confiança na pátria socialista. De todo o coração levo-lhe o meu abraço”.

 

A euforia e o otimismo ilimitados transparecem através destas palavras: nova era soviética opõe-se à antiga era cristã... Messianismo por messianismo!...

 

Os dados até aqui registrados já são suficientes para que abordemos diretamente a questão: que pode haver de sensato e plausível em tais declarações?

 

2. Reflexão sobre os dados

 

1. Sem dificuldade, o homem sensato há de reconhecer tudo que exista de grandioso nas recentes conquistas da ciência.

 

Contudo quem reflete, não se deixará seduzir pelos comentários ... As descobertas científicas de modo nenhum abalam as pilastras do pensamento tradicional, isto é, a ideia de Deus como Ser Absoluto, a ideia do homem como ser relativo e contingente, as noções de Religião, do bem e do mal moral...; todos estes conceitos continuam dotados de valor inatingível ou perene.

 

De fato; a penetração do espaço não derroga à existência de Deus... Deus não está confinado a espaço algum; é pueril concebê-lo em função do ar atmosférico (como se tivesse corpo e precisasse de ar para existir) ou em função de um paraíso colocado nas alturas.

 

Ao contrário, o homem é que estará sempre confinado aos limites do espaço e do tempo. Jamais poderá dar contas da existência do universo ou da sua própria existência; jamais se poderá julgar autor ou governador do mundo. Os satélites artificiais nos quais a ciência moderna confia, gastam-se e caem, como as mais possantes estrelas estão fadadas a declínio; entrementes fica no homem a sede inextinguível do Absoluto ou do Infinito. Na verdade, o finito, por mais aperfeiçoado que seja, nunca se tornará infinito. Ora o homem tem sede do Infinito; ele não se sacia com algum bem que acabe. Donde se vê que não é por via de satélites artificiais e conquistas de planetas que o homem conseguirá satisfazer a sua aspiração ao Infinito.

 

Entre o contingente e temporal, de um lado, e o Absoluto e Eterno, de outro lado, não há transição possível (o Absoluto não é o relativo ampliado ou em proporções extraordinàriamente dilatadas, mas possui «estrutura» radicalmente diversa da do ser relativo). Dai se percebe que nem o homem nem criatura alguma dimensional, pelo fato mesmo de serem seres finitos, poderá tomar o lugar d'Aquele que chamamos Deus e que por definição é o Absoluto e Infinito.

 

Positivamente, diremos que a penetração do espaço, em vez de abalar, consolida... : sim, ela permite ao homem tomar conhecimento mais exato das coisas contingentes e finitas. Ora o mais exato conhecimento das coisas finitas leva a reconhecer ainda mais claramente a necessidade de que exista o Infinito transcendente, ou seja, um Ser Supremo que explique essa imensa riqueza de coisas contingentes e finitas que nos cercam e que não têm em si mesmas a sua razão de ser.

 

O Infinito se apresenta assim com nova face e novo colorido. O testemunho das criaturas em favor do Criador se torna ainda mais eloquente...

 

2. Para corroborar quanto acaba de ser dito, seguem-se aqui alguns testemunhos especialmente significativos, mas em geral pouco conhecidos pelo.público.

 

1) Somente algumas semanas após o voo de Gagarin ao espaço, veio o mundo a saber que esse cosmonauta é um cristão confesso. A imprensa soviética só noticiou declarações do herói condizentes com o programa materialista do Partido; eis, porém, que aos 28 de abril de 1961 o jornal «La Gazette», um dos mais difundidos diários do Líbano, informava que o Patriarca libanês Sibiri fôra convidado pelo Patriarca Sérgio de Moscou para participar das homenagens prestadas a Gagarin na capital soviética (a religião ainda tem existência na Rússia, embora controlada ou mesmo manejada pelo Governo). Nesse número do jornal citado, o Patriarca Sibiri refere que Gagarin, logo que o viu na tribuna das autoridades reunidas para as solenidades, se encaminhou para o prelado e lhe disse:

 

«Abençoai-me, Pai, porque vindes da Terra Santa, onde nasceu Jesus Cristo».

 

Admirado, o Patriarca interrogou-o a respeito da sua crença religiosa; ao que Gagarin respondeu:

 

«Pai, a minha fé é mais forte do que o ímpeto da nave espacial que me transportou para o cosmos». E insistiu: «Abençoai-me, porque me lembrais a terra na qual nasceu a nossa fé cristã».

 

Esta notícia foi colhida na revista «Orizzonti» (8/III/62) pág. 7. Transcrevemo-la sem a poder ulteriormente comprovar. Nada há que nos leve a negar crédito a tal fonte de informações.

 

2) Quanto a John Glenn, o astronauta norte-americano, sabe-se que também é homem de fé, pois dele são as seguintes palavras ditas em resposta a quem lhe perguntava: «Você sentia que Deus estava lá em cima como está aqui na terra?»:

 

«Parece-me um disparate limitar a presença de Deus a determinadas secções do espaço, onde quer que seja. Não conheço a natureza do Senhor melhor que outro ser humano qualquer. Nem posso ter tal pretensão só pelo fato de haver dado uma volta pelo espaço um pouco acima da atmosfera. Deus é muitíssimo maior que tudo isso e sê-lo-á sempre, por muito longe que nós cheguemos» (texto transcrito do periódico «O Lar Católico» de 20/V/1962).

 

3) A revista italiana «Época» mantém uma secção intitulada «Italia domanda», em que se publicam questões dos leitores e as respectivas respostas sobre assuntos de interesse geral. Em abril de 1961, a Sra. M. L. Ghedini, de Milão, perguntava:

 

«Meu marido afirma que as prodigiosas conquistas da ciência moderna — que transforma a matéria e lança astronaves rumo aos mais longínquos planetas — destroem a fé em Deus. Os cientistas, segundo meu marido, são materialistas e ateus. É verdade?»

 

A resposta foi confiada a uma das mais abalizadas autoridades no assunto, o físico alemão. Wernher von Braun, um dos pioneiros das modernas pesquisas atômicas, o qual entre outras coisas declarou:

 

«Dentro da nossa civilização moderna, muitos parecem estar persuadidos de que a ciência tornou de certo modo anacrônicas e obsoletas as ideias religiosas. Creio, entretanto, que a ciência vai reservar efetivas surpresas aos céticos. Por exemplo, a ciência nos ensina que na natureza nada — nem a mais microscópica partícula — se pode dissolver sem deixar um vestígio. Por outras palavras, ficou provado pela ciência que nada pode ser destruído completamente e que a Natureza não conhece a extinção, mas tão somente a transformação.

Ora, se Deus aplica esse principio fundamental às coisas minúsculas e insignificantes, não é lógico que Ele aplique o mesmo principio a essa obra-prima da sua criação, que é a alma do homem? Creio que sim. E tudo o que a ciência me ensinou e continua a ensinar-me, robustece a minha fé na continuidade de nossa existência espiritual depois da morte, pois nada desaparece sem deixar vestígios...

A fé em Deus e na imortalidade da alma nos dá a força e a orientação ética que nos são necessárias em todas as ações da nossa vida cotidiana» (noticia extraída de «O Globo», Rio de Janeiro 24/IV/61).

 

Von Braun fala naturalmente em seu vocabulário de cientista ... Contudo ao leitor interessa o que ele assim quer incutir, a saber: a existência de Deus e a certeza da imortalidade da alma. — O depoimento é realmente valioso, pois bem mostra que a mais elevada ciência moderna está longe de desviar de Deus...

 

4) Pierre Lecomte du Noüy (1883-1947) começou seus estudos de Biologia e Filosofia das ciências, professando o agnosticismo religioso. Aos poucos foi mais e mais voltando sua atenção para os temas religiosos, até que a evidência de suas reflexões o levou a professar e abraçar o Catolicismo. Em sua última e famosa obra, «L'homme et sa destinée», já no fim da vida (1947), escrevia Lecomte du Noüy palavras que parecem talhadas para os dias atuais, pois muito ajudam a avaliar o significado do materialismo moderno:

 

«Não é o homem religioso, mas é o materialista convicto, que dá prova de fé pujante (embora negativa), quando se obstina, sem demonstração científica, em crer que a origem da vida, a evolução, o cérebro do homem e o surto das ideias morais poderão ser um dia explicados pela ciência...

 

Nem o agnóstico nem o ateu parecem de algum modo perturbar-se pelo fato de que o nosso universo organizado, vivo, é incompreensível sem a hipótese de Deus. A sua crença em certos elementos físicos, a respeito dos quais eles pouca coisa conhecem, apresenta todos os sintomas de uma fé cega; contudo eles não têm consciência disto» (pág. 148).

 

Com estas palavras, o autor lembra que na verdade têm muito mais fé aqueles que dizem não crer em Deus, do que os homens religiosos propriamente ditos, pois, abandonando o verdadeiro Deus, tributam sua fé («confiança inabalável», dizia Khruchtchev) a novos e falsos deuses, como sejam a matéria, a técnica, a ciência, etc.

 

Com relação à identificação de Deus com alguma entidade material (necessitada de ar, por exemplo, para existir), observava Lecomte du Noüy :

 

«Qualquer tentativa de imaginar Deus dotado de traços materiais revela um infantilismo que causa dó. Não podemos conceber Deus com a fantasia, como não podemos imaginar um elétron. Não obstante, numerosos são aqueles que não creem em Deus, porque são incapazes de O imaginar. Esquecem que essa incapacidade não é em si mesma prova de não-existência, pois creem firmemente no elétron» (pág. 148).

 

As palavras de Lecomte du Noüy sugerem uma terceira observação, que será ao mesmo tempo um comentário das mesmas.

 

3. A incredulidade moderna, longe de significar ou implicar revolução do pensamento, não vem a ser senão uma outra forma de fé ou uma outra e nova afirmação do tradicional modo de pensar do gênero humano.

 

Até no materialismo ou apelando para o materialismo, o homem procura Aquilo mesmo que ele sempre procurou na Religião ; procura, sim, o Infinito, procura Deus. O homem moderno mostra ter consciência de que não foi feito para o século presente. Tenta então ultrapassar os limites estreitos que o cercam, lançando-se ao espaço, e antecipando cenas de uma era nova e de um mundo novo, que para ele têm semelhança com o Infinito. Tenta assim satisfazer-se na matéria neutra e impessoal, à qual presta uma fé quase absoluta, mas pouco razoável.

 

Podem-se observar na vida moderna fenômenos paralelos entre si, fenômenos em que Deus não é negado, mas afirmado de maneira nova, fantasista — o que corrobora a nossa verificação de que o homem tem sede inelutável de Deus; se ele não sacia essa sede na fonte autêntica, tem que procurar satisfazê-la em aberrações, que, por mais estranhas ou desencontradas que sejam, constituem sempre afirmações da crença no Absoluto, no Infinito, distinto do homem e do mundo visível.

 

Tais estranhos fenômenos contemporâneos seriam:

 

a) As profecias referentes ao fim do mundo, seja para breve, seja para o ano 2000. Dentre as mais recentes, destaca-se a seguinte, noticiada pela revista «Manchete» de 10/11/62 :

 

«Segundo concluíram alguns astrólogos hindus, o sistema solar em que vivemos, terá apenas poucos dias de existência. No período de duas semanas — ou para sermos mais precisos — no dia 8 de fevereiro de 1962, haverá uma colisão no espaço, quando oito astros — o Sol, a Lua, Venus, Marte, Júpiter, Saturno, Mercúrio e o planetoide invisível Ketu entrarão em choque e, como resultado dessa catástrofe celeste, todo o sistema solar deixará de existir...

 

Acreditando no que foi divulgado, famílias inteiras da índia deram inicio a uma fuga em massa de seus lares, rumo à cidade santa de Benares, sobre o sagrado rio Ganges, em cujas águas procurarão purificar-se, antes da hora fatal. Os peregrinos creem que Benares é o lugar mais seguro para se estar quando os oito corpos celestes acima referidos convergirem, no dia 3 de fevereiro sobre a décima mansão cósmica do Capricórnio...

 

Segundo essas mesmas interpretações, 1962 será o mais negro e o mais trágico ano dos últimos três milênios, e, para que outro semelhante a ele possa ocorrer, será necessário o transcurso de um período de tempo pelo menos de outros 2159 anos...»

 

Passou-se a data indicada, e nada aconteceu... Tal profecia não vem a ser senão mais uma expressão da sede ardente que o homem em todos os tempos experimentou (e hoje, mais do que nunca, experimenta), de ultrapassar o mundo material que o cerca, para possuir algo de melhor, que em última análise é o próprio Deus indistintamente reconhecido.

 

Têm-se registrado outras tentativas de prever o fim do mundo para um futuro mais ou menos próximo ou para o ano 2000... A insistência e os pormenores dos prognósticos chamam a atenção. O caráter fantasista de tais previsões não deixa ilusão na mente de quem reflete um pouco; essas previsões não são sinal da proximidade do fim do mundo, mas, sim, de outra realidade, isto é, da aspiração inata que o homem tem em demanda do Transcendente ou de Deus. Sendo particularmente calamitosos os tempos atuais, torna-se particularmente aguda a tendência da humanidade ao Invisível, a Deus mesmo.

 

Intimamente relacionado com o fenômeno que acabamos de apontar, está

 

b) O pulular das seitas modernas. É surpreendente, "como confessam os cronistas contemporâneos, o número de seitas que vêm surgindo nos últimos decênios. Portadoras de «profecias» e revelações, anunciam geralmente o fim do mundo e o advento de nova era... Constituem assim outra e clamorosa expressão do anelo ao Transcendente ou a Deus (infelizmente mal conhecido pelos adeptos das seitas).

b)                 

Na 31a Semana de Missiologia, realizada em Louvain (Bélgica) de 21 a 25 de agosto de 1961, foi abordado o fenômeno das seitas modernas.

 

Um dos oradores, D. Guariglia, da Universidade de Milão, salientou então o fato de que as grandes aspirações dos homens através dos séculos são sempre variantes de uma aspiração mais profunda e essencial: o anelo de salvação. Esse anelo em nossos dias, acrescentava, é aguçado pelo choque da civilização tradicional com a civilização moderna, a qual destrói os ritmos e quadros daquela, e, por conseguinte, tira ao cidadão a sua segurança e paz. É esse choque que em grande parte leva o homem contemporâneo a procurar expandir sua inquietude no ritmo geralmente fogoso e subversivo das seitas.

 

Outro conferencista, o Pe. Chéry, corroborava tal afirmação, lembrando o caso do Japão de nossos dias: pela última guerra abalado em seus fundamentos psicológicos, decepcionado ao extremo em Sua fé xintoísta, que o fazia crer num Japão invencível, o povo japonês vê surgir em seu grêmio centenas do movimentos salvíficos, os quais congregam mais de 10% da população nacional. Outro exemplo é o da África, que, no decurso de poucos decênios, está passando da sua civilização primitiva, quase imutável, para a civilização moderna, com os seus sobressaltos febris (na África, chegam a ser sobressaltos revolucionários e belicosos). O Africano vai perdendo a sua fé nas crenças animistas e fetichistas de seus antepassados. Quais são então os novos objetivos nos quais ele passa a crer? Aponta-se o Cristianismo, que realmente tem feito progressos no continente Africano; ao lado deste, porém, nota-se extraordinária proliferação de seitas, a ponto de se contarem cerca de 1.200 na África do Sul apenas.

 

Veja-se o periódico quinzenal «Informations Catholiques Internationales» n» 153 (l/X/1961) pág. 2Gs.

 

c) A «visão» de discos voadores. Muitas pessoas afirmam, sem hesitar, a existência de tais veículos do ar, ao passo que outras a negam... Não é propósito destas linhas discutir os argumentos pró e contra. Apenas interessa observar, dentre as várias opiniões emitidas a respeito, a do famoso analista Carl Gustav Jung no seu livro mais recente, intitulado «O mito moderno»:

 

Para Jung, os discos voadores não são produtos de realidades extraterrestres, mas sinais de uma realidade existente dentro da alma humana mesma, isto é, sinais da angústia em que se debatem as populações modernas, sequiosas de uma era nova. Conforme Jung, o homem, desejando ultrapassar os limites do mundo material que o torna infeliz, projeta este seu desejo no símbolo dos discos voadores; é a sede de algo de maior e melhor (em última análise... a sede de Deus) que leva os cidadãos duramente flagelados nos nossos tempos a conceber discos viadores e todo o sensacionalismo que estes suscitam em quem os «observa».

 

Jung afirma que o fenômeno.dos discos voadores já ocorreu em outras épocas da história, denunciando a perene angústia da alma humana sequiosa do Absoluto, e nada mais...

 

Sem comentário, fica aqui registrado o parecer de Jung. Merece a atenção do estudioso, dada a autoridade que o emite.

 

Conclusão

 

A pretensa revolução do pensamento sugerida por arautos de falsa ciência na época atual não vem a ser senão um apelo para aqueles que conhecem o Verdadeiro Infinito ou o único Bem, Deus, a fim de que O manifestem ainda mais claramente ao homem inquieto de nossos dias; em outros termos :... apelo aos cristãos... — A aparente revolução tem sua mensagem construtiva : confirma os clássicos princípios da Filosofia cristã, que tem acompanhado a civilização ocidental até o dia de hoje. Pode-se ter certeza de que estes princípios só são abandonados porque os seus representantes não lhes têm dado, na vida prática, a ênfase e a projeção devidas.

 

Para ilustrar esta conclusão, seja aqui registrado um testemunho altamente significativo, proferido por Douglas Hyde, ex-líder comunista britânico, a respeito da situação mundial contemporânea.

 

Foi recentemente proposta a Hyde a questão: «Será inevitável a vitória do comunismo?». O interpelado assim respondeu:

 

«O perigo é real; o comunismo está desenvolvendo um esforço decisivo para apoderar-se do mundo inteiro...

Às populações esfomeadas, às massas exasperadas por clamorosos desequilíbrios sociais, o marxismo se apresenta com uma promessa: a justa repartição das riquezas. E vamos verificando um fenômeno que surpreende os ocidentais: as palavras de Moscou têm maior peso do que os auxílios materiais dispensados por Washington. O motivo disto é o seguinte: os técnicos encarregados de distribuir tais auxílios materiais são em geral meros técnicos, espiritualmente vazios, e não preparados para a sua missão social. Ao contrário, os «técnicos» enviados por Moscou, os dirigentes comunistas em cada país são ideològicamente bem preparados: têm ideias precisas a respeito dos objetivos a atingir e dos meios a empregar. Os resultados, nós os vemos: os próprios adversários ideológicos do comunismo começam a crer na possibilidade da sua vitória final.

Mas, se o comunismo vencer, a culpa será exclusivamente nossa...» (extraído da revista «Orizzonti» de 8/IU/62, pág. 7).

 

Em uma palavra : Douglas assevera que o comunismo vai vencendo não porque tenha melhores valores do que o Cristianismo, mas justamente porque usurpa um elemento que é próprio de toda Religião e, particularmente, do Cristianismo: a crença no mistério e a mística daí decorrente. O comunismo é uma Religião que se exprime às avessas ou em caricatura. E, em última análise, o que o homem moderno (como, aliás, o homem antigo) quer, é Religião, é Deus, mais ainda do que auxílio material, que não sacia definitivamente. O comunismo só seduz, porque é Religião e Mística, porque é aquilo que o Cristianismo mesmo é; acontece, porém, que o comunista vive essa sua religião até as últimas consequências, empenhando vida e morte em seu serviço, ao passo que os cristãos tendem a se julgar fracassados e desastrados; nem sempre valorizam devidamente a sua fé, que é o protótipo da fé que o comunista copia e tributa não a Deus, mas a um antiDeus, à matéria; é, pois, com os valores mesmos do Cristianismo que o comunismo vai vencendo o Cristianismo! Não o permitam os cristãos! Prezem a sua fé no verdadeiro Deus e na Religião. Apresentem ao mundo o testemunho de autêntica vida cristã, e assim estarão dando aos homens, inclusive aos comunistas, aquilo de que todos se acham sequiosos.

 

Despertar as consciências, reavivar a fé em Deus, tal é a «revolução» do pensamento que as conquistas da ciência moderna devem despertar nos homens que refletem desapaixonadamente!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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