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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 050 – fev/1962

 

QUE É IGREJA LITÚRGICA?

LITURGIA

A.F.P. (Belo Horizonte): «Que se entende por 'igreja litúrgica' ou, consequentemente, por 'estilo litúrgico'?»

 

«Igreja litúrgica» é, como dizem os termos, o templo sagrado construído de acordo com as ideias características da S. Liturgia. Ora as ideias da S. Liturgia não são senão as da espiritualidade cristã alimentada pelas suas fontes mais puras (a Sagrada Escritura e a antiga tradição da Igreja).

 

Para bem explanar o conceito de «igreja litúrgica», voltaremos primeiramente a nossa atenção para a noção de arte sacra em geral; a seguir, examinaremos as características de uma arte sacra inspirada pela Sagrada liturgia.

 

1. A arte sacra em geral

 

1. Conforme São Gregório Magno, «a arte das artes é a direção das almas» (Regula pastoralis). Destas palavras é lícito concluir que qualquer modalidade de arte e, em particular, a arte sacra está relacionada com a formação doutrinária e moral das almas. A arte sacra é um testemunho da fé das gerações passadas e, ao mesmo tempo, uma mensagem para a fé das gerações subsequentes; é necessàriamente uma forma de ensinamento religioso,... e forma por vezes mais penetrante do que a mais concatenada das dissertações orais.

 

Donde se vê que, na arte sacra, o conteúdo ideológico ou a doutrina a ser expressa tem muito mais importância do que o aparato sensível ou a riqueza do material utilizado... A arte cristã é essencialmente amiga do simbolismo, isto é, de linhas sóbrias totalmente postas a serviço de ideias a ser transmitidas. Verifica-se mesmo que nos seus períodos áureos a arte cristã se serviu, em grande escala, de símbolos, ao passo que nas épocas de decadência ela se rendeu mais ao realismo, isto é, à reprodução de quadros sensíveis tão carregados de pormenores que a atenção do observador fica presa a estes em vez de ser levada a perceber uma mensagem doutrinária profunda. A exuberância de traços concretos, de minúcias sensíveis, assim como a teatralidade, são notas alheias ao espírito da genuína arte cristã.

 

S. Santidade o Papa Pio XII lembrava que «o artista é o intérprete das infinitas perfeições de Deus, particularmente da beleza e da harmonia de Deus. Com efeito, é função de toda arte romper o estreito e angustioso circulo do finito em que está encerrado o homem durante a sua vida terrestre, e abrir como que uma janela para o seu espírito sedento de infinito» (Discurso aos Artistas da VI Exposição Quadrienal Romana, proferido aos 8 de abril de 1952).

 

2. Dito isto, surge espontaneamente a questão: quais seriam as grandes ideias que a arte de uma igreja deve exprimir a fim de preencher devidamente a sua função?

 

Num templo sagrado, a arte deve traduzir os grandes temas que norteiam o culto, ou seja, a S. Liturgia.

 

E quais são os grandes temas que norteiam a S. Liturgia?

 

A Liturgia nada mais é do que a extensão da obra que Cristo iniciou sobre o Calvário; a sua finalidade é aplicar a todas as gerações humanas até o fim dos tempos a redenção adquirida pelo Senhor Jesus. Pela Liturgia Cristo torna presente sucessivamente a cada geração através dos tempos o sacrifício dá Cruz, a fim de que todo e qualquer indivíduo participe dele, tornando-se com Cristo oferente (sacerdote, em certo grau) e hóstia oferecida. Em outros termos: pela Liturgia Cristo se oferece ao Pai, perpetuando (ou tornando presente, não multiplicando) a sua oblação feita outrora no Gólgota, com a modalidade, porém, de que pela Liturgia o Senhor associa a essa oblação a sua Santa Igreja.

 

E o ato culminante da Liturgia, ato em que este mistério se realiza por excelência, é a celebração da S. Eucaristia ou a S. Missa. Esta ocupa o centro de todo o culto cristão; todos os dias é ela oferecida a Deus Pai. Os demais sacramentos convergem, cada qual do seu modo (visando circunstâncias particulares da vida do cristão), para a Eucaristia. Além da Eucaristia e dos demais sacramentos, a Liturgia inclui ritos menores chamados «sacramentais», os quais visam estender as graças da Redenção a pessoas e objetos especialmente consagrados a Deus (são principalmente bênçãos: bênção de uma igreja, de uma casa de família, de uma oficina, de alimentos, consagração de uma virgem, de um rei, etc.).

 

Sendo assim, os grandes temas da piedade litúrgica poderiam ser propostos no seguinte esquema:

 

(1) DEUS PAI --> (2) CRISTO MEDIADOR (Deus Filho feito homem) --> (3) A IGREJA (Deus Espírito Santo vivificando o Corpo Místico de Cristo) -->(4) A EUCARISTIA e os demais sacramentos e os sacramentais (LITURGIA)  --> (5) OS FIÉIS individualmente atingidos pela Liturgia.

 

A propósito deste esquema observe-se: assim como a Igreja é anterior à S. Eucaristia, ela também lhe é posterior. A Igreja faz (consagra) a S. Eucaristia, e é feita (arquitetada e cimentada) pela Eucaristia.

 

Estas considerações já são suficientes para que se possam descrever as notas características de um templo construído segundo o estilo litúrgico.

 

2. «Igreja litúrgica»

 

Estas linhas não pretendem apresentar de maneira exaustiva todas as normas e sugestões do estilo litúrgico, mas apenas uma síntese das suas notas mais marcantes (síntese inspirada principalmente por uma Instrução da Suprema Congregação do Santo Ofício datada de 30/VI/1952 e pelo comentário que a propósito escreveu o Cardeal Celso Constantini; estes dois documentos serão abaixo citados segundo a edição que deles fez a Cúria Metropolitana de São Paulo em 1952, sob o título «Arte Sacra»).

 

Eis o que em poucas palavras se poderia dizer:

 

1) A Casa de Deus devo primar pela simplicidade de suas linhas arquitetônicas e pela sobriedade de soa decoração.

 

Assim manda a citada Instrução do Santo Ofício:

 

«Brilhe uma igreja moderna pela bela simplicidade das suas linhas, que foge aos ornatos de mau gosto; evite-se tudo que mostre negligência na concepção e na execução» (pág. 9).

 

For conseguinte, as modalidades exóticas de arquitetura não são recomendáveis; muito menos, os motivos ornamenteis que lembrem teatralidade, ostentação ou impressionismo vazio,.-. Muito oportunamente acentuava Pio XII que na construção de uma igreja «é preciso antes atender às exigências da comunidade cristã do que à opinião e ao gosto pessoal dos artistas» (ene. «Mediator Dei» n' 189).

 

ES. Eminência o Cardeal Constantini acrescentava:

 

«Na igreja, a dignidade da arte alia-se à dignidade da liturgia: é necessária, porque é funcional» (art. cit. pág. 28).

«Frequentemente deve o arquiteto trabalhar premido por imperiosa necessidade econômica. É certo, porém, que não está o belo obrigatoriamente vinculado à riqueza. Esta, não raro, contraria o bom gosto. Convém conceber o edifício sagrado com critério de unidade. Na aplicação deste critério poder-se-á proceder gradativamente, cuidando antes de tudo do essencial; depois, do acessório, do ornato, etc.

 

Cumpre que se persuadam os reitores de igrejas de que a melhor despesa na construção de um edifício é a que concerne ao projeto, à planta. Chamem um bom arquiteto e não tenham .excessiva confiança em peritos ou empreiteiros experientes»' (art. cit. pág. 30).

 

2) A Casa de Deus deve comunicar a impressão de grandeza  e amplidão (mesmo que o edifício seja de dimensões  médias).

 

Portanto evite-se um traçado que amesquinhe .e limite o horizonte dos fiéis presentes na igreja: «Na construção dos templos atenda-se à comodidade dos fiéis, de maneira que possam participar dos divinos ofícios com melhor visão e disposição de espírito» (Instrução do S. Ofício, pág.. 9).

 

Em consequência, vê-se que é pouco oportuna a repartição do recinto sagrado em três ou cinco naves; uma só nave condiz melhor dom as exigências do culto, permitindo aos.fiéis mais fàcilmente constituírem uma só comunidade orante.

 

Assim escreve o Cardeal Constantini;

 

«Pode a técnica moderna prestar grandes serviços na concepção e na construção de Igrejas, abolindo as naves laterais e criando uma alma espaçosa, ou seja, um espaço, onde os fiéis possam  ver o oficiante e tomar parte na liturgia.

 

O conceito de nave entrou na linguagem técnica por meio da qual se descreve o interior de uma igreja. Tem igualmente uma alta significação ideal. Assim como a nau conduz os homens através do mar, a igreja é uma nau mística, que conduz a humanidade através dos caminhos do tempo ao porto da eternidade. No trajeto, muitos tempestuoso, vai recolhendo os náufragos e levando-os à salvação. Preferimos a igreja com uma só nave.

 

O urbanismo ensina à escolher o lugar mais apropriado para a igreja. Deve, como nó passado, dominar a paisagem,' tornando-se elemento vivo e expressão dessa mesma paisagem. Nos países montanhosos, as igrejas, que montam guarda nas alturas e velam carinhosas sobre os velhos cemitérios, representam em regra o mais belo edifício do lugar, o mais em vista e o mais humano.

 

É grande erro construir as igrejas apertadas entre outras casas, sem espaço em derredor e sem área suficiente para o transporte» (art. cit. pág. 29).

 

Destas explicações deduz-se que a grandeza e a amplidão preconizadas não devem dar origem a um ambiente frio e sem alma, mas, ao contrário, devem ser tais que contribuam para a participação dos 'fiéis num só ato litúrgico.

 

3) O altar-mor ou principal há de ocupar lugar de realce, pois nele se celebra o ato precípuo do culto cristão; a atenção dos fiéis deve poder, sem entrave nem perigo de dispersão curiosa, convergir para ele.

 

«A igreja tem o seu centro no altar. Pode haver altar sem igreja, não porém igreja sem altar. O altar é o novo Gólgota, onde se renova todos os dias o sacrifício eucarístico. O altar para a Eucaristia é o coração do novo edifício, donde se difundem as ondas da graça» (Card. Constantini, art. cit., pág. 27s).

 

Nas regiões em que as autoridades eclesiásticas o permitem, o altar colocado de frente para os fiéis presta ótimos serviços à piedade e ao espírito litúrgicos.

 

Nas igrejas em que sejam necessários muitos altares, para atender a Missas particulares de uma comunidade religiosa (por exemplo), «não é aconselhável que se distribuam tais altares pelas paredes laterais da igreja. Excelente solução seria utilizar para tais altares a cripta (recinto subterrâneo) ou, melhor ainda, construir um criptopórtico (uma ala especial) que se estenda além da ábside da igreja, e nele colocar esses vários altares» (Card. Constantini, art. cit. pág. 30).

 

A razão desta norma é o desejo de se evitar que a atenção dos fiéis se disperse na igreja e que se quebre a ação litúrgica comunitária pela apresentação simultânea de muitas Missas.

 

4) As imagens e estátuas de santos hão de ser reduzidas ao número suficiente para fomentar a piedade dos fiéis, sem perigo de desvirtuamento da devoção. Serão colocadas era lugares discretos, evitando-se o acúmulo das mesmas por cima ou em torno do altar-mor, pois isto poderia fazer perder de vista o significado do altar ou o significado do Sacrifício da Cruz. Este deve, ao contrário, dominar o pensamento de quem entra na igreja, de modo que muito oportuno é não colocar sobre o altar-mor senão o crucifixo, crucifixo ao qual se podem dar, com vantagem, grandes dimensões e especial relevo, de sorte que ele «encha» o fundo da igreja.

 

As poucas imagens e estátuas que se coloquem nos templos, hão de ser inspiradas por nobres critérios artísticos, ficando banidas não somente aquelas que sugiram falsas ou exóticas proposições de fé (um homem com três cabeças para representar a SSma. Trindade...), mas também as que reproduzem mau gosto.

 

O S. Padre Pio XII assim se exprimia a tal propósito:

 

«Pela consciência do Nosso dever, não podemos deixar de deplorar e reprovar as imagens e representações recentemente introduzidas Dor alguns, pois parecem deformações e depravações da arte sã; opõem-se às vezes ao decoro. à modéstia e à piedade cristã, ofendendo lamentàvelmente o sentimento verdadeiramente religioso. Tais imagens devem ser completamente banidas dos nossos templos, como em geral tudo quanto se opõe à santidade do lugar' (cân. 1178)» (ene. «Mediator Dei» n» 189).

 

Tais advertências foram reiteradas pelo S. Ofício na Instrução citada:

 

«Os Ordinários... proíbam severamente que se exponha à veneração dos fiéis, sem ordem nem gosto, ou nos próprios altares ou nas paredes contíguas às capelas, uma profusão de estátuas e imagens ae pouco valor, tantas vezes feitas em série» (pág. 10).

 

O Cardeal Constantini, por sua vez, comenta:

«Destruam-se essas estátuas de massa negligentemente modeladas e economicamente reproduzidas às dezenas e centenas de exemplares.

Em muitas igrejas, ao pé dos retábulos dos altares, colocam-se quadrinhos e muitas vezes cromos. . Por que? Estará isso conforme com a limpidez e a dignidade do culto?...

O Santo Padre Pio XH assim se exprime na encíclica sobre a Liturgia: «Julgamos ser nosso dever repreender a piedade mal formada daqueles que — nas igrejas e até sobre os altares — sem justo motivo, propõem à veneração imagens e estampas múltiplas...

Padres há que se desculpam, alegando que a estátua de tal santo foi doada pelos paroquianos, ou que tal imagem de gesso, bem colorida, agrada mais aos fiéis do que as de famosos escultores, e que esse gênero de imagens entretém a devoção do povo. Lastimável desculpa! Deve o padre dirigir e instruir os fiéis, não deixar-se orientar. Fui durante muitos anos vigário de uma paróquia numerosa e suspicaz e posso afirmar que os fiéis, quando tratados com tato e caridade, obedecem ao seu pároco, até em questões de arte e no que respeita ao decoro do culto» (art. clt. pág. 32s).

Em termos positivos, pode-se registrar a utilidade dos quadros bíblicos nas paredes das igrejas; já na antiguidade eram considerados como «Biblia pauperum», isto é, como a Bíblia dos pobres e analfabetos: «O caráter funcional da igreja... exige... um complemento de decorações que... instrua os fiéis, como se dava outrora com a biblia pauperum» (Card. Constantini, art. cit. pág. 27).

 

Sobre a legitimidade da veneração dos santos e da exposição de imagens, veja «P. R.» 4/1957, qu. 5; 3/1958, qu. 5.

 

5) Muito se deseja a veracidade do material empregado na ornamentação das igrejas e no culto sagrado: a cera seja verdadeiro produto de abelhas, não massa artificial; as flores sejam autênticos vegetais, não pedaços de pano ou de papelão...

 

«Desde muito vêm tocando esta corda sensível todos os que cultivam as artes. Bertini-Calosso, atual diretor da Galleria Borghese, declarava numa conferência em Perúsia: 'Por ora, tirem-se dos altares as flores artificiais, substituindo-as, quando for possível, por flores frescas.

 

Mas é preciso pensar também na iluminação elétrica, que só em parte pode substituir as velas. Cumpre limitar quanto possível o uso de grandes lustros suspensos que, em numerosos casos, são oportunamente substituídos pela iluminação Indireta. Ê necessário ver se convém em toda a parte cobrir colunas, pilares, arcos e paredes com damascos que, não obstante o seu valor, constituem muitas vezes um verdadeiro ultraje às linhas arquitetônicas» (Card. Constantini. art. clt. 31s).

 

Este princípio é inspirado no fato de que a Liturgia constitui o concerto da natureza inteira unida ao homem e a Cristo para o louvor de Deus Pai; é consequente, portanto; que a serviço da Liturgia se coloquem objetos que representem genuinamente a natureza que Deus fez.

 

Tais são as principais notas que devem caracterizar a igreja construída segundo o estilo da S. Liturgia.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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