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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS - 048 - dezembro de 1961

 

QUEM SÃO OS CIGANOS?

HISTÓRIA DA RELIGIÃO

Argemiro (RS): «Qual a origem do povo comumente chamado cigano?

Diz-se que provém dos filhos de Lameque: Jabel, Jubal e Tubalcaím, que deram início respectivamente ao pastoreio do gado, à arte da música e à metalurgia do cobre e do ferro (cf. Gên 4,20-22). São esses justamente os afazeres aos quais se dedicam de preferência os ciganos».

 

Os ciganos constituem um povo nômade, espalhado pela Europa Central, a Ásia Ocidental, o Norte da África, a América e a Austrália, conservando sempre as mesmas características de raça e gênero de vida.

 

Dois são os nomes principais que designam essa estirpe:

a)    ciganos, forma portuguesa do original «Atzigan» ou «Atsigan», que na Turquia e na Grécia deu «Tshingian»; na Bulgária e na Romênia, «Tsigan»; na Hungria, «Czigany», na Alemanha, «Zigeuner»; na Itália «Zingari»; na Inglaterra, «Tinker» ou «Tinkler».

 

O apelativo «cigano» parece derivar-se de «jigani», denominação de uma tribo da índia, pertencente à raça dravidiana, raça que resulta da fusão dos negritos (primitivos habitantes da península hindu) com os turanianos, povo de raça amarela, proveniente dos montes Urais.

 

Os estudiosos modernos são levados a crer que os ciganos provêm realmente dos Jiganis da Índia, pois acentuada é a afinidade de traços raciais e de dialeto, vigente entre os dois povos.

 

b)   egípcios, nome devido a uma crença divulgada pelos próprios ciganos quando entraram em cena na Europa medieval; segundo essa crença, os ciganos seriam oriundos do Egito, ou melhor, de uma região chamada «Pequeno Egito» (= Palestina). Tal nome tomou as formas «Gypsy» na Inglaterra; «Gitano» (de Egiptiano) na Espanha; «Gyphtos» no grego moderno. A mesma crença explica denominações similares dadas aos ciganos: «Pharaoh nepek» (povo de Faraó) na Hungria; «Faraon», na Romênia.

 

Outros nomes atribuídos ao mesmo povo seriam: «boêmios» ou «bohémiens», na França; «Heyuns» (= pagãos) na Alemanha. Os próprios ciganos se designavam durante algum tempo como «Romanos» a fim de se recomendar aos olhos dos demais povos.

 

Nas linhas que se seguem  examinaremos rapidamente quem são os ciganos (origem, história, gênero de vida, de trabalho...) e quais os seus aspectos religiosos mais característicos.

 

1. Quem são os ciganos?

 

Origem e esboço histórico: como foi dito atrás, presume-se que os ciganos se derivem da tribo hindu dos jiganis. Apresentam estatura pequena e tez de pele que pode variar desde a coloração escura do cigano da Arábia até o matiz claro do habitante da Polônia. Em geral, têm um físico bem proporcionado e assaz ágil. São amigos dos ornamentos vistosos e dos trajes de cores carregadas, de preferência vermelhos e verdes; as mulheres costumam usar lenços, colares e moedas de ouro em torno do pescoço, ficando-lhes os pés geralmente descalços.

 

Não se têm anteriormente ao início do séc. XIV vestígios seguros da estada dos ciganos na Europa. Parecem ter passado do Egito para as terras balcânicas, espalhando-se pela Hungria, a Boêmia e a Rússia. A sua entrada nos territórios da Europa Ocidental (Alemanha, França, Suíça, Itália) não se deve ter dado antes do princípio do séc. XV. Até hoje conservam os seus caracteres raciais e linguísticos bem definidos, pois só se casam entre si, sendo os matrimônios mistos ou exogâmicos considerados por eles como ilegítimos; em geral, tendem a se isolar dos demais povos — o que em parte se deve ao seu tipo de vida nômade. Nenhuma nação os conta entre os seus concidadãos. É o que torna difícil avaliar o número de ciganos hoje existentes no mundo; calcula-se, porém, que atingem a cota de cinco milhões. Não prestam serviço militar nem tratam de registrar os seus casamentos em cartório civil. Cada tribo ou bando nômade tem seu chefe e sua forma de governo autônomo. Dada a sua fama de gente fraudulenta e enganadora, os ciganos, do séc. XVI até o início do séc. XX, foram objeto da repressão de certos governos europeus, que lhes infligiram penas diversas: a escravidão, na Romênia e na Hungria (séc. XVIII/XIX), o exílio e a própria condenação à morte.

 

Atividades: às suas atividades são bem características:

- manufatura de metal e madeira: fabricam e consertam utensílios domésticos de cobre ou bronze (donde o nome de «caldeireiros» ou «chaudronniers», que por vezes lhes é dado) ou de madeira (bancos, mesas);

- domesticação e comércio de animais (cavalos, asnos, cães...), canto e dança em público: houve tempo em que percorriam os hotéis e restaurantes da Europa Ocidental, apresentando suas músicas e seus coros artísticos com grande aplauso dos espectadores. Embora careçam de cultura e de produções literárias, a sua arte musical é altamente estimada, tendo mesmo fornecido ao compositor húngaro Frank Listz fecunda inspiração para as suas famosas rapsódias. O gênio dos ciganos se manifesta também na poesia, que eles sabem utilizar para narrar histórias folclóricas cheias de encanto;

- adivinhação da sorte, quiromancia (ou interpretação das linhas da mão também dita «leitura da buena-dicha»), práticas ocultistas para atrair o favor ou a ira dos «espíritos superiores». Tal é a ocupação mais frequente das mulheres ciganas.

 

Ainda outro título que no decorrer da história foi intimamente associado aos ciganos e ao seu governo de vida, é o titulo de «peregrinos religiosos». Sendo assim, consideraremos abaixo os aspectos religiosos que os ciganos apresentam ao observador.

 

2. Ciganos e Religião em geral

 

Os ciganos não têm Religião própria, característica da raça, como a têm os judeus; mas adaptam-se às ideias religiosas do país em que se acham, fundindo-as com crenças supersticiosas comuns a muitos povos, Assim, na Turquia e na Arábia professam o islamismo; na Grécia e na Romênia, a «ortodoxia» cristã nacional; na Hungria, em Portugal e na Espanha, o catolicismo. Em verdade, porém, não cumprem muito exatamente os deveres religiosos do Cristianismo; principalmente no tocante à vida sexual, são indulgentes. Além disto, parecem inclinados a crer no fatalismo dos destinos humanos.

 

Vivendo no cenário cristão da Idade Média, compreende-se que os ciganos tenham estado envolvidos em mais de uma manifestação da fé cristã.

 

Os historiadores observam, por exemplo, que não era raro passarem eles por peregrinos cristãos, gozando, a este título, dos favores e privilégios que os prelados e os príncipes concediam às caravanas de peregrinos; gozavam mesmo da tutela e dos benefícios que os Papas costumavam dispensar aos cristãos que demandavam os grandes santuários. Parece, porém, que os ciganos nem sempre se mantiveram à altura de tal benevolência, pois dela abusaram para cometer malefícios; assim, por exemplo, se exprime o cronista Aventinus na primeira metade do séc. XVI: «A fraude e o roubo são proibidos aos outros povos...; estes, porém (os ciganos), se atribuem a licença de os praticar».

 

A má fama que, apesar do caráter de peregrinos cristãos, pesava sobre os ciganos, encontrou expressão em uma altercação graciosa, bem característica da mentalidade popular. Com efeito, dizia-se na Idade Média que os cravos com os quais foi crucificado o Senhor Jesus, haviam sido forjados por ciganos e que, em consequência, tal povo fora amaldiçoado. Diante desta falsa acusação, os ciganos da Alsácia e da Lituânia se defendiam inteligentemente...: chamavam a atenção para o costume introduzido nos séc. XII/XIII na iconografia cristã, costume de representar o Senhor crucificado com três cravos e não, como na primitiva Igreja se representava, com quatro cravos... Aproveitando-se da estranheza que esse novo hábito provocava no povo cristão, os ciganos pretendiam justificá-lo contando que uma mulher cigana, desejosa de impedir a crueldade contra Jesus, tentara roubar dos judeus os quatro cravos com os quais se dispunham a crucificá-Lo; tendo conseguido subtrair ao menos um cravo, os carrascos haviam sido obrigados a crucificar com três pregos em vez de quatro: um em cada mão, e um nos dois pés sobrepostos. Assim, segundo a intenção dos apologistas ciganos, a figura do Divino Crucificado, longe de constituir desdouro para a fama dos boêmios, deveria, antes, torná-los mais caros aos cristãos!... Esta altercação pode ser ilustrada pelo fato de que a primeira representação do Crucificado com três cravos data do séc. XII; está forjada em cobre e é de origem bizantina... Ora, se os ciganos bizantinos possuíam o monopólio da metalurgia nessa época, poder-se-ia supor que tal inovação na representação do crucifixo se deva aos ciganos, os quais destarte visavam afastar de si a calúnia de terem concorrido, pela sua indústria no séc. I, para atormentar o Senhor Jesus.

 

Outro encontro, digno de nota, dos ciganos com o Cristianismo é a peregrinação, que esse povo ainda em nossos dias costuma empreender ao santuário dito «das Três Marias» (Les Saintes Maries de la Mer) na ilha de Camargue perto de Marselha no mar Mediterrâneo. Conforme antiga narrativa, esse santuário assinala o lugar onde desembarcaram Maria, mãe de S. Tiago o Menor, Maria de Salomé, mãe de S. João Evangelista e S. Tiago o Maior, e Maria Madalena, acompanhadas de José de Arimatéia, de Lázaro e de Sara, companheira egípcia das três Marias: teriam sido expulsos da Palestina pelos perseguidores da fé; embarcando então numa navezinha destituída dos devidos recursos, a pequena caravana, por evidente tutela da Providência Divina, teria chegado incólume a Camargue, e daí haveria iniciado a evangelização da Gália. Em comemoração do episódio (cuja autenticidade não interessa discutir aqui), os cristãos ergueram na mencionada ilha uma grandiosa igreja, onde estão guardadas as relíquias de Santa Sara, que os ciganos cristãos veneram como sua padroeira. Ora, sendo a festa das «Três Marias» celebrada anualmente a 25 de maio, os ciganos de várias partes do mundo (França, Alemanha, Áustria, Itália. Espanha e até do Marrocos) costumam afluir ao santuário, podendo o número de peregrinos chegar a um total de 5.000; os mais antigos vestígios (ofertas votivas) desse piedoso costume chegam a ser anteriores ao ano de 1450! A igreja do santuário fica. por ocasião de tais peregrinações, inteiramente ocupada pelos ciganos, os quais dão à localidade toda um aspecto festivo, meio-religioso, meio-profano; suas manifestações de piedade nem sempre condizem com a genuína mentalidade católica.

 

Ainda no tocante às relações dos ciganos com o Cristianismo, pode-se notar os seguinte: na França há cerca de vinte sacerdotes (capelães) consagrados à cura de almas entre os boêmios, sob a direção geral do Padre Feluny, capelão-mor (outros capelães existem na Alemanha, na Espanha, no Marrocos). Justamente durante os festejos de 1961 em Camargue um desses sacerdotes franceses declarou à imprensa:

 

«As mulheres ciganas... não são moralmente transviadas. Inegavelmente, os ciganos praticam uniões de amor livre; muitos desses casos, porém, se devem simplesmente ao fato de que não conseguem obter os documentos que o governo requer para o matrimônio civil. Tais circunstâncias, porém, não impedem que os ciganos estejam bem convictos das obrigações decorrentes do matrimônio. Entre eles o varão que tenha escolhido uma mulher, sabe permanecer-lhe fiel, sendo o adultério passível de penas severíssimas... Nos últimos tempos, tendo-se a Igreja mais ainda aproximado deles, designando capelães para lhes assistir, muitas situações de famílias irregulares foram legalizadas; numerosos batizados têm sido efetuados; eu mesmo já tive a ocasião de assistir à primeira Comunhão de seis ciganazinhas».

 

O repórter Emílio Marini, que transmite a declaração acima, acrescenta quase à guisa de comentário:

 

«Não há dúvida, quem se aproxima daqueles carros (dos ciganos) e conversa com os respectivos moradores toma consciência de que o juízo muito frequentemente proferido sobre eles é de todo injusto; trata-se, na verdade, de gente honesta, trabalhadora, de gente que fica à margem da sociedade, principalmente porque a sociedade não a sabe acolher com a devida estima. Trata-se de gente que está apegada ao seu carro como o camponês está apegado a sua terra, e que, embora pareça não ter pátria, é enormemente afeiçoada à sua família, à sua tribo, ao seu -carro, à sua liberdade» (extraído da revista «Orizzonti» n» 28, de 9 de julho de 1961).

 

Este modo de ver compreensivo e benévolo parece assai oportuno na hora presente para acautelar contra generalizações pouco equitativas. Um juízo sobre o valor dos ciganos há de ser circunspecto e matizado, levando em conta fatores vários que não poderíamos aqui explanar por completo.

 

Resta agora considerar as relações que possa haver entre

3. Os ciganos e a Bíblia

 

Pergunta-se: os ciganos proviriam de Jabel, Jubal e Tubalcaím, descendentes de Caim, que se tornaram os Patriarcas dos pastores, dos metalurgistas e dos músicos (cf. Gên 4, 20-22) ?

 

A resposta afirmativa seria bem alheia à mensagem do texto sagrado.

Com efeito, os onze primeiros capítulos do Gênesis não pretendem descrever quadros da cultura primitiva, nem visam sugerir como a humanidade antiga vivia, do ponto de vista da civilização. O autor sagrado mesmo, escrevendo milênios e milênios após os princípios da humanidade sobre a terra, não sabia, nem podia saber pelas escolas do seu tempo, qual era exatamente o tipo de cultura que caracterizava as gerações iniciais. Para que o escritor bíblico referisse esses dados, Deus deveria ter feito o milagre de lhos revelar especialmente; o Senhor, porém, não quis realizar tal portento, pois não era necessário à finalidade da Bíblia, que é estritamente religiosa: o que o autor sagrado devia descrever, e de fato descreveu, era a fisionomia moral das primeiras gerações, ou seja, como se foram desenvolvendo as relações da humanidade com Deus após a queda de Adão e Eva. Em vista disto, o hagiógrafo apresentou o morticínio de Caim (assassino de seu irmão Abel; cf. Gên 4,1-16), e quis mostrar como os descendentes de Cato foram sendo mais e mais contaminados pelo pecado (cf. Gên 4,17-24).

 

Nessa linhagem de Caim ou «dos Cainitas» (Gên 4,17-24) , algumas notas características chamam a nossa atenção, pois constituem a chave da interpretação do texto e evidenciam bem a intenção do autor sagrado. Tais notas seriam:

 

a) a ausência de números: — Ao contrário do que se verifica na linhagem dos bons ou dos filhos de Sete, não há um


só número para indicar «os anos de vida» dos cainitas. Ora essa ausência de números simboliza, segundo a mentalidade dos antigos, desordem, corrupção, alheamento a Deus, pois o .número por si indica harmonia, simetria (note-se como a linhagem de Sete ou dos setitas é toda acompanhada de números; cf. Gên 5,1-32). O autor sagrado, por esse proceder estilístico, quer dizer que os descendentes de Caim se tornaram alheios a Deus, ou seja, pecadores notórios, prolongando-se a maldade de Caim na posteridade deste Patriarca.

b) Tal afirmação atinge o seu auge quando o escritor chega ao fim da tabela dos cainitas, ou seja, a Lameque e sua família. Sim; Lameque, tomando duas esposas, aparece como um libertino e debochado que também é vingativo sequioso de sangue; chega mesmo a decantar ou exprimir em versos a sua mentalidade violenta (cf. Gên 4, 23s).

c) Dentro deste quadro de ideias, a menção das grandiosas realizações de cultura dos cainitas (pastoreio do gado, metalurgia, cultivo da música com instrumentos esmerados) toma significado próprio. Essas realizações, entendidas ao pé da letra, seriam anacrônicas, pois não se pode admitir que na sétima geração do gênero humano já se tenham praticado a domesticação de animais e a técnica metalúrgica; como atesta a Paleontologia, estas são conquistas relativamente tardias da humanidade.

 

Os primeiros homens viviam da colheita de frutas, raízes, bulbos... que a natureza lhes oferecia, ou da caça rudimentar de animais selvagens e peixes. O caçador e o pescador eram sóbrios em suas aspirações; não se preocupavam muito com a armazenagem das provisões. Pinturas e incisões feitas nas rochas da pré-história nos mostram cenas de caça e os instrumentos então utilizados: fossas, laços, redes, gaiolas primitivas, em que a presa podia ficar em vida até se tornar necessária ao consumo; foi talvez destes artifícios de caça que se originou o uso de domesticar os animais. Embora o gênero humano já conte 500.000 ou 600.000 anos de existência, a domesticação de animais não parece anterior ao ano 8.000 a. C., época em que aparecem também os primeiros vestígios de civilização agrícola (foices e picaretas de pedra). Os primeiros instrumentos de sopro terão sido assovios confeccionados com ossos de rena e usados, pelos caçadores a fim de se manterem em contato uns com os outros. Quanto à elaboração e ao emprego dos metais, foi-se aperfeiçoando lentamente; a idade do bronze nos leva ao quinto milênio antes de Cristo; ao passo que o ferro meteórico era usado no Egito no terceiro milênio a. C., o ferro terrestre só entrou em uso por volta do séc. XIV a. C.

 

Atribuindo realizações de cultura da idade do bronze e do ferro aos homens primitivos, o autor sagrado queria apenas exprimir de maneira bem clara e familiar aos seus leitores (no segundo milênio antes de Cristo) uma verdade de índole religiosa, não de índole paleontológica ou científica; queria, sim, exprimir como os pecadores se deixavam, por assim dizer, fascinar pela matéria e pelas conquistas de prosperidade terrena", alimentando com isto as suas paixões ou os seus instintos mais baixos; estavam obcecados pelas produções materiais em consequência de haver abandonado a Deus. Em Lameque, o sétimo (o expoente mais representativo) da linhagem cainita, pecado e instrumentos de cultura aparecem estreitamente associados: Lameque é assassino pela espada, e, em arte poética, canta às duas esposas os seus sentimentos baixos, evoluídos até o extremo:

«Sete vezes será vingado Caim, Lameque, porém, setenta e sete vezes» (4,24; cf. 4,15).

 

Em outros termos: o autor sagrado, transpondo os dados culturais da sua época para tempos em que não eram conhecidos, queria apenas designar os objetos deste mundo com que entravem em contato as primeiras gerações humanas; não lhe importava dizer exatamente quais eram esses objetos materiais; quaisquer que fossem, o hagiógrafo queria dizer que eram utilizados pelos homens ímpios para proporcionar a si uma vida cômoda, ou seja, uma espécie de compensação por terem deixado o verdadeiro Bem, que é Deus. É, aliás, o que se verifica ainda hoje.

 

Ao registrar isto, a Sagrada Escritura e os exegetas não visam condenar a cultura profana. Apenas verificam a tendência inegável do pecador a satisfazer sua sede de felicidade mediante o uso (geralmente apaixonado) dos objetos deste mundo, já que não se sabe entreter com o verdadeiro Bem, Deus.

 

Note-se, por fim, que a transposição dos dados culturais da idade do bronze para os primeiros tempos da humanidade constitui um anacronismo necessário para que os episódios fossem entendidos pelos leitores imediatos (judeus destituídos de conhecimentos geográficos, paleontológicos...). O artifício não prejudicava a finalidade primária da Bíblia, que é ensinar a doutrina da salvação.

 

Paralelamente, dir-se-á: não prejudicam, mas, ao contrário, possibilitam, o ensino religioso, as imagens do Crucificado em que os soldados romanos são representados em vestiário e armadura medievais, a inscrição sobre a cruz traz as iniciais INRI (do latim «Jesus Nazarenus Rex Iudaeorum»); também as imagens da Virgem Santíssima e do Menino Jesus que apresentam os traços raciais do chinês, do hindu, do africano, do flamengo ou do italiano renascentista; as imagens dos magos sob forma de três reis, um branco, outro negro, outro amarelo, junto ao presépio...

 

Estas considerações já são suficientes para mostrar que vãs seriam as tentativas de associar o povo dos ciganos à linhagem de Caim, como se fossem eles os herdeiros da cultura e da civilização dos cainitas. O autor sagrado seria o primeiro a rejeitar essa aproximação, pois ele nunca teve a intenção de descrever o tipo de civilização das primeiras gerações humanas. Os estudiosos, portanto, contentar-se-ão com os conhecimentos modestos que a história profana apresenta a respeito das origens dos ciganos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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