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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 046 – outubro 1961

 

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE NO SER VIVO

INTERESSADO (Rio): «Poder-se-ia demonstrar que de fato o ambiente produz modificações importantes na configuração dos seres vivos?»

 

Na verdade, apontam-se numerosos casos de mudança do tipo somático dos viventes por efeito do respectivo ambiente de vida.

 

Os fatores de ambiente que vêm em consideração neste estudo, são as condições do «habitat», como temperatura, umidade, luz, vento, altitude...; além disto, o regime de trabalho e o de alimentação.

 

Nota-se que geralmente as modificações produzidas pelo âmbito sobre determinado vivente tendem a desaparecer desde que esse individuo volte ao «habitat» ou ao regime de vida primitivos. Em consequência, os biólogos distinguem entre genótipo, patrimônio biológico que o indivíduo herda de seus genitores e que está sujeito a ser moldado, dentro de certos limites, pelas condições extrínsecas de vida, e fenótipo, configuração visível que o indivíduo de fato toma nas circunstâncias precisas em que ele vive.

 

O genótipo não nos é manifestado como tal, mas sempre sob os traços mais ou menos contingentes e variáveis do fenótipo. O genótipo só se manifestaria genuinamente num individuo que se desenvolvesse nas circunstâncias «normais» ou «ideais», ou seja, nas circunstâncias (de temperatura, umidade, alimentação...) que correspondem rigorosamente às exigências do seu potencial biológico; já, porém, que é muito difícil ou mesmo impossível obter tais circunstâncias ideais, diz-se que todo indivíduo tem algo de anormal; esse algo de anormal, porém, desde que não ultrapasse certos limites, é justamente o que constitui a graça e o encanto de cada individuo principalmente na personalidade humana (o ser humano que fosse 100 % normal, seria insípido ou pouco atraente, chegam a afirmar alguns estudiosos).

 

Nas linhas que se seguem, analisaremos alguns exemplos mais frisantes de modificações do vivente (vegetal e animal) devidas ao respectivo ambiente.

 

1. No reino vegetal

 

É entre os vegetais que se podem apontar os casos mais característicos de adaptação às circunstâncias externas; as plantas são mais «plásticas» do que os animais, porque, estando fixas ao solo, não podem procurar, pela fuga, o ambiente que mais lhes convenha: elas têm que se acomodar ao meio em que se encontram ou simplesmente sofrer a morte. Em consequência, as acomodações (ou as variações do genótipo) entre os vegetais são por vezes tão vultosas que eles parecem pertencer a espécies diferentes, quando na verdade pertencem à mesma espécie e têm o mesmo genótipo.

 

Exemplo bem saliente é o de uma espécie de crisântemo branco, chamado «leucanthemum vulgare». Caso se faça crescer em montanha uma muda dessa planta, observa-se grande diferença da mesma em relação a outra muda que se desenvolva em planície: a planta da montanha não cresce para o alto, mas toma a forma de uma roseta rasteira, ficando todas as folhas acumuladas junto ao solo; transpondo-se, porém, essa mesma planta para a planície, verifica-se que ela toma a estatura elevada que lhe é característica. Como se vê, em tal caso o mesmo genótipo se manifesta de duas maneiras bem diferentes uma da outra (ou sob dois fenótipos.) — Fenômeno semelhante se dá com o lírio tuberoso: esta planta que, em planície, pode atingir 2 m de altura, em montanha apresenta-se muito baixa, à semelhança de roseta. De maneira geral, verifica-se que o clima de montanha faz que as plantas tomem forma exígua, como que «encolhida», deem flores de colorido muito vivo e desenvolvam abundante pilosidade — modificações estas que se explicam por efeito da intensa luz, do frio noturno e do vento que dominam o clima das cumiadas.

 

O vento forte, seja nos topos montanhosos, seja à beira-mar, torna geralmente irregular a estatura das grandes árvores: dificulta a existência de longos ramos e faz que os arbustos cresçam inclinados no sentido do vento dominante. Certas espécies, como, por exemplo, o zimbro, tomam ao vento um aspecto tortuoso ou enroscado.

 

A luz (em particular, a duração dos dias e das noites) tem outrossim notável influência na floração e na frutificação dos vegetais, fato este que os industriais muito exploram, instalando iluminação artificial e distribuindo sistematicamente calor e frio em ambientes adequados, a fim de obter o máximo rendimento em flores e frutas.

 

Omitindo outros exemplos, referimos por fim a arte japonesa dita de «Bonsai»: consiste em obter dentro de vasos de ornamentação certas plantas em tamanho de miniaturas (ou de dezenas de centímetros), plantas que na natureza seriam verdadeiras árvores (cedros, pinheiros, faias...); mediante tratamento meticuloso, os artistas nipônicos conseguem árvores «anãs», cujas partes apresentam todas tamanho uniformemente diminuído, ostentando a silhueta de uma árvore normal em escala reduzida. Para conseguir esse efeito, os cultivadores submetem o vegetal a condições de existência tais que ele nem se pode desenvolver normalmente nem tampouco morrer: a composição do solo é devidamente estudada a fim de ser relativamente pobre; as raízes sofrem podas periódicas de modo que nunca se possam estender muito; a irrigação é bem graduada. Esses artifícios equivalem a circunstâncias de ambiente cuja influência, como se vê, é decisiva para o fenótipo da planta.

Passemos agora a outro setor de viventes.

 

2. No reino animal

 

Os animais são menos «plásticos» do que as plantas, sem contudo deixar de se mostrar bem sensíveis às influências do meio de vida.

 

O fator mais importante para a determinação do fenótipo dos animais parece ser o regime de nutrição. A superalimentação é aplicada mormente no tratamento de animais domésticos: assim a galinha, ricamente nutrida, põe ovos mais numerosos e substanciosos; o boi superalimentado acelera o seu desenvolvimento de modo a se tomar adulto dentro de três anos, em vez de cinco. A quanto parece, o aumento de estatura dos homens de certas regiões verificado nos últimos tempos se deve a mais abundante alimentação.

 

A qualidade de nutrição repercute naturalmente na qualidade da carne dos animais domésticos: carneiros, por exemplo, que pastam à beira-mar, dão uma carne de gosto especial e muito estimado; ao contrário, aves nutridas com farinha de peixe se tornam intoleráveis ao paladar, devendo-se suspender tal regime semanas antes de abater os animais, caso devam ser consumidos.

 

A alimentação também condiciona a coloração de certos insetos, como a lagarta dita «Saturnia pavonia»; caso seja nutrida com folhas de peônia, torna-se parda; alimentada, porém, com folhas de carvalho, é verde.

 

A luz é outro fator influente no fenótipo dos animais. Sabe-se que a tez humana pode ser «queimada» pelo sol. Os animais que habitam em cavernas, carecem geralmente de cor característica; tal é o caso, por exemplo, do proteu, o qual, porém, trazido à luz, se vai colorindo lentamente mediante a produção de pigmentos escuros (melanofóricos).

 

É notório que o pelo de certos animais tem uma cor própria para o inverno e outra para o verão; a doninha, por exemplo, torna-se branca durante o inverno das terras polares; permanece, porém, parda por todo o ano nas regiões da Europa Central. A lebre dos Alpes apresenta-se branca nos meses de inverno. De modo geral é somente nos polos que se encontram animais inteiramente alvos.

 

Como se compreende, as circunstâncias de alimentação, clima, alternância das estações, etc. podem acelerar ou retardar a vida sexual dos animais.

 

Também o desenvolvimento da vista depende da iluminação do âmbito onde vive o animal; em várias espécies que costumam residir em antros e rochas, os olhos deixam de ter função. No ser humano, a resistência ao fulgor da luz é mais intensa nas raças que habitam regiões mais banhadas pelo sol.

 

As citações de casos análogos se poderiam multiplicar. Contudo os exemplos mencionados já bastam para pôr em evidência a ampla e profunda repercussão que podem ter os fatores ambientais na morfologia dos seres vivos.

 

Quanto à transmissão dos caracteres assim adquiridos, constitui outro setor de pesquisas, e setor assaz complexo; ela depende, sem dúvida, do concurso de diversos elementos, referidos na resposta no 2 do presente fascículo (assim é certo que não basta cortar a cauda dos camundongos que vão nascendo, geração por geração, dentro de determinada família, para que finalmente tais animais nasçam sem vestígio de cauda; ao contrário, esta reaparecerá sempre e deverá ser amputada de cada vez, caso se queiram camundongos adultos destituídos de cauda).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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