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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 045 – setembro 1961

 

OS SANTOS ESTUDADOS PELA GRAFOLOGIA

CIÊNCIA E RELIGIÃO

DESAPONTADO (Rio de Janeiro): «Que apreço merece a Grafologia (estado da escrita)? Estará ligada à superstição e às ciências ocultas, chocando-se assim com a fé católica? Até a escrita dos santos tem sido submetida a exame, ocasionando surpresas e decepções. Que pensar disso?»

 

A Grafologia é o estudo das relações existentes entre a Grafologia, qual a sua posição perante a ciência e a Religião, e o que dizer das suas recentes aplicações na hagiografia ou na reconstituição do perfil dos santos.

 

1. Grafologia e veracidade

 

A Grafologia é o estudo das relações existentes entre a escrita de uma pessoa e as suas características psíquicas e morais; segundo os grafólogos modernos J. Chr. Grohmann e G. Moretti, poderia mesmo denunciar as notas físicas ou somáticas do sujeito, revelando assim a personalidade inteira.

 

Já os antigos pré-cristãos costumavam sondar a escrita, a fim de melhor conhecer o caráter e o currículo de vida das pessoas; faziam-no, porém, segundo regras mais ou menos inconsistentes, inspiradas muitas vezes por falsa mística. Praticavam destarte a Grafomancia ou a adivinhação pela escrita. Essa praxe, que ainda em nossos dias está em uso, é condenada tanto pela Religião como pela ciência, pois se acha baseada na crendice supersticiosa, carecendo de fundamento racional.

 

Cultiva-se, porém, o estudo da escrita guiado estritamente por critérios científicos, isto é, pelo conhecimento das relações que inegavelmente ligam entre si o caráter físico de uma pessoa e seu expressionismo gráfico. O primeiro tratado de Grafologia assim entendida, com base em experiências e observações sérias, deve-se ao médico e professor bolonhês Camilo Baldi; foi editado em Bolonha no ano de 1662, com o título «Trattato come de una lettera missiva si cognoscano la natura e qualità dello scrittore».

 

Contudo, só a partir de começos do séc. XIX é que a Grafologia vem sendo estudada de maneira metódica e sistemática; o pioneiro desta nova fase foi o Padre Flandrin, cujas pesquisas foram continuadas pelo seu discípulo o Pe. Michon. Este deu à nova ciência o nome que ainda hoje a caracteriza, e escreveu diversos livros a respeito, entre os quais se destaca a chamada «Histoire de Napoléon I d'après son écriture». Pesquisas e observações nesse setor se têm multiplicado, por iniciativa tanto de eclesiásticos como de leigos (Goethe, Moreau, Edgar Poe, Walter Scott, o bispo Boudinet, o Cardeal Regnier, o jesuíta Martin, o jurista Lombroso, etc.).

 

Tais estudos são perfeitamente legítimos não somente do ponto de vista científico, mas também do religioso. Está, sim, comprovada a existência de íntimas relações entre o psíquico e o físico ou — no nosso caso — entre o temperamento latente de uma pessoa e a sua linguagem corpórea, linguagem corpórea que pode consistir ou em gestos (mímica) ou em palavras (idioma) ou em movimentos da mão que chamamos «a escrita»; o corpo, por suas atitudes conscientes ou inconscientes, é o espelho por excelência da alma (cf. «P. R.» 28/1960, qu. 8).

 

Na base, pois, de experiências e estatísticas, os estudiosos têm conseguido descobrir e formular princípios que regem o comportamento da mão ao exprimir pela escrita o que vai no íntimo de cada personalidade.

 

Basta observar a letra de uma pessoa tida como nervosa e a de outra pessoa que é calma; a agitação interior desregrada da primeira se traduz pela escrita irregular; da mesma forma, a índole ponderada da outra... Leve-se em conta também a letra de um indivíduo bem disposto nas primeiras horas do dia, e a desse mesmo indivíduo ao terminar exausto um dia de trabalho; a diferença de modalidades gráficas é por vezes surpreendente!

 

A estipulação dos princípios da Grafologia vai-se processando lentamente através dos anos; está não raro sujeita a reformas, dada a liberdade de arbítrio da alma humana; não depende, porém, de adivinhação nem de preconceitos religiosos ou místicos. A Grafologia é considerada hoje em dia um ramo da Psicologia do movimento e, como tal, tornou-se matéria de currículos em Universidades. As pesquisas dos Professores Le Senne e G. C. Jung foram decisivas para os rumos atuais dessa disciplina.

 

A análise da escrita tem-se revelado de inegável utilidade, principalmente ao se tratar de auxiliar alguém a conhecer a si mesmo (seu temperamento e suas tendências; seu estado de saúde física). Pode ter também suas aplicações vantajosas no conhecimento de terceiras pessoas, exigindo-se, porém, nestes casos, muita cautela e discrição para não se tirarem conclusões indevidas ou exageradas (pode haver outrossim obrigação de sigilo profissional); assim tem-se utilizado a análise da letra na orientação educacional, profissional, em exames pré-nupciais, no selecionamento do pessoal de uma empresa, etc.

 

Note-se, aliás, que o objetivo da Grafologia é apenas o de descrever o caráter da pessoa; de modo nenhum intenciona ler o passado, profetizar o futuro ou denunciar acontecimentos ocultos presentes (como tenta fazer a Grafomancia). O comportamento futuro do indivíduo, em seus pormenores concretos, depende da livre vontade humana; portanto, não pode ser rigorosamente predito pelas leis da ciência. Por conseguinte, querer usar da Grafologia para obter profecias implica desvirtuamento e superstição. Será necessário, pois, que as pessoas interessadas se acautelem contra charlatães e meros amadores, a fim de só se dirigirem a técnicos competentes em psicologia e em análise da escrita.

 

2. Sistemas de Grafologia

 

Se os estudiosos estão concordes entre si ao reconhecerem os princípios psicológicos que tornam científica e moralmente legítima a pesquisa da escrita, divergem bastante ao tentarem estipular os critérios de interpretação dos sinais gráficos. Analisam minuciosamente todas as características que estes possam apresentar: forma (arredondada, alongada, angulosa...), inclinação, dimensões, intensidade do traçado, maior ou menor proximidade entre as letras e entre as palavras, maneira de cortar o t; regularidade, curvatura, ritmo ascensional ou declínio das linhas; respeito às margens, margens largas ou estreitas, à direita, à esquerda... superfluidade, simplicidade ou harmonia de traços; parcimônia ou esbanjamento de papel; legibilidade maior ou menor, ilegibilidade; configuração das maiúsculas (tipográficas, floreadas, muito altas, baixas), etc. Contudo, ao procurarem o significado respectivo de cada um desses particulares, os grafólogos não concordam sempre entre si.

 

Neste setor, quanto mais recentes são os sistemas de interpretação, tanto mais autoridade possuem.

 

À guisa de ilustração, segue-se uma lista de interpretações que, por sua Índole mais evidente, merecem consideração por parte do estudioso.

 

Escrita muito inclinada para a direita: sensibilidade;

      muito inclinada para a esquerda: dissimulação;

      muito redonda: bondade, afetuosidade;

      muito angulosa: maldade, frieza afetiva;

      pesada, com traços grossos: sensibilidade;

      leve, com traços finos: espiritualidade e sentimentalismo.

 

Linhas muito direitas: caráter inflexível e pessimista;

      direitas, mas sem rigidez: franqueza e retidão;

      serpejantes: astúcia, velhacaria, diplomacia;

      ascendentes: ambição, ardor;

      descendentes: desânimo, tristeza;

      convexas ou côncavas: coragem desigual, passagem brusca do entusiasmo & decepção.

 

Margens ausentes: falta de gosto, avareza;

      estreitas: economia;

      largas: prodigalidade;

      duplas (à direita e à esquerda): poesia.

 

Letras muito grandes: orgulho;

      médias: dignidade;

      pequenas: prudência, senso crítico;

      muito pequenas: astúcia, covardia.

 

Sílabas separadas: Intuição;

      desligadas: dedução;

      ora ligadas, ora separadas: termo médio entre a Intuição e a dedução.

 

Palavras espaçadas: coragem de opinião, clareza;

      amontoadas: avareza;

      ligadas entre si: senso de argumentação, chegando ao sofisma;

      pontiagudas: mentira, tendência a ofender;

      cujos traços vão pouco a pouco engrossando: franqueza e probidade;

      muito legíveis: lealdade corajosa;

      ilegíveis: finura, impenetrabilidade, desequilíbrio nervoso.

 

Dadas a seriedade e a lealdade de seus estudos, impõe-se à atenção do público em geral o chamado «Institut International de Recherches Graphologiques (Paris, Bruxelles, Washington) », cuja sede principal se acha em Boulogne-sur-Seine: 13, Avenue Victor-Hugo. Esta entidade ministra, por correspondência, um «Curso Racional de Grafologia Psicológica», o qual consta de 17 aulas por semana, acompanhadas de exercícios e de figuras ilustrativas; visa não sòmente dar a interpretação dos diversos sinais gráficos, mas também o «porque» dessa interpretação, habilitando assim o discípulo a julgar com pleno conhecimento de causa.

 

Um dos grafólogos que de mais autoridade gozam atualmente, é o Pe. Frei Jerônimo Maria Moretti, da Ordem dos Franciscanos Conventuais, o qual desde agosto de 1905 já realizou mais de trezentas mil análises grafológicas. Na base de tão vasta experiência, formulou 81 regras, cada uma das quais exprime a relação existente entre determinado sinal gráfico e certa qualidade psicossomática do indivíduo. O Pe. Moretti julga que com o progresso dos estudos ainda poderá ser aumentado o número dessas regras; cada uma delas foi submetida a controle mediante observação do comportamento das pessoas analisadas ou mediante consultas feitas a educadores e médicos que conheciam tais pessoas: num total de 300.000 análises, diz-se que Moretti recebeu 299.999 respostas de confirmação e aplauso !... Os sinais gráficos são por ele distribuídos em substanciais, modificadores e acidentais, e enquadrados dentro de um sistema próprio de classificação decimal.

 

A teoria se apresenta consequentemente muito aprimorada e original. Contudo os críticos se mostram cautelosos ao julgá-la. Conscientes de que a ciência grafológica ainda está em seus anos de infância, admitem que os estudos futuros possam levar a reformar certas conclusões do Pe. Moretti, no momento tidas como válidas, mas talvez insuficientemente assentadas. Além disto, propõem uma questão não desprezível: nos casos em que os grafólogos proferem diagnósticos certos, estarão sendo induzidos a isto unicamente pelas regras da Grafologia ou quem sabe se não falam por efeito de um dom pessoal de clarividência (dom que não teria que ver com os princípios da Grafologia)?

 

Como quer que seja, o Pe. Moretti aplicou suas regras à escrita dos santos, deixando-nos, em consequência, um livro que muito tem impressionado o público: «I Santi dalla Scrittura», livro traduzido para o francês com o título «Copie non conforme. Le vrai visage des Saints révélé par leur écriture». Paris, Casterman 1960. É para tal obra que vamos agora voltar a nossa atenção.

 

3. A Grafologia e os Santos

 

1. Há mais de quarenta e cinco anos, em 1914, Monsenhor Clementi, historiador em serviço no Vaticano, entregava ao Pe. Girolamo Moretti, já então conceituado grafólogo, uma carta de S. José de Cupertino (1603-1663), franciscano conventual, que acabava de ser declarado padroeiro dos aviadores. Submetendo o documento à análise grafológica, Moretti se surpreendeu por descobrir na fisionomia do santo assim expressa sinais de fraqueza de caráter e de espírito vingativo. Contudo Mons. Clementi assegurou-lhe que a conclusão bem correspondia aos dados históricos: estes atestam que São José de Cupertino teve de sustentar durante toda a vida árduas lutas contra as más tendências de sua natureza.

 

A seguir, foram confiados ao Pe. Moretti espécimes da escrita de cerca de cinquenta santos canonizados, cujos nomes não lhe eram revelados, a fim de que a análise não sofresse influências estranhas.

 

Os resultados do exame desses documentos de tal modo surpreenderam Moretti que este, por três anos, renunciou a praticar a Grafologia: as pesquisas haviam-lhe dado a ver de perto a humanidade dos Santos, humanidade que, na maioria dos casos, lhe aparecia tecida de inclinações pouco condizentes com santidade. Daí o espanto, à primeira vista desnorteador...

 

São Felipe Neri teria tido inclinações ao sadismo psíquico ou à «sem-vergonhice»; S. Inácio haveria sido propenso à vingança; São João da Cruz teria possuído um lastro de ceticismo; Sta. Teresa de Ávila aparecia dotada de vontade forte, mas tendente à sensualidade; Sta. Teresa de Lisieux, concluía Moretti, «se tivesse vivido na miséria, como donzela pouco instruída, haveria levado uma existência medíocre, talvez de manequim da alta costura ou de modelo..., simplesmente para ganhar a vida».

 

Moretti, porém, se refez do susto e decidiu-se a publicar, no volume citado, os resultados de seus estudos concernentes a trinta santos. A disposição da matéria é a mesma em cada caso: vê-se 1) uma página de texto da lavra do respectivo santo; 2) o exame da escrita, segundo a classificação decimal e a terminologia técnica de Moretti; 3) a interpretação clara e minuciosa dos dados colhidos; 4) traços biográficos do santo que mostram a correspondência entre o Julgamento do grafólogo e a realidade vivida pelo santo.

 

2. Qual a mensagem de tão meticulosos exames? Será realmente desconcertante, levando a crer que, na verdade, não há santos ou que é impossível chegar à santidade?

 

É o que vamos ponderar abaixo.

 

a)    Antes do mais, leve-se em conta o fato de que a Grafologia indica apenas o «lastro bruto» ou o «fundo bravio» do qual se fez a figura do santo; ela só evidencia as tendências inatas, sem dizer coisa alguma do trabalho que cada santo empreendeu industriosamente com essa sua massa de argila; já não é da alçada da Grafologia enunciar as vitórias sobre as paixões que cada santo logrou no decorrer de sua vida.

 

b)    Assim a ciência da escrita apenas leva a concluir que ninguém nasce santo, mas que também os santos compartilharam o patrimônio de miséria nativa do comum dos homens. Experimentaram ímpetos da natureza desregrada, como os experimentaram os demais homens. Contudo o que os diferencia dos restantes mortais, é que, embora possuíssem esse fundo de fraqueza, não se renderam à «sina» de ser medíocres por toda a vida, não se conformaram com a miséria moral, mas empreenderam corajosamente a luta que poucos empreendem: oraram, pedindo a graça de Deus; cooperaram com esta, lutando contra seus defeitos sem desfalecer, sem desanimar (desânimo seria expressão de amor próprio decepcionado ou magoado)... Em consequência, conquistaram as virtudes contrárias às suas más tendências, tornando-se verdadeiros heróis; merecem assim o título de «autênticos homens livres»; livres, sim, porque escaparam aos pretensos «determinismos» da natureza e do ambiente, configurando-se totalmente ao exemplar de perfeição que Deus lhes assinalou.

 

Assim o exame grafológico, longe de lançar o descrédito sobre os santos, contribui para que melhor se perceba o seu verdadeiro valor e mais estima se lhes tribute: os santos não foram santos por possuírem uma natureza humana privilegiada ou, de algum modo, diferente da nossa; ao contrário, a partir do ponto mesmo em que todos começamos a vida na terra, foram subindo para Deus; o segredo de seu êxito consistiu simplesmente em deixar-se guiar pela graça, da qual infelizmente tantos homens fogem.

 

c)     À luz dos resultados grafológicos, entende-se melhor como todos possam ser (e, de fato, são) chamados à santidade, apesar das más tendências congênitas em cada filho de Adão. Não é necessário que estas digam a última palavra no currículo terrestre de alguém. Para suplantá-las, qualquer que seja a sua intensidade, existem os recursos da oração e da graça de Deus indistintamente oferecidos a todos os homens.

 

Às vezes almas particularmente favorecidas por suas qualidades naturais ficam na mediocridade, justamente por não terem ocasião frequente de se humilhar diante de Deus e de pedir a graça do Altíssimo. Bem-aventurados, antes, aqueles que se colocam na atitude de humildes mendigos diante de Deus (cf. Mt 5,3).

 

d)    Ainda em outros termos: a análise da escrita permite ver como a graça de Deus explorou a massa de argila humana dos santos, transformando em arroubo para Deus cada uma das baixas tendências que eles traziam em si mesmos.

 

Assim o amor sensual veemente, apaixonado, foi, pela graça, convertido em amor místico de Deus; a obcecada cobiça de bens temporais foi transformada em inflexível procura de bens espirituais ou ardente sede de Deus e da vida eterna; a prodigalidade perdulária, esbanjadora, mudou-se em generosidade contínua para com Deus e para com o próximo; a teimosia soberba transfigurou-se em tenacidade inquebrantável no serviço humilde de Deus; a sandice lasciva passou a ser ausência de todo respeito humano na procura do bem... Em consequência, vê-se também que a humildade de Sto. Antônio de Pádua, por exemplo, não foi a humildade de S. Francisco de Sales, nem o amor de S. Francisco de Assis foi o amor de Sto. Inácio de Loiola, pois cada santo oferecia à ação da graça um lastro próprio. A propósito, pode-se citar o famoso adágio de S. Tomás de Aquino: «A graça não destrói a natureza humana, mas a supõe e a aperfeiçoa» (S. Teol. I qu. 1, a. 8 ad 2).

 

Destarte a obra do Pe. Moretti contribui para evidenciar e exaltar as riquezas da graça de Deus entre os homens (cf. Ef 1,12).

 

Apêndice

 

A fim de ilustrar o fenômeno que acabamos de considerar, vão reproduzidos abaixo alguns dos tópicos mais significativos que Moretti apresenta no seu livro.

 

SAO TOMÁS DE AQUINO (1227-1274), Religioso dominicano, eminente teólogo e doutor da Igreja. A escrita desse santo manifesta inata ambição de imaginar e inventar novas doutrinas (escrita metodicamente desigual); se não tivesse recebido formação religiosa muito sólida, facilmente (em.virtude das suas qualidades naturais) se teria tornado um disseminador de erros, dominando mesmo as classes intelectuais; saberia desviar os homens mais cultos, explorando os seus pontos fracos; abriria brechas, provocaria críticas e censuras (escrita pontiaguda), sempre, porém, usando de táticas atraentes e sedutoras.

 

Nessas circunstâncias, a notável humildade de S. Tomás de Aquino dá evidente testemunho da ação da graça.

 

Esse homem de Deus chegou a pôr a serviço da humildade a sua tendência inata à taciturnidade. Quando ainda noviço, assistia às aulas de Sto. Alberto Magno, superando os seus condiscípulos pela facilidade em compreender...; guardava, porém, o silêncio, fosse por respeito ao mestre, fosse por estimar que os colegas lhe eram superiores. Impressionados, estes atribuíam a taciturnidade de Tomás à sua «exígua inteligência», chegando a cognominá-lo «o boi mudo». Alguns colegas compadecidos foram mesmo oferecer-lhe ulteriores explicações da matéria já explanada em aula; Tomás aceitou-as com alegria e efusivos agradecimentos; aconteceu, porém, que um dia um desses zelosos irmãos se enganou notoriamente nas explicações que dava; Tomás então, pedindo licença, retificou a doutrina, e acrescentou-lhe comentários pessoais muito profundos. Sabedor disto, Sto. Alberto advertiu o grupo de discípulos: «Um dia os ensinamentos daquele que chamais 'o boi mudo', serão rugidos tais que repercutirão no mundo Inteiro». — Apesar do ocorrido, não se mudou o comportamento de Tomás: sempre igualmente modesto, simples e recolhido.

 

Certa vez, quando fazia a leitura de comunidade no refeitório, Tomás foi corrigido em público como se houvesse pronunciado mal determinada palavra. O Santo, então, certo de não se ter enganado, repetiu pronunciando como lhe mandavam; a seguir, tendo averiguado que a correção estava fora de propósito, os irmãos perguntaram-lhe por que a havia aceito; ao que Tomás respondeu: «Pronunciar uma sílaba com acento breve ou acento longo é coisa de pouca importância; de grande monta, porém, é ser humilde e obediente».

 

SANTA BERNADETE SOUBIROUS (1844-1879), vidente de Lourdes e Religiosa em Nevers. A escrita tênue (filiforme) e desligada dessa santa denuncia delicadeza e finura de sentimentos. Ora a biografia comprova tal conclusão. Tenha-se em vista, por exemplo, o seguinte episódio:

 

Um dia propunham a Bernadete, qual modelo de Religiosa, Santa Teresa de Ávila... Ora a esta o Menino Jesus certa vez apareceu, quando o sino do convento tocava chamando-a para um ato de piedade comunitária; Santa Teresa obedeceu à Regra e ao sino, deixando de dialogar com o Menino-Deus. — Pois bem; ao ouvir isto, Bernadete não se mostrou em absoluto impressionada; perguntaram-lhe então:

 

«Que teria feito, Irmã Bernadete?

   Não teria procedido como Santa Teresa, respondeu ela com vivacidade e energia».

 

Isto causou surpresa e certa desaprovação no grupo de Religiosas que a ouviam. Então explicou Bernadete:

 

«Teria seguido o chamado do sino, sim; mas... sem me separar do Menino Jesus... Tê-lo-ia tomado comigo... É tão pequeno que não deve pesar muito!»

 

Tinha outrossim um temperamento inflexível, que, sob a ação da graça, veio a tornar-se intransigência na recusa de prazeres meramente humanos. Contavam-lhe, por exemplo, que seu nome permanecia glorioso e muito evocado em Lourdes, onde, aliás, vendiam seu retrato por dois soldos:

 

   «Dois soldos? Ah, é precisamente tudo que eu valho».

 

A uma Religiosa que lhe manifestava admiração, replicou Bernadete :

 

   «Para que serve uma vassoura?

    

   Oh, que pergunta! Para varrer.

    

   E depois que varreu?

    

   Depois, recolocam-na no seu lugar.

    

   E qual é o seu lugar?

    

   Costuma ser um canto, atrás da porta.

    

   Pois bem; tal é a minha história, concluiu Bernadete. A Virgem serviu-se de mim; a seguir, fui posta num canto. Este é o meu lugar; estou feliz e aqui fico».

 

SÃO PIO X (1835-1914), Papa. A escrita (por seus numerosos ângulos em A) denuncia, neste santo, temperamento muito suscetível e irascível. A graça, porém, o tornou equânime diante das contrariedades de cada dia, mesmo quando estas tinham o caráter de provocações desrespeitosas. Mais de uma vez, por exemplo, referiram-lhe que sua política era criticada tanto no Vaticano como fora e que o tinham simplesmente na conta de bom pároco de aldeia; então, com o rosto iluminado por um sorriso, respondia:

 

«Sei que não sou um político, mas apenas um pobre bispo. Sei que dizem que não entendo da tarefa e que não passo de vulgar camponês. Pouco importa. Só tenho uma via e um termo final: o Crucifixo».

 

Após sofrer ofensas e injúrias, estava sempre pronto a perdoar com o coração magnânimo.

 

SÃO JOÃO-MARIA VIANNEY (1786-1859), cura de Ars (França). Este santo era naturalmente propenso à zombaria e à sátira. Sob o influxo do Espírito Santo, porém, utilizou esta tendência não para destruir, mas para construir, como dão a ver alguns episódios anedóticos narrados por seus biógrafos:

 

Certa vez, enquanto o Santo dava o catecismo na Igreja, algumas senhoras, ostentando inconvenientemente os vestidos mais em moda na época, tentaram entrar no santuário. Ao vê-las, disse o cura: «O Imperador fez muita coisa boa; esqueceu uma, porém: devia ter mandado alargar as portas, para que pudessem passar as crinolinas (amplas saias estufadas com barbatanas de baleia ou lâminas de aço)».

 

De outra feita, num dia chuvoso ia o Santo, sem chapéu nem guarda-chuva, visitar um doente. Sobreveio então seu fiel auxiliar, o Irmão Atanásio, a quem S. João-Maria logo perguntou: «Aonde vais, amigo? — Trago-lhe um guarda-chuva, Sr. Cura. — Oh! não sou de açúcar!». E, rindo, continuou a caminhada.

 

SAO ROBERTO BELARMINO (1542-1621), Cardeal e Bispo de Cápua, doutor da Igreja. Sua escrita, miúda como era, revela inclinação à ironia capaz de ferir ou pulverizar habilmente o adversário. Ora os biógrafos referem que Este Santo praticou com esmero a caridade: um dia, por exemplo, teve que censurar duramente um dos seus sacerdotes... Pouco depois, levaram-lhe, de presente, algumas trutas frescas; embora não tivesse o costume de receber dádivas de tal gênero, dessa vez aceitou; fê-lo, porém, com a intenção de curar a chaga que ele podia ter aberto no coração de seu interlocutor anterior; por Isto mandou logo chamar um fâmulo, a quem entregou o peixe, dizendo: «Rápido, leva isso ao sacerdote que há pouco esteve aqui, e dize-lhe que foi o arcebispo quem lho mandou».

 

SÃO PIO V (1504-1572), Papa. A Grafologia aponta, nessa personalidade, um caráter espontaneamente muito austero. Ora os historiadores confirmam eloquentemente este traço.

 

Referem que São Pio V praticou a continência e o desapego de tudo a ponto de não se querer submeter à extração de cálculos, que seus médicos lhe recomendavam para curar uma sua moléstia inveterada; preferiu suportar as dores mais atrozes a permitir que mãos estranhas lhe tocassem o corpo. Após a morte, quando se fêz a autópsia do cadáver, os médicos nele descobriram três cálculos, cada um dos quais pesava mais do que uma onça; surpreenderam-se profundamente por verificar que pudera tolerar espasmos tão violentos. Sua alma, dominando constantemente o corpo, impunha silêncio às queixas da natureza. Durante as crises de dor mais aguda, limitava-se a dizer: «Senhor, aumentai-me o sofrimento, se o quereis, mas aumentai-me também a paciência!». Apesar de sua fraqueza física, ainda quis no fim da vida observar integralmente a quaresma. Foi então que um de seus fâmulos, vendo-o tão debilitado, temperou com um pouco de caldo de carne a chicória selvagem de que ele costumava alimentar-se; apenas a provou, o Papa manifestou-se vivamente contrariado, e exclamou: «Amigo, queres que por causa dos poucos dias que me restam, eu viole a lei de abstinência que durante cinquenta anos observei sem jamais a transgredir?!».

 

SANTA TERESA DE ÁVILA (1515-1572), mística Reformadora do Carmelo. Era dotada de tão forte inclinação à sensualidade que, conforme o grafólogo Pe. Moretti, as pessoas assim configuradas facilmente se entregam à poligamia ou à poliandria.

 

Ora sua alma se entregou de tal modo ao amor de Deus que, em relação aos bens carnais, ela só procurava praticar a mortificação; fez assim convergir todo o veemente ardor de sua natureza para Deus só; amou, mas amou virginalmente (daí os traços característicos de sua santidade).

 

Não obstante, ela podia ser muito atraente e provocar sentimentos de viva paixão em quem a abordasse. Teresa mesma, muito delicadamente, narra o seguinte episódio: pouco depois de entrar no convento, conheceu um jovem sacerdote que se desviara, fascinado por infeliz mulher. Teresa tomou a seus cuidados especiais a salvação da alma desse padre e, recorrendo tanto às palavras como aos exemplos, conseguiu libertá-lo da vida pecaminosa em que caíra. Em breve, porém, verificou que o sacerdote se apaixonara por ela e que alimentava planos pouco honestos a seu respeito. Teresa não se perturbou; antes, mostrando coragem verdadeiramente viril, tanto se empenhou que conseguiu não somente escapar ela mesma ao grande perigo da situação, mas também reerguer o amor mórbido do sacerdote, transformando-o em férvido amor a Deus!

 

Eis pálidos espécimes de como, nos santos, os valores negativos se transformam em valores positivos, sem perder, porém, a sua fisionomia própria.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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