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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 043 – junho 1961

 

CONCÍLIO ECUMÊNICO: ATITUDE DOS NÃO CATÓLICOS

ENGENHEIRO II (São Paulo): «Qual tem sido a atitude dos cristãos não católicos frente aos preparativos do próximo Concílio ecumênico?»

 

Eis, em grandes linhas, o que a respeito se pode dizer:

 

1. Logo após o primeiro anúncio do Concílio feito pelo Sto. Padre João XXIII aos 25 de janeiro de 1959, uma onda de emoção e regozijo encheu os cristãos protestantes e ortodoxos orientais; julgaram que S. Santidade tinha em vista uma assembleia na qual se reuniriam com os católicos os representantes das várias confissões cristãs, a fim de estudarem uma profissão de fé e os estatutos jurídicos que satisfizessem sem constrangimento a todas as comunidades cristãs hoje existentes.

 

De maneira especial, tal perspectiva contentava os irmãos protestantes, pois, como professam muitos deles, não há genuíno ecumenismo (ou movimento de união entre cristãos) sem participação da Igreja Romana (ora esta até hoje, pelos motivos que abaixo veremos, se recusa a entrar nos movimentos unionistas protestantes). Assim, por exemplo, declarou o órgão oficial da Alta Igreja (luterana) da Suécia, após janeiro de 1959:

 

«A iniciativa papal abre, no setor do ecumenismo, horizontes mais largos do que os que conhecemos até hoje. Todo ecumenismo sem Roma terá sempre as asas cortadas».

 

Por sua vez, o Dr. Hans Asmussen, evangélico, promotor da corrente unionista chamada «Die Sammlung», declarava:

«O Concílio deve servir à unidade dos cristãos. Isto enche de alegria numerosos cristãos e os coloca em atitude de grande expectativa».

 

Aos 12 de fevereiro de 1959, o Comitê Executivo do Conselho Mundial das Igrejas (entidade de inspiração protestante), reunido em Genebra (Suíça), atestava:

«O Comitê verificou que essa iniciativa do Papa despertou interesse geral nas 171 Igrejas protestantes, ortodoxas, anglicanas e velho-católicas de 83 nações, agrupadas no seio do Conselho Mundial das Igrejas».

 

2. Contudo as subsequentes declarações do Sto. Padre João XXIII e de autoridades católicas contribuíram para desfazer a primeira impressão despertada entre protestantes e orientais. Por exemplo, aos 30 de outubro de 1959, o Cardeal Tardini em entrevista coletiva à imprensa, foi interrogado sobre a participação das igrejas separadas no Concílio; S. Em. respondeu que este constituiria uma realização de regime interno da Igreja Católica e que, por conseguinte, nele não poderiam tomar parte ativa os cristãos não pertencentes à mesma; não estava, porém, excluída a possibilidade de comparecerem a título de observadores; tal questão ficava ainda sujeita a deliberação (até hoje nada de definitivo se pode adiantar sobre o assunto).

 

3. Terá a Igreja Católica tomado assim atitude de intransigência mesquinha e mortal?

-- Não; longe disto!

-- Como então se explica a rigidez de sua posição?

-- A Igreja Católica tem consciência de estar na posse da verdade. Nela se transmite ininterruptamente, sem reforma nem «recomeço», a mensagem entregue por Cristo aos Apóstolos e por estes às subsequentes gerações cristãs : o Senhor Jesus garantiu à linhagem dos Apóstolos a sua assistência pessoal e a do Espírito Santo a fim de que nela se comunique, incontaminado e puro, o Evangelho até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20; Jo 16,13). Por conseguinte, a Igreja Católica sabe ser o grão de mostarda que Cristo mesmo lançou à terra e que através dos séculos se foi desenvolvendo em árvore frondosa (cf. Mt 13,31s); o fato de que a Igreja no séc. XX não tem a mesma face externa que no séc. I, significa simplesmente o desabrochar da vitalidade que Cristo depositou na sua Igreja. A vida tende necessariamente a se manifestar sob novas e novas expressões; estas, porém, não deterioram, mas, ao contrário, corroboram a estrutura do ser vivo... (cf. «P.R.» 36/1960, qu. 3).

 

Consciente disto, a Igreja Católica Romana não pode promover nem aceitar colóquios que visem procurar uma fórmula de fé ou de organização hierárquica satisfatória a todos os cristãos da atualidade. Tal fórmula já está dada desde os tempos de Cristo e é conservada íntegra na Igreja Católica, que se liga diretamente com Cristo e os Apóstolos e que consequentemente é representada pelo sucessor de S. Pedro residente em Roma. O que a Igreja pode fazer, no setor ecumenista, é mostrar aos irmãos separados o seu conteúdo, a sua vitalidade e as suas riquezas sobrenaturais, incitando os fiéis católicos a sacudirem toda a rotina e viverem uma vida cristã ainda mais consciente e profunda. Ora é justamente isto o que o Sto. Padre João XXIII se propõe fazer mediante a solene convocação do Concílio ecumênico; estará assim realizando genuíno ecumenismo. Não há dúvida, porém, de que a Sta. Igreja se acha disposta a adaptar à mentalidade e à disciplina dos irmãos separados tudo que não é essencial em matéria de fé e de estrutura eclesiástica (ritos e língua na Liturgia, celibato do clero, praxe de dízimos, de jejum, etc. poderão, sem dificuldade, sofrer alterações para ir ao encontro de protestantes e ortodoxos). O Papa João XXIII assim exprime com toda a sabedoria a atitude da Igreja nesse setor: «Haja, nas coisas essenciais, unidade; nas coisas duvidosas (ou acidentais), liberdade; em todas, porém, caridade» (cf. ene. «Ad Petri  Cathedram», ed. Vozes no 41).

 

Não está em poder dos homens, nem mesmo do Papa, retocar algum ponto essencial do Credo ou da estrutura da Igreja. Trata-se aí de um patrimônio entregue por Cristo à sua Igreja, patrimônio que esta, qual mera depositária, tem a missão de conservar intato em vista do próprio bem comum de todo o gênero humano.

 

4. Tal posição do Catolicismo não podia deixar de causar decepção em muitos dos cristãos não unidos a Roma. Contudo não era licito à Igreja evitar a decepção.

 

Em consequência, ouviram-se, e têm-se feito ouvir, vozes de queixa e desconfiança contra a Santa Sé. Felizmente, esses pronunciamentos não parecem exprimir a orientação que os cristãos separados vão seguindo atualmente. Com efeito, apesar de quanto tem ocorrido, é cada vez mais acentuada em muitos círculos distantes de Roma a tendência a se aproximar da Igreja tradicional. É o que se pode apreciar à luz dos fatos e depoimentos que vão abaixo recenseados:

 

a) Aos 5 de junho de 1960, o Sto. Padre instituiu o Secretariado pro União dos Cristãos, destinado a ser o órgão de diálogo oficial da Sta. Igreja com os cristãos dissidentes. Tal medida despertou imensa simpatia, principalmente entre os protestantes, pois dissipava a impressão de que a Igreja Romana se fechava em si, rígida e soberba.

 

Referindo-se ao Secretariado pro União, o Comitê Central do Conselho Mundial das Igrejas, em agosto de 1960, observava:

 

«O fato de que o diálogo se tornou possível com a Igreja de Roma, é motivo de regozijo».

O pensamento foi explicitado pelo pastor Marcos Boegner, reformado (calvinista) de França, em fins de 1960:

«O Concílio será um acontecimento considerável em si mesmo... Temos que reconhecer uma mudança de clima total. Há cinquenta anos atrás, não teria sido possível entrever os resultados aos quais atualmente chegamos. Não há dúvida, imensos obstáculos persistem; mas o que foi feito até agora, só nos pode inspirar paciência e perseverança».

 

Apraz citar outra voz abalizada, que é a do Dr. Vissert Hoft, Secretário Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em alocução proferida aos 28 de junho de 1959:

 

«É preciso procurarmos a unidade com todos aqueles que reconhecem Jesus Cristo como o Portador das Palavras da vida eterna: é mister não nos fecharmos em um isolamento estéril. Devemos entrar em diálogo; sem outro preconceito que não um sólido arraigamento na Palavra de Deus. Eis a atitude ecumênica... para a qual, à luz do que o Espírito vem dizendo às Igrejas há alguns decênios, as portas estão hoje muito abertas».

 

b) Principalmente do ambiente anglicano é que se fizeram ouvir vozes alvissareiras.

 

Assim se pronunciava, por exemplo, o Dr. Arthur Michael Ramsay, arcebispo (anglicano) de York em outubro de 1959, atualmente sucessor do Primaz de Cantuária. Após haver notado que o Concílio ecumênico não terá o alcance que alguns lhe quiseram atribuir a princípio, acrescentava : «O Papa atual parece ter acentuada boa vontade cristã e caridade. Ora onde a caridade existe, os resultados são incalculáveis».

 

O cônego (anglicano) Waddams, por sua vez, declarava: «Qualquer tentativa da Igreja Católica Romana de aproximar as Igrejas seria, estou certo, muito bem acolhida. Não sabemos muita coisa a respeito do futuro Concílio».

 

Eis agora palavras do Rev. Ivor Watkins, Presidente da chamada «Cooperação Ecumênica»:

«O apelo à unidade, emanado simultaneamente do Vaticano e do Patriarca ecumênico (de Constantinopla), é um sinal do movimento em prol da unidade e do desejo de a conseguirem que os cristãos atualmente nutrem; deve ser considerado qual motivo de grande esperança para o futuro».

 

Com especial simpatia os anglicanos apreciaram a criação do Secretariado Católico pro União dos Cristãos; veio quebrar o gelo que entravava os movimentos ecumenistas. A ele se refere nos seguintes termos o Rev. Falkner Allison, bispo anglicano de Chelmsford e Presidente da Comissão Anglicana encarregada das relações entre as Igrejas:

«Acolho muito calorosamente a fundação do Secretariado Católico em prol da unidade cristã. É muito significativo o fato de que há atualmente em Roma uma instituição composta de homens experimentados em questões ecumênicas, aos quais os cristãos não católicos podem dirigir suas perguntas, suas observações e sugestões. Isto naturalmente não quer dizer que a unidade já esteja à vista no horizonte — ainda temos longa caminhada a percorrer —, mas significa certamente um passo decisivo para diante».

 

O Arcebispo de Cantuária, Dr. Geoffrey Fishesr, saudou o Secretariado como «sinal dos tempos, cheio de promessas divinas». Logo a partir de 20 de julho de 1960, o prelado anglicano entrou em correspondência postal com o Secretariado, e aos 2 de dezembro fazia visita a S. Santidade o Papa João XXIII em Roma; embora este encontro tenha tido caráter muito formal e reservado, constituía um acontecimento inédito desde o inicio da ruptura anglicana (séc. XVI), abrindo novas perspectivas, que o Arcebispo Dr. Fisher assim insinuava:

«Minha visita teve por objetivo preparar os caminhos para conversações ideológicas;... agora tais intercâmbios se podem desenvolver aberta e publicamente».

 

Ao Arcebispo Dr. Fisher, que pediu demissão, foi dado como sucessor em Cantuária o Arcebispo Dr. Ramsey, conhecido por suas tendências ecumenistas; o novo dignitário, em entrevista concedida à BBC, logo sublinhou que se interessava «com paixão pela unidade cristã» e que intencionava empreender numerosas viagens «para servir a essa causa». Os anglicanos nomearam recentemente um seu representante e observador oficial junto ao Secretariado do Concílio pro União dos Cristãos.

 

O ano de 1961 conta com a visita da rainha Elizabeth, da Inglaterra, ao Pontífice João XXIII... Isto certamente não implica em movimento religioso, mas não pode deixar de ter Influência benéfica no clima geral de aproximação entre anglicanos e católicos.

 

c) Por parte dos orientais separados, também se têm feito ouvir pronunciamentos simpáticos, embora não faltem restrições e suspeitas em relação ao Concílio. Interessa-nos apenas relevar os seguintes depoimentos:

 

O periódico grego ortodoxo «Archeion Ekklisiastikon kai Kanonion Diakon» assim comentava o anúncio do Concílio ecumênico:

«A cristandade toda se vê diante de um ataque de paz, caridade e união, ataque imprevistamente desencadeado pela antiga Roma».

 

A este tópico faz eco a observação do escritor grego Damiano-Miguel Stroumbulis :

 

«O fato é que o Papa teve a iniciativa de um convite à unidade, colocando assim todos os homens em ótimas disposições para com Ele» (no periódico «Orthodoxos Skepsis»).

 

O prelado Virvos, da igreja de Sta. Sofia em Londres, asseverou:

 

«O momento é de alegria; não nos é lícito desejar controvérsias destruidoras, mas confraternização construtiva. Muitos teólogos aspiram a uma verdadeira e sólida aproximação, augurando que se torne possível um diálogo sério entre ortodoxos e católicos».

 

Dentre tais teólogos, destacam-se os Prof. Alivisatos e Florovsky, que numa série de artigos têm manifestado seu alto apreço pela iniciativa de Roma.

 

No Líbano, o Dr. Malik, teólogo, filósofo e ex-oficial da ONU, declarou em conferência feita a católicos americanos:

 

«A necessidade de ecumenicidade (ou de espírito unionista) é hoje em dia geral e autêntica... A Igreja ortodoxa, vivendo no Oriente em condições sufocantes, pergunta a si mesma até quando seu isolamento ainda há de durar. No seio da ortodoxia há um desejo profundo de se verem restaurados os antigos laços de amizade».

 

Alguns representantes da ortodoxia contentar-se-iam com uma união de ação social entre católicos e ortodoxos, a fim de se constituir uma Frente única contra o materialismo contemporâneo. Tal solução certamente ficaria aquém do ideal, pois deixaria subsistir as divergências de Credo; como quer que seja, vale a pena consignar as palavras do Patriarca Atenágoras de Constantinopla dirigidas ao Pe. Wenger:

 

«As divergências não devem impedir a unidade, visto que temos o mesmo Senhor, a mesma tradição, os mesmos mártires, os mesmos santos. Estamos no limiar de uma era nova. O passado é passado. As responsabilidades da Igreja são grandes, as de seus chefes são imensas, diante do perigo do materialismo comunista. É contra Cristo e contra a Igreja de Cristo que o comunismo se atira. Não contra o budismo nem contra o islamismo, mas contra Cristo. É preciso nos unamos para salvar a fé cristã... Em vista de tal objetivo, estou pronto a ir a Roma.. Há divergências, há pendências administrativas. Deixemos as divergências aos teólogos; são o seu campo de trabalho. Deixemos as questões administrativas aos administradores» (revista Unitas, 2» trimestre de 1960).

 

Se não por outro título, ao menos pela simpatia que refletem, merecem ser estas palavras registradas (é de desejar, porém, que se supere o relativismo que nelas se encerra; Cristo pregou a Verdade, e não terá permitido que ela esteja hoje em dia encoberta).

 

Pode-se dizer que a posição auspiciosa do Patriarca de Constantinopla foi pràticamente reafirmada na visita recém-feita a S. Santidade o Papa João XXIII por Mons. Iakovos, Arcebispo das duas Américas nomeado por Atenágoras. Pouco depois, era o delegado Apostólico de João XXIII em Constantinopla, Mons. Testa, quem ia visitar o Patriarca Atenágoras. Crê-se que em breve este prelado ortodoxo irá pessoalmente a Roma entreter-se com o Sto. Padre. — Não se poderia terminar esta resenha sem ainda referir a audiência «histórica» que o rei e a rainha da Grécia tiveram com o Sto. Padre João XXIII em 1960.

 

Não seria lícito exagerar o alcance das palavras e dos fatos aqui recenseados. Há ainda obstáculos e preconceitos a remover no caminho de aproximação dos protestantes e ortodoxos. Contudo a atitude evidentemente mudada que uns e outros vão tomando em relação à Igreja, assim como as continuadas declarações compreensivas e simpáticas que desta têm emanado, deixam-nos prever um futuro alvissareiro. Aos católicos compete assumir integralmente o seu quinhão de responsabilidade na hora presente: procure cada um, mais do que nunca, tornar-se um membro sadio e expressivo da Igreja de Cristo, a qual é «a Esposa sem mancha nem ruga» (Ef 5,27). Para o conseguir, entre nas disposições que o Sto. Padre a todos sugere neste período de preparação do Concilio: faça uma sincera revisão de vida e empreenda pessoalmente a sua renovação espiritual. Assim poderá melhor dar a ver ao irmão separado o que é e onde está a Igreja de Cristo.

 

Os testemunhos de pensadores católicos e não católicos transcritos neste artigo foram colhidos na revista «Informations Catholiques Internationales» no 135, 1/1/1961.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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