REVISTA PeR (1603)'
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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 041 - maio 1961

 

PROVIDÊNCIA DIVINA e DESGRAÇA HUMANA

DOGMÁTICA

MÃE DE AVIADOR (Rio de Janeiro): «Como se conciliam a Providência Divina e a existência de tanta desgraça no mundo? Meu bom filho morreu em trágico desastre. Não terá Deus errado, ao permitir isso?»

CONTURBADO (Niterói): «Dizia-me um amigo: 'Não perca seu tempo, procurando saber quais são os pretensos desígnios da Providência; procure, antes, dar execução às suas providências. Não confie na moral do 'Deus é grande', pois sabemos que Ele é infinitamente grande, mas que isto não impede sejam infinitamente inflexíveis as leis que regem o universo'. Desejo, em consequência, saber como se relacionam a Providência e as leis fixas do universo».

 

As questões acima tratam da Providência Divina e da sua ação neste mundo, focalizando dois aspectos do problema: “Deus e o sofrimento do homem” e “Deus e os meios de prover à felicidade humana”.

Já mais de uma vez em «P. R.» tivemos ocasião de abordar questões semelhantes. Assim em PeR:

 

5/1957, qu. 1 — o mal no mundo;

32/1960, qu. 3 — as imperfeições do universo;

36/1960, qu. 2 — Deus, autor do pecado?

3/1957, qu. 5 — o inferno;

31/1960, qu. 4 — bondade de Deus e inferno.

 

Evitando repetir sem necessidade o que já dissemos sobre a assunto, trataremos abaixo dos três seguintes pontos:

1) a realidade da Providência Divina;

2) Providência Divina e felicidade humana;

3) Providência e «Providencialismo».

 

1. A realidade da Providência

 

A Providência é o atributo divino que preside ao governo de todas as coisas, fazendo que cada qual se encaminhe para o respectivo fim, ou seja, para Deus.

 

A existência da Providência constitui uma verdade racional, professada por filósofos, fora mesmo do Cristianismo. Com efeito, a idéia de um Deus desinteressado pela felicidade do gênero humano é ilógica; opor-se-ia à noção de Perfeição Divina; em verdade,

- ou Deus é o Autor do mundo e do homem. Neste caso, tendo criado em vista de determinado fim, Ele acompanha as suas criaturas até a consecução desse fim;

- ou simplesmente Deus não é..., não existe. Professar um Deus sem Providência é professar um absurdo; equivale mesmo a negar a existência de Deus.

 

Resta, porém, averiguar como a solicitude do Senhor para com as criaturas se concilia com as desgraças existentes no universo. É o que vamos focalizar, procurando traçar algumas grandes linhas que concorram para elucidar os casos particulares.

 

2. Providência Divina e felicidade humana

 

2.1. Antes do mais, faz-se mister recordar em que consiste o mal, evocando sumariamente o que já foi dito em «P. R.» 5/1957, qu. 1.

 

Longe de ser uma entidade ou algo de positivo, o mal é uma carência de entidade devida,... da entidade que deveria estar presente em tal ou tal ser; assim diz-se que a falta de braços, num homem, é um mal, pois os braços pertencem à integridade da natureza humana (o homem se desenvolve e afirma naturalmente mediante os seus braços); o mesmo, porém, não se dirá da falta de nadadeiras no homem, pois a natureza humana por si não foi feita para viver dentro da água.

 

Distingue-se

- o mal ou a carência na ordem física: o mal físico, do qual acima demos um exemplo (a ausência de braços);

- o mal ou a carência na ordem moral: o mal moral. Consiste na falta de harmonia de determinado ato humano com o seu Fim Supremo ou com Deus. Todo ato oposto à Lei de Deus ou pecado é um mal moral.

 

O Senhor não fez o mundo mau, mas deu originariamente a cada criatura o grau de perfeição correspondente à sua essência. O mal entrou no mundo por obra do homem. Este abusou da faculdade de livre arbítrio: em vez de a dirigir para Deus, Bem Supremo, o primeiro homem a dirigiu conscientemente para uma criatura. Rompendo assim a harmonia da natureza humana com Deus, o primeiro pai fez que se rompesse a harmonia dos elementos inferiores materiais existentes dentro do homem e em torno deste; daí os desgastes de saúde, a dor e a morte que todo homem padece; daí também as calamidades do cosmos, como secas, enchentes, incêndios, etc.

 

De todo o mal, moral e físico, assim desencadeado, a Sabedoria Divina está isenta de culpa; cf. «P. R.» 36/1960, qu. 2. A raiz das desgraças é a liberdade humana, faculdade que Deus outorgou ao homem para o dignificar, mas que este usou indevidamente. O Criador não quis entravar nem canalizar o uso dessa liberdade, pois isto seria contraditório e indigno do Todo-Poderoso. Este devia ter, e de fato tinha, recursos suficientes (mesmo sobejos) para não permitir que o mal vencesse o bem, sem que fosse necessário violentar, ai liberdade humana. Justamente tais recursos constituem o objetivo em torno do qual se exerce a Providência Divina...

 

É, portanto, a esta que vamos agora voltar nossa atenção de maneira especial.

 

2.2. Os teólogos costumam afirmar, como notamos atrás, que Deus jamais haveria permitido à criatura humana desencadear o mal neste mundo, se Ele não tivesse a Sabedoria e o Poder necessários para fazer dos males a ocasião de bens, e bens ainda maiores.

Eis como S. Agostinho exprime essa verdade:

 

«O Deus Todo-Poderoso.... sendo sumamente bom, de modo nenhum permitiria aparecesse algum mal em suas obras, se Ele não tivesse o poder e a bondade para fazer sair do próprio mal o bem» (Enchiridion XI).

 

2.3. Pergunta-se, porém: qual será o tipo de bem que o Criador pode querer produzir a partir dos males que as suas criaturas acarretam sobre o mundo?

 

a) Em primeiro lugar, observa-se que não serão bens materiais (saúde, dinheiro, emprego, isenção de tribulações, etc.), porque tais valores são muito relativos; satisfazem apenas a uma parte do composto humano, ou seja, ao corpo; na verdade, o ser humano só atinge a sua grandeza característica mediante o desenvolvimento da sua personalidade, a qual é marcada principalmente pelos valores da alma. Acontece mesmo não raro que os bens temporais causem detrimento, pois embotam a consciência, fazendo-lhe esquecer que há bens maiores: os bens da vida eterna. Em lugar de favorecer a formação da personalidade humana, que é essencialmente aberta para o infinito, tendem a fechá-la na mesquinhez e no egoísmo. É, antes, pela privação desses bens temporais que o homem se torna mais perfeito homem, emancipando-se de afeto desregrado a si e a criaturas que não o podem verdadeiramente engrandecer.

 

b) Por conseguinte,.os bens que a Providência Divina há de visar (se não exclusivamente, ao menos primariamente), são os bens da alma e da vida eterna, pois é somente mediante estes que a criatura humana se torna perfeita como criatura humana. A distribuição dos bens da alma vem a ser assim o critério primário, embora não exclusivo, para se aquilatar se a Providência Divina «erra ou não erra», «é justa ou injusta».

 

Não há dúvida, enquanto a Sabedoria de Deus vai oferecendo ao homem os meios de santificação ou de consecução da felicidade eterna, ela não lhe nega, em doses oportunas, os bens temporais (saúde, solução de crise financeira, boa fama...); o cristão, porém, deve ter consciência de que esses valores temporais são consolações passageiras (devidas ao fato de sermos corpo e alma, e não unicamente alma), consolações destinadas apenas a alentar o homem mortal na demanda do que é Eterno.

 

Jesus Cristo propôs a seus discípulos não propriamente consolos e compensações temporais, mas simplesmente «abraçar a cruz e segui-Lo abnegadamente» (cf. Mt 16,24s); este é certamente um dos traços marcantes de qualquer programa de vida cristã; a fidelidade a Deus não garante necessàriamente felicidade terrestre. As graças temporais não hão de faltar ao cristão, mas ser-lhe-ão dadas em função de bens maiores; em consequência, um currículo de vida que, humanamente falando, seja pouco afagado pela sorte, pode, não obstante, estar perfeitamente englobado dentro da plano da Providência Divina.

 

Ninguém negará ser lícito ao cristão desejar bens temporais (a cura de uma doença, a obtenção de um emprego, a sobrevivência de esposo ou filho...), na medida em que dão alívio e estímulo para ulterior caminhada na terra; considerando-se sob esse aspecto, o discípulo de Cristo pode pedi-los ao Pai do céu; mas não deve fazer da obtenção dos mesmos a pedra de toque para julgar a Providência Divina; mal sabemos o que, na verdade, nos convém; tentamos acertar, conjeturando que a saúde ou o emprego seriam valiosos para melhor conseguirmos a vida eterna (o único bem que em hipótese alguma podemos perder), mas facilmente nos iludimos (nem mesmo uma vida longa sobre a terra pode ser tida como algo de certamente vantajoso para a salvação eterna; morte prematura não é necessariamente um mal; quem pode prever o uso que dos seus futuros anos de vida faria um jovem falecido na flor da idade?).. Por isto asseverava S. Agostinho «haver certos bens que Deus nos denega justamente por nos ser propício e que Ele só concederia se nos quisesse punir» (Deus quaedam negat propitius quae çoncedit iratus», In Io tr. 73).

 

Ainda em outros termos: o cristão lembrar-se-á de que não é o centro do mundo de modo que tudo deva acontecer de acordo com o que ele julga oportuno. O critério que há de nortear os seus juízos e desejos, seja sempre o seguinte: «Será que, mediante a consecução de tal ou tal bem temporal, me tornarei homem mais perfeito, menos mesquinho ou apegado a mim, mais aberto para Deus e o próximo?». É certamente este o critério que a Providência Divina aplica ao distribuir os seus bens, denegando por vezes o que nos parece vantajoso e permitindo o que nos causa repulsa momentânea.

 

2.4. A situação do cristão que nesta vida temporal julga tudo à luz da eternidade, empregando «estranhos» critérios para avaliar felicidade e desgraça, pode muito bem ser ilustrada por duas imagens que um escritor moderno, Antonin Eymieu, assim propõe:

 

«A vida neste mundo é apenas um começo, não é o todo. É um meio, e não o fim. O plano da Providência não consiste um colocar o céu sobre a terra, mas em dar aos homens sobre a terra os meios de merecer o céu.

Tal é o ponto de vista de Deus. Para compreender algo da Providência, é preciso ver o mundo dentro desta perspectiva. Não entenderemos coisa alguma se considerarmos essa grande questão apenas em seus aspectos laterais, em seus pormenores, pormenores que impedem a visão do conjunto, como uma árvore diante dos olhos de alguém pode encobrir a floresta. Muito menos nos havemos de deter sobre o mau aspecto da questão, ou seja, sobre o ponto de vista terrestre; a realidade apareceria então como um tapete visto às avessas. Se consideramos o mundo presente independentemente do mundo futuro, ele se torna incompreensível».

 

Oportuno comentário poderia ser aqui inserido: quem considera a história deste mundo do ponto de vista meramente humano ou terrestre, é facilmente levado a julgá-la um absurdo, em que tudo parece frustrado e fracassado... Lembre-se, porém, de que este aspecto da realidade não é senão o avesso de um tapete cuja verdadeira face (a outra, a que vem depois e por cima) é belíssima, rica de colorido e harmonia; essa outra face da realidade é a que Deus, em seu sábio plano, contempla e a que nós um dia veremos, quando contemplarmos as coisas diretamente sob a luz de Deus e da eternidade. Se a realidade nos parece hedionda, isto se dá porque a contemplamos de um ponto de vista inadequado, ou, simplesmente, do lado avesso.

 

«A criancinha no seio materno, se tivesse o uso da razão, se já fosse uma espécie de sábio que conhecesse perfeitamente o seu mundozinho próprio, mas nada mais soubesse, se portanto ignorasse que um dia haveria de nascer, essa infeliz criancinha não compreenderia a sua situação: perguntaria por que acaso lá teria sido colocada, qual a razão de ser dos choques misteriosos que a afetariam, qual o sentido dos seus pulmões destituídos de ar, qual o valor dos seus olhos destituídos de luz, qual o significado dos seus membros encolhidos e destituídos de uso. Julgaria a sua existência absurda, e com razão. Tal existência só se justifica à luz do termo para o qual ela tenda. A vida fora do seio materno, eis a única explicação dessa primeira etapa. A vida do céu, eis a única explicação da existência humana neste mundo. É para o céu que a Providência Divina nos vai levando, na medida em que a nossa liberdade a isto não se opõe. Ela não nos leva para a riqueza, o gozo ou os prazeres fúteis da terra; estas coisas, que a nós talvez apaixonem, não a interessam ou só a interessam na proporção em que ela (a Providência) as pode considerar como meios para determinado fim. É para o céu que a Providência tende, de tal sorte que os choques que nos sucedem com dor, para ela não são senão meios mais eficazes de nos levar ao termo e de assegurar nossa entrada no mundo eterno» (La Providence et la guerre. Paris 1917, 31s).

 

A imagem da criancinha no seio materno é realmente feliz, para ilustrar a condição do cristão nesta vida: o discípulo de Cristo vai, sim, passando por um processo de gestação de tal modo que só ao chegar à glória celeste poderá reconhecer o significado e o valor de cada um dos elementos e episódios que ora lhe parecem obscuros (aliás, a imagem já foi utilizada por São Paulo em Gál 4,16; 1 Cor 13,lis). — A eternidade, e não o tempo, eis o ponto de referência do modo de pensar e desejar do cristão.

 

As idéias até aqui expostas projetam luz sobre novo aspecto da questão, a saber:

 

3. Providência e «providencialismo»

 

3.1. Por «providencialismo» entende-se a mentalidade de quem julga que Deus, por ser providente, há de derrogar mesmo às leis da natureza de maneira milagrosa,... geralmente a fim de promover o bem-estar temporal e imediato dos fiéis!

 

Vendo que na verdade o Senhor não procede assim, os «antiprovidencialistas» negam simplesmente a Providência Divina, asseverando que os acontecimentos se desencadeiam cegamente segundo as inexoráveis leis da natureza.

Como se compreende, ambas as posições são errôneas.

 

Com efeito. Já vimos que a Providência Divina não se pode identificar com um sistema de meios que garantam a felicidade temporal do homem. Portanto, não se pode esperar, sob a alegação de que «Deus é grande», que seremos necessariamente isentos de alguma aflição; isto só se entenderia se a aflição fosse um mal; ora tal não se dá: a cruz é frequentemente o melhor instrumento de quebra do egoísmo e de adesão mais plena do homem ao Supremo Bem, Deus.

 

Disto se segue que não podemos contar com milagres como se fossem efeitos normais da Providência. Esta costuma, antes, exercer-se mediante o concurso das causas criadas, aproveitando a atividade natural, até mesmo as deficiências e falhas, de cada uma, em vez de as remover ou de as impedir portentosamente. Vê-se, pois, que, mesmo sob o regime da Providência, o homem, longe de se poder isentar de colaborar ativamente, tem o dever de utilizar industriosamente os recursos que lhe estejam ao alcance a fim de obter a solução que pareça mais adequada para os seus problemas; é justamente no setor dos recursos naturais que a Providência Divina exerce primariamente a sua ação.

 

Fica, pois, de pé o adágio assaz divulgado entre os fiéis: «É preciso orar como se tudo dependesse de Deus, e agir como se tudo dependesse de nós». Na verdade, a Providência Divina digna-se envolver, na execução dos seus sábios planos, tanto a nossa prece quanto a nossa atividade. Uma e outra são, por livre desígnio divino, necessárias; mas nem uma nem outra é por si eficaz, a sua eficácia lhes provém unicamente do fato de que a Providência as quer utilizar. Cf. «P. R. 17/1959, qu. 2.

 

3.2. A fim de melhor ilustrar as proposições acima, transcrevemos aqui um ou outro dos exemplos da história universal aduzidos pelo nosso consulente «conturbado» como motivo de perturbação:

 

«Veja o Chile, nação católica: é sacudido por terremotos. A Rússia, não.

Veja Lisboa ! Em pleno dia de Todos os Santos de 1755 foi devastada por um dos maiores cataclismos de que se tem notícia, apesar da presença real de Cristo sobre os altares...

Veja a história, veja S. Luís de Montfort: poderia ter salvo a França pela renovação religiosa; morreu, porém, aos 40 anos, ao passo que o satírico Voltaire se foi aos 90 anos! Por que? Porque um cuidava da saúde, e o outro não...

 

Mas temos exemplos de casa:

Eduardo Prado, que tanto fez pelo Catolicismo no Brasil numa fase tão difícil no inicio da República, morre estupidamente de febre amarela só por ter passado menos de 48 horas no Rio. Ao contrário, Saldanha Marinho, arquimaçônico, inimigo figadal da Igreja, residiu anos a fio nesta cidade e nunca foi picado pelos mosquitos.

 

Veja a falta que nos faz um padre como o Pe. Leonel Franca, e a nenhuma falta que nos faria o comunista N. N. hoje ainda vivo... Mas por que? Porque o saudoso jesuíta teve sempre o coração fraco e o camarada N. N. não sofre de perturbações cardiovasculares...

 

A Providência não modifica as leis de aço do universo. Um louco ou uma criança que se pendurar numa janela além do limite exigido pela lei do equilíbrio, cairá no campo gravitacional, esborrachado. Entretanto, um ladrão poderá pular de uma janela para outra, se não violar a lei da gravidade, que rege todos os corpos... santificados ou não pela prática dos sacramentos...».

 

Os fatos assim catalogados não depõem contra a veracidade da doutrina que expusemos, nem se devem tornar motivo de perturbação. Para que o leitor o reconheça, bastará lembrar que

a) uma perda temporal, uma calamidade particular ou pública, nos aparecem como desastres que desconcertam. — Não é assim, porém, que Deus os julga; em verdade, os flagelos na ordem temporal não implicam em prejuízo na linha dos valores eternos (únicos valores que em caso algum poderiam ser negligenciados pela Providência). Ao contrário do que comumente se pensa, a experiência ensina que, em vista do egoísmo congênito do homem, a dor é a escola de engrandecimento da criatura; a Providência, por isto, não a dispensa (dado que Ela queira proceder ordenadamente: ou sem milagres).

b) Deus não recompensa a virtude com a longevidade, nem pune o pecado com a morte prematura ou trágica; a justa sanção se exerce primariamente no plano espiritual, que é plano onde se situam os verdadeiros valores. Note-se também que Deus não precisa necessariamente de tal ou tal instrumento humano (sacerdote ou homem público de grande valor) para realizar seus desígnios; Ele pode permitir a morte aparentemente precoce de benemérito personagem sem que com isto o plano da Providência sofra o mínimo detrimento; o Senhor é assaz poderoso para suprir, como de fato supre, por outra via; a responsabilidade do reino de Deus. em última análise, é d'Ele!

 

Quanto à existência, às vezes prolongada, dos homens maus neste mundo, S. Agostinho propõe as seguintes observações:

 

«Deus se serve dos homens maus, não atendendo à má intenção dos mesmos, mas à reta intenção do próprio Deus. Na verdade, assim como os maus fazem mau uso da natureza humana, ou seja,. da obra boa de Deus, assim o Deus bom faz uso bom até mesmo das obras más dos homens iníquos, a fim de que de modo nenhum fiquem frustrados os desígnios do Todo-Poderoso. Se Ele, bom como é, não tivesse o poder de fazer servir os maus à causa da justiça e da bondade, de modo nenhum permitiria que nascessem ou vivessem. Tais homens, Deus não os fez maus; Ele simplesmente lhes deu a natureza humana. Criou a natureza de cada ser, mas não criou os pecados, que são algo de contrário à natureza. É verdade que em sua presciência Ele não podia ignorar que tais indivíduos haviam de se tornar maus, contudo, assim como sabia quais os males que eles haviam de cometer, sabia também quais os bens que desses males Ele havia de tirar» (serm. 214,3).

 

As idéias do S. Doutor não são senão a explicação dos princípios gerais até aqui propostos.

 

c) As leis da natureza são geralmente respeitadas e aproveitadas pela Providência Divina. Isto, porém, não quer dizer que sejam inflexíveis; Deus as dobra ao seu poder, produzindo milagres segundo seus sábios desígnios. Os portentos, porém, supõem uma finalidade grande e importante a ser atingida; o Senhor não faz milagres a esmo, por mera ostentação de poder. Cf. «P. R.» 11/1959, qu. 2.

 

Eis quanto se podia sumariamente dizer à guisa de elucidação das questões formuladas no cabeçalho deste artigo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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