REVISTA PeR (1841)'
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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 040 - abril 1961

 

HÁ PECADOS IRREMISÍVEIS?

DOGMÁTICA

TIBI (Rio de Janeiro): «Que dizer dos textos da epístola aos Hebreus (6,4-6; 10,26-31; 12,16s) que parecem denegar todo perdão a certos pecadores? Não haverá realmente culpas tão graves que Deus não as queira mais perdoar?»

 

Antes do mais, eis os trechos de que se trata no cabeça- lho acima:

HEBR 6:4 «Aqueles que foram uma vez iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, 5 saborearam também a bela palavra de Deus e as maravilhas do mundo vindouro, 6 e, não obstante, caíram, é impossível renová-los outra vez para a penitência, pois crucificam por sua conta o Filho de Deus e O expõem publicamente à ignomínia».

 

HEBR 10:26 «Se, depois de ter recebido e conhecido a verdade, a abandonarmos voluntariamente, já não nos restará sacrifício para expiar este pecado; 27 só teremos que esperar um juízo tremendo e o fogo ardente que deve devorar os rebeldes. 28 Se alguém transgride a lei de Moisés — e isto é provado com duas ou três testemunhas —, deve ser morto sem misericórdia (cf. Num 35, 30). 29 Quanto pior castigo então não julgais deverá merecer quem calcar aos pés o Filho de Deus, e tiver profanado o sangue da aliança em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, autor da graça ?! 30 Pois conhecemos aquele que disse: 'Minha é a vingança; eu a exercerei' (Dt 32,35), e outra vez: 'O Senhor julgará o seu povo' (SI 134, 14). É horrendo cair nas mãos de Deus vivo».

 

HEBR 12:16 «Não haja entre vós algum sensual ou profanador como Esaú, que, por um prato de lentilhas, vendeu o seu direito de primogenitura. 17 Sabeis que, desejando ele em seguida receber a bênção de herdeiro, foi rejeitado e não pôde obter mudança de sentimentos, se bem que a tivesse procurado com lágrimas».

 

Os três textos acima, por sua aparente dureza, muito chamaram a atenção de leitores e comentadores cristãos, principalmente na antiguidade. No séc. III montanistas e novacianos abusavam de tais dizeres para negar pudessem ser perdoados alguns pecados graves, mormente os de apostasia, adultério e homicídio. A fim de evitar esta tese, certos cristãos tinham a epístola aos Hebreus na conta de não canônica ou não inspirada por Deus; em certas regiões, nem era lida em público. Dentre mesmo aqueles que admitiam a autoridade canônica de Hebr, houve exegetas que deram aos textos acima citados interpretações artificiais, pouco condizentes com as regras da sadia hermenêutica.

 

Nenhuma dessas atitudes pode ser sustentada... Visto que a epístola aos Hebreus pertence realmente ao patrimônio da Sagrada Escritura, ela tem o valor de autêntica Palavra de Deus e há de ser portadora de ensinamentos profundos e construtivos. Estes, porém, só se apreenderão devidamente caso se analise o texto sagrado à luz tanto da linguística antiga como dos demais escritos do Novo Testamento. É o que nos esforçaremos por fazer nas páginas seguintes, considerando sucessivamente cada uma das três passagens citadas.

 

HEBR 6, 4-6

1.               Tenha-se em vista a categoria de leitores aos quais se dirige o hagiógrafo: eram judeus convertidos à fé cristã que atravessavam uma crise religiosa. No início de Hebr c. 6 (vv. 1-3), o Apóstolo diz que não voltará a ensinar os rudimentos da catequese, pois a iniciação na fé e na vida cristã deve ser algo de definitivo, algo que cada fiel percorre uma vez por todas e não repete. E, para provar que não se repete a iniciação, o autor nos vv. 4-6 considera o caso daqueles que apostataram da fé e, por conseguinte, parecem precisar de nova catequese: estes, diz ele, de modo nenhum se beneficiariam de mais uma catequese, pois a sua situação é irremediável !...

2.               É justamente aqui que surge o problema: porque irremediável? Será por que o Senhor não perdoa, não dá aos apóstatas a graça de voltarem à fé e ao amor de Deus? Ou será talvez porque os próprios apóstatas estão de todo insensíveis à graça do Senhor? Ademais, será a situação irremediável de maneira absoluta ou admitirá exceções?

 

Eis como se delineia a resposta do hagiógrafo:

 

a) nos vv. 4-5 ele focaliza cristãos que receberam grandes graças e fizeram uma experiência consciente e profunda do que é o Cristianismo.

 

Quatro são os favores divinos que o autor sagrado se compraz em enunciar, de antemão visando chamar a atenção dos leitores para a gravidade da apostasia:

 

«Iluminados». O verbo «iluminar», photizein, no Novo Testamento refere-se geralmente à luz da verdade e da salvação que Jesus veio trazer ao mundo mergulhado nas trevas do erro (cf. Ef 1,18; 2,9; 2 Tim 5,10; Jo 1,9). Dessa luz os homens participam mediante a fé. A fé, por sua vez, está intimamente associada ao sacramento do batismo, que, por isto, na antiga Igreja era chamado phottsmós ou «iluminação». Em Hebr 6,4, o hagiógrafo parece ter em vista simultaneamente as graças da fé e do batismo.

 

«Provaram o dom celestial». À metáfora da luz sucede-se a do alimento. Alguns comentadores julgam tratar-se aqui da S. Eucaristia. Outros, mais acertadamente, entendem o conjunto dos benefícios messiânicos, ou seja, a vida de filhos de Deus que Cristo trouxe aos homens e da qual um dos mais ricos elementos é, sem dúvida, a S. Eucaristia.

 

«Tornaram-se participantes do Espírito Santo». É assim designada não somente a graça dos sacramentos, mas também a multiplicidade de carismas ou dons extraordinários (profecias, línguas, curas...) com que frequentemente eram agraciados os cristãos antigos (cf. 1 Cor 12-14).

 

«Saborearam a bela palavra de Deus e as maravilhas do mundo vindouro». A «bela palavra» é a Boa Nova do Evangelho, que desperta nos fiéis o sabor da vida eterna (cf. Zac 1,13: a Palavra de Deus é Palavra boa e consoladora). «As maravilhas (literalmente: as potências) do mundo vindouro» não equivalem propriamente à vida póstuma celeste, mas, por já serem saboreadas na terra, são as energias sobrenaturais que inauguram o Reino de Deus em cada alma justa, Reino que vai desabrochando lentamente dentro do cristão e estará consumado na vida futura.

 

b)                Após descrever tão eloquentemente a riqueza sobrenatural que Deus outorga a seus amigos, no início do v. 6 o autor sagrado admite uma hipótese muito misteriosa, mas bem comprovada pela realidade: imaginemos que um desses amigos do Senhor, apesar das suaves experiências anteriores, venha a cair para o lado ou para fora... (o texto grego não diz apenas piptein, cair, mas parapiptein, cair para o lado ou para fora), isto é, venha a sair da trilha da fé e da vida cristã, abandonando tudo de maneira consciente e voluntária..., voltando-se diretamente, face a face, contra Deus Pai, contra Cristo e contra o Espírito Santo. Trata-se, sem dúvida, de uma falta muito grave, comparável ao pecado contra o Espírito Santo, que é o pecado de endurecimento, de obstinação deliberada no erro, com desprezo formal das graças e dos apelos de Deus para a conversão (cf. Mt 12,31s e «P. R.» 12/1958t qu. 2).

 

c)                Pois bem; a esses tais (prossegue o autor sagrado no v. 6) é impossível renová-los de novo para a penitência... Esta expressão (redundante, sem dúvida) significa a volta à fé e ao amor de Deus. A conversão para tais apóstatas vem a ser impossível, a menos que Deus queira intervir de maneira extraordinária (coisa que não se pode supor nem prever de antemão); humanamente falando, a reconciliação de tais pecadores não é viável, porque se fecham numa atitude radicalmente contraditória ao chamado e à graça de Deus. Note-se bem que o que o escritor sagrado declara impossível não é o perdão da parte de Deus, mas o arrependimento da parte do pecador; caso este quisesse voltar ao Senhor, seria, por certo, recebido e agraciado, como o filho pródigo (cf. Lc 15,20-24); nas relações de Deus com o homem, portanto, Deus jamais se nega ou se fecha; é, antes, o homem quem se subtrai, com detrimento para si mesmo.

 

d) Corroborando a sua afirmação, o escritor sagrado, na terceira parte do v. 6, salienta dois aspectos da revolta ou da ingratidão do pecador: aos quatro grandes dons de Deus, este responde «crucificando por sua iniciativa o Filho de Deus e expondo-o à burla pública».

Que querem dizer tais expressões ?

 

«Crucificam o Filho de Deus»... O apóstata imita os judeus infiéis: rejeita Cristo, declara-O impostor, falso Messias, condena-O à cruz e como que aí O prega com suas próprias mãos; o escritor sagrado realça bem essa iniciativa pessoal do pecador ou esses seus sentimentos contrários a Cristo: «... por sua conta, na medida em que está em seu poder», diz ele. — Assim (mencione-se de passagem) vê-se que a Paixão do Senhor não constitui mero acontecimento passado, mas é um drama que se vai desdobrando no decorrer dos séculos, pois todo homem, em última análise, ou se coloca do lado de Cristo e é crucificado com Ele (cf. Gál 2,19; 4,19) ou toma posição do lado oposto, com os carrascos, reproduzindo então a atitude de quem crucifica o Cristo.

 

«Expõem o Filho de Deus à burla pública»... Renegar abertamente a Cristo, abandonar a fé são atitudes que o hagiógrafo compara com a dos soldados que escarneceram o Senhor (cf. Mt 26,67 ; 27,38-43); o apóstata é alguém que despreza a Deus.

 

Os comentadores observam significativa particularidade do texto grego: os verbos «crucificar» e «expor à burla» estão no particípio presente, ao passo que «cair para o lado» se acha no particípio «aoristo» (com significado de pretérito). A mudança de tempos indica bem que a queda ou o ato de apostasia é algo de transitório (aoristo), transitório, porém, que dá origem a um estado de crime ou de revolta permanente (sempre presente) no coração do pecador.

 

Deve-se notar outrossim a construção da sentença grega que constitui os versículos 6, 4-6 de Hebr: é dominada por duas expressões: adynaton, «impossível», logo no limiar da frase, e purapésontas, «tendo Caído», no meio da mesma. «Do ponto de vista literário, todos os comentadores, desde S. João Crisóstomo (+407), chamam a atenção para o caráter particularmente enérgico de adynaton colocado no início da frase» (Spicq, L/Epitre aux Héhreux II. Paris 1953, 149). Quanto ao particípio «tendo caído», ele se segue à enumeração de quatro dons de Deus; é uma expressão breve que interrompe bruscamente o ritmo da frase solene e harmoniosa; dá assim a impressão de um choque brutal, de uma queda, que significa, no caso, a apostasia ou o abandono total da fé. Toda a passagem é destarte enfática: ela afirma a impossibilidade — existente da parte do homem, não da parte de Deus — de que um pecador deliberadamente obstinado no vício se converta ao Senhor. Seja lícito, porém, repetir: mesmo neste último caso, de acordo com a mensagem geral do Novo Testamento, resta a possibilidade de que Deus tome diretamente a iniciativa de modificar o estado de espírito do apóstata, dando-lhe luz e força especiais para que se salve. A Deus é possível mesmo aquilo que, do ponto de vista humano, é impossível, lembra Jesus no Evangelho (cf. Mt 19,26; Mc 10,27; Lc 1827).

 

HEBR 10, 26-31

 

Esta passagem enuncia as mesmas verdades que as do c. 6,4-6. Acrescenta apenas uma comparação com o regime de salvação do Antigo Testamento, a fim de corroborar a admoestação aos leitores. Aqui procuraremos sublinhar um ou outro tópico da secção 10,26-31 que comprove quanto acabamos de dizer.

 

No v. 26 o hagiógrafo acentua fortemente o caráter voluntário e plenamente deliberado das faltas que ele focaliza; logo no início do v. 26 está o advérbio «voluntariamente» (ekousioos). Trata-se de faltas contra a luz ou contra a evidência da verdade, contra a Palavra de Vida que cada cristão abraça quando é «iluminado» ou chamado à vida cristã. O hagiógrafo supõe que tais faltas cometidas com toda a advertência sejam pertinazmente reafirmadas pelo pecador; este se fecha então numa atitude de resistência habitual à graça de modo nenhum quer mudar de disposições e render-se à luz (é o que sugere o particípio presente amartanontoon, em vez do aoristo amartontoon).

 

As consequências práticas desse estado são logo enunciadas pelo autor sagrado: o sacrifício de Cristo, que por si é apto a expiar toda e qualquer culpa, não pode ser aplicado a tal pecador, justamente pelo fato de que este não o quer; não é a gravidade das faltas materialmente consideradas (assassínio, furto, adultério...) que fecha a via à reconciliação, mas é unicamente a atitude negativa em que se obstina a alma; Deus não lhe força a liberdade de arbítrio; não obriga criatura alguma a se converter.

 

Endurecendo-se no mal, acrescenta o hagiógrafo no v. 27, o pecador vai experimentando já aqui na terra o terrível tormento de ter abandonado a Deus, tormento que chegará ao auge na vida póstuma ou no inferno, onde não haverá os paliativos ilusórios que as criaturas oferecem neste mundo.

 

O texto sagrado menciona «fogo ardente que deve devorar os rebeldes». Não se entenda tal fogo estritamente à semelhança do que se vê sobre a terra; já em «P.R.» 3/1957, qu. 5 dissemos que a pena primária do inferno é a «pena de condenação», ou seja, a tremenda dilaceração que as almas dos réprobos experimentam por se perceberem inelutavelmente feitas para Deus, mas, não obstante, incompatibilizadas com esse Supremo Bem por livre alvitre da sua vontade. À pena de condenação sobrevém a chamada «pena dos sentidos», ou seja, a ação de um agente corpóreo, dito «fogo», sobre os réprobos, os quais, pecando, abusaram das criaturas corpóreas. Ulteriores explicações se encontram no citado artigo de «P. R.».

 

Os vv 28-31 se referem a textos do Antigo Testamento que inculcam, em termos aparentemente indignos de Deus («vingança, sem misericórdia, coisa horrenda»...), a intervenção do Senhor na punição do pecado. O teor veemente desses dizeres não deve surpreender o leitor: a Bíblia e, no nosso caso, o autor da epístola aos Hebreus, utilizam a linguagem rude dos judeus antigos para dizer verdades grandiosas e perenes. Deus é perfeitíssimo; por isto é justo e, como tal, reprime a injustiça ou o pecado; nunca, porém, deixa de ser Pai bondoso, mesmo quando inflige a devida sanção ao pecado; diante dos juízos do Altíssimo compete à mente humana, limitada como é, uma atitude de entrega confiante, e não de arrogância crítica e de suspeita. Estejamos certos de que, se a criatura tem o senso da justiça, o Criador o tem infinitamente mais apurado.

 

Consequentemente, dir-se-á que, mesmo nos casos de endurecimento do pecador no mal, a Onipotência Divina possui recursos para o abalar. Já, porém, que tais recursos são extraordinários, ficando fora das vias normais da Providência, a ninguém é licito contar certeiramente com tais meios, pois isto equivaleria ao que se chama «tentar a Deus».

 

HEBR 12, 16s

 

No v. 16 o autor sagrado, desejando dissuadir os leitores de toda mancha de pecado, cita o caso de Esaú, o qual vendeu por um prato de lentilhas seus direitos de primogênito ou de herdeiro das bênçãos messiânicas; destarte tornou-se desprezador dos preciosos dons que Deus lhe outorgara.

 

A consequência deste gesto vem exposta no v. 17, texto cujo significado é controvertido pelos exegetas.

Uma corrente numerosa de autores antigos, medievais e modernos julga que o escritor sagrado aludia à penitência de Esaú; este não terá podido conceber verdadeira penitência apesar das suas lágrimas, pois os seus sentimentos não terão sido puros.

 

Outra sentença, porém, afirma que o hagiógrafo tem em vista a retratação de Isaque. Esaú, arrependido de sua venda interesseira, terá pedido a seu pai, Isaque, retratasse a maldição que merecera, e lhe desse a bênção. Não obteve, porém, retratação, ficando consequentemente excluído da plenitude das bênçãos messiânicas. Este modo de entender o texto é preferível ao anterior, pois respeita melhor a oposição, certamente intencionada pelo hagiógrafo, entre «desejar» e «não conseguir»; parece necessário deixar a estes dois verbos o mesmo objetivo : Esaú desejou, mas não obteve, a retratação da maldição que seu pai lhe infligira.

 

Contudo, qualquer que seja a interpretação dada ao texto bíblico, seu ensinamento para os cristãos fica sendo sempre o mesmo, a saber: caso os discípulos de Cristo renunciem, como Esaú, aos seus títulos de herdeiros do Pai Celeste e do reino messiânico, arriscam-se a cair numa situação irreparável. Irreparável, sim, no sentido que expusemos ao analisar Hebr 6,4-6 e 10, 26-31: a situação será, humanamente falando, insolúvel; não será, porém, desesperada aos olhos da Onipotência Divina.

 

Eis o que se pode apurar sobre a pretensa irremissibilidade de pecados na epístola aos Hebreus. Como se vê, só há um obstáculo real ao perdão das culpas humanas: é a recusa que o pecador possa opor à Misericórdia de Deus; desde, porém, que a criatura a deseje com sinceridade, passa a usufruir da Liberalidade das graças do Salvador. É, aliás, neste mesmo sentido que se devem compreender as passagens sobre o pecado contra o Espírito Santo e sobre o pecado para a morte (cf. 1 Jo 5,16s).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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