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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 038 - fevereiro 1961

 

RENOVAÇÃO da PREGAÇÃO

DOGMÁTICA
C. M. (Rio Grande do Sul): «Muitas vezes a pregação da Palavra de Deus não surte os efeitos desejáveis; ao contrário, é dolorosamente rejeitada. Que se poderia então fazer para renová-la e torná-la mais eficaz?»

 

O ministério da pregação tem sido nos últimos anos frequentemente estudado à luz dos interesses e da mentalidade do mundo moderno. Numerosos inquéritos realizados entre sacerdotes e fiéis têm sugerido a conclusão de que um dos fatores mais influentes na descristianização da sociedade contemporânea são certas insuficiências ocorrentes na proclamação da mensagem do Evangelho.

 

Sendo assim, procuraremos abaixo focalizar o conceito de pregação assim como as principais normas que vêm sendo formuladas a fim de se dar nova eficácia ao sermão sagrado.

 

1. O conceito de pregação

 

Os autores católicos observam com razão que o problema da pregação está longe de ser um problema de técnica oratória, problema que poderia ser solucionado mediante recurso à arte da retórica, à psicologia, aos processos de motivação, etc. — O problema da pregação é, antes do mais, estritamente teológico ou dogmático. Trata-se, acima de tudo, no caso, de reconhecer o lugar que compete à Palavra de Deus no plano divino referente ao mundo e à salvação dos homens.

 

Ora, à luz da teologia, dever-se-á dizer que a pregação é um sacramental, ou seja, um dos vários ministérios realizados na Igreja em íntima relação com os sacramentos, a fim de comunicar a graça santificante e a vida eterna; a pregação é, portanto, parte do exercício de um mistério, do mistério da santificação das almas que se iniciou no sacrifício do Calvário, se prolonga em sete grandes canais nos sacramentos da Igreja e se ramifica em muitos filetes nos sacramentais.

Veja-se a noção precisa de «sacramental» em «P. R.» 11/1958, qu. 3.

 

Isto quer dizer outrossim que a pregação não se dirige apenas ao intelecto dos ouvintes, mas visa o homem todo, a fim de nele corroborar a graça da filiação divina. A eficácia da pregação, por conseguinte, dependerá não da perspicácia das inteligências de quem fala e quem ouve, mas do grau de fé é amor a Deus que cada uma das pessoas envolvidas neste mistério (pregador e fiéis) apresenta à ação do Espírito Santo.

 

«A verdadeira pregação não é uma atividade ordinária que exige do agente seja simplesmente um artífice honesto, mas a verdadeira pregação é a expressão de um mistério no qual cada um dos interessados toma parte» (R. Girault, La prédication est mystère, em «La Maison-Dieu» 39 [1954] 9).

 

Não se poderia, aliás, conceber de outro modo a pregação da Palavra de Deus, pois os dizeres do Todo-Poderoso ao homem hão de ser poderosos e eficazes; por eles, o próprio Deus se deve tornar, de novo modo, presente e ativo entre os seus fiéis:

 

«Como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado e ter feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão» (Is 55,10s).

 

A tradição cristã sempre inculcou o paralelismo existente entre o sacramento do Corpo de Cristo que é a Eucaristia, e o sacramental da Palavra de Deus que é a Escritura Sagrada e a pregação desta; aquele não costuma ser celebrado sem este; em ambos os casos, Cristo se propõe (embora de modo diverso) como alimento sobrenatural do cristão. Uma das últimas testemunhas desta concepção é o santo Cura de Ars, ao dizer:

 

«O Corpo de Jesus Cristo não se acha mais verdadeiramente presente no sacramento adorável do que a verdade de Jesus Cristo está na pregação evangélica».

 

O valor de sacramental que compete à Palavra de Deus, sugere, entre outras conclusões práticas, a seguinte: muitas vezes a pregação aparentemente vã ou inútil pode estar sendo altamente fecunda; em todo e qualquer caso, ela lança uma semente cheia de dinamismo, a qual dá seus frutos nas almas na medida em que estas sejam sinceras, mesmo que, à primeira vista, se mostrem infensas à mensagem. Por conseguinte o arauto cristão não deixará de pregar sempre que houver oportunidade para isto.

 

Uma das expressões mais eloquentes de quanto a Palavra de Deus abala e transforma os homens, é a história do povo de Israel. Pode-se dizer que a religião do Antigo Testamento ou a religião judaica é a religião do «ouvir», a religião da Palavra: «Ouve, Israel...»; eis o estribilho constante dos livros do Antigo Testamento; «ver a Deus» era tido, entre os judeus, como algo de impossível. Ora foi a Palavra de Deus que moveu Abraão de sua terra, a Caldéia, encaminhando-o para região desconhecida e dando origem ao povo de Abraão; foi ainda a Palavra de Deus que desencadeou a marcha de Israel cativo no Egito, sustentando o ânimo do povo durante quarenta anos de peregrinação e lutas no deserto. Foi ainda a Palavra de Deus que suscitou um fenômeno intrigante aos olhos do historiador profano, isto é, o monoteísmo de Israel; este povo, que geralmente dependia de seus vizinhos na economia, na política, na guerra..., sempre resistiu às tentativas de paganização da sua religião; nem o ambiente politeísta e idólatra em que viveram Abraão e seus descendentes, nem a índole própria dos filhos de Abraão (sempre prontos a cair na idolatria) dão contas desse monoteísmo de Israel (ao contrário, tornam esse monoteísmo um misteriozinho da história); é somente a eficácia da Palavra de Deus dirigida a Abraão e à sua linhagem que elucida o enigma. Até o dia de hoje, aliás, o povo de Israel e sua tenacidade constituem um fenômeno que, em última análise, só se explica porque a Palavra de Deus assinalou o povo judaico para dar testemunho a Jesus Cristo, fosse antes da vinda deste (mediante os Profetas), seja após a vinda deste (mediante a odisseia misteriosa dos judeus no mundo).

 

Estas noções já nos habilitam a perceber

 

2. As principais normas que devem reger a pregação

Levem-se em conta três grandes princípios:

 

2.1) Em íntimo contato com a Liturgia e a Bíblia Sagrada...

 

Se a pregação é parte integrante do mistério (ou da obra de Deus) em prol da santificação dos fiéis, é claro que ela se deve desenvolver em íntimo contato com as outras grandes fontes de santificação: a Liturgia e a Escritura Sagrada. Ou mais simplesmente ainda: ... em íntimo contato com a Escritura Sagrada tal como esta vem paulatinamente apresentada pela Liturgia (a Liturgia não é senão a mensagem da Bíblia vivida, de maneira muito densa e rica, no mistério, no sacramento).

 

Isto praticamente quer dizer que o sacerdote deve, por excelência, pregar aos domingos, durante a Santa Missa, após a leitura do Evangelho. Há regiões em que o episcopado prescreve para tais alocuções um programa de doutrina cristã. Em tais casos, compete aos sacerdotes obedecer; não deixarão, porém, de guardar na medida do possível o contato com o Evangelho da Missa.

 

Duas são as principais vantagens decorrentes do assentamento da pregação sobre a Bíblia e a Liturgia:

 

a) a pregação torna-se muito viva e concreta. Seu ponto de partida não serão propriamente axiomas, teses, corolários e teorias, mas fatos, episódios e parábolas (coisas que a maioria dos homens facilmente apreende). A linguagem bíblica é espontânea e impressionante, ao passo que a das escolas de teologia (linguagem «escolástica», como se diz) vem a ser bastante abstrata e menos sugestiva. O pregador deverá sempre levar em conta o fato de que todo conhecimento racional passa primeiramente pelos sentidos; é, sim, das coisas visíveis e conhecidas que passamos para o conceito das invisíveis e desconhecidas.

 

Há quem recorra à seguinte imagem para ilustrar a mencionada diferença de estilos: a água na sua fonte nativa é muito mais rica em minerais e propriedades radioativas do que após ter sido engarrafada; o engarrafamento, embora seja necessário ao bem comum, não deixa de depauperar o precioso líquido. Assim também é a doutrina cristã: haurida na sua fonte primária, que é a Sagrada Escritura apresentada pela Liturgia, é muito mais «radioativa» e penetrante do que quando fornecida através das teses de um manual de escola.

 

Exemplificando: um sermão sobre a penitência vasado em estilo em estilo de escola partiria da definição de penitência, enumeraria as partes desta, etc., propondo doutrina muito sólida, sem dúvida, mas arriscando-se a perder o contato com o auditório. O pregador prenderia muito mais a atenção de seus ouvintes, recorrendo às imagens concretas e muito piedosas de que os Profetas, os apóstolos e Cristo mesmo se serviram: rasgar o coração e não as vestes (Jl 2,13), abandonar o mau caminho e voltar a Deus (Ez 33,11), criar um coração novo (Ez 36,26), ser como o filho pródigo que volta ao Pai após uma vida perdulária (Lc 15,11-32). Naturalmente, o que possa haver de impreciso e antropomórfico nessas imagens há de ser elucidado pelo emprego das fórmulas buriladas das escolas teológicas.

 

Outro exemplo: a pregação sobre a Ssma. Trindade, no estilo escolástico, dissertaria sucessivamente sobre a essência divina uma, sobre as duas processões eternas, sobre as três relações subsistentes, etc. — o que é muito ortodoxo, mas pouco atraente para o auditório. O pregador distanciar-se-á menos dos fiéis, assegurando mais frutos para o seu trabalho, se se inspirar ou da fórmula batismal (Mt 28,19) ou das alusões que Jesus faz ao Pai e ao Espírito Santo no Evangelho, ou das fórmulas paulinas (Rom 11,36; Ef 2,18; 1 Cor 12,4-6).

 

Fazendo estas comparações, nada entendemos dizer contra a linguagem escolástica como tal; apenas intencionamos sublinhar o que o seu nome diz: é linguagem de escola com a qual não está familiarizada a maioria dos ouvintes de um sermão.

 

b) A pregação pautada nos textos da Bíblia e da Liturgia comunica o que se pode chamar «o sentido cristão dos tempos (passado, presente e futuro)».

 

Que quer isto dizer?

A Revelação bíblica se efetuou não somente por meio de oráculos, mas também mediante os acontecimentos da história de Israel.

 

Ora a autêntica pregação cristã deve precisamente manifestar esse dinamismo da história sagrada, a qual, apoiando-se na Jerusalém terrestre, tende à Jerusalém celeste, à Cidade de Deus consumada... A autêntica pregação deve incutir nos ouvintes a consciência de que a Igreja tem, entre outros aspectos, o de um povo em marcha no deserto e o de um edifício de pedras vivas, que mais e mais se vão adaptando umas às outras em vista da consumarão do conjunto. Dentro desta perspectiva, os mistérios do Advento, da Quaresma, de Páscoa e Pentecostes, ao recorrerem todos os anos, nada têm de monótono; apresentam, antes, caráter novo, porque vão tomando lugar dentro das circunstâncias próprias da vida de cada cristão.

 

As considerações propostas sobre as fontes da pregação podem ser oportunamente rematadas pela seguinte observação do Pe. Sertillanges:

 

«Somos os enviados de Cristo, arautos do seu Evangelho; o sermão sobre a montanha (Mt 5-7) constitui o resumo dos ensinamentos que temos de disseminar...

O fundo da nossa pregação... propriamente dita... é o Evangelho eterno, é a Boa Nova que o mundo recebeu, mas nunca entendeu em sua plenitude...

Um dia, estando eu em viagem com um de nossos jovens pregadores, muito prendado e muito estimado pelo público,... pediu-me a opinião sobre o tema que poderia escolher para uma longa série de palestras que ele estava planejando. Respondi-lhe: 'Tome o sermão sobre a montanha, procurando atualizá-lo bem. Procure reconstituir o que Nosso Senhor, vindo hoje ao mundo em Montmartre, Ménilmontant, Belleville, em vez de ir a Belém nos tempos de Tibério, diria às multidões que certamente se comprimiriam como outrora ao redor d'Ele. Ele falou para o seu tempo; ora Ele falaria para a nossa época. Sem esquecer os lírios dos campos, Ele saberia falar-nos dos motores de avião,, das usinas, das crises de produção e dos conflitos sociais, enfim de tudo que nos atormenta e lança uns contra os outros, embora nos tenha dito: 'Amai-vos uns aos outros'. Em suma, evocando as realidades modernas, Ele as ponderaria segundo o seu justo peso, as situaria dentro do humano e frente ao eterno. Experimente seguir este conselho e, se você for capaz, verá acorrer as multidões'. Meu jovem confrade ouviu-me com deferência, mas creio que não me compreendeu...

Pregai o Evangelho, meus caros amigos. Nada há de mais atual, nada de mais urgente. Tal é o pão de que necessitam as multidões famintas, envenenadas por receitas impuras.

... E não esqueçais que o Evangelho... é inseparável da personalidade (Jesus Cristo) que o promulga. Essa personalidade está em primeiro plano, ao contrário do que se dá com a nossa própria personalidade. Quando pregamos, cabe-nos o dever de lançar a Palavra à frente e de nos ocultar, por assim dizer, atrás dela. Nossa pessoa não tem importância; ela é o canal e não o fluxo... Jesus, porém, é o caminho, a verdade e a vida; Sua Pessoa passa à frente do que Ele diz, porque é Ela quem dá autoridade aos seus dizeres, quem os implanta pela sua graça nos corações e quem os traduz em realidade nas nossas existências.

O essencial, portanto, para o pregador, é colocar seus ouvintes em contato com Jesus Cristo, fazer que conheça a Este, que O amem, que sigam seus passos e que se mantenham em tudo sob a sua guia. O pregador que não se esforce por conseguir isto, prevarica. Ao menos, desvia-se» (do artigo «L’esprit de la parole apostolique», em «La Maison-Dieu» 16 [1948] 10s).

 

2.2) O Dogma acima da Moral e da Apologética

 

Na medida em que fica ao critério do pregador a escolha dos temas de seus sermões, observe as duas seguintes normas:

 

a) Apregoe primeiramente os aspectos dogmáticos ou doutrinários da mensagem cristã, fazendo que os preceitos e a moral decorram obviamente dos mesmos. Mostre que é a nobreza do cristão que o obriga a agir de tal e tal modo... Somente se for assim arquitetada, a Moral será convincente e fecunda.

 

À guisa de ilustração, vai aqui citado o depoimento de um fiel cristão sobre modalidades de anunciar a Moral:

 

«Jamais pude suportar os pregadores que incutem o terror, que narram histórias assustadoras de mortes repentinas — sem data nem local, evidentemente... —, que reforçam essas histórias com pormenores amedrontadores, que abrem o inferno com facilidade igual à de quem abre uma caixa de bombons, que creem que as conversões se produzem mediante o espanto» (Silens, «Problemi attuali: La predica», na obra «Che cosa attendete dal Prete?». Brescia 1952, 170s).

 

À margem deste texto anotamos que pode servir salutarmente à orientação dos sacerdotes; aos leigos lembramos que se deverão abster de critica destrutiva, pois é na medida da sua fé que são santificados pela pregação, mesmo que esta apresente teor predominantemente «moralizante».

 

Em P. R. 20/1959, qu. 3 encontra-se uma lista de temas dogmáticos que constituem pontos cardeais para se promover uma sólida formação cristã. Realçaremos aqui a importância da pregação sobre

- o Corpo Místico de Cristo. Esta imagem deve dilatar os horizontes dos fiéis, despertando neles o senso da comunidade, da Igreja, assim como a piedade sacramentária daí decorrente;

- o conceito de graça santificante como participação da vida trinitária. Habituem-se os fiéis a desfrutar, na sua oração, o mistério da Ssma. Trindade; saibam que o Batismo os relaciona de maneira própria com cada uma das Pessoas Divinas que neles habitam; o cristão caminha para o Pai mediante o Filho no Espírito Santo (cf. Ef 2, 18).

 

b) Mantendo-se fiel à tradição cristã, o arauto de Deus não receie abrir os olhos para os conhecimentos novos que prendem a atenção do mundo contemporâneo; procure estar em dia com os problemas atuais. Assim elucidará o que realmente deve ser elucidado a um homem do século XX, abstendo-se de pairar num plano alheio àquele em que versam seus ouvintes.

Vão aqui transcritas oportunas observações do Pe. Sertillanges:

 

«Achamo-nos hoje... numa vertente extremamente perigosa da ciência católica, vertente capaz de provocar crises lamentáveis... Conclusões admitidas durante séculos como indubitáveis ou mesmo como sagradas perderam crédito e são contestadas pelos espíritos mais sábios e mais prudentes...

Devemos manter-nos conservadores, é certo; mas o que se deve conservar, não são nossas ideias pessoais; são as ideias de Deus. É preciso preservar a Verdade Divina de qualquer contaminação; contudo é mister não ligarmos as sortes da Verdade Divina às dos conceitos humanos que a ela servem: isto equivaleria a confundir o necessário com o acessório, ou o habitáculo com o habitante...

Não é triste vermos um bom número de fiéis movidos por desconfiança instintiva para com tudo que traz um rótulo novo? A Igreja não está com eles, pois, se Ela rejeita as novidades (= inovações), Ela nem por isto rejeita o novo (= renovações). Vetera novls augere et perficere («ampliar e aperfeiçoar as coisas antigas com elementos novos»), eis uma palavra do grande Papa (Leão XIII)»

(«Le savant catholique», discurso proferido aos 28 de junho de 1901 diante de Professores do Instituto Católico de Paris; as palavras de Sertillanges são tão atuais hoje como outrora).

 

Neste texto Sertillanges menciona mudanças da ciência católica... Não se trata de alterações do dogma revelado, o qual é intangível, mas da reforma de certas interpretações da Escritura Sagrada em assuntos que não são dogmáticos. Os exegetas católicos modernos, dispondo de mais recursos linguísticos e arqueológicos, percebem que determinadas passagens da Bíblia não querem dizer propriamente o que antigamente se lhes atribuía, mas têm outro significado. Ora numa fase dessas, se, de um lado, se impõe prudência para não se atraiçoar o depósito revelado, de outro lado requer-se também largueza de vistas, a fim de não se «amarrar» a Palavra de Deus a concepções ultrapassadas (a história dos embates exegéticos mais recentes encontra-se em «P. R.» 29/1960, qu. 5).

 

Diante dos desvios doutrinários e morais do mundo moderno, o pregador católico, no púlpito, procurará evitar a polêmica e as explanações predominantemente apologéticas; dirá a verdade, esforçar-se-á decididamente por dissipar o erro, abstendo-se, porém, de qualquer tonalidade agressiva ou ofensiva. Em uma palavra: confie no poder atraente e conquistador que a Verdade, serenamente exposta, traz em si mesma.

 

2.3) ... Em união com o Espírito de Deus.

 

A pregação cristã exige que o seu arauto esteja realmente identificado com a sua mensagem. Isto quer dizer que o pregador não pode pretender desempenhar o seu ofício burocraticamente, mas deve estar consciente de que ele anuncia uma palavra de vida, a qual será tanto mais eficazmente transmitida quanto mais o seu porta-voz tiver experiência dela por sua conduta de vida. Em outros termos, dir-se-á que todo pregador deve ter algo dos Profetas do Antigo Testamento- será homem particularmente dócil às moções do Espírito Santo ou também um entusiasta (a palavra «entusiasmo» provém do grego «en-theou-sia», vocábulo que significa a «habitação de Deus em uma alma»).

 

Uma das principais finalidades da autêntica pregação há de ser a de levar os fiéis à oração e à união com Deus; a Palavra de Deus assimilada pelos ouvintes deve, por sua vez, emanar destes sob a forma de prece (oral ou apenas mental); todo cristão deve poder esperar dos arautos do Evangelho que estes o introduzam mais a fundo na oração. Está claro, porém, que nenhum pregador se tornará mestre de oração se não for ele mesmo um genuíno orante. «Pregar sem orar, sem meditar e sem espírito de oração, é querer voar sem asas. No espírito de oração é que se encontra a inspiração do pregador» (Sertillanges, L'esprit de la parole apostolique, em «La Maison- 16 [1948] 8).

 

«A pregação que tentamos descrever não constitui uma atividade especializada. Ela não é senão a comunicação, a irradiação de uma alma sacerdotal.

Está em perfeita continuidade com a oração do sacerdote, com a sua recitação do oficio, com a sua celebração da Liturgia A oração e a celebração, embora visem em primeiro lugar dar glória a Deus, não podem abstrair do rebanho que o pastor de almas deve levar aos mananciais frescos e aos pastos abundantes» (A.M. Roguet» Les sources bibliques et liturgiques de la prédication, em «La Maison-Dieu» 39 [1954] 118).

 

Tais são as principais notas que devem caracterizar a autêntica pregação. Voltemos agora nossa atenção para outro aspecto do tema.

 

3. A quem compete pregar?

 

Torna -se evidente que o pregador por excelência é aquele mesmo ministro do Senhor a quem está confiada a celebração da S. Eucaristia; este é obviamente chamado a distribuir o pão da Palavra sacramental antes de distribuir o sacramento mesmo. Por isto na Igreja antiga o ofício da pregação incumbia primariamente ao bispo, que era também o celebrante qualificado da S. Liturgia; somente na ausência do bispo, ou por delegação deste, pregava o presbítero nas assembleias de culto. Hoje o Direito Canônico reserva aos bispos, sacerdotes e diáconos o ministério da pregação no recinto das igrejas (cf. cân. 1327 e 1342); exprime, porém, o desejo de que os bispos se valham de varões idôneos para os auxiliar na tarefa de evangelização (cf. cân. 1327 § 2).

 

Mais do que nunca, nos nossos dias faz-se sentir a necessidade, aliás repetidamente afirmada pelos Sumos Pontífices, de se mobilizarem os leigos para o exercício do apostolado e, em particular, da catequese.

 

São palavras de Pio XII em seu discurso ao 2º Congresso mundial do apostolado dos leigos (5 de outubro de 1957):

 

«Desconheceria a natureza autêntica e o caráter social da Igreja quem nela quisesse distinguir um elemento meramente ativo — as autoridades eclesiásticas — e outro puramente passivo — os leigos. Todos os membros da Igreja são chamados a colaborar na edificação e no aperfeiçoamento do Corpo Místico de Cristo. Todos são pessoas livres; devem, por isto, desempenhar uma atividade».

 

Explicitando um pouco mais o papel dos leigos, ensina o Santo Padre João XXIII:

 

«O dinamismo do apostolado está essencialmente ligado à fé cristã; com efeito, a cada qual incumbe o dever de difundir em torno de si a fé, seja para instruir e confirmar outros fiéis, seja para repelir os ataques dos infiéis, particularmente em tempos como os nossos, em que o apostolado é obrigação urgente, dadas as penosas circunstâncias em que se encontram a humanidade e a Igreja» (texto citado em «Lumière et Vie» 46 [1960] pág. 21).

 

Como se vê, a responsabilidade de cada cristão na difusão do. Evangelho está arraigada no mais intimo do seu ser, ou seja, na sua dignidade de batizado e crismado. É claro, porém, que toda forma de apostolado organizado há de ser exercida sob a orientação da autoridade eclesiástica.

 

Nem mesmo os fiéis que não possuem aptidão natural ou o mínimo de tempo necessário para alguma forma de catequese ficam excluídos da nobre tarefa de dar ao mundo o testemunho de Cristo. Pelo contrário, toca-lhes diretamente exercer a forma fundamental de apostolado, que é a vida íntegra ou virtuosa; é esta forma que, sem tornar desnecessárias as atividades apostólicas, confere a estas o seu verdadeiro valor. Diga-o o Sto. Padre João XXIII:

 

«Todo cristão deve estar convicto de que seu dever fundamental e primordial é o de dar testemunho da verdade em que ele crê, e da graça que o transformou... Não seria mesmo necessário expor a doutrina, se a nossa vida fosse suficientemente luminosa; nem seria necessário recorrer à palavra se nossas obras dessem testemunho. Não haveria mais pagãos se nos comportássemos como verdadeiros cristãos» (citado ib. pág. 9).

 

Estas palavras concorrem para despertar a consciência do grandioso alcance que tem a vida de um autêntico cristão na hora presente, seja ele membro da hierarquia eclesiástica (pregador qualificado da Palavra de Deus), seja ele representante do laicato católico (portador vivo da mesma Palavra).

 

Apêndice

 

A fim de mais ilustrar os parágrafos precedentes, seguem-se aqui os resultados de um dos últimos inquéritos realizados sobre a eficácia da pregação.             

 

Na oitava de Páscoa (abril) de 1960 reuniu-se em Wurzburg, na Alemanha, um grupo de sacerdotes e oradores sacros alemães, a fim de estudarem o assunto. Um deles, então, o sacerdote Balthasar Fischer, Professor em Tréviris, resolveu pedir o depoimento respectivo de cinco homens e cinco mulheres de diferentes idades e classes sociais, obtendo em consequência as seguintes observações, dirigidas, com toda a franqueza e retidão de intenção, aos pregadores:

1)    «Preparai-vos com calma para a pregação; não julgueis que o leigo não o repara, caso não o façais.

2)    Fazei o favor de não falar mais de quinze minutos; pregação mais demorada já não produz efeito.

3)    Não nos faleis com uma sabedoria que nos espanta, usando latim, termos estrangeiros e abstrações; só guardamos o que nos é dado contemplar em imagem.

4)    Não faleis a 'linguagem de Canaã' (linguagem arcaica, estereotipada), que ninguém entende a não serdes vós mesmos. Mas também não procureis falar artificialmente em termos modernos. Usai de um vernáculo dos nossos dias, simples, claro, não poético, não sentimental. Quando vos referis ao mundo em que trabalhamos, tratai, por favor, de o fazer em termos fiéis.

5)    Deixai de lado todo afeto muito exaltado; sempre receamos que seja oco.

6)    Estai atentos a que vossa pregação seja substanciosa e conclusiva; em caso contrário, já a teremos esquecido ao passar diante da pia de água benta na saída da igreja.

7)    Não procedais como se tivésseis atingido a plenitude da santidade cristã. Mais facilmente damos fé a alguém que reconheça estar, semelhantemente a nós, em peregrinação, sujeito a sofrer e a falhar. Mostrai que compreendeis a dureza da vida cotidiana de um cristão leigo neste nosso mundo.

8)    Dai-nos o pão nutritivo que é a Palavra de Deus. Quem tem fome (e nós a temos mais talvez do que as gerações anteriores), pede pão, não pão de ló.

9)    Dai-nos uma visão grandiosa de Deus e um amplo panorama dos mistérios da nossa salvação tais como Deus os instaurou.

10)    Não suponhais muitas noções da parte dos ouvintes; em caso contrário, estareis falando para as paredes.

11)    Fazei que a fé penetre com a sua luz o nosso dia de trabalho e a nossa vocação. Sentimo-nos pesarosos pelo fato de que «vocação» em vossa linguagem significa sempre «chamado ao sacerdócio ou ao convento». Falai de política na medida em que esta se relacione com a vossa mensagem; não trateis, porém, de política de partido, e não faleis de política quando estivermos às portas de uma eleição.

(Nota do tradutor: no Brasil acontece que justamente nas vésperas de uma eleição cabe aos sacerdotes esclarecer os fiéis).

12)    Repreendei o que há de repreensível em nós, com toda a liberdade, mas não nos vilipendieis nem vos irriteis no púlpito. Com isto só conseguireis endurecer os culpados, alegrar os pretensos inculpados e entristecer os verdadeiros inculpados. Bem sabemos que não procedemos sempre como deveríamos (algo de semelhante se deve dar convosco, pois também sois criaturas humanas); contudo não desejamos ser esbravejados. Apraz-nos sentir que, apesar de todas as nossas faltas, somos levados a sério com a nossa dignidade de cristãos batizados.

13)    Fazei-nos de vez em quando experimentar que pertencemos a uma Igreja universal.

14)    Não nos façais perder o ânimo. Antes, encorajai-nos. Dai-nos um pouco de auxilio, consolo, firmeza, esperança. Fazei que encontremos nossa alegria em Deus e nas suas obras salvíficas».

 

(Transcrito de «Herder-Korrespondenz» XV, nov. 1960, 84s).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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