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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 037 - janeiro 1961

 

NÃO ALÉM DO QUE ESTÁ ESCRITO

SAGRADA ESCRITURA

A. F. P. (Belo Horizonte): «Como entender os dizeres de São Paulo em 1 Cor 4,6: 'para que ... aprendais a não ir além do que está escrito'? O Apóstolo, com essas palavras, parece recomendar que não se adote outra regra de fé fora da S. Escritura. Os ensinamentos orais da Tradição não estariam assim excluídos?»

 

Em primeiro lugar, observaremos que a passagem citada, nos códices antigos, apresenta algumas variantes de importância, o que torna a reconstituição do texto original e a respectiva exegese um tanto difíceis. Como quer que seja, pode-se assegurar que o Apóstolo, por seus dizeres, não intenciona abordar a questão das fontes da fé cristã (Bíblia só ou Bíblia e ensinamento oral).

 

Eis a explanação apresentada pelos mais modernos e credenciados comentadores do texto.

A tradução exata da frase de São Paulo vem a ser:

 

«Nisso tudo, irmãos, tomei a mim e a Apolo como exemplos, por causa de vós. Quis que em nossos casos aprendais a máxima.: 'Nada além do que está escrito', a fim de que ninguém tome orgulhosamente o partido de um contra o outro» (1 Cor 4,6).

E que quer dizer tal texto?

 

— São Paulo tem em vista estranha situação entre os fiéis de Corinto: impressionados pelos predicados dos diversos arautos do Evangelho (Paulo, Apolo, discípulos de São Pedro, etc.), dividiam-se em partidos alimentados pela soberba e o mau espírito: enquanto um cristão declarava ser da facção de Paulo, outro professava pertencer à de Apolo, um terceiro à de Pedro, etc. (cf. 1 Cor 1,10-12).

 

Ora, para reprimir tais abusos, São Paulo, em 1 Cor, a partir de 3,5, lembra quem são o próprio Paulo e seu companheiro Apolo, que os coríntios querem constituir em chefes de partido: são meros ministros de Deus; o que dizem e fazem de belo é fruto da graça divina a eles concedida: «Eu plantei, Apolo regou; foi Deus, porém, quem fez crescer» (3,6). Por conseguinte, se há colaboração entre Paulo e Apolo e se ambos são meros instrumentos de Deus, é que vão querer colocar os seus nomes à frente de facções antagônicas. O próprio São Paulo não julga a si; apenas procura viver com a consciência reta, aguardando a vinda final do Senhor Jesus (cf. 4, 1-5).

 

Após afirmar tais coisas, o Apóstolo formula a frase transcrita no início desta resposta (4,6); diz que, ao falar de meros ministros de Deus, ele mencionou os casos concretos de Paulo mesmo e de Apolo. Essa menção sirva para que os coríntios, de maneira geral ou em relação a todo e qualquer pregador, se abstenham de proferir juízos meramente humanos, partidários e soberbos...

 

É a esta altura que se devem considerar as palavras obscuras: «...para que aprendais... a máxima: 'Nada além . do que está escrito'».

 

Há exegetas que julgam tratar-se de textos da S. Escritura (ou os textos de Is 19,14; Jer 9,24; Jó 5,13; SI 93,11, citados em 1 Cor 1,19. 31; 3. 19s..., ou o Antigo Testamento inteiro...).

Outros comentadores (como Clemen) julgam que se trata de um apócrifo; cf. «P. R.» 35/1960, qu. 3.

São João Crisóstomo (+407) admitia tratar-se de uma frase de Cristo.

Heinrici, exegeta moderno, supunha alusão a um estatuto escrito observado pela comunidade para manter a boa disciplina entre os irmãos, como era costume nas corporações gregas.

 

Essas sentenças são todas inconsistentes. Na verdade, o Apóstolo parece ter em vista um provérbio usual entre os coríntios. Tal provérbio visava as pessoas que, depois de assinarem um contrato claro e explícito, se põem a fazer cavilações e chicanas em torno do mesmo; retorcem e complicam as cláusulas, disputando em vão e disseminando desordem. Contra tais cidadãos é que se dizia na linguagem cotidiana dos coríntios: «Não vás além do que está escrito»; isto é: não queiras usar de dialética sutil e vazia, perdendo tempo, quando teus direitos e deveres já estão claramente formulados.

 

É a situação desses dialéticos disputadores que São Paulo agora compara a atitude dos cidadãos de Corinto: perdem-se em devaneios inúteis sobre as pessoas de Paulo, de Apoio, de Pedro...; julgam-nos, opõem um ao outro, cedendo em última análise ao orgulho (vão-se inchando à semelhança de rãs, cheias de si). Ora — concluiria o Apóstolo — vedes que tal procedimento é ridículo e hediondo; deve ser imediatamente reprimido. Tal é, sem dúvida, a lição que, citando o provérbio, São Paulo quer incutir aos seus leitores.

 

Como se depreende, esse versículo do Apóstolo não tem que ver com a questão das fontes da fé cristã (Tradição oral e escrita ou Tradição escrita apenas?). Tal tema ficava por completo fora dos horizontes de São Paulo quando escrevia 1 Cor 4, 6. Por conseguinte, seria desonesto querer deduzir do citado versículo alguma conclusão sobre um problema que no momento o Apóstolo não tinha em vista.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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