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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 037 - janeiro 1961

 

O HOMEM IMAGEM DE DEUS

DOGMÁTICA

LIVIO (Aracaju): «Como se explica o texto de Gên 1,27: 'Deus criou o homem à sua imagem'?

Visto que Deus é Espírito imortal, todo-poderoso e bom, enquanto o homem é matéria mortal, fraca e maldosa, como pode haver semelhança entre o homem e Deus?»

 

Em resposta, será preciso, antes do mais, analisar os dizeres do texto bíblico; após o que, tornar-se-á possível uma reflexão sobre a sua mensagem.

 

1. Os dizeres do texto bíblico

 

Lê-se em Gên 1, 26s:

1,26 -«Disse Deus: 'Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre todos os animais selvagens e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra.

27 Deus criou o homem; à imagem de Deus Ele o criou varão e mulher, Ele os criou».

 

No v. 27a omitimos, com bons críticos, o aposto «à sua imagem», aposto que quebra o ritmo ou o curso progressivo do pensamento.

 

O significado do texto acima no problema da origem do homem não é objeto da nossa questão; já tendo sido abordado em P. R.» 29/1960, qu. 1, deixamo-lo agora de parte; visamos apenas penetrar no sentido da expressão «...à imagem e conforme a semelhança de Deus», expressão que, como se pode supor de antemão, deve revelar a razão de ser da criatura humana.

 

Os exegetas propõem mais de uma explicação das palavras hebraicas selem, imagem, e demut, semelhança, ocorrentes nos versículos acima.

 

Há quem as considere como sinônimas entre si. É o que já faziam antigos tradutores do texto hebraico, os quais, por exemplo, na edição grega dos LXX e na Vulgata latina, deram a ler: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (em vez de «à nossa imagem, conforme a nossa semelhança»). Suposta a sinonímia, o segundo termo reforçaria o sentido do primeiro, incutindo que o homem é imagem semelhantíssima de Deus.

 

Não intencionando discutir as diversas sentenças dos comentadores, passaremos logo à mais provável de todas.

Selem (imagem) e demut (semelhança) não são vocábulos sinônimos; contudo em Gên l,26s, justapostos como se acham, exprimem uma única ideia.

 

Selem costuma designar no Antigo Testamento «a imagem material, esculpida», muitas vezes mesmo «os ídolos»; cf. Am 5,26; 4 Rs 11,18; Núm 33,52; 2 Crôn 23, 17; Ez 7,20; 16,17; 23,14. Pois bem; o texto do Gên afirma que o homem foi feito à imagem de Deus (besalmenu)...; a preposição a (beth, em hebraico) parece designar aqui (como, aliás, em outros casos da língua hebraica) a própria essência do indivíduo mencionado, ou seja, a essência do homem. Ela significa, por conseguinte, que o homem foi feito «como imagem de Deus»; o conceito de «imagem de Deus» vem a ser destarte inerente ao de «homem»; pode-se dizer então que foi para exprimir a sua perfeição que Deus concebeu a perfeição da natureza humana.

 

Ao lado de selem (imagem), o vocábulo demut (semelhança) parece exprimir certa restrição. Com efeito, demut (semelhança) ocorre frequentemente no livro de Ezequiel, significando que entre dois objetos há analogia e proximidade, sim, mas não há identidade. Assim, o profeta vê uma «semelhança de seres vivos» (1,5), uma «semelhança de homem» (1,26), . uma «semelhança de firmamento» (1,22)...; em tais casos, o objeto percebido assemelha-se a um ser vivo, a um homem, ao firmamento, mas não é tal.

 

Aplicando-se estas noções a Gên 1,26, conclui-se que o homem traz, entre as suas notas constitutivas, algo que muito o assemelha a Deus, mas certamente não o iguala ao Senhor. Aliás, o caráter restritivo da expressão demut é reforçado pela partícula ki, conforme, que a precede: «Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança».

 

Eis, em poucas palavras, a análise das expressões características de Gên 1,26s. Permitem-nos concluir: o homem é imagem que muito se aproxima do seu protótipo, Deus.

Faz-se mister agora aprofundar o vasto alcance de tal afirmação.

 

2. A mensagem do texto bíblico

 

Pergunta-se: em que consiste a semelhança que une tão estreitamente o homem a Deus, sem, porém, autorizar identificação entre ambos?

 

a) Não é por seus traços corpóreos que o homem imita a Deus. Os israelitas, embora fossem dados aos antropomorfismos (modos de falar que assemelhavam Deus ao homem), tinham consciência de que o Altíssimo não possui corpo, nem pode ser adequadamente representado por alguma criatura material; cf. Is 40, 18; 46,5; SI 88,7; Dt 4,15s.

 

Além disto, considerando-se diretamente o texto de Gên 1, verifica-se que o autor sagrado nutria um conceito muito elevado da transcendência divina (Deus produz os seres pela sua palavra soberana, sem ter que plasmar ou modelar, como os homens fazem). Note-se outrossim que, conforme o escritor, o homem, criado à imagem de Deus, foi criado «varão e mulher» (cf. Gên 1,27); a mulher é, portanto, como o varão, imagem de Deus. Ora não há dúvida, os israelitas jamais pensaram em admitir alguma divindade feminina (a língua hebraica não possui sequer uma palavra própria para dizer «deusa»).

 

É, portanto, pelo seu espírito ou por sua alma que o homem se assemelha a Deus.

 

Em Gên 5,3, lê-se que Adão gerou Sete «à sua semelhança, conforme a sua imagem». Ora, já que entre pai e filho a semelhança abrange os traços corpóreos de ambos (embora não somente esses traços), admitem alguns autores que entre Deus e o homem também deva haver semelhança corpórea; o Senhor, por conseguinte, teria corpo como o tem o ser humano. —Vê-se, porém, que tal conclusão seria contrária à mentalidade que o autor sagrado e que os israelitas em geral alimentavam no tocante a Deus; ademais o Senhor em Gên 1 não gera o homem, como Adão gera seu filho Sete.

 

b) Em que termos precisos então se conceberá a semelhança não corpórea existente entre Deus e o homem?

 

— Em toda a narrativa de Gên 1, Deus é caracterizado por sua inteligência e sua vontade: com uma palavra sábia, Ele dá origem e ordem harmoniosa a todas as criaturas; a sua vontade mostra-se plenamente eficaz e, ao mesmo tempo, cheia de bondade para com cada ser. Ora o homem possui uma alma caracterizada precisamente por inteligência e vontade. É, por conseguinte, mediante a sua inteligência e a sua vontade que o homem se assemelha a Deus. Em outros termos: já que inteligência e vontade são os constitutivos característicos da personalidade, deve-se dizer que o homem é imagem de Deus por ter uma personalidade que se aproxima da personalidade do Altíssimo (Deus certamente não é substância neutra, impessoal, identificada com a natureza).

 

A este propósito podem-se notar os seguintes dizeres do SI 31,9:

«Não sejais (ó pecadores) como o cavalo e o mulo, que não têm inteligência;

Para domá-los, é preciso usar de freio e rédea;

De outro modo, não se aproximam de Ti (ó Deus)».

 

Sem que se queira forçar o sentido destas palavras, elas parecem incutir que é por sua inteligência que o homem se aproxima de Deus; é pela sua inteligência e, consequentemente, por seu amor, que o homem afirma sua afinidade com Deus.

 

No trecho abaixo, faz-se ouvir S. Agostinho (+430) como autêntico porta-voz da tradição cristã ao formular a mesma tese:

«Quod homo ad imaginem Dei factus dicitur, secundum hominem interiorem d'ci, ubi est ratio et intellectus. — A Escritura diz que o homem foi feito à imagem de Deus, levando em conta o homem interior, sede da razão e da inteligência» (De Genesi contra Manichae- os I XVII 27).

 

c) Quanto ao domínio que o homem exerce sobre os irracionais e que é mencionado em Gên 1,26 logo após a alusão à imagem de Deus, não constitui a essência da semelhança com o Altíssimo, mas apenas consequência desta; é, sem dúvida, por possuir inteligência e livre vontade que o homem se impõe às criaturas que fisicamente lhe são superiores (o leão, o elefante, a girafa...), mas carecem de intelecto. Leve-se em conta outrossim que tal domínio é outorgado ao homem com uma bênção especial (cf. Gên 1,28), depois de ter sido o primeiro casal criado à imagem de Deus.

 

O Sl 8 desenvolve com grande arte a ideia de que o homem domina a natureza inteira (animais terrestres, aves e peixes) por ser como que o lugar-tenente de Deus neste mundo visível. O mesmo conceito reaparece em Eclo 17,3s.

 

d) Naturalmente a dignidade da alma humana imagem de Deus redunda sobre o próprio corpo que lhe está unido. A Revelação bíblica é contrária a toda conceituação pejorativa da matéria. Esta é criatura de Deus, como o espírito o é. Em consequência, o. corpo, associado à alma na vida presente, deve ser mais e mais penetrado e transfigurado por esta, de modo a se tomar, do seu modo, sinal do Divino na terra. Destarte o homem todo, embora conste de duas substâncias diferentes (corpo e alma) há de ser expressão una e homogênea do seu Autor; os seus atos mais simples, realizados na carne e pela carne (como o comer, o repousar-se, o trabalhar...), terão sempre um significado característico, muito mais rico do que as ações paralelas dos animais irracionais; traduzirão do seu modo a sabedoria e o amor do Criador à criatura e da criatura ao Criador.

 

Ê à luz desta verdade que se entende a proibição de homicídio formulada em Gên 9 6:

«Todo aquele que derramar o sangue humano, Terá seu sangue derramado por um homem, Porque à imagem de Deus foi feito o homem».

 

Como se vê, a vida do homem no corpo é cara a Deus, porque deve espelhar, no seu plano próprio, a Perfeição Divina.

 

Para ilustrar quanto o corpo humano pode e deve ser penetrado pela alma, a fim de se tornar espelho ou símbolo de uma realidade superior (da inteligência humana e, em última análise, da Sabedoria Divina), seja aqui citado o seguinte episódio:

 

Certas pessoas nascem surdas, mudas e cegas simultaneamente: são as chamadas «almas encarceradas» (encarceradas, porque tais almas não se podem manifestar pelos seus meios de comunicação normais, que são os olhos, os ouvidos, o aparelho fonético, etc.).

 

Pois bem; aconteceu que uma dessas almas encarceradas, Maria Heurtin, se achava certa vez em uma clínica. Tinha grande apego a um canivete de seu uso... Certo dia, a Religiosa que a tratava, resolveu fazer uma experiência, tirando-lhe tal objeto. A paciente muito se irritou. A irmã então lho devolveu, colocando-lhe, porém, as mãos uma sobre a outra em sinal de cruz. A seguir, repetiu a experiência um certo número de vezes, no fim das quais a enferma já por si mesma fazia o gesto de cruzar as mãos para pedir o canivete. Desde então este objeto não lhe foi mais retirado. A Religiosa empreendeu ainda experiências semelhantes com outros objetos aos quais a menina tinha apego. Assim a criança foi associando a ideia abstrata de pedir com o sinal concreto, corpóreo, de cruzar as mãos; esse gesto do corpo vinha a ser símbolo ou espelho de uma atitude da alma. Com o decorrer do tempo, a criança aprendeu a fazer novos e novos gestos, para designar os seus sentimentos internos; o seu corpo se foi tornando mais e mais símbolo. Iniciaram-na então no alfabeto Braille, destinado aos cegos. Ao fim de certo tempo, Marie Heurtin sabia apreender e exprimir as ideias mais abstratas que possam estar no comum dos homens; cega, surda e muda, compreendia e falava, usando de vocabulário assaz amplo.

 

Eis um exemplo frisante de como o corpo é feito para exprimir a alma, ou seja, a inteligência e o amor que constituem o homem «Imagem e semelhança de Deus»; mesmo quando os órgãos normais de transparência faltam, a alma é capaz de tornar transparentes outros órgãos do mesmo corpo.

 

e) Quanto à distinção sexual vigente entre varão e mulher, ela não acarreta detrimento para a dignidade de imagem de Deus que compete ao tipo humano como tal. Com efeito, ao criar o ser humano à sua semelhança, Deus criou logo o varão e a mulher; ambos portanto participam dos mesmos deveres e das mesmas esperanças perante o Soberano Senhor.

 

De passagem, note-se: alguns rabinos antigos e medievais julgavam que o primeiro indivíduo humano reunia em si os dois sexos, os quais somente mais tarde teriam sido dissociados; esta suposição, porém, é contraditada pelo próprio texto bíblico, o qual assevera que «Deus os criou, varão e mulher», ambos à sua imagem (cf. Gên 1,27).

 

f) Por último, não se poderia deixar de observar que a consciência da dignidade estupenda e mesmo misteriosa do homem é tão espontânea a quem reflita sobre o ser humano, que até fora da literatura bíblica se encontra a afirmação de que o homem foi feito à imagem da Divindade.

 

Assim, entre os babilônios a epopeia de Gilgamesch (I 33s) narra que a deusa Araru «formou em seu coração uma imagem de Anu» (o deus supremo) antes de formar do barro o herói Ea-bani. Na literatura latina, é Ovídio (+ 17/18 d. C.) quem escreve: «Finxit In effigiem moderantum deorum. — ... plasmou (o homem) segundo a imagem dos deuses regentes» (Metam. I 83).

 

Tais asserções extrabíblicas não significam que a doutrina judaico-cristã da imagem de Deus seja oriunda de religiões pagãs e inspirada por mentalidade grosseira e politeísta... Tais asserções devem, antes, ser tomadas como indício de que em todo homem está profundamente arraigada a consciência de que a natureza humana só se consuma ultrapassando-se a si mesma e voltando a Deus, ou seja, voltando ao Protótipo que deixou a sua imagem indelevelmente gravada em cada um de nós. As relações que ligam o homem a Deus são algo de inerente à natureza humana; quem lhes dá a devida expansão, amando a Deus mais do que ao próprio «eu», «realiza-se» e encontra sua verdadeira face; quem, porém, as sufoca, fechando-se em seu egoísmo, desfigura-se e acarreta sobre si o mais lamentável dos tormentos!...

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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