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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 033 – setembro 1960

 

Jacques Maritain

SAINT-EXUPÉRY: O amigo pergunta se o pensador francês Jacques Maritain é herético; em particular,... se é filiado aos erros de Lamennais.

 

— Nos últimos anos, uma controvérsia em torno do nome de Jacques Maritain empolgou as escolas da França, dos Estados Unidos da América, do Canadá e também do Brasil, tomando por vezes caráter apaixonado. Os ânimos tendem a se acalmar, mas os rumores deixaram dúvidas na mente de muitos. Vejamos de que se trata propriamente.

 

Jacques Maritain nasceu em .Paris aos 18 de novembro de 1882. Fez-se primeiramente discípulo do filósofo judeu Henri Bergson (cf. "P. R." 25/1960, qu. 1). Em 1906, porém, sob a influência do escritor Léon Bloy, converteu -se ao Catolicismo, começando desde cedo uma produção Literária até hoje muito fecunda. Maritain filiou-se à Filosofia Escolástica tal como foi apresentada por São Tomás de Aquino; tem procurado torná-la viva e presente no mundo moderno, focalizando, à luz dos princípios aristotélico-tomistas, as questões suscitadas pelas ciências naturais e pelas correntes filosóficas contemporâneas.

 

Em 1914 foi convidado para lecionar História da Filosofia moderna no "Institut Catholique" de Paris. Em 1916 tornou-se membro da Academia Romana de São Tomás de Aquino. Mais tarde transferiu-se para a América do Norte, regendo cadeiras filosóficas no Instituto de Estudos Medievais da Universidade de Toronto (Canadá) e na de Columbia (U.S.A.). Após a segunda guerra mundial, exerceu por algum tempo o cargo de Embaixador da França junto à Santa Sé (fato este que do seu modo atesta a ortodoxia de Jacques Maritain).

 

No tocante a questões de Filosofia especulativa, o pensamento de Maritain não tem sofrido contestação; deve-se mesmo admirar a clareza e a precisão com que esse autor aborda as mais árduas questões. Contudo as opiniões dos comentadores se dividem quando consideram a doutrina político-social do filósofo francês, que não hesitou em descer aos pontos mais debatidos pelas escolas modernas, tomando posições aparentemente extremistas.

 

Qual seria então a doutrina de Maritain?

 

Está claro que este pensador rejeita a comunismo e o socialismo, denunciando o vício radical de tais sistemas, a saber: a falsa valorização do homem ou um humanismo antropocêntrico, leigo e ateu. Todavia o ideal da futura sociedade cristã que Maritain preconiza, apresenta estrutura comunitária ou "societária": na medida do possível, o regime do salário deverá ceder ao da copropriedade; o operário será chamado a participar da gestão e da direção da respectiva empresa... Tais idéias, Maritain as enquadra dentro de uma perspectiva mais ampla, de índole filosófico-teológica, dita "Humanismo integral". Conforme este modo de ver, o mundo presente se encaminha para um novo tipo de "Cidade Cristã", diverso do que se realizou na Idade Média.

 

Com efeito, diz o filósofo francês, a Idade Média conheceu uma ordem de coisas "sacral", isto é, uma ordem na qual todas as afirmações do cidadão, mesmo as que chamamos "profanas", estavam impregnadas de caráter religioso ("aprender a ler", por exemplo, era entre os medievais "psalmos discere — aprender os salmos", pois a criança tomava como cartilha, para aprender a soletrar, o livro dos Salmos). Pois bem, na sociedade futura as instituições profanas serão realmente consideradas profanas, mas ao mesmo tempo estarão subordinadas aos valores sagrados; os valores temporais serão tidos como finalidades dignas do labor humano (não como meros instrumentos dos valores eternos), finalidades,, porém, subalternas e totalmente orientadas em demanda de um Fim último supremo (Deus e a vida eterna).

 

Eis, em poucas palavras, as concepções de Maritain que têm provocado atitudes de reserva da parte de bons católicos.

 

Diante das dúvidas apresentadas, interessa-nos aqui dizer, apenas a titulo de esclarecimento (e não de apologia), que o pensamento de Maritain é plenamente compatível com a ortodoxia católica. A força de uma ou outra expressão do filósofo, isolada do seu contexto, talvez sugira alguma tese errônea ou herética; contudo, desde que se considerem no seu respectivo quadro ou à luz de toda a ideologia de Maritain, essas expressões perdem sua ambiguidade e evidenciam-se católicas. Por exemplo, hoje em dia pode muito bem alguém crer que seria pouco consentâneo com as condições concretas da vida moderna querer dar como livro didático para os mais diversos cursos um único livro — um livro de história sagrada. Hoje em dia a civilização cristã, para ser devidamente eficaz no seu programa de levar os homens a Deus, não cultiva somente Religião e temas religiosos, mas dá atenção também aos fundamentos da Religião que são a natureza humana e os valores deste mundo; assim se explica que na "Cidade de Deus" contemporânea se propugnem atividades e profissões que estudam psicologia, pedagogia, antropologia, geologia ..., sem querer dirimir todo e qualquer problema mediante a autoridade da Revelação sobrenatural (esta ficará sendo, sim, critério negativo impreterível, isto é, critério que em muitos casos dirá apenas o que não é licito afirmar).

 

Em particular, com referência ao regime de copropriedade ou de participação dos operários na gestão da empresa, deve-se observar que a doutrina social da Igreja está longe de se lhe opor; ela, antes, o favorece desde que corresponda às conveniências da população à qual deva ser aplicado. Eis como a respeito se pronunciava o Santo Padre Pio XI na famosa encíclica "Quadragesimo anno":

 

"Julgamos que nas presentes condições sociais é preferível, onde isto for possível, mitigar os contratos de trabalho, combinando-os com os de sociedade, como já se começou a fazer de diversos modos, com não pequena vantagem para os operários e os patrões. Deste modo, os operários são considerados sócios no domínio ou na gestão, ou compartilham nos lucros".

 

Quanto ao receio de que Maritain seja um continuador das idéias heréticas de Lamennais, é vão. Félicité de Lamennais (+1854) tornou-se no século passado o que se chamava "um católico liberal", propugnando absoluta independência das atividades políticas em relação à Religião, assim como a necessidade de separar Igreja e Estado; morreu como socialista e livre-pensador, fora da comunhão da Igreja. Maritain, ao contrário, professa explicitamente a subordinação da "Cidade dos homens" à "Cidade de Deus".

 

Está claro que ninguém é obrigado a compartilhar as ideias político-sociais desse filósofo. Quem, porem, delas discorde, ainda pode, com imensa vantagem, apreender as mais puras e sábias lições da Verdade nas obras de Filosofia especulativa desse pensador. O que Maritain escreveu nesse setor, é de valor incontestável.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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