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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 033 – setembro 1960

 

Mística Não Cristã

DOGMÁTICA

ESCOLÁSTICA (Uberaba): «Que é a Mística? Será possível haver vida mística fora do Cristianismo?»

 

Após nos determos sobre os elementos essenciais da vida mística, focalizaremos os fenômenos de tal tipo apregoados em comunidades religiosas não-cristãs.

 

1. Em que consiste a vida mística

 

Não é raro entender-se por «vida mística» uma vida caracterizada por fenômenos extraordinários, como visões, êxtases, estigmas, etc. Tal conceituação é errônea; não é nesses feitos extrínsecos, sensíveis, que consiste a essência da Mística. Na verdade, a vida mística, longe de ser algo de aparatoso e extraordinário, deve ser tida como uma etapa muito normal na ordem de coisas em que vive o cristão. Sim; a vida mística é simplesmente a experiência que o homem faz de Deus presente no íntimo de sua alma.

 

Para melhor entender esta caracterização, tenha-se em vista o seguinte.

Pode haver em toda criatura humana três maneiras distintas de conhecer a Deus:

 

Modo de conhecer:

- natural:

                - na base da razão apenas

- sobrenatural:

                - na base da razão e da Revelação sobrenatural

                - na base dos dons do Espírito Santo e da Revelação sobrenatural

 

Vejamos de perto o significado desses termos.

 

1)                O modo natural de conhecimento é o que depende da aplicação da inteligência; pelo raciocínio o homem é levado, sim, aos conceitos de «Primeira Causa, Motor Imóvel do Universo, Ser subsistente por si», etc.; foi por esta via que Aristóteles, Platão e os filósofos em geral chegaram a conhecer a Deus;

 

2)                O modo sobrenatural de conhecimento pode-se dar segundo duas modalidades diversas:

a)                pela graça santificante e pelas virtudes infusas o cristão é levado a conhecer algo mais do que o que a razão por si só apreende; entra no conhecimento dos mistérios da fé revelada: a vida íntima de Deus (a Santíssima Trindade) e seus desígnios referentes à salvação do homem (os dogmas da Encarnação e da Redenção). Note-se, porém, que a graça santificante e as virtudes infusas não dispensam o cristão de se mover ou de exercer seu esforço humano a fim de progredir no conhecimento de Deus: meditando e discorrendo com sua inteligência a respeito das proposições reveladas, o cristão vai adquirindo um entendimento cada vez mais profundo dos mistérios da fé. É o que se dá na Teologia, a qual só pode ser elaborada segundo o processo lento do raciocínio humano;

b)               pelos dons do Espírito Santo (sabedoria, inteligência, ciência, conselho, piedade, fortaleza, temor de Deus) o cristão sobe a novo e mais profundo grau de conhecimento. Os dons do Espírito Santo são, por assim dizer, pontos de apoio que o Senhor coloca na alma do cristão, a fim de que esta possa receber a ação de Deus e ser movida segundo um ritmo não mais natural, mas todo sobrenatural, em demanda do Altíssimo. Quando os dons do Espírito Santo entram em atividade, não é mais a criatura humana que se move à procura de Deus segundo modo humano, mas é Deus ou o Espírito Santo quem diretamente move a criatura, comunicando-lhe uma perspicácia e uma segurança que ultrapassam de muito a capacidade humana. À vista disto, os teólogos dizem que, sob o regime dos dons do Espírito Santo, a criatura «padece» a ação divina («pati divina» é a expressão técnica já ocorrente nas obras do Ps.-Dionísio Areopagita no séc. V e repetida por S. Tomás, na S. Teol. I/II 68,2).

 

Uma figura ilustra muito bem tal doutrina. Imagine-se um barco sobre as águas, dotado tanto de remos como de velas. Pode adiantar-se por impulso dos remos, impulso estritamente dependente da ação humana dos remadores e, por isto mesmo, assaz lento. Suponha-se, porém, que os remadores resolvam cessar sua ação e desdobrar as velas do barco para que captem o ímpeto de um vento que vai soprando favoravelmente; então a embarcação se adianta com velocidade nova, maravilhosa; os homens, porém, ficam, em tal caso, numa atitude propriamente passiva, e não ativa. Pois bem; nesta imagem as velas simbolizam os dons do Espírito Santo, enquanto o impulso do vento significa a obra do mesmo Espírito, que comunica um modo de agir divino à alma agraciada. — Na prática, verifica-se a ação dos dons do Espírito Santo em pessoas muito unidas a Deus, as quais, por exemplo, colocadas na iminência de pecar, de repente, sem raciocínio prévio, concebem o que devem fazer ou dizer para evitar o pecado.

 

Ora é este terceiro modo de conhecer a Deus que constitui a nota marcante da vida mística. Em uma palavra, pois: o estado místico é, como dizíamos, o estado em que a criatura humana, sujeita à ação do Espírito Santo, faz a experiência de Deus que lhe está intimamente presente na alma.

 

É principalmente por efeito do dom da sabedoria que se consegue tal experiência (daí o caráter saboroso ou deleitoso que caracteriza tal experiência; sabedoria e sabor vêm da mesma raiz latina sapere).

 

Note-se outrossim que a experiência mística constitui o termo normal do desenvolvimento da vida interior do cristão. Não é reservada a almas privilegiadas, mas vem a ser simplesmente a vocação de todo cristão, desde o dia do seu batismo. Infelizmente, pode-se crer que a maioria dos discípulos de Cristo não chega a esse desabrochar normal da vida espiritual; ficam muitos a meio-caminho, não porque da parte do Senhor faltem os subsídios necessários ao progresso, mas porque a lentidão e a covardia da natureza entravam a ação desses subsídios. Que o cristão tenha ao menos consciência de tal problema, e não se deixe ficar num pouco sadio conformismo com a mediocridade!

 

Quanto a fenômenos extraordinários (êxtases, estigmas e outros...), podem ser concedidos por Deus às almas como sinais da íntima união com o Divino Esposo; podem também faltar sem que o estado místico sofra detrimento; em não poucos casos, são fenômenos puramente naturais, explicáveis pela atuação de faculdades subconscientes da própria alma humana.

 

Estes elementos elucidativos da vida mística já bastam para podermos abordar o tema culminante do cabeçalho deste artigo, a saber:

 

2. A Mística fora do Cristianismo

 

2.1. Admita -se o caso de uma pessoa que professe com toda a boa fé um credo não-cristão (muçulmano, budista ou mesmo pagão) e pratique lealmente todos os preceitos decorrentes de tal ideologia. Tal pessoa não tem problema religioso: não conhece senão a «teologia» que seus pais lhe ensinaram ou, se ouviu falar de outro credo (em particular, do Cristianismo), este não lhe foi apresentado de modo a lhe suscitar dúvidas religiosas. — Pois bem; aderindo consciente e integralmente a Deus em toda a extensão do que ela vê e do que ela pode, tal alma recebe de Deus a justificação sobrenatural: o pecado original lhe é apagado; a graça santificante, com as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, lhe são infundidos, à guisa do que se dá no autêntico cristão (diz-se que essa pessoa possui «o voto implícito do batismo»; o que quer dizer: essa criatura é tão reta e sincera que, se ela tivesse conhecimento do significado exato do batismo, ela não deixaria de o pedir).

 

Suponha-se ulteriormente que esse fiel durante anos a fio persevere numa atitude de docilidade total aos ditames de sua consciência, jamais contradizendo, nem na teoria nem na prática, ao que lhe parece ser autêntica mensagem de Deus. Tal alma se vai encaminhando não para o Deus Bramã, descrito pelo hinduísmo, nem para a Mente Cósmica, apregoada por outro credo panteísta, nem para tal ou tal Divindade mitológica, mas para o Deus único, o qual se revelou por Jesus Cristo: é ao único Senhor, imperfeitamente apreendido através das fórmulas do hinduísmo ou do paganismo, que na verdade esse devoto se vai unindo. De etapa em etapa, sua alma poderá então fazer a experiência da presença e da ação do Altíssimo, que nela habita; em outros termos: poderá chegar ao estado místico.

 

Compreende-se, porém, que tais casos de fidelidade integral não se verificam com frequência fora do Cristianismo, pois ao não-cristão faltam os canais mais ricos da graça sobrenatural, que são os sacramentos, em particular a S. Eucaristia. Se já ao cristão é difícil vencer a lentidão da natureza e sair da mediocridade, embora seja continuamente revigorado pelos mais valiosos dons de Deus, para quem não participa de tais dons a mesma tarefa há de ser mais árdua ainda.

 

Em todo caso, os historiadores apontam nomes de fervorosas personalidades não-cristãs as quais, pelo seu teor de vida e pelos seus escritos, parecem ter desfrutado a experiência mística. Sobressai, entre outros, Al-Hosayn-ibn-Mansur-al-Hallaj, muçulmano martirizado pelos seus correligionários em Bagdad (Síria) no ano de 922; foi entregue à morte por estimar Jesus acima de Maomé, considerando-O como o Santo por excelência, o qual voltará à terra para instaurar o juízo final por ocasião da ressurreição dos corpos. Al-Hallaj levou vida marcada por severa penitência e, possivelmente, numerosas graças místicas; ao termo de muitos anos de preparação, empreendeu viagens de pregação através da Índia e do Turquestâo a fim de difundir as riquezas de sua vida interior. Dentre os seus dizeres destaca-se a seguinte prece:

 

«Ó Guia dos que se perderam, sei que transcendes... todos os conceitos daqueles que Te procuraram conceber! ó meu Deus, sabes que sou incapaz de Te oferecer a ação de graças que Te convém. Deus, vem em mim, para agradeceres a Ti mesmo. Tal é o verdadeiro agradecimento; não há outro».

 

Deixamos aqui aberta a questão: não seria talvez o grande amor tributado por Al-Hallaj a Cristo o segredo e a raiz do elevado grau de pureza e caridade a que chegou este autor não-cristão?

 

Outro nome digno de nota, também pertencente à espiritualidade muçulmana, é o de Abubeker-Hohamed-ben-Ali ou, simplesmente, Ibn-Arabi, nascido em Múrcia (Andalúsia) no ano de 1164, e falecido em Damasco (Síria) aos 6 de novembro de 1240. Interessa confrontar alguns dizeres deste autor com paralelos muito semelhantes de Santa Teresa de Jesus, a grande mística cristã:

 

Sta. Teresa assim cantava:

«Dá riqueza ou pobreza, consolo ou pena, dá-me o inferno ou dá-me o céu; pois que me entreguei a Ti, que queres seja feito de mim?» (Obras t. VI 81, ed. Silvério)

 

Ibn-Arabi, por sua vez, orava:

«Teu deleitável paraíso ou teu suplício infernal são para mim a mesma coisa, pois teu amor não muda nem aumenta. Meu amor terá por objeto o que preferires a meu respeito». (Fotuhat II 429)

 

Sta. Teresa assim cantava:

«A alma deve tomar consciência de que só ela e Deus existem sobre a terra» (Vida XIII).

 

Ibn-Arabi, por sua vez, orava:

«Adquire a convicção de que no mundo só existem dois sêres: Êle (Deus) e tu» (Tadbirat 232).

 

Note-se semelhante frase de São João da Cruz:

«Vive neste mundo como se existissem apenas Deus e tua alma» (Máximas 345).

 

Estes paralelos, longe de significar dependência da mística cristã em relação à muçulmana, exprimem a experiência que toda alma faz de Deus desde que seja plenamente sincera na sua adesão ao Todo-Poderoso. Já um escritor antigo. Tertuliano (+ depois de 220), afirmava com muita sabedoria: «A alma humana é, por sua natureza, cristã»; o que quer dizer: a alma humana traz em si a aspiração inata para Deus, para Deus que se revelou ao mundo através do mistério da Encarnação, ou seja, por Jesus Cristo.

 

Fora dos poucos casos em que houve genuína experiência mística entre os pagãos, a maioria dos episódios registrados entre estes Com o aspecto de «mística» se refere, na verdade, a fenômenos naturais' ditos parapsicológicos (a respeito de tais fenômenos, veja-se «P. R.» 11/1958, qu. 1). São, com efeito, casos em que a alma do paciente, sob o efeito de um choque muito forte, é levada a se comportar de modo novo, estranho, como se estivesse padecendo a ação extraordinária de um espírito superior ou de Deus. — É o que se verificará de modo particular na resposta n» 4 deste fascículo, onde se tratará do «faquirismo».

 

Sobre a possibilidade de se darem autênticos milagres entre os pagãos, veja-se «P.R.» 6/1958, qu. 1.

 

2.2. A distância que separa a mística cristã da maioria dos casos de «mística não-cristã» se evidencia bem mediante um confronto das afirmações de autores cristãos e autores não-cristãos (hinduístas, gregos antigos, maometanos). Verificam-se então os dois seguintes traços diferenciais:

 

a) o místico não-cristão se orienta geralmente por concepções panteístas; tende a se identificar totalmente com a Divindade, substância neutra impessoal, que vai tomando facetas na natureza e no homem. O termo final da mística não-cristã é muitas vezes a despersonalização do homem e sua fusão total com o Divino.

Ao invés, a Mística cristã concebe um Deus pessoal, transcendente, com o qual a criatura humana deve entrar em íntima união, sem, porém, se confundir ou identificar com Deus. Sto. Agostinho formulava muito bem esta concepção, afirmando a respeito de Deus: «Superior summo meo, intimior intimo meo. — (Deus) está acima do que o que eu possa conceber de mais elevado, mas também é mais intimo a mim do que o que eu possa ter de mais íntimo». Com efeito, Deus, transcendente como é, se digna habitar a alma do justo mediante a graça santificante, de modo a ser o maior tesouro do cristão ou o Bem que dá valor aos bens humanos.

 

b) Em consequência do seu panteísmo, o místico não-cristão não pode conceber a idéia de «graça» ou de «auxilio que lhe venha da parte de Deus para que ele se eleve»; ele, antes, está convicto de que a experiência mística há de ser o termo de seus esforços pessoais ou de seu «atletismo espiritual»; é o homem quem por si chega a fazer a experiência da Divindade, purificando seus pensamentos e afetos, emancipando-se da recordação de criaturas sensíveis, para dar expansão à centelha da Divindade que é a sua alma.

O cristão, ao contrário, concebendo Deus como Ser distinto do homem e do mundo, professa que a experiência mística é gratuito favor do Senhor que atrai o homem a Si. O cristão sabe, de um lado, que deve ser um atleta heroico na luta contra si mesmo, mas, de outro lado, não ignora que esse heroísmo é antecipado por benévolo auxilio de Deus, de sorte que tudo que o homem faça de belo na procura do Senhor deve ser primariamente atribuído à graça sobrenatural. «Não Me procurarias, se já não Me tivesses encontrado», são palavras que Pascal atribui ao Senhor Deus e que completaríamos dizendo: «Não Me procurarias, se já não estivesses sendo atraído por Mim».

 

2.3. Eis sumariamente indicados os pontos de contato e de divergência que marcam as relações da mística cristã com a não-cristã.

 

O reconhecimento de que fora do Cristianismo pode haver — embora em casos raros e difíceis — autêntica experiência mística ou experiência da presença de Deus na alma do justo, está longe de sugerir relativismo religioso. A única via para que a criatura chegue ao íntimo contato com Deus fica sendo a via do Cristo e da Redenção pela Cruz. Acontece, porém, que nem todos os homens tomam conhecimento explícito de Cristo e do Evangelho; nem por isto a Providência os exclui da sua obra de santificação; podem chegar a grande união com Deus desde que preencham as condições descritas atrás. Note-se que então as graças outorgadas a não-cristãos ainda são dadas em vista de Cristo ou por aplicação dos méritos do Redentor, de sorte que Jesus permanece como Único Mediador entre o Pai e os homens; é destarte que os não-cristãos, sem o saber, recebem graças da plenitude de Cristo.

 

Convém, por fim, observar que foram condenadas pela autoridade da Igreja as seguintes proposições dos jansenistas:

 

«Os pagãos, os judeus, os hereges e outras criaturas humanas que se lhes assemelhem, não recebem influxo algum da parte de Jesus Cristo» (Denzinger, Enchiridion 1295; condenação proferida em 1690 pelo Papa Alexandre VIII).

«Fora da Igreja não é concedida graça alguma» (Denzinger 1379; condenação proferida em 1713 pelo Papa Clemente XI).

 

Em conclusão destas considerações teológicas, o leitor será levado a admirar a multiforme graça de Deus, que sabe tocar o coração dos homens de acordo com o grau de capacidade de cada qual, a fim de levar a todos para a visão face a face do Senhor Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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