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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 033 – setembro 1960

 

Diferença entre Inteligência e Instinto

DESCONFIADO (São Paulo):  «Que diferença há entre inteligência e instinto? Diz-se que os animais inferiores ao homem não possuem inteligência, mas apenas instinto. Por que?»

 

A questão acima tem grande alcance. Visto que «inteligência» designa uma faculdade imaterial ou espiritual, e «instinto» uma faculdade material ou corpórea, trata-se, em última análise, de saber se há ou não diferença entre matéria e espírito ou se existe espírito.

 

Em nossa resposta, proporemos primeiramente as características respectivas do instinto e da inteligência; a seguir analisaremos alguns testes efetuados pelos psicólogos sobre o comportamento do homem e do animal irracional. Dessas premissas poderemos por fim deduzir significativas conclusões.

 

1. Características respectivas do instinto e da inteligência

 

1.1. Que se entende por «instinto?»

«Instinto» (do latim instinguere, impelir, estimular) vem a ser uma modalidade de ação ou de reação dos seres vivos assim caracterizada:

 

a) destina-se a atender às necessidades vitais de conservação do indivíduo.

 

Assim, por exemplo, visa a captura da presa (larva, vermes...), o aprisionamento de víveres (arte muito desenvolvida entre as abelhas, as formigas...), a defesa contra inimigos (tenham-se em vista as várias formas de ninho, o mimetismo de cores, a simulação de morte, a automutilação, as emigrações), a propagação da espécie (seja recordada a escolha de lugares seguros, dotados de alimentação, nos quais certos animais põem seus ovos).

 

b) o instinto é a capacidade de agir inata, anterior a qualquer aprendizagem ou domesticação ministrada pelos genitores ou pelo homem.

 

O patinho, por exemplo, chocado por uma galinha, procura imediatamente a água e nada, apesar dos chamados da ave-mãe espantada; o esquilo faz a provisão de nozes para o primeiro inverno de sua vida (que ele não conhece de modo nenhum), como ele a fará para os invernos subsequentes.

Verdade é que certos instintos não se manifestam senão em determinado período da vida do animal; é o que se dá principalmente com o instinto sexual.

 

Distinga-se entre instintos primários e secundários: os primários são os que não se podem aperfeiçoar, como o de apreender com o bico nos pintinhos ou o de mamar nos mamíferos. Os secundários podem passar por variações devidas à experiência ou à domesticação: assim a modulação do canto em certos pássaros.

 

c) Justamente por ser inata, a atividade instintiva repete-se em todos os indivíduos da mesma espécie. Cada animal possui caracteres morfológicos e fisiológicos próprios, que se encontram em seus genitores e se transmitem aos seus descendentes; ora entre esses caracteres estão os instintos.

 

Assim cada espécie de aranha tece o mesmo tipo de teia; cada espécie de ave constrói o mesmo tipo de ninho, de sorte que com facilidade se depreende, pela análise do ninho, qual o pássaro que o arquitetou. As abelhas de hoje trabalham exatamente como aquelas que Virgílio decantou nas suas «Geórgicas».

 

d) O animal não tem consciência da finalidade a que se destina a ação instintiva. Em geral esta é muito complexa e envolve varias atividades parciais do indivíduo; contudo o animal não sabe que cada qual de tais atividades está subordinada a consecução de um único grande objetivo.

 

À guisa de exemplo de como o instinto é cego pode-se notar o seguinte: caso se substitua o casulo de uma aranha por uma bolinha de cortiça, a aranha arrasta e defende esse elemento heterogêneo como se fosse o anterior.

É este, aliás, o mistério que paira sobre a vida instintiva: de um lado. ela é inconsciente e cega; de outro lado, porém, ela tende certeiramente, e com arte maravilhosa, à consecução de determinado objetivo. Haja vista o modo como a abelha dispõe o seu mel: constrói favos em forma de hexágono de tal modo que possam conter o máximo de mel, com o mínimo gasto de cera.

 

Leve-se em conta outrossim o proceder de certos insetos himenópteros carnívoros: procuram assegurar a subsistência da prole antes que esta nasça; em vista disto, assaltam um grilo, uma borboleta ou uma aranha, que o himenóptero assaltante leva para seu ninho a fim de pôr seus ovos no ventre do mesmo. Surge porém um problema: é preciso que a presa não seja captada morta, pois, uma vez morta, entraria em decomposição e não serviria mais de nutrimento aos filhotes; doutro lado, é preciso que não seja introduzida simplesmente viva no ninho, pois com um golpe de suas patas, debatendo-se, poderia matar o embrião no ovo ou a larva recém-nascida.

 

O problema, porém, resolve-se de modo estupendo. Esses himenópteros possuem um ferrão na extremidade do abdômen com o qual desferem um ou cinco golpes nos centros nervosos motores da vítima, imobilizando-a por completo; a morte, só após longo intervalo decorre desse ferimento. Ora, para atingir tais centros nervosos, requer-se minucioso conhecimento de anatomia e precisão extraordinária no golpear, pois as vítimas são «encouraçadas», de modo que o ferrão do agressor só pode penetrar através de pontos débeis correspondentes às articulações dos segmentos do tórax e do abdômen. O mesmo agressor deve outrossim saber (ou agir como se soubesse) que, assim ferindo, ele imobiliza a vítima sem a matar. Isto tudo quer dizer:... deve ter a competência que somente alguns estudiosos especialistas possuem. — Esta qualidade se torna particularmente notória se se considera que, conforme experiências efetuadas por Fabro, a atividade dos referidos himenópteros é de todo inconsciente.

 

Destarte a vida instintiva vem a ser um testemunho contínuo da inteligência do Criador, que concebeu tais insetozinhos.

Assim caracterizada brevemente a atividade instintiva, pergunta-se:

 

1.2. E que se entende por «inteligência?»

 

«Inteligência» é a faculdade de conhecer típica dos seres espirituais, ou, no caso que nos interessa,... da alma humana. Uma de suas expressões mais óbvias é a de estabelecer relações entre os objetivos que ela conhece. A inteligência tende, sim, a abstrair das notas singulares que determinam tal indivíduo concreto, formulando conceitos universais que se aplicam a todos os indivíduos da mesma espécie; ela apreende também as proporções vigentes entre causa e efeito, entre meio e fim; consequentemente é capaz de refletir sobre as suas próprias ações a fim de as tornar cada vez mais adaptadas à respectiva finalidade.

 

O seguinte exemplo ilustra bem o comportamento típico da inteligência: o homem, tendo por sua inteligência o conceito abstrato de habitação ou mansão, ao construir a sua casa, não se limita a determinado tipo de arquitetura nem a uma só espécie de material de construção (pedra, madeira, barro, etc.); ao contrário, o mesmo arquiteto pode edificar as mais diversas habitações, desde o abrigo de emergência até o imponente arranha-céu; cada uma dessas mansões preenche a sua finalidade dentro das circunstâncias em vista das quais ela foi concebida. O animal irracional, ao contrário, se restringe a um único tipo de atividade construtora; cada espécie e às vezes cada subespécie, provê de maneira uniforme ao arranjo de seu ninho ou de seu antro, sem avaliar a aptidão de tal procedimento à luz da situação concreta em que o animal se encontra; donde se depreende que o irracional carece da faculdade de perceber as proporções vigentes entre os diversos objetos que o cercam.

 

Procuremos desenvolver estas breves noções de instinto e inteligência, analisando mais alguns exemplos fornecidos pela Psicologia Experimental.

 

2. Algumas experiências significativas

Proporemos os casos que interessam ao nosso estudo, classificando-os como abaixo se vê:

 

2.1. Dependência e independência de circunstâncias particulares. No animal irracional, a atividade dos sentidos influi de maneira poderosa sobre o respectivo ritmo de vida; o animal dirige a sua conduta em estreita dependência das informações que os órgãos dos sentidos, «aqui e agora», lhe comunicam; os irracionais cujos sentidos tenham sido mutilados, experimentam notável diminuição de sua vitalidade, chegando por vezes a morrer sem demora. O mesmo não se dá com o homem; este parece ter, além dos sentidos e dos instintos que a estes estão associados, um princípio de atividade que transcende sentidos e instintos. Em outros termos: o homem caracteriza os objetos de seu conhecimento, de modo a reconhecê-los em qualquer situação, independentemente do quadro em que os conheceu pela primeira vez. É o que as seguintes observações ilustram:

 

Uma galinha que esteja a chocar cuidadosamente os ovos, caso venha a quebrar um deles, come tranquilamente o seu conteúdo como se não fora o objeto que ela anteriormente tanto acalentava.

 

O naturalista Volkelt refere que uma espécie de aranha, a «Zilla», além de construir a sua teia, fabrica também um ninho no qual ela se oculta; logo que vê um inseto capturado pela teia, precipita-se sobre ele. Caso, porém, o mesmo inseto lhe seja oferecido dentro do próprio ninho, tal aranha foge, como se não o reconhecesse.

 

Bierens de Hann narra que os pólipos se mostram geralmente muito atentos e rápidos na caça de pequenos caranguejos; desde, porém, que tais animaizinhos lhes ocorram atados a um fio, fogem assustados.

 

Desses fatos parece poder-se concluir que, para a galinha, uma coisa é o ovo inteiro, visto no conjunto dos demais ovos a ser chocados; outra coisa é o ovo quebrado. Para a aranha, uma coisa é a mosca na teia; outra coisa, a mosca no ninho. Para o pólipo, uma coisa é o caranguejo que caminha livremente; outra coisa, o caranguejo que aparece na água pendurado a um fio. Dir-se-ia que o animal irracional contempla cada quadro isoladamente, não chegando a relacionar umas com as outras as situações em que se acha.

 

No ser humano, ao contrário, embora o uso dos sentidos seja de grande valor, a ausência de um ou mais destes não impede intensa atividade psíquica. Foi o que se deu, por exemplo, com Helena Keller, a qual, cega, surda e muda, alcançou elevado grau de cultura, chegando a redigir obras de filosofia. Outras pessoas, mutiladas em sua vida sensitiva, puderam não obstante, aprimorar sua formação intelectual. — Note-se outrossim: o homem pode dizer «o ovo, a mosca, o caranguejo», sem se referir a determinado ovo, a determinada mosca ou a determinado caranguejo... A verificação destes fatos permite concluir, como já o fizemos, que a atividade psíquica do homem emerge acima dos sentidos e dos objetos sensíveis que o cercam.

 

2.2. Domesticação do animal e educação da criança. Há certos animais domesticados que parecem tão espertos ou «inteligentes» quanto um ser humano. Tal é o caso, por exemplo, dos macaquinhos de circo, que executam exercícios em trapézio, montam a cavalo, andam de bicicleta, tocam acordeão, fumam cigarro, comem à mesa com fidalguia, etc. Dir-se-ia que entre esses animais e um homem educado há mais afinidade do que entre um índio das selvas e um cidadão do séc. XX.

 

Observando de mais perto, porém, o estudioso verifica que, aquilo que o macaco executa de estupendo, ele o faz unicamente para imitar o comportamento do homem, sem perceber o significada intrínseco de seus atos (não foi em vão que os antigos deram ao macaco o nome de «simius», isto é, simulador ou imitador). Em outros termos: a conduta do macaco se deve a mera associação de imagens ou de impressões; ele aprende cegamente (isto é, sem saber porque) a realizar tal gesto ou a efetuar tais e tais ações desde que seja impressionado por tal estímulo. Com efeito, o animal que aprendeu alguma «arte», nunca evolui nem se aperfeiçoa na execução da mesma; jamais chega ao limite máximo de suas possibilidades; ele apenas tolera a arte que lhe ensinaram, sem perceber a finalidade da mesma. Desde que se veja emancipado do seu domesticador, liberta-se dos costumes que aprendeu, ou emprega despropositadamente os instrumentos que ele antes parecia manejar com sabedoria.

 

Assim um macaco pode aprender a comer com a colher; desde, porém, que o homem o deixe entregue a si mesmo, tal animal usará da colher para brincar ou para qualquer outra atividade, não, porém, para comer. O macaco que toca acordeão, assim que o pode, serve-se deste instrumento como se fôra um trampolim, um projétil ou um bastão para atingir determinada fruta. O símio que veste trajes humanos, não consegue deixar de comer seus próprios excrementos, apesar dos muitos castigos que lhe são infligidos.

 

Estes dados mais uma vez mostram que o irracional não possui a capacidade de apreender proporções ou de perceber as relações vigentes entre meio e fim ou entre causa e efeito.

 

A criança, ao contrário, após aprender a manejar determinado instrumento, tende a perscrutar as leis do seu funcionamento, chegando a desmontar tal objeto, a fim de se tornar consciente das causas dos respectivos efeitos. Se possível, a criatura humana, tendo percebido as relações que existem entre as diversas partes do instrumento, ainda procura aperfeiçoar a este, tomando-o mais adaptado à sua finalidade.

 

Em outros termos dir-se-á: o irracional vive exclusivamente no presente; utiliza, sim, conhecimentos adquiridos no passado, mas apenas na medida em que beneficiam a situação presente; não possui a capacidade de se emancipar das circunstâncias atuais para conceber de algum modo também o futuro; é isto que comunica à conduta do animal a índole prática e realista que por vezes suscita a nossa admiração. — O homem, ao invés, tende a abarcar os acontecimentos passados e presentes numa só visão de conjunto, na qual o futuro já é previsto e contemplado; ao desenrolar sucessivo dos acontecimentos o homem costuma dar uma interpretação, procurando os fios condutores ou as linhas mestras da história; e é por essa interpretação ou por essa «filosofia» que a pessoa humana costuma primariamente guiar a sua conduta; a situação concreta de determinado momento não toma então senão valor secundário.

 

A título de complemento, sejam aqui mencionados alguns animais famosos, que já foram tidos como seres dotados de inteligência: o cavalo Hans. de Berlim, os cavalos de Elberferd, o cão de Mannheiin, os macacos Maia de Viena e Basso de Francoforte...; movendo tabuinhas portadoras de letras e números, esses animais pareciam saber ler, entender uma língua, distinguir as pessoas pelos respectivos nomes, executar difíceis operações matemáticas... Contudo a atenta análise das circunstâncias desses casos deu a ver que se tratava de meros automatismos, dirigidos por movimentos ou sinais de pessoas presentes e, em particular, dos domesticadores. Na verdade, quando se mudavam as circunstâncias das experiências, as ações aparentemente inteligentes já não se verificavam ou só se processavam de maneira assaz falha.

 

Cf. A. Gemelli, Bestie che pensano e fanno i conti... e uomini che non ragionano, em «Religione e Scienza». Milano 1920, 51-108.

 

2.3. Som do animal e linguagem propriamente dita. Por «linguagem» em sentido próprio entendem-se sons articulados para designar certos objetos. Em toda linguagem há sempre um aspecto puramente fonético ou sonoro (a articulação de sons) e um aspecto psicológico (a atribuição de valor simbólico ou de significado a cada som emitido).

 

Está comprovado que o animal irracional não emite sons dotados de valor simbólico ou significativo; os sons do irracional não são senão manifestações de sentimentos genéricos como a fome, o medo, o atrativo sexual...; constituem a expressão de uma necessidade, nunca uma comunicação intencional; são o movimento reflexo excitado por tal ou tal situação concreta.

 

Verdade é que certos animais, principalmente o papagaio, aprendem a emitir sons semelhantes aos do homem. Verifica-se, porém, que o, animal irracional não sabe fazer uso dos seus sons independentemente da situação concreta em que ele os aprende pela primeira vez; quando se repete (ou quando lhe pareça repetir-se) esta mesma situação, reproduz os mesmos sons, sem perceber o propósito do seu brado. Assim acontece às vezes que, fora de oportunidade e de maneira ridícula, emitam sons outrora aprendidos e emitidos com propósito. É o que se dá, por exemplo, com o papagaio, que, ao ser provocado, repete mecanicamente («inteligentemente») o que lhe foi ensinado; é também o caso do cão que ladra automaticamente, quando se lhe oferece o sinal convencional. A arte de domesticação pouca coisa consegue no sentido de tornar mais plástica, menos maciça ou material a resposta do animal.

 

A criança, ao contrário, com poucos anos de idade, coloca as impressões recebidas pelos sentidos (vista, ouvido, tato, olfato,...) a serviço de uma faculdade de conhecimento superior; esta percebe o significado intrínseco de cada situação, sabe também concatenar os acontecimentos da vida, estabelecendo entre eles relações de causa e efeito, meio e fim. Em consequência, emite sons concebidos bem a propósito, palavras e frases que têm valor perene, universal.

 

Os estudiosos têm realizado experiências muito significativas neste setor. Assim, por exemplo, o casal Kellog permitiu que seu filhinho Donald, dos dez aos dezenove meses de idade, fosse educado ao lado de uma criazinha de macaco chamada «Gua», a qual, no início da experiência, contava sete meses de idade. Os observadores submeteram o filhote de macaco e a criança exatamente às mesmas provas (necessidade de fazer um desvio ou um circuito para alcançar o seu alimento, subir sobre um tamborete, manejar um objeto, obedecer a uma ordem, etc.). Após minucioso confronto, verificaram que durante alguns meses Donald e Gua apresentavam semelhantes reações aos estímulos extrínsecos; respondiam aos mesmos testes com sucesso variável, mas geralmente obtendo empate final; apenas o macaco se mostrava mais hábil e ligeiro nos seus movimentas físicos, enquanto a criança manifestava mais capacidade de prestar atenção. Após determinado prazo, porém, observaram que a criança, por seus progressos, se distanciava do concorrente, de sorte a tornar vã qualquer ulterior comparação. A criança começou a falar propriamente; transpôs o limiar da linguagem, que a caracterizaria como ser humano.

 

A linguagem constitui um pequeno mistério para quem só leve em conta os dados da matéria ou a capacidade que o corpo humano possui de emitir sons.

 

Quem analisa um crânio humano e o de um macaco, não diria que a função da linguagem existe no homem, ao passo que falta no chimpanzé; nem na fisiologia nem na anatomia do homem ha sinais claros e suficientes da faculdade de falar. Na verdade, a palavra não procede de um órgão próprio e exclusivamente seu. O homem fala, sem dúvida, mediante as cordas vocais, mas, ao mesmo tempo, põe em ação a língua, a boca inteira, certas regiões do cérebro, os pulmões, o aparelho auditivo (pois o surdo de nascença é necessàriamente mudo). Ora todos estes agentes se encontram também no macaco evoluído, que deles se serve para emitir sons, nunca, porém, para falar.

 

Deste fenômeno se pode deduzir que as funções orgânicas, corpóreas, no homem são elevadas a um plano superior, ao nível de vida de um princípio não orgânico, mas espiritual, que as coordena e faz servir a seu fim transcendente. «Que o chimpanzé tenha a possibilidade fisiológica de falar, mas na realidade não fale, isto se explica por ser a palavra, em ultima análise, uma função da inteligência ou do espírito» (G. Gusdorf, La Parole. Paris 1953, 4).

 

O fato de que a conduta da criancinha não se diferencia da do macaco nos seus primeiros meses não quer dizer que o bebê não seja verdadeiro ser humano desde os seus primeiros dias, mesmo desde a concepção no seio materno. Apenas as suas faculdades intelectivas permanecem latentes em grau maior ou menor, enquanto não estão plenamente desenvolvidos o cérebro e, em geral, os sentidos que fornecem à inteligência os elementos sobre os quais ela raciocina. À medida que o desenvolvimento se dá, a criança manifesta a presença e as qualidades do seu intelecto.

 

Experiência semelhante à do casal Kellog foi empreendida pela cientista russa Sra. Kohts, que confrontou o comportamento de seu filhinho com o de um chimpanzé a partir de um ano e meio até os quatro anos de idade. Observou que o chimpanzé aprendia, sim, certas façanhas, mas de modo mecânico e rotineiro, sem manifestar tendência a se aperfeiçoar; ao contrário, o menino demonstrava a propensão a realizar trabalho cada vez mais produtivo, ou seja, a superar continuamente os dados que aprendia. Isto é mais uma vez indício de que a criança estava consciente do significado ou das proporções das artes que assimilava, ao passo que o macaco não percebia tais proporções.

 

Assim é com razão que a faculdade de falar constitui o sinal de demarcação colocado entre o reino dos irracionais e o do animal racional ou homem; essa demarcação é inviolável, mesmo ao mais perfeito dos viventes meramente sensitivos.

 

2.4. Instrumentos de trabalho...

 

«Instrumento de trabalho» vem a ser um objeto preparado para a execução fiel de certa tarefa; deve adequadamente corresponder às exigências dessa tarefa; todo instrumento traz em si a marca do emprego que lhe compete. Assim o balde é fabricado para carregar água; toda a sua configuração exprime tal finalidade; o balde pode também ser utilizado como instrumento de defesa ou de ataque; contudo este emprego é evidentemente alheio à idéia que inspirou a fabricação do balde.

 

Ora observa-se que o macaco se pode servir de um bastão para atingir determinado objeto, chegando por vezes a modificar o pau para o utilizar. Tal uso, porém, não pode ser considerado «uso de instrumento», pois de modo nenhum depende do propósito de «proporcionar tal meio a tal fim»; o animal visa apenas alargar, no momento presente, o raio de ação de seu organismo, prolongando com um cajado a extensão de seu braço; não tenciona produzir um instrumento para sempre adaptado à consecução de tal ou tal objetivo. Em consequência, o macaco, depois de haver usado uma vez o bastão para resolver o «caso», abandona-o, ficando na emergência de ter que reconstituir o utensílio quando se vir diante de problema semelhante. O homem, ao invés, além de talhar previamente o seu instrumento, adaptando-o a uma finalidade bem concebida, conserva-o após o uso, tendendo a aperfeiçoá-lo; o mesmo instrumento pode passar para o serviço de outras pessoas, as quais por sua vez introduzem novos melhoramentos no utensílio- assim um instrumento chega a ter existência independente da existência de quem o usa.

 

Os dados que acabamos de enunciar e que poderiam ser multiplicados, exigem agora uma

 

3. Reflexão final

 

3.1. Já não pode restar dúvida de que a faculdade de conhecer, no homem, possui a propriedade de se emancipar dos dados concretos para formular conceitos abstratos e universais, ao passo que o anima] inferior ao homem fica sempre preso ao objeto singular que lhe ocorre.

 

Ora a lógica ensina que a atividade de um ser é a expressão da sua essência íntima Aplicando esta proposição ao nosso tema, deduz-se que no homem o princípio de atividade ou o principio vital não pode ser material nem dimensional, mas há de ser imaterial ou espiritual; é o que se chama «a alma intelectiva», a qual se manifesta tipicamente pela inteligência. No animal inferior, ao contrário, o princípio vital é imaterial; sua manifestação típica é o conhecimento sensitivo, do qual faz parte o instinto, faculdade cega pela qual um vivente provê as exigências primárias da sua conservação.

 

Tal é a diferença entre inteligência e instinto.

 

3.2. Mas pergunta-se: não será essa diferença acidental e superável, de sorte que o animal, hoje tido como irracional, dentro de determinado período se possa tornar racional ou inteligente como o homem?

 

Responder-se-á que não. A diferença não é superável, pois espírito e matéria não se distinguem um do outro apenas por questões de quantidade ou qualidade, mas, sim, por sua essência ou constituição intrínseca. Já Aristóteles (+322 ac) ensinava que toda e qualquer essência é necessária, eterna e imutável. Donde se vê que, de um lado, a essência da matéria nunca virá a ser a do espírito; de outro lado, desde que o homem existe sobre a terra, é portador do psiquismo que hoje o caracteriza, embora nem sempre tenha manifestado toda a riqueza de sua inteligência (sabemos que a inteligência, para se revelar, supõe, além de educação e escola, certo desenvolvimento do corpo; ora é inegável que o corpo do homem primitivo apresentava traços muito mais rudimentares do que o de época posterior, enquanto educação e escola eram reduzidas à expressão mínima).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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