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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 032 – agosto 1960

 

Os Curandeiros

Ciência e Fé

SEQUIOSO (São Paulo): “Os curandeiros e os que exercem a medicina em nome de ciências ocultas ou do S. Evangelho, serão realmente condenáveis, como se diz? Realizam muitas curas maravilhosas. Não será isto o sinal de que Deus está com eles?

 

O exercício da medicina em nome da Religião é algo de assaz comum em nossos dias, até mesmo nas classes mais elevadas da sociedade.

Para proceder com segurança no estudo de tão estranho fenômeno, procuraremos abaixo analisar o comportamento do terapeuta ocultista e o do seu paciente — o que nos possibilitará chegar a algumas conclusões significativas.

 

Na elaboração da presente resposta, muito nos valemos do estudo de Maurice Colinon: «Les Guérisseurs». Paris 1957, na coleção «Le Bilan do Mystêre» No 1. Grasset, éditeur. — Antes de escrever tal obra, o autor realizou demoradas pesquisas no mundo dos curandeiros, dedicando-se, a seguir, à prática do magnetismo durante alguns meses. Guiado por tal experiência, Colinon resolveu escrever, professando «não obedecer a preconceito ou paixão de espécie alguma» (ob. cit. pág. 8).

 

1. A psicologia do curandeiro

 

Observa-se que há curandeiros e terapeutas ocultistas dos mais variados tipos: alguns fazem sobre o paciente uma prece acompanhada de «bênção»; outros dão-lhe um chá específico; outros, água «milagrosa», que o enfermo deve beber ou aplicar à parte doente do seu corpo; ainda outros entregam um «bentinho» ou um talismã... Em geral, cada curandeiro especializa-se no recurso a um desses meios, que ele costuma aplicar independentemente da índole da doença que lhes seja apresentada pelo cliente.

 

Contudo, por muito pobres e monótonos que sejam os procedimentos dos curandeiros, o resultado que estes anunciam e que os pacientes dizem obter, é sempre o mesmo: recuperação da saúde.

 

Deste fato já se deduz uma conclusão importante: na chamada «medicina livre» não é propriamente o remédio que importa e que cura, mas, sim, o homem ou a pessoa do curandeiro.

 

Aliás, isso é bem compreensível. O curandeiro, não tendo estudado a medicina cientifica, não se pode interessar muito pelo diagnóstico científico das moléstias; ele tem que visar muito mais o enfermo do que a enfermidade como tal; a essência da sua arte consiste em estabelecer um contato de pessoa a pessoa com o seu consulente, que o vai procurar frequentemente num estado de ansiosa expectativa. Não estando ligado às normas da medicina científica, o curandeiro pode com destreza amoldar-se à personalidade do seu paciente, procurando «simpatizar» com ele («simpatia» no sentido etimológico de «padecer com..., identificar-se com quem sofre»), ... procurando outrossim corresponder ao temperamento e aos anelos que o enfermo lhe apresenta; em uma palavra, ele se torna para todos «o homem do momento».

 

Transcrevemos aqui dois testemunhos que bem ilustram quanto acaba de ser dito. O primeiro provém de um curandeiro italiano, o Dr. Racanelli, que, para se conformar à lei civil, fez seus estudos de medicina:

 

«O segredo do curandeiro reside precisamente nessa comunhão, consciente ou inconsciente, com o enfermo que nele tem fé. O curandeiro não cura a doença, mas o doente» (F. Racanelli, Le don de Guérison. Delachaux et Niestlé 1951, 33).

 

Confronte-se tal depoimento com o seguinte testemunho, emanado de um médico norte-americano, o Dr. Arnold Hutschnecker, o qual procede estritamente segundo os métodos científicos:

 

«O novo homem de ciência, o especialista, aproxima-se do doente, munido de aparelhagem completa e variegada. Ele vê diante de si não pròpriamente um enfermo, mas uma enfermidade» (Arnold Hutschnecker, La Volonté de vivre. Robert Laífont 1954, 10).

Justamente por não possuir formação de medicina científica, o curandeiro facilmente crê possuir um dom extraordinário — o dom das curas — assim como a missão divina de utilizar essa graça em favor do próximo. É o que explica certos títulos atribuídos a famosos terapeutas de França: «Radar do diagnóstico, Mulher-rádio».

 

2. A psicologia do cliente do curandeiro

 

Maurice Colinon, durante seus dez anos de estudos do assunto, realizou um inquérito junto a doentes que iam procurar os curandeiros, indagando quais os motivos por que assim procediam. As respostas mais frequentemente obtidas eram do teor seguinte:

 

«... porque sabem coisas que todos nós ignoramos». «... porque eles nos compreendem e nós os compreendemos», «...porque os curandeiros restauraram os remédios simples e naturais, já há muito tempo esquecidos».

«... porque o curandeiro é gente de vanguarda.

 

Como se vê, estas respostas não se baseiam propriamente em dados científicos nem em raciocínio rigoroso; são, antes, a expressão de uma benevolência preconcebida para com os curandeiros; estes parecem despertar nos clientes o sentido do «misterioso» ou do «místico», sentido particularmente arraigado na alma de tais pacientes.

 

Outro inquérito do mesmo teor, efetuado pela revista «Présences» (no. especial «Malades et guérisseurs», pág. 56), sugeria semelhante conclusão. Notem-se algumas das respostas então registradas:

 

- certas pessoas confessavam que iam ter com o curandeiro, porque tentavam escapar a uma intervenção cirúrgica ou a internação em casa de saúde;

- outras, ... porque desejavam evitar a compra de remédios caros;

- outras, ... porque o tratamento receitado pelo curandeiro não é doloroso.

 

Sintetizando os resultados de numerosas análises e pesquisas, os estudiosos chegaram à verificação seguinte: à semelhança do que se dá com o próprio curandeiro, também o consulente deste é movido primàriamente por razões emocionais; não examina muito a ciência nem o preparo intelectual do terapeuta; o que, antes, o fascina é a pessoa deste, geralmente apregoada como extraordinária, dotada de poderes taumatúrgicos, de intuições místicas, etc. É a pessoa, e não o remédio, que age sobre ele; verifica-se até que o mesmo remédio aplicado ao paciente por outra pessoa que não o curandeiro «tal», não produz efeito algum.

 

Procurando explicitar ainda mais a psicologia do cliente da «medicina livre», lembraremos o seguinte: o estado de ânimo de quem vai consultar um ocultista é bem diferente do estado de quem se dirige a um médico propriamente dito. Quem vai ao ocultista ou ao curandeiro, se acha em situação de sofrimento exacerbado. Desiludido dos recursos que a ciência costuma indicar no caso respectivo, tal infeliz ouve repentinamente falar de nova esperança que lhe parece sorrir na pessoa de tal ou tal «taumaturgo»; várias curas maravilhosas lhe são relatadas... A impressão é tal que, pondo de lado o senso crítico, o enfermo facilmente conclui: «Porque não tentaria, também eu, uma consulta ao homem portentoso? Afinal de contas, nada perderei com isso!». Enceta então uma viagem que por vezes é longa e penosa, apta a acumular impressões na mente do enfermo; no lugar de chegada, junto ao consultório do «taumaturgo», tem muitas vezes que esperar em condições incômodas, entre dezenas de doentes febris, uns desfigurados, outros quiçá transfigurados pela esperança; enquanto aguardam, vão narrando uns aos outros as maravilhas efetuadas pelo terapeuta; a atmosfera fervilha; o sonho de recuperarem a saúde se torna cada vez mais vivaz e impressionante; dir-se-ia que pouco falta para que se torne realidade!...

 

Chegado finalmente à presença do «taumaturgo», o enfermo, por seu olhar suplicante, por sua voz emocionada, por suas mãos trêmulas, parece exprimir duas coisas apenas: extraordinária confiança no médico e o pedido de que este ponha em ação o seu poder milagroso...

 

3. O benéfico encontro

 

O encontro com a personalidade do paciente não pode deixar de abalar, de certo modo, também a personalidade do terapeuta ocultista; este, estimulado pela atitude confiante de quem assim o interpela, julga-se, ainda mais do que antes, capacitado para socorrer ao infeliz; a fé «na missão que Deus lhe deu» torna-se nele ainda mais dinâmica. Curandeiro e doente assim entram em acordo tácito (acordo que é o efeito da sugestão recíproca): «Não há dúvida, a cura há de ser obtida, não poderá deixar de ser eficaz o recurso aplicado (prece, bênção, água lustral, chá...); o poder do Alto há de corresponder maravilhosamente». O curandeiro põe então em prática a sua arte, com todo o aparato de que ela se costuma revestir. — Tal arte por si é certamente inadequada para resolver a situação; acontece, porém, que ela pode produzir — e de fato muitas vezes produz — o efeito desejado, não por seu valor intrínseco, mas por exercer a função que se poderia dizer de «catalisar», isto é, de acelerar um processo psíquico já iniciado no paciente. Este processo psíquico é que provocará finalmente a cura (real ou aparente, duradoura ou transitória...; isto depende das circunstâncias de cada caso) da moléstia que acabrunha o consulente.

 

Assim se explica que, em não poucos casos, o encontro do enfermo com o curandeiro acarrete realmente a restauração (ao menos aparente) da saúde. O tratamento então é psíquico, e não somático, como se depreende da análise acima (já verificamos, na resposta anterior a esta, que grande número de moléstias somáticas são, pela medicina moderna, intimamente relacionadas com o psiquismo do paciente).

 

Observe-se ainda que, no encontro do enfermo com o seu curandeiro, aquele não é somente passivo nem este somente ativo, mas há entre ambos influência recíproca; talvez mesmo o paciente dê mais do que o próprio curandeiro.

 

Sim; «o doente... reforça no curandeiro a ação da sugestão coletiva... sem a qual o curandeiro nada conseguiria... O doente oferece ao mago aquilo de que este precisa: a sua fé, o seu ato de fé (no poder taumatúrgico do terapeuta). Então estabelece-se o contato... entre dois inconscientes gêmeos, igualmente fracos, igualmente sugestivos, como se um dissesse ao outro...: 'Eu te torno curandeiro', e o outro respondesse: 'E eu, eu te curo'... Muito chama a atenção o fato de que a maioria dos curandeiros não tem confiança em seu próprio poder senão na medida em que essa confiança lhes é imposta pelos doentes mesmos» (Colinon, Les Guérisseurs 111).

 

4. Pesquisas científicas comprovam...

 

A explicação do processo de cura que acabamos de dar, supõe sejam o curandeiro e seu cliente personalidades em alto grau capazes de receber sugestões; ambos se deixam, sim, afetar profundamente pela «onda do momento» e comunicam um ao outro, de maneira extraordinariamente forte, a impressão que tal onda possa causar.

 

Essa afirmação, mormente no tocante aos curandeiros, tem sido comprovada por pesquisas, cujos resultados principais vão aqui brevemente consignados.

 

4.1. Em abril de 1954, realizou-se em Saint-Paul-de-Vence (França) um Colóquio Internacional de Parapsicologia (estudo de fenômenos que ocorrem ao lado — pará, em grego — dos normais, não, porém, contraditoriamente aos normais). Participaram do certame cientistas de renome, como Adlous Huxley e os professores de Universidade Bender (Friburgo), Ducasse (Brown, EE.UU. da América), Eisenbud (Denver), van Lennep (Utrecht), Meng (Basiléia), Meier (Zürich), Servadio (Roma), Thouless (Cambridge), Nrban (Innsbruck), assim como o Dr. Leuret, presidente do «Bureau des Constatations Médicales» (Comissão de Exames Médicos) de Lourdes. Entre os principais pontos do programa de estudos estavam consignadas as «curas paranormais» (sua origem e seu desenvolvimento). Pois bem; sem dificuldade os estudiosos se mostraram de acordo em reconhecer «a importância essencial, única, da personalidade do curandeiro» em tais processos. Em consequência, o Prof. van Lennep propôs a análise aprofundada
da psicologia do curandeiro, da psicologia do paciente, assim como das relações que entre eles se estabelecem por ocasião da terapêutica.

 

Van Lennep pessoalmente submeteu curandeiros holandeses ao teste das «quatro imagens»; o Prof. Heiss fez que outros passassem pelo teste das «pirâmides de cor». Em conclusão, ambos verificaram que tais taumaturgos apresentam entre si profundas semelhanças de ânimo, a ponto de se poder dizer que constituem quase um grupo psicológico caracterizado.

 

Pesquisas ainda mais significativas foram efetuadas pelo Dr. Moser, de Zürich, o qual recorreu aos testes de Szondi, cujo desenrolar é o seguinte: apresentam-se ao cliente seis séries de fotografias, cada uma das quais representa pessoas de tipos psicológicos muito diversos; em cada série, o «sujeito» deve indicar os dois semblantes que mais lhe agradam e os dois que menos o atraem; a escolha há de ser rápida e espontânea, como um reflexo.

 

O Prof. Szondi, ao conceber tal teste, baseava-se na tese de que as escolhas que o homem faz na vida, dependem de genes próprios, responsáveis pela atração ou pela repulsa que tal ou tal pessoa experimenta em relação a tais e tais outras pessoas. Existe, portanto, conforme Szondi, um «genotropismo», tropismo este que vai mover, por exemplo, tal doente a escolher tal médico ou tal curandeiro; os mesmos genotropismos existentes em pessoas diversas provocam análogos comportamentos na vida e fundam uma espécie de comunhão de sortes entre essas pessoas.

 

Pois bem; os testes de Szondi aplicados pelo Dr. Moser a curandeiros suíços levaram às duas conclusões seguintes:

 

1) as curas "paranormais" (no nosso caso:... ocultistas) verificam-se com frequência toda especial entre pessoas associadas entre si por afinidade psicológica da qual elas geralmente não têm consciência).

 

2) «Personalidade fraca» é condição necessária para que se deem tais curas.

Por «personalidade fraca» entende-se aqui «temperamento profundamente influenciável ou sugestionável». Em uma palavra, as duas conclusões acima confirmam o que dizíamos: a terapêutica curandeirista supõe entre o «médico» e seu cliente afinidade baseada em elevada tendência a se deixarem empolgar por misticismo, e misticismo cego ou descontrolado.

 

«Poder-se-ia crer que esse tipo de personalidade (fraca, sugestionável) é nocivo ao prestigio dos curandeiros. De modo nenhum. É, ao contrário, a condição necessária ao seu êxito. Pois o curandeiro por si nada é; ele só é tal, mesmo aos seus próprios olhos, por influência dos doentes que o vão procurar e por influência da fama que estes lhe proporcionam. O ambiente místico é indispensável ao curandeiro. Caso se atenue ou desapareça, o 'dom' desaparece com o ambiente» (Colinon, ob. cit. 105s).

 

A sugestionabilidade dos que se acham envolvidos no curandeirismo, explica que muitos e muitos deles possam estar agindo de boa fé: totalmente empolgados pela situação que se cria em torno deles, não conseguiriam sequer suspeitar algum erro no seu procedimento pessoal.

 

3) Também a grafia dos curandeiros foi submetida a exame... Um grafólogo de autoridade, membro do Conselho da Sociedade de Grafologia de França, tendo analisado a escrita de bom número desses terapeutas, averiguou entre as notas mais comuns as seguintes:

 

- temperamento pouco dado à intelectualidade e ao raciocínio,

- desequilíbrio de glândulas endócrinas (hipófise e suprarrenais),

- nervosismo acentuado.

(Notícia colhida na citada obra de Colinon, pág. 113s).

 

Estes dados fazem eco aos dos testes psicológicos atrás mencionados: a peculiaridade do curandeiro reside no seu psíquico; nada tem que ver nem com ciência pròpriamente dita nem com a intervenção de forças superiores ocultas.

 

2.3. Instituíram-se outrossim estatísticas a respeito das moléstias que mais frequentemente são curadas por via paranormal, verificando-se que em média 83% dos casos bem sucedidos têm por objetivo uma das seguintes doenças: certos fibromas, hipertireoidismo, úlceras do estômago, asma, infecções cutâneas e moléstias ditas «sem causa».

 

Ora a medicina tem averiguado que sobre tais enfermidades a sugestão exerce influência por vezes decisiva.

O assunto já foi abordado na resposta à questão precedente; seguem-se aqui apenas algumas notas complementares.

 

É Colinon quem observa:

«Milhões de seres humanos vivem numa atmosfera saturada de bacilos; contudo somente alguns dentre eles caem doentes, e muitas vezes não são os menos resistentes do ponto de vista puramente fisiológico. Um dos grandes mistérios da vida humana é justamente o de saber porque somos atingidos em tal momento por tal infecção à qual escapamos em outras circunstâncias análogas ou mais propicias à contaminação. Verifica-se assim que não há ‘doenças físicas’ e ‘doenças imaginárias’; há, sim, seres humanos em desequilíbrio, nos quais a moléstia equivale a um brado de alarme» (ob. cit. 117).

 

Ilustrando com uma imagem as idéias acima, o Dr. Hutschnecker escrevia:

«O agente físico que chamamos 'causa da doença' — o micróbio da gripe ou a célula maligna — se relaciona com a doença como o tiro do revólver de Saravejo se relacionou com a primeira guerra mundial» (La volonté de vivre 13).

 

O que quer dizer: a ação do bacilo mórbido é por vezes mera ocasião para que um processo de desordem psíquica latente no íntimo de uma personalidade prorrompa finalmente num distúrbio somático. Se não fôra essa desordem psíquica, o bacilo não lograria efeito.

 

Quanto às moléstias cutâneas em particular (urticária, verrugas, eczemas, etc.), Colinon (que, como notamos no inicio desta resposta, praticou a medicina conforme as normas do magnetismo) assevera que constituem o setor de triunfo de todo curandeiro principiante:

 

«Lembro-me da minha primeira paciente... a qual, já havia dez anos, sofria de eczema crônico. Em duas sessões obteve a cura. Foi o que deu fundamento à minha fama de taumaturgo... Não me lembro de ter alguma vez fracassado em caso de eczema ou de verruga... Basta soprar sobre as verrugas. Era o que eu fazia conscientemente. O enfermo executava o resto, isto é, em horas marcadas efetuava uma série de gestos complicados que eu inventava conforme o caso. O essencial era que tais gestos exigissem muita atenção e muito tempo. — Não se diz, aliás, que o segredo da eficácia dos cataplasmas consiste no fato de exigirem meia-hora de preparativos?» (ob. cit. 119s).

 

Por fim, a propósito das doenças cuja origem não é imediatamente perceptível (doenças ditas «sem causa», como acontece com certas enxaquecas, nevralgias, palpitações cardíacas, insuficiências hepáticas, paralisias parciais), verifica-se muitas vezes que estão profundamente associadas a um estado psíquico perturbado; fígado, coração, estômago se acham, do ponto de vista fisiológico, em condições totalmente normais; de nada adiantaria aplicar-lhes drogas e tratamentos; o que deve ser reformado em tais casos, é o estado de ânimo do paciente; ora é justamente isto o que uma visita ao curandeiro pode muitas vezes provocar (recurso contudo precário, pois, como veremos adiante, não soluciona o problema pela raiz).

 

«O homem que é causa da sua própria doença (sem ter consciência disso, é claro; muitas vezes mesmo, recusando-se a admitir tal hipótese), pode ser causa da sua própria cura. Basta, para isto, que o processo psicológico tome o sentido oposto» (Colinon, ob. cit. 120).

 

Os dados acima corroboram bem o que anteriormente dissemos sobre a importância capital do fator psíquico nas curas dai chamada «medicina livre ou ocultista». Resta-nos agora rematar a explanação propondo breve.

 

5. Reflexão final

 

É inegável que, por arte dos curandeiros, se podem debelar certas moléstias. Contudo a análise de tais curas dá a ver que não se trata de efeitos sobrenaturais, mas, sim, do desencadeamento de forças psíquicas latentes no próprio enfermo e «catalisadas» no momento oportuno pela presença e pela ação do curandeiro. Os progressos da medicina moderna, principalmente a descoberta do caráter psicossomático das doenças humanas, fornecem assim a explicação dos fenômenos do curandeirismo (um ou outro caso talvez leve a supor direta intervenção do demônio).

 

Ninguém negará que a medicina ocultista é muitas vezes praticada por pessoas (terapeutas e pacientes) dotadas de sinceridade. Contudo essa técnica não pode deixar de provocar a repulsa de quem tenha o espírito um pouco esclarecido, mormente de quem tenha o espírito cristão.

 

E por que?

Por dois motivos:

 

1) Do ponto de vista meramente humano ou psicológico, verifica-se que o curandeirismo, longe de extinguir o mal do paciente, apenas o desloca. Sim; o enfermo que sofria de um estado psíquico manifestado por tais sintomas ou por tal doença do corpo, após a cura ocultista passa a sofrer de outro estado psíquico pouco regular; este não se patenteia pelos mesmos sintomas que o anterior, mas tende a se revelar cedo ou tarde mediante nova doença do corpo.

 

De resto, deve-se frisar que o adepto do curandeirismo padece como que um recuo do seu psiquismo, tornando-se semelhante a uma criancinha amedrontada, a braços com suas angústias e à espera das... «fadas» que a libertarão!

Ora está claro que não vale a pena iludir-se com o recurso a tal terapêutica!

 

2) Do ponto de vista cristão, o curandeirismo representa evidentemente um abuso da fé e dos valores religiosos. A fé não é algo que Deus dê ao homem para que se imunize dos males do corpo e da vida presente; ao contrário, Cristo prometeu aos seus fiéis a cruz como instrumento de purificação interior — o que não pode deixar de ser doloroso (cf. Mt 16,24); acontece mesmo que, quanto mais elevado é o grau de perfeição a que alguém se destina, tanto mais também deve contar com a ação da cruz em sua vida (cf. Apc 3, 19).

 

O cristão doente, longe de pretender fazer da Religião o instrumento de sua cura somática, procurará, à luz da fé, rever o seu estado de alma e corrigir os defeitos morais, grandes ou pequenos, que aí possa haver. A fé ensina, sim, que toda enfermidade se prende ao pecado, ao menos ao primeiro pecado (o pecado de Adão), cuja herança todos nós trazemos. Consciente disto, o discípulo de Cristo verá na sua doença um sinal providencial de Deus, que o desperta para um exame de consciência e para a emenda de sua vida, vida quiçá tíbia e sempre suscetível de perfeição maior. A fé, iluminando desse modo o sentido da doença de um cristão, concorrerá eficazmente para tornar a enfermidade profícua, embora a fé não sempre contribua para restaurar a saúde do corpo (valor este que é secundário em comparação com o vigor sobrenatural da alma).

 

Ulteriores esclarecimentos sobre os assuntos aqui explanados se podem encontrar em

«P. R.» 28/1960, qu. 2 e 3 f (distinção entre natural, sobrenatural  11/1958, qu. 1 e preternatural)

«P. R.» 18/1959, qu. 1 f (a influência do demônio no surto de 23/1959, qu. 1 e as doenças)

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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