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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 032 – agosto 1960

 

Doença e Religião

CIÊNCIA E RELIGIÃO

ARIEL (Rio de Janeiro): “Pode-se admitir que as doenças do corpo estejam relacionadas com a consciência moral e com as atitudes religiosas do paciente? Se de fato existe esse nexo, como deve ser entendido?

 

A questão aborda um assunto muito complexo. Se não é possível dizer sempre a última palavra no tocante às origens das doenças, é-nos facultado ao menos discernir alguns princípios importantes em tal setor. Consideraremos, pois, certos fatos muito significativos referentes ao surto de moléstias humanas; esses fatos nos habilitarão a deduzir conclusões valiosas tanto para o paciente como para o médico.

 

A elaboração desta resposta seguirá de perto os dados fornecidos pelo Prof. Dr. Arthur Jores, Diretor da II. Med. Univ.-Klinik, de Hamburgo, Eppendorf, em uma aula inaugural, cujo texto foi publicado na revista «Die Medizinische Welt» de 6 de janeiro de 1951.

 

1. Os dados da Medicina e da Psicologia Experimental

 

1.1. Há cerca de cinquenta anos atrás, as doenças eram preponderantemente consideradas como fenômeno de bioquímica e de física estritamente ditas. O fator psíquico ou a presença de uma alma espiritual no paciente não entrava na consideração dos homens de ciência; tal fator pertenceria ao domínio da filosofia ou das especulações mais ou menos subjetivas dos «metafísicos».

 

1.2. Hoje em dia, diversa tornou-se a atitude da ciência médica: reconhece que a doença é algo que afeta o homem todo ou a personalidade como tal. Não há dúvida, o aspecto bioquímico da moléstia deverá ser sempre levado em conta; não basta, porém, para explicar devidamente os estados patológicos que acometem o ser humano.

 

É o que se depreende, por exemplo, do fato de que o homem costuma «viver (isto é, carregar com toda a sua personalidade) a sua doença» como se fosse parte integrante do seu ser. principalmente se ele sofre de moléstia crônica. O paciente fala da «sua» doença, expressão esta cuja legitimidade os médicos não lhe contestam: a individualidade do doente impregna a sua própria moléstia; mesmo quando os exames de anatomia e as análises de laboratório pouca diferença acusam entre a tuberculose do cidadão A, a do cidadão B e a do cidadão C, verifica-se que as proporções assumidas pela moléstia, a sua evolução e as repercussões da mesma na vida de cada paciente têm características marcantes que não correspondem às pequenas diferenças verificadas pelos exames clínicos. Daí dizer-se que o psiquismo do homem, ou seja, sua vida espiritual influi na configuração dos seus estados patológicos ou melhor, faz parte essencial da estrutura desses estados doentios.

 

A distinção entre matéria e espírito, assim como a existência de uma alma espiritual no homem, aqui pressupostas, já foram explanadas em «P. R.» 5/1958, qu. 1.

 

O fato de que o homem todo vive a sua doença, é comprovado pelo papel de grande vulto que a moléstia desempenha na história dos indivíduos e das sociedades: muitos e muitos mudam seu teor de vida para melhor ou para pior por causa da doença, enquanto outros realizam façanhas de bravura ou notáveis descobertas de ciência por causa de calamidades mórbidas (haja vista ainda recentemente a produção da penicilina e de tantos antibióticos por ocasião da última guerra mundial).

 

As estatísticas nesse setor se tornaram particularmente significativas: mostram, por exemplo, que as doenças são fator econômico de grande peso, pois alta porcentagem de pessoas vive à custa das moléstias de outrem, e não poucas classes de profissionais se consagram totalmente ao cuidado dos doentes: assim na cidade de Hamburgo o recenseamento de 1946 evidenciou que cerca de 90 profissões e 30 setores da economia estavam a serviço dos doentes e da saúde.

 

A afirmação de que a doença no homem não constitui mero distúrbio somático é outrossim corroborada por um confronto com os animais irracionais: estes podem sofrer dos mesmos estados mórbidos que os homens; neles, porém, a doença está longe de ter as mesmas consequências que entre os seres humanos. Isto significa que na criatura racional não somente a animalidade (parte material), mas também as faculdades propriamente humanas (isto é, a parte espiritual do indivíduo) são envolvidas pela doença: a consciência de uma missão a desempenhar na terra, o conhecimento do bem e do mal, a liberdade de arbítrio e outros fatores tipicamente humanos concorrem para exacerbar no ser intelectivo as moléstias que afetam também os irracionais.

 

1.3. A verificação destes fatos tem levado médicos modernos a falar do sentido ou da finalidade da doença, querendo eles com isto frisar que mesmo as moléstias acometem o homem em vista de um objetivo transcendente; sob o governo da Providência Divina, elas devem do seu modo concorrer para que o paciente atinja a vida eterna.

 

1.4. O que acaba de ser dito, deverá agora ser aprofundado por breve análise dos principais estados patológicos que possam afetar o homem.

 

a) As neuroses são, como o nome diz, distúrbios nervosos ora mais, ora menos graves. A psicologia das profundidades tem revelado que tais desordens são, muitas vezes, oriundas de um conflito de consciência (problema típico do espírito). Pode acontecer, sim, que alguém, colocado diante da necessidade de optar entre a virtude e o vício, não se ouse definir; a luta que assim se desencadeia no seu íntimo, chega não raro a provocar a neurose; esta se manifesta então sem que o próprio paciente ou alguma pessoa de sua cercania a saiba explicar. A solução para o caso não será exclusivamente do domínio da medicina: esta se poderá esgotar, sem grande resultado, nas tentativas de tratamento; a cura pertencerá, principalmente, ao setor da moralidade ou da consciência, pois consistirá, antes do mais, em fazer o paciente tomar ânimo e optar decididamente em favor do bem, repudiando o mal.

Eis um exemplo típico de tal neurose:

 

Durante a guerra passada, a Senhora N. foi infiel a seu marido convocado para o exército; terminada a tormenta. soube que ele estava para regressar ao lar. Consequentemente, um problema de consciência se lhe apresentou, cuja solução em qualquer hipótese seria muito árdua: ou romperia com o amante para reconstituir a vida com o marido, ou abandonaria definitivamente a este após lhe haver declarado o que se dera. Pôs-se a refletir, sem. porém, conseguir decidir-se. Começou então a experimentar, principalmente à noite, misteriosas palpitações do coração e sentimentos de angústia, que a fizeram suspeitar de uma doença cardíaca, motivando uma consulta ao médico...

 

Este caso evidencia como alguém pode cair doente por estar vivendo contra a consciência ou por estar envolvido num conflito de pecado e virtude. Muitas vezes a doença é a “solução” para uma situarão desregrada da qual a pessoa não ousa sair por via normal; a doença dispensa de tomar decisão enérgica; é fuga, mas fuga aparentemente justificada e honesta; excita a compaixão do próximo e parece desculpar o indivíduo perante ele mesmo e perante a sociedade (há quem fale das «vantagens» de ser doente; um atestado médico muitas vezes «soluciona» um caso embaraçoso!).

 

b) As doenças orgânicas. Na opinião de bons médicos, hoje em dia não se observa tão rigidamente a clássica distinção entre doença dos nervos e moléstia orgânica: a neurose pode transtornar o metabolismo do paciente de modo a nele provocar uma doença orgânica; há mesmo uma série de moléstias orgânicas que na realidade são muitas vezes tidas como resultado de perturbações nervosas: asma, úlceras, tensão cardíaca, e outras que acometem frequentemente o homem contemporâneo. É o que permite estender, até certo grau, às doenças orgânicas o que atrás dizíamos a respeito das neuroses e dos conflitos de consciência.

 

Em particular, recentes estudos de asma têm corroborado este novo modo de considerar a doença orgânica. Conscientes de que a asma consiste em espasmos musculares provocados pela ação dos mais diversos fatores sobre uma constituição física excessivamente sensível, os médicos procuravam outrora por meios físicos e químicos neutralizar os espasmos para debelar as crises de asma; tal tratamento podia acalmar um achaque asmático, mas não impedia o surto de ulteriores crises. Outro processo terapêutico, já mais radical, visava eliminar as causas de irritação ou os estimulantes nefastos para o paciente; mas também este método se comprovava pouco profícuo, pois a maioria dos asmáticos é «polivalente». isto é, sensível a grande número de influências. Assim as tentativas de curar a asma por processos físico-químicos se mostravam mais ou menos vãs (Mareei Proust era acometido de violentas crises de asma, quando via rosas!). Quando, porém, os médicos se puseram a considerar a índole «funcional» ou o sentido que a asma possa ter numa personalidade humana, averiguaram o seguinte: o asmático é alguém que sofre da angústia mais penosa possível, pois julga achar-se na situação de quem está para se afogar; ora, submetendo-se esse paciente a testes e análises psicológicos, verifica-se que na raiz de uma doença asmática está geralmente uma angústia «existencial», ou seja, uma situação de vida em que a personalidade inteira é profundamente angustiada; em consequência, os clínicos passaram a recorrer à terapêutica psicológica em casos de asma, terapêutica que muitas vezes deu resultados incomparavelmente superiores aos dos métodos anteriores. O asmático, por conseguinte, é frequentemente alguém cuja situação de vida angustiada ou cuja opressão psíquica se exprime numa opressão ou numa angústia física.

 

Também sobre as úlceras do estômago a medicina moderna pode dizer algo de muito valioso. Sabe-se que, de modo geral, as perturbações digestivas são particularmente frequentes em pessoas que se queixam de não ser felizes nas suas tentativas de amar. Já aconteceu que um varão, mal sucedido em sua vida conjugai, tenha começado a sofrer de úlcera gástrica; logo, porém, que se separou da esposa, recuperou a saúde.

 

Experiência muito significativa a este propósito é a que se realizou em 1950 numa clínica sueca. Foram então submetidas a exame psicológico 108 pessoas afetadas de úlcera, apurando-se os seguintes resultados:

 

54 dos pacientes sofriam de conflitos psíquicos agudos;

29 padeciam conflitos psíquicas crônicos;

22 apresentavam sintomas de desequilíbrio psicológico;

3 apenas pareciam não depender de fatores psicológicos.

 

c) As doenças infecciosas. Neste tipo de moléstias, parece mais difícil supor a intervenção de fatores de ordem psíquica. No entanto, observa-se que as epidemias infecciosas não atingem igualmente todos os homens da mesma região (alguns não são mesmo atingidos) nem se alastram igualmente por toda a parte. Essa desigualdade pode muito bem ser atribuída à diversa resistência que os organismos opõem à contaminação infecciosa; há pessoas predispostas a tal e tal doença, como há também pessoas premunidas... Tal explicação é, sem dúvida, válida, mas parece exigir um complemento. Estudos recentes feitos sobre a tuberculose deram a ver o seguinte: o bacilo desta moléstia contamina, inegàvelmente, com mais frequência as pessoas que entram em contato com tuberculosos; analisando-se, porém, o estado psíquico dos pacientes, verificou-se que a tuberculose contagia e se desenvolve principalmente nas fases de crise de consciência por que pode passar uma pessoa.

Eis um caso muito significativo.

 

Durante muitos anos a enfermeira N. dedicou-se zelosamente a uma clínica de tuberculosos, sem ser contagiada. Casou-se e deixou o serviço, passando a viver feliz com seu marido; o tempo de coabitação, porém, foi breve, pois logo o esposo teve que partir para a guerra. A enfermeira, então, obrigada a ganhar o pão, voltou a trabalhar na mesma clínica sem, a princípio, sofrer contaminação alguma. Veio, porém, a apaixonar-se por um homem com o qual estava prestes a contrair união ilícita, quando repentinamente foi vítima de violenta hemoptise... Ora a análise psicológica dessa paciente averiguou que ela se sentia ainda profundamente ligada ao seu legítimo marido e que a voz da consciência lhe censurava claramente a infidelidade que ela estava para cometer. O caso é significativo, porque durante anos a mesma pessoa sujeita ao perigo de contaminação só veio a contrair a moléstia no momento em que seu estado do consciência se abalou.

 

Dir-se-á. porém; «A coincidência do contágio com o desajuste de consciência foi meramente casual!» Esta tentativa de explicação — que nada explica — não é aceita pelos estudiosos, vista a frequência de casos análogos que se têm registrado. Os bons cientistas, levando em conta esses fatos, concluem que a predisposição para a tuberculose e, de certo modo, para as doenças infecciosas em geral está, em parte, baseada na situação psíquica de cada indivíduo; o risco de contrair, uma infecção não depende apenas do perigo de contágio a que cada um se expõe, nem apenas da resistência física de cada organismo, mas também do estado de alma de cada pessoa.

 

d) As demais doenças e, em particular, as moléstias mortais. A todo homem incumbe nesta vida a tarefa de desenvolver as virtualidades de sua personalidade. Ora ninguém negará o papel importante que a doença desempenha no exercício dessa tarefa. O homem receptivo, o homem que se deixa educar pela tribulação, aprendendo a se desapegar dos valores transitórios da matéria, para mais aderir aos do espírito, muito ganha em generosidade e heroísmo ao padecer a moléstia; esta é, para não poucos, a genuína escola de maturidade, escola sem a qual nunca sairiam da mediocridade; nota-se que vários dos grandes vultos da humanidade foram durante toda a sua vida acompanhados por achaques físicos. — É o que nos leva a dizer que, em última análise, toda e qualquer doença tem significado providencial, do qual o paciente deve procurar tirar partido.

 

Em particular, a moléstia que o médico diagnostique como mortal, vem a ser a exortação do Pai Celeste para que o homem melhor se disponha a comparecer diante de Deus. Donde se vê que, fora casos excepcionais, os amigos do paciente podem a este prestar grande benefício revelando-lhe seu autêntico estado de saúde; evite-se que a morte sobrevenha sem que o doente tenha previamente tomado consciência dela.

 

O que acabamos de dizer, tem suas aplicações de grande valor na vida cotidiana, como se verá no parágrafo abaixo.

 

2. As consequências práticas

 

a) Para o paciente, a doença será sempre ocasião de um exame de consciência (o cristão, em particular, sabe que a doença entrou no mundo em consequência do primeiro pecado; cf. «P. R.» 2/1957, qu. 7); a natureza humana, mesmo nos santos da vida presente, será sempre suscetível de correção e melhora.

 

A medicina moderna dispõe de uma série de recursos que costumam produzir com certa presteza a cura do doente. O emprego de tais remédios é muito desejável, pois todo indivíduo, nas circunstâncias normais, tem a obrigação de defender a sua saúde. Acontece, porém, que, atravessando mais rapidamente a moléstia, o homem contemporâneo menos ensejo tem de «cair em si» e tomar consciência do seu estado geral de corpo e alma; a doença assim se torna menos significativa no curso de vida do indivíduo. Em consequência, o paciente, rapidamente curado, continua a carregar consigo os problemas de ordem espiritual que talvez estivessem na raiz da doença debelada; não será para recear então que, apenas parcialmente curado, torne a cair enfermo?

 

«Por isto nós, médicos, conhecemos doentes que uma interminável história patológica traz continuamente à nossa presença. De seis em seis meses, ou ainda mais amiúde, novo achaque se verifica: um resfriado sucede a uma gripe; a seguir, vêm uma furunculose e uma pneumonia com inflamação das cavernas laterais, ou ainda um desastre ou uma fratura, que requerem intervenção cirúrgica, e assim por diante. Nunca em algum desses casos o doente toma consciência do sentido da moléstia. Será preciso, porém, dizer que um enfermo a vacilar constantemente entre a saúde e a doença só se restabelecerá por completo restaurando em si a ordem interior que deve reinar entre a alma e o corpo» (Dr. Arthur Jores, artigo citado).

 

Tais observações merecem, sem dúvida, toda a atenção do leitor sincero.

 

Além disto, nota o Dr. Jores que a medicina moderna, pelos novos recursos que emprega, conseguiu, sem dúvida, prolongar a duração média da vida humana, debelando males que outrora seriam fatais; não conseguiu, porém, diminuir o número de pessoas doentes; antes, este parece aumentar. «Em abono do que afirmo, refiro-me apenas à neurose... que tende a tornar-se a moléstia da nossa época... Poder-se-á debelar a pneumonia, por exemplo, à custa de injeções de penicilina; com isto, porém, ninguém impedirá o paciente de cair em perturbação neurótica por não ter realizado o sentido da sua doença» (Jores, art. cit.).

 

Jores frisa bem que não quer em absoluto depreciar a ciência e a técnica modernas, mas visa unicamente chamar a atenção para um problema de outra índole, pelo qual o enfermo e o médico contemporâneos não podem deixar de se interessar.

Torna-se assim lógico considerarmos agora as consequências dos fatos referidos.

 

b) Para o médico: este, principalmente guando católico, não poderá limitar sua tarefa ao setor somático e bioquímico; verá, antes, no paciente uma personalidade em que o físico e o psíquico são simultaneamente afetados; e procurará, na medida do possível, ajudar o doente a remediar não somente ao corpo, mas também à alma ou à consciência. Incumbe destarte ao médico uma missão que toca as raias do sacerdócio e que de certo modo prepara a função do ministro oficiei de Deus junto ao doente; o clinico não poderá dar por consumada a sua tarefa enquanto ele não tiver procurado fazer o doente tomar consciência do sentido de sua doença, contribuindo a maturidade da sua personalidade. — Está claro, porém, que, para exercer tal encargo, o médico há de ser portador de apurado senso religioso e de esclarecida consciência cristã; sem isto, em vão se esforçaria por solucionar crises de almas; arriscar-se-ia mesmo a causar mais dano do que benefício ao paciente!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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