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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 028 – abril 1960

OS DIVERSOS IDIOMAS E A TORRE DE BABEL

LINGUISTA (São Paulo): «A Sagrada Escritura ensina que as línguas humanas têm sua origem no famoso episódio da torre de Babel ? Veja-se Gênesis 11,1-9».

 

A opinião de que o episódio da torre de Babel elucida a origem das línguas humanas se deve a uma interpretação pouco adequada do texto sagrado (Gên 11,1-9). Para comprovar esta afirmação, percorreremos abaixo as principais expressões ocorrentes em Gên 11,1-9, procurando averiguar o seu sentido autêntico.

 

1. O conteúdo de Gên 11, 1-9

 

1.1. Diz-nos o autor sagrado que, em certa época da história (que ele não determina e que o exegeta moderno não poderia definir com precisão) «a terra inteira falava uma só língua com as mesmas palavras» (v. 1).

 

Visto que o episódio de Babel supõe, por parte dos homens seus protagonistas, o uso de tijolos, os comentadores com razão atribuem o lato ao período neolítico, ou melhor, ao calcolítico.

Merecem atenção no v. 1 (acima citado) as expressões «a terra inteira, uma só língua».

 

a) «A terra inteira» não designa aqui o universo, mas apenas uma região do orbe. Sim ; após o dilúvio (que já foi um fenômeno de extensão restrita; cf. «P. R.» 22/1959, qu. 3, o autor bíblico não se ocupa senão com os descendentes de Noé, ou mais precisamente :... com os descendentes do Patriarca Sem, que era um dos filhos de Noé. Foi portanto dentro do âmbito da população semita (enquanto os filhos de Cam, Jafé e os demais povos não atingidos pelo dilúvio continuavam a viver pacatamente) que se verificou o fenômeno da torre de Babel.


A expressão «a terra inteira» acima referida explica-se muito bem neste caso, se se tem em vista quanto dissemos a respeito do dilúvio (cf. «P. R.» 22/1959, qu. 3): o autor bíblico só se interessava pela história religiosa da humanidade, só queria narrar acontecimentos que tivessem relação com o futuro reino messiânico; por isto os confins do globo, para ele, coincidiam com os confins geográficos da história religiosa: regiões e povos que não tomassem parte nesta história sagrada, ficavam simplesmente fora das perspectivas do autor bíblico.

 

b) Quanto à expressão «uma só língua», não quer dizer propriamente que se falava um só idioma na região anteriormente mencionada; antes, conforme o expressionismo dos antigos povos orientais, significava unidade de cultura, religião, costumes — e também de idioma — vigente em determinada zona terrestre. Assim os antigos reis assírios e babilônios, entre os quais Tiglatpilesar (cerca de 1100 a. C.), afirmavam «ter tornado tal país de uma só língua» ou «ter tornado tais homens de uma só boca», querendo com isto significar que haviam extinto as particularidades nacionais ou haviam imposto a este ou aquele povo vencido a cultura, a religião, a mentalidade — e também o idioma — do povo vencedor. Ao contrário, «tornar múltipla a língua de um povo» significava cindir a sua unidade de mente, ou seja, de cultura, política e religião.

 

Destas considerações se depreende que o autor sagrado em Gên 11,1 tinha em vista os homens de determinada região do globo quando se achavam unidos entre si pela mesma mentalidade, pelos mesmos costumes e, consequentemente, também pelo mesmo idioma.

 

1.2. Pois bem; tais homens resolveram emigrar para Sinear (ou Sumer), pequeno território da Babilônia Meridional (v. 2). Nesta região decidiram «construir com tijolos e asfalto uma cidade e uma torre cujo nome chegasse até o céu ; esta obra lhes granjearia um nome famoso sobre toda a terra» (cf. v. 3s).

Que quer isto dizer ?

 

O sentido da frase muito depende da interpretação da expressão «uma torre que chegasse até o céu». Ora esta não é rara na antiga literatura oriental («sag-an-she-il-la», dir-se-ia em língua suméria); significava simplesmente «muito alto».

 

Gudéia, por exemplo, .rei de Lagash, em cerca de 2500 a. C., vangloriava-se de que a E-ninnu, torre por ele construída em Lagash, «se elevava até o céu», de que «o céu estremecia diante dela» e «seu esplendor imponente atingia até o céu».

 

Nabopolassar, rei da Babilônia (cerca de 625 a. C.), dizia ter recebido de seu deus Marduque a ordem de edificar uma torre, «fixando o fundamento da mesma no coração do Arallu (isto é, dos infernos ou nas entranhas da terra) e fazendo chegar o seu cume até o céu».

 

Reconstituindo melhor o ambiente antigo, verificamos que a torre muito elevada de Gên 11 deve ser concebida à semelhança das «ziggurats», Tôrres características da arquitetura babilônica, que as escavações têm trazido à luz: tinham a forma de uma pirâmide a degraus ( três, quatro, cinco, sete degraus), à imitação de uma montanha (ou da montanha do mundo, pois os antigas babilônios concebiam a Terra como uma grande montanha); eram monumentos religiosos ou templos pagãos. A mais famosa dessas torres, na cidade mesma de Babilônia, era chamada «E-temen-an-ki» (= Casa do Fundamento do Céu e da Terra), dedicada ao deus Marduque, que não era outra coisa senão o poder político da Babilônia divinizado (à semelhança da deusa Roma no Império Romano); os sete degraus dessa pirâmide simbolizavam a montanha deste mundo, sendo o sétimo a morada de Marduque, também chamada «Casa da Montanha»; a torre media 100 ms de altura; outros tantos tinha cada lado de sua base. No alto dessa torre,observavam-se os fenômenos astrais, que os babilônios consideravam como oráculos divinos a respeito do futuro.

 

Estes dados de arqueologia permitem-nos reconstituir o significado do empreendimento dos homens de Sinear: desejavam construir obra predominantemente pagã ou, mais precisamente, aspiravam a fundar um centro político e cultural que tivesse domínio universal; seria baseado na pujança dos respectivos construtores soberbos; estes divinizariam a si mesmos e ao seu poderio humano; o símbolo desse poderio deificado seria a torre muito alta, o templo pagão que eles queriam construir. Em suma, pode-se resumir o empreendimento da população de Sinear nos seguintes termos: homens que «tinham uma só língua» (unidade e concórdia entre si) resolveram afirmar e corroborar essa unidade e concórdia renegando a Deus e apoiando-se unicamente nos recursos da soberba apóstata.

 

Como se vê, vão seria crer que os homens de Sinear tinham a intenção de escalar os céus mediante a sua torre. Será preciso, ao contrário, deixar à expressão «alta até o céu» o seu sentido figurado.

 

A história atesta que na antiguidade os reis e príncipes costumavam construir cidades ou ao menos monumentos que simbolizassem seu poderio político, divinizando assim o nome e as qualidades do respectivo fundador: Alexandre Magno fundou, sim, Alexandria no Egito; os Diádocos, Generais que lhe sucederam no governo do Império helenista, seguiram-lhe o exemplo, fundando uns (os Antíocos) cidades com o nome de Antioquia; outros (os Filadelfos), cidades com o nome de Filadélfia. Já antes destes, aliás, Ramsés II do Egito dera seu nome a uma cidade do delta do Nilo. Na própria Escritura Sagrada, lê-se que Absalão, o qual não tinha filhos, erigiu um monumento para conservar a recordação do seu nome (cf. 2 Sam 18,18).

 

1.3. Qual a atitude do Senhor Deus perante o empreendimento de Sinear ?

 

Diz o texto sagrado que o Senhor houve por bem «confundir a linguagem dos construtores, de modo que não entendessem mais o idioma uns dos outros. Foi assim que o Senhor os dispersou... e eles deixaram de construir a cidade» (w. 7s).

 

Em outros termos: é óbvio que os homens ímpios, tendo-se separado de Deus, não conheceriam limites em sua arrogância, mas procurariam fazer as vezes de Deus neste mundo. O caso era típico; repetir-se-ia sucessivamente através dos tempos, diversificado apenas por circunstâncias secundárias (haja vista o endeusamento do Estado ou do poder político verificado até em nossos tempos). Por isto o Senhor resolveu intervir em Sinear, visando demonstrar uma vez por todas quão pouco valem os intentos de grandeza humana concebidos longe de Deus ou contrariamente a Deus. Em consequência, o Senhor houve por bem desbaratar os desígnios dos homens arrogantes de Gên 11.

E como procedeu ?

Diz o texto que Deus provocou confusão de línguas, de sorte que os construtores não se entendiam mais entre si.

 

O sentido desta afirmação é claro à luz do que dissemos atrás: o Senhor permitiu primeiramente que os homens orgulhosos começassem a divergir entre si quanto à sua mentalidade e ao seu modo de pensar; em consequência, tiveram que interromper a construção da grande torre e foram-se dispersando em grupos, constituindo tribos e povos estranhos uns aos outros; essa dispersão, por sua vez, acarretou naturalmente a diversificação de culturas e de idiomas. Como se vê, esta última foi apenas a consequência remota de uma divisão mais profunda, que é a divisão das mentalidades; não foi o objetivo primariamente visado por Deus em Sinear; ter-se-á produzido conforme o processo natural e lento de evolução das línguas humanas.

 

Eis o que observava em 1948 o Pe. Vosté, Secretário da Pontifícia Comissão Bíblica:

 

«As línguas evidentemente não se confundiram nem multiplicaram de um dia para outro; a filologia comparada prova que as variações dos dialetos se produzem de maneira lenta e constante» (Carta da Comissão Bíblica, em «Angelicum» 25 [1948] 161).

 

Por sua vez, já no séc. IV São Gregório de Nissa, bispo na Ásia menor, notava que as línguas humanas se devem ter diversificado lentamente, segundo o ritmo de formação dos povos (Adv. Eunom. XII).

 

Assim o episódio de Gên 11 não narra um milagre quanto à substância, pois a multiplicação de idiomas é em si um fenômeno natural, normalmente repetido no decorrer dos séculos. Narra, porém, um milagre quanto ao modo como se realizou tal fenômeno; com efeito, o Senhor Deus deve ter acelerado a ação dos fatores naturais, permitindo que a dissensão dos homens em Sinear se desse mais ràpidamente do que seria de esperar. Os israelitas, porém, não costumavam distinguir entre a ação direta de Deus e a ação indireta, isto é, provocada por etapas mediante agentes criados; por isto é que o autor sagrado em Gên 11 atribuiu imediatamente a Deus um efeito que se deve ter dado por intervenção de fatores naturais.

 

1.4. Por fim, o texto bíblico faz notar que a cidade inacabada recebeu o nome de Babel, «pois foi lá que o Senhor confundiu a linguagem da terra inteira e foi de lá que o Senhor os dispersou pela superfície de toda a terra» (v. 9).

 

O nome de Babel é pelo escritor bíblico derivado do verbo hebraico balal (= confundir) conforme mera assonância ou etimologia popular, que não corresponde à verdadeira origem do nome Babel; este vem de Bab-ill e significa «Porta do Deus». Tais derivações populares ou jogos de palavras não são raras na S. Escritura (cf., p. ex., Gên 4,1.25; 5,29). Não é portanto, necessário que, na base dessa indicação filológica, identifiquemos a cidade de Gên 11 com a capital da Babilônia; não se poderia determinar com precisão onde se deu o episódio descrito pelo autor sagrado. Este atribuiu à malograda cidade de Sinear, que era símbolo do orgulho, o nome de Babilônia, pois esta na história sagrada se tornou realmente o símbolo do poderio deste mundo que se faz grande e insolente contra Deus (tenha-se em vista como no Apocalipse 18,21-19,5 Babilônia aparece qual símbolo dos impérios deste mundo que em sua soberba e arrogância se levantam contra o Senhor). Ainda havia outro motivo para que  o autor associasse entre si «Babel» e «confusão de línguas»: durante certo tempo, sim, na antiguidade, Babilônia se tornou o principal centro comercial do mundo, para onde afluíam negociantes e legados políticos das mais diversas nações (cf. Jer 51,44); dai a. conexão que os antigos judeus espontaneamente estabeleciam entre “Babilônia” e “multiplicação de línguas”.

 

2. Os ensinamentos perenes do episódio de Babel

 

2.1. Antes do mais, o episódio dá a ver a mais triste das consequências da apostasia ou da impiedade: não há dúvida os homens, separando-se de Deus, se separam naturalmente uns dos outros; impossível é a união fraterna entre homens que não se apoiem no Senhor; a soberba, o endeusamento das forças humanas não são fundamentos sobre os quais se possa erguer um sistema de filantropia e colaboração entre os indivíduos e os povos. Se os homens não se unem com Deus para se unir entre si, vãos se tornam todos os seus planos de assistência e cooperação mútuas. Não é possível sanear as consequências do pecado original, que tornou o homem egoísta e egocêntrico, mediante propósitos ou recursos meramente humanos.

 

Vê-se assim que o texto sagrado não quer ensinar qual tenha sido a origem das línguas humanas; seu significado é muito mais importante, pois é religioso, não propriamente filológico: diz-nos que o antagonismo das nações humanas, ainda hoje tão patente e atual, tem suas raízes na impiedade religiosa, ou no fato de que os homens abandonaram a Deus.

 

2.2. É interessante notar como também fora do povo judeu, entre os pagãos, os homens tinham consciência de que a diversidade de idiomas, fomento de divisão entre as nações é uma desgraça, é mesmo o castigo de um pecado.

 

Assim, conforme os persas, a multiplicidade de idiomas provém do deus mau Arimã, que introduziu cisão entre os habitantes do globo, ensinando-lhes trinta línguas.

 

Uma lenda hindu conta que os homens certa vez quiseram chegar até o céu subindo por uma árvore tão alta que o atingia; todavia a árvore foi esfacelada e seus ramos espalhados pela superfície da terra; tal árvore, para os hindus, significava a união do gênero humano, mediante a qual os homens se sentiam tão fortes que se quiseram igualar à Divindade; esta, em consequência, desbaratou os habitantes do globo.

 

Os sumeros, movidos pelos mesmos sentimentos, faziam entrar a unidade de língua na descrição da passada idade de ouro:

«Naqueles dias não havia serpente, nem escorpião, nem hiena, Não havia leão, nem cão selvagem, nem lobo; o medo e o terror não existiam; O homem não tinha rival.

Naqueles dias Shubur, a terra da abundância, dos decretos justos, Sumer, com a sua linguagem harmoniosa, o grande pais dos decretos dos príncipes, Uri, a terra que tinha todo o necessário, o país de Martu, que permanecia em segurança, o universo todo inteiro, o povo uníssono, a Enlil, numa sã língua, dava o louvor».

 

No verso final, note-se que Enlil era uma divindade sumérica (mesopotâmica).

 

Consequentemente, na literatura bíblica do Antigo Testamento a volta dos povos à unidade de uma só família e de uma só religião faz parte dos bens messiânicos. É o que promete Isaías:

«Naquele dia haverá cinco cidades na terra do Egito que falarão a língua de Canaã e que prestarão juramento ao Senhor dos exércitos». (Is 18,19).

 

A língua de Canaã é o hebraico; e, como se depreende do contexto, a adesão ao idioma implica adesão à religião de Israel (assim como a separação das línguas, conforme o episódio de Gên 11, fora fomento de idolatria).

 

Note-se ainda Sofonias 3,9: «Naquele tempo (messiânico) darei aos povos lábios puros, a fim de que invoquem todos o nome do Senhor e O sirvam de comum acordo».

 

2.3. Aos sentimentos dos homens antigos e, em particular, de Israel, que viam na cisão das línguas um instrumento de discórdia entre os homens, Deus se dignou responder na plenitude dos tempos, mandando o Redentor ao mundo. Como se sabe, a missão terrestre de Cristo foi consumada por uma multiplicação de línguas devida ao Espírito Santo no dia de Pentecostes.

 

O Espírito de Deus multiplicou então as línguas dos Apóstolos, a fim de que o mesmo instrumento — a divisão dos idiomas — que no Gênesis significava a dispersão dos homens, servisse para produzir efeito contrário, ou seja, para congregar num só reino os povos até então divididos e hostis entre si: em Pentecostes as múltiplas línguas, atingindo cada indivíduo com suas particularidades étnicas, geraram unidade de sentimentos nos ouvintes, congregando-os num reino universal, que é o Reino de Deus, a Santa Igreja. O novo ânimo dos homens suscitado pelas línguas de Pentecostes fez que as barreiras antigas de cultura, idioma e interesses já não sejam empecilhos a que todos na Igreja se sintam irmãos, unidos num só ideal: amar e servir a Deus, o que é realmente reinar.

 

O Reino de Deus universal na Terra apresenta-se assim como a resposta do Senhor ao desejo de unidade dos antigos povos ; é também a realização do ideal que os homens em Sinear conceberam conforme a aspiração espontânea da sua natureza, mas que não souberam executar porque, em vez de apoiar em Deus o seu intento de unidade, o quiseram atuar sem Deus, mesmo contra Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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