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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 027 – março 1960

 

Verônica e o Véu

 

VERÔNICA (Porto Alegre): «Que se pode dizer de seguro sobre Verônica e o véu com o qual esta santa mulher terá enxugado a face do Divino Mestre ?»

 

O nome de «Verônica» na literatura cristã pode designar

a) ou uma piedosa mulher, da qual um dos traços hoje em dia mais propalados terá sido o de limpar a face ensanguentada do Senhor Jesus, quando Este carregava a cruz. Em tal caso, costuma-se derivar o termo latino «Verônica» do nome pessoal grego «Bernike, Beronlke»;

b) ou a própria imagem de Cristo gravada sobre uma toalha veneranda. A origem desta estampa é diversamente explanada pelos historiadores cristãos: há quem diga que a efígie resulta do ato piedoso da mulher acima referida, como há quem recorra a explicações independentes dessa, como abaixo veremos. Tomado na acepção de «imagem», o apelativo latino «Verônica» proviria, conforme alguns filólogos, do dístico greco-latino «Vera Eicon» (= Verdadeira Imagem, a saber, de Cristo), dístico certa vez colocado junto à imagem exposta à veneração dos fiéis.

 

O fato é que o nome de «Verônica» vem a ser hoje em dia ponto de cristalização para o qual através dos séculos confluem várias tradições populares, geralmente inspiradas pela piedade simples, pouco ou nada critica, num intervalo que vai do séc. IV até o séc. XVI

Procuremos discernir através da história a evolução das idéias concernentes à «Verônica».

 

1. A Verônica no Oriente

 

O berço das narrativas referentes à Verônica é o Oriente; talvez mesmo se possa dizer com mais precisão: é a cidade de Edessa, na Síria.

 

Com efeito, nessa localidade, em fins do séc. IV ou inícios do V, foi escrito um livro apócrifo (o que, entre outras coisas, quer dizer: livro de estilo muito semelhante ao das Escrituras Sagradas) que narrava os primórdios do Cristianismo na região de Edessa. Labubna, o autor do opúsculo, ai refere que o rei Abgar V Uchama, de Edessa (13-50 d.C.), tendo ouvir falar das curas milagrosas realizadas por Jesus na Palestina, mandou um emissário à presença de Cristo, rogando ao Senhor fosse curar o rei Abgar, acometido de grave enfermidade; Cristo terá respondido não Lhe ser possível deixar a Palestina antes de terminar a sua missão pela cruz e pela ascensão aos céus; haverá, porém, acrescentado que enviaria a Abgar, após a sua volta ao Pai, um Apóstolo que curasse o enfermo. Ora, de fato, assevera o apócrifo, na época prevista, Tadeu ou Adai, um dos 72 discípulos, foi enviado a Edessa, onde realizou grande número de conversões. Nessa história, interessa-nos o pormenor seguinte: o autor narra que Ananias, arquivista e pintor enviado pelo rei Abgar, antes de deixar a presença de Jesus, resolveu fazer um retrato a óleo do Senhor em «cores preciosas»; o monarca recebeu respeitosamente a pintura, foi em verdade curado ao contemplá-la e, em consequência, guardou-a reverentemente em seu palácio.

 

Nesta narrativa, que os críticos, católicos e não católicos, com razão têm na conta de lendária, se acha o cerne das futuras histórias populares concernentes à sagrada efígie de Cristo e à Verônica.

 

Efetivamente, os escritores posteriores deram grande importância ao episódio acima referente ao retrato de Jesus; resolveram, por isto, retocar e embelezar a narrativa, de acordo com o seu bom senso. Um dos tragos do episódio, por exemplo, que não agradou às gerações posteriores, foi a suposição de que Jesus se tenha postado perante a tela do pintor Ananias; isto parecia pouco reverente, quase escandaloso...; em consequência, S. João Damasceno (+749), Hamartolo (séc. IX), Nicéforo Calisto (séc. XIV) referem que Ananias tentou, sim, reproduzir com o pincel os traços de Cristo, mas não o pôde, pois foi ofuscado pelo fulgor do semblante de Jesus; outros escritores, como Cedreno, Xavier, dizem que Ananias, após haver traçado as primeiras linhas, as comparou repetidamente com as do Modelo e verificou que estas haviam mudado... Então, continuam os comentadores orientais, Jesus, que causara tal embaraço ao pintor, houve por bem auxiliá-lo: tomou a tela, dizem uns, aplicou-a ao próprio rosto e nela deixou gravado o seu Divino semblante; outros relatam que Jesus pediu água, lavou o rosto, enxugou-o com a tela do pintor ou até com uma toalha comum, nela imprimindo seus traços.

 

Ananias pôs-se então a caminho de volta para Edessa. Ao passar, porém, por Hierápolis na Ásia menor, deteve-se em uma olaria e ocultou o retrato de Jesus entre dois tijolos; ora durante a noite o vigia viu nesse lugar uma coluna de fogo que se elevava aos céus; deu alarme e a população, tendo acorrido, quis apoderar-se da imagem sagrada, mas esta se reproduziu sobre uma placa de barro da olaria; isto contentou os tumultuosos, que resolveram deixar Ananias continuar viagem com o retrato original; mais adiante no caminho, Ananias com a preciosa efígie curou um paralitico e, finalmente, ao chegar a Edessa, restituiu a saúde ao próprio rei Abgar, que. consequentemente, mandou reservar para o sagrado vulto um lugar de honra no palácio.

 

Como se vê, no decorrer dos tempos, os títulos de glória da lendária imagem se acresceram: a piedade cristã quis dar-lhe origem milagrosa como se não houvesse sido feita por mão humana, mas diretamente pelo próprio Deus. Com outras palavras: a imagem teria sido «aquirópita» (do grego acheiropoíetos, não feita por mão humana).

 

De todos os dizeres acima, porém, apenas se pode reter como certo que, já talvez no séc.. III, existia em Edessa uma imagem de Cristo, cujo autor não nos é conhecido, imagem altamente estimada pelo povo cristão. Os cronistas orientais ainda narram que em 944 a famosa efígie foi transportada para Constantinopla, onde os pintores a reproduziram, dando origem a numerosas imagens, todas tidas como milagrosas e, de certo modo, «aquirópitas».

 

No decurso dos séculos, a veneração dos cristãos quis acrescentar ainda outros traços à história da imagem de Edessa. Interessa-nos aqui apenas o seguinte: alguns escritores orientais asseveraram que Jesus havia enviado sua sagrada efígie não ao rei de Edessa, mas a uma princesa chamada Berenice (ou Verônica); essa princesa, por sua vez, foi sendo identificada com a mulher que o Salvador curou do fluxo de sangue, conforme Mt 9,20-22, pois desde o séc. IV no Oriente a esta mulher se deu o nome de Berenice ou Verônica.

 

Assim é que no Oriente «imagem aquirópita milagrosa» e «Berenice ou Verônica» foram associadas numa só narrativa.

 

2. ...No Ocidente

 

2.1. Entre os cristãos ocidentais, não há noticia da história de Verônica e da sagrada efígie até o séc. VI. Nesta época, porém, ela aparece com suas modalidades próprias dentro de um bloco de escritos apócrifos que se referem a Pilatos. Efetivamente, entre os séc. VI e VII originou-se no norte da Itália o livrinho latino «Cura sanitatis Tiberii» (Cura da saúde de Tibério), ao qual faz eco no sul da Gália o opúsculo «Vindicta Salvatoris» (Defesa do Salvador); em tais escritos narra-se uma história cujas linhas gerais são assim concebidas:

 

Verônica, a piedosa mulher curada do fluxo de sangue por Jesus, mandou pintar a sagrada face do seu Divino Benfeitor. Aconteceu, porém, que o Imperador Tibério adoeceu (como se vê, o monarca romano, nesta modalidade ocidental da lenda, substitui o rei Abgar de Edessa); mandou então um emissário a Jesus (à semelhança, aliás, do que fez Abgar), emissário chamado Volusiano; este, chegando à Palestina, foi informado de que Jesus, o taumaturgo que ele procurava, já falecera; o legado irritou-se consequentemente contra Pilatos, que O condenara, e mandou encarcerá-lo. Volusiano, porém, também ouviu dizer que uma mulher outrora curada por Jesus guardava uma estampa do Divino Mestre; o romano mandou então que seus soldados procurassem a morada da Verônica; tendo-a encontrado, pediram-lhe a sagrada efígie, que a mulher lhes recusou; diante disto, a soldadesca pilhou a casa de Verônica e achou finalmente a preciosa tela escondida dentro do travesseiro de Verônica. Imediatamente levaram o pano para Roma, onde Tibério o contemplou, recuperando sem demora a almejada saúde; o Imperador Romano teria então recebido o Batismo e haveria mandado guardar a sagrada imagem num estojo de pedra preciosa. Uma outra forma, mais tardia, desta «história», em vez de dizer que o emissário imperial arrebatara a imagem de Verônica, afirmava que o mesmo conseguira a ida da santa mulher a Roma com a estampa; Tibério teria sido milagrosamente curado, e Verônica haveria permanecido na Cidade Eterna convivendo com os Apóstolos São Pedro e São Paulo; ao morrer, teria deixado a sagrada tela ao Pontífice São Clemente de Roma.

 

A titulo de complemento, vão aqui consignadas ainda as seguintes variantes da história de Verônica, variantes que, à semelhança do que se deu nas crônicas orientais, tendem a apresentar a sagrada imagem como «aquirópita» ou não feita por mão humana: narram, por exemplo, algumas versões menos antigas que, quando Verônica ia com a tela ao encontro de Cristo para pintar ou mandar pintar a sua Divina Face, o Salvador mesmo, conhecendo o anelo da piedosa mulher, lhe pediu o pano e dignou-se imprimir nele os traços do seu semblante. Certos escritores acrescentam que Cristo fez isto depois que São Lucas em vão tentara três vezes fixar os seus traços sobre a tela (na verdade, não se poderia sequer afirmar que Lucas tenha sido pintor). Outros referem que Jesus, certa vez entrando cansado em casa de Verônica, lhe pediu uma toalha para enxugar o rosto; em recompensa, o Salvador lhe haveria deixado a sagrada face impressa no pano...

 

Merece atenção, porém, o fato de que os escritores latinos, ao referirem tais histórias, jamais indicam onde terá ficado a milagrosa imagem após a época do Imperador Tibério...

 

2.2. Note-se agora ulterior etapa da história de Verônica: sabemos que na Alta Idade Média as cruzadas muito avivaram a devoção dos fiéis para com a Paixão do Senhor. Ora este traço mais acentuado da piedade cristã repercutiu no tema que vimos abordando: ao passo que as primitivas efígies de Cristo apresentavam a face serena ou transfigurada do Salvador, as «imagens de Verônica» posteriores dão a ver o semblante de Cristo ensanguentado e coroado de espinhos. De acordo então com a tendência da época, Verônica, deixando de ser identificada com uma princesa oriental ou com a hemorroíssa, foi concebida qual piedosa mulher que, durante a caminhada de Jesus para o Calvário, Lhe enxugou a face adorável.

 

Esta concepção se deve, pela primeira vez, a Rogério d'Argenteuil, que por volta de 1300 escreveu um comentário da Bíblia Sagrada; foi posteriormente muito difundida pelos autos e mistérios populares que representavam as cenas da Paixão do Senhor com finalidade edificante, assim como pelo exercício da Via Sacra, de que tratamos em «P.R.» 26/1960, qu.8. Foi este o aspecto de Verônica que prevaleceu na piedade dos últimos séculos.

 

2.3 A consequência derradeira de tantas narrativas a respeito de Verônica é que. a partir de fins do séc. XV, se passou a prestar culto explícito a uma «Santa Verônica de Jerusalém», celebrada anualmente aos 4 de fevereiro e tida como padroeira contra o fluxo de sangue. Alguns biógrafos julgaram poder dizer que Verônica de Jerusalém se transferiu para a Gália com seu marido Amator ou Amadour (o qual terá sido o publicano Zaqueu do Evangelho ; cf. Lc 19,2) ; Verônica haveria ajudado eficientemente a evangelização do território de Médoc; apontava-se o seu túmulo na diocese de Bordéus em Soulac.

 

Em Paris «Sainte Venise» tornou-se durante certo tempo a padroeira das Irmandades de lavadeiras e engomadeiras com sede na igreja de Sto. Eustáquio ; era invocada contra os males de vísceras e de cabeça. Houve mais tarde até quem, sem ter autoridade para isso, a quisesse fazer padroeira dos fotógrafos !

 

Contudo, sem demora os estudiosos católicos (como Mabillon, +1707, Papebroch, +1714), assim como as autoridades eclesiásticas denunciaram o caráter lendário da «história» de Verônica. Em consequência, seria condenável toda tentativa de dar foros de historicidade à lenda de Verônica; os doutos católicos, conscientes de que a verdade é a base da virtude, abster-se-ão do falso zelo apostólico de fomentar a edificação dos fiéis mediante a exploração dos traços lendários acima referidos.

 

3. Na basílica de São Pedro em Roma

 

Não se poderá, por fim, deixar de levar ainda em conta o tópico seguinte: famoso se tornou o «véu de Verônica» guardado na basílica de São Pedro em Roma. A origem dessa peça é, como ensinam os autores católicos, assaz incerta: apenas se sabe que desde o séc. XII ela aí goza de férvida veneração. Por essa época, Pedro de Mallio afirmava que, como lhe haviam referido os mais velhos, o Senhor mesmo havia impresso seus divinos traços no véu sagrado quando suou sangue no horto das Oliveiras. — Eis mais uma versão apta a recomendar o véu sagrado, carecente, porém, de fundamento histórico.

 

Não resta dúvida de que as tradições referentes à Verônica são independentes do chamado «véu de Verônica» guardado em São Pedro; este véu é muito posterior àquelas tradições. Conforme o famoso arqueólogo Pe. Wilpert S.J., a venerada peça consta de linho cá e lá marcado por manchas de ferrugem, linho sobre o qual no fim do séc. XII se pintou uma efígie de Cristo (cf. Römische Mosaiken und Malereien H 2. 1924, 1123/25). Várias reproduções desta imagem foram feitas, o que concorreu para difundir a veneração da mesma.

 

O «véu de Verônica» foi transportado para uma das tribunas da cúpula de São Pedro aos 21 de maio de 1606; em ocasiões solenes do ano, como no fim da Semana Santa e na festa de Páscoa, é mostrado publicamente aos fiéis. Ao fazer esta exposição, as autoridades da Igreja não entendem definir algo a respeito da «história» de Verônica e do respectivo véu; este pano sagrado é utilizado apenas como estímulo da devoção dos cristãos, os quais, pela contemplação da face do Senhor padecente, e independentemente das origens do véu a eles apresentado, se devem excitar a um amor mais ardente para com o Salvador e sua obra de imensa misericórdia. Não se faça, portanto, do «véu da Verônica» um documento de história, pois tal não é a intenção da Santa Igreja; colham-se antes, e apenas, os frutos sobrenaturais que a Esposa de Cristo quer comunicar mediante tal devoção.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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