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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 027 – março 1960

Sorte, Azar e Correntes de Orações

FILOSOFIA E RELIGIÃO

AMIGO DO MISTÉRIO (Belo Horizonte): «Pode-se crer que certas coisas deem sorte e que outras deem azar ?

E as correntes de orações (a S. Judas Tadeu, a Sto. Antonio...) serão realmente eficazes?

Porque não valorizar essas coisas e práticas? Se não fazem bem, tampouco farão mal!»

 

É, sem dúvida, muito comum na vida cotidiana ouvir-se dizer que «viajar numa sexta-feira 13 dá azar», mas que «ferradura de cavalo posta atrás da porta de casa dá sorte». Há pessoas que não se querem sentar a uma mesa de treze convivas, mas procuram sequiosas um trevo de quatro folhas; quando querem tomar uma decisão, abrem a S. Escritura e põem o dedo sobre uma frase qualquer, à qual atribuem o valor de oráculo divino para o caso... Estas e semelhantes práticas constituem um tipo de religiosidade que se costuma chamar «superstição» e que em nossos dias vai sendo cada vez mais comum.

 

Veremos abaixo o que se há de pensar sobre o assunto, considerando primeiramente os fenômenos supersticiosos em si mesmos; a seguir, analisando rapidamente a mentalidade do homem supersticioso.

 

1. Porque aconteceria tal coisa ?

 

1.1. Já que a linguística é meio assaz oportuno para se penetrar no conteúdo de um conceito, comecemos por auscultar a etimologia do vocábulo que nos interessa.

 

«Superstição» vem do termo latino «superstitio», que significa «o excesso» ou também «o que resta e sobrevive de épocas passadas». Em qualquer acepção, porém, designa «o que é alheio à atualidade, o que é velho ou degenerescente». Transposto para a linguagem religiosa dos romanos pagãos, o vocábulo «superstitio» veio a designar as observâncias de culto arcaicas, populares, não mais condizentes com as normas da Religião oficial vigente.

 

Sérvio, por exemplo, comentador da «Eneida» de Virgílio, diz que se dava o nome de «supersticiosas» a certas mulheres que atingiam idade avançada; já que sobreviviam a muitas contemporâneas suas, «superstites erant», isto é, «constituíam o resto ou a sobra...». E, como essas mulheres fossem dadas a vãs e aberrantes práticas de piedade, a «superstição» veio a coincidir com a religiosidade pouco esclarecida de pessoas simplórias ou tendentes à decrepitude; cf. In Aeneid. VIII 183.

 

O escritor romano Varrão (+27 a.C.) exprimia muito bem, na sua linguagem politeísta, o que significa essa religiosidade inferior, quando afirmava que «o supersticioso é o homem que teme os deuses como inimigos, ao passo que o homem religioso os reverencia como pais» (citado por S. Agostinho, De civ. Dei 6,9,2). Quintiliano (+120 d. C), por sua vez, notava que «a superstição difere da religião como o homem que procura por curiosidade difere do homem que procura por amor» (De inst. orat. VIII 3).

 

Em suma, vê-se que já entre os romanos pagãos a superstição era tida como uma deterioração ou contrafação da Religião. — Ora é com este mesmo aspecto que ela se apresenta também entre os cristãos.

Focalizemo-la tal como ela aparece nos países de civilização cristã.

 

1.2. A expressão mais comum da superstição entre nós consiste em querer elucidar certos fenômenos (explicáveis pelas leis da natureza) por causas de índole sobrenatural ou misteriosa; introduz-se assim o «pseudo-sobrenatural» ou o «pseudo-divino» em objetos e acontecimentos naturais. E note-se bem que a superstição não prova suas teses, mas supõe, por parte dos adeptos, piedosa credulidade. O homem supersticioso não indaga por que deva haver relação de causa e efeito entre tal agente e tal fenômeno; ao contrário, ele aceita essa relação como fato indiscutível.

 

1.3. Ora esta atitude sugere uma observação importante: o homem, dotado de inteligência como é, não foi feito para aceitar às cegas o que se lhe diz; nem mesmo a mais férvida prática religiosa pode abstrair de uma base racional ou inteligente; a autêntica Religião é sempre o desenvolvimento da personalidade humana como tal; implica, portanto, participação da inteligência do homem piedoso. É o que nos habilita a indagar «por que» creríamos nas associações de causa e efeito que a superstição nos aponta; afinal que é que nos assegura que uma ferradura de cavalo se torna fonte de felicidade para quem a coloca atrás da porta ?... que uma ceia com treze convivas venha a ser mortal para um dos seus participantes ?... ou ainda que a quebra de um espelho acarrete desgraça para o autor desse desastre ?

Para essas perguntas três respostas podem ser conjeturadas:

a) a natureza ou a índole mesma dos objetos em jogo explica as relações de causa e efeito que se lhes atribuem;

b) ou foi o Senhor Deus quem diretamente estabeleceu e revelou tais relações;

c) ou o demônio (os espíritos maus) provocam os efeitos atribuídos a tais e tais objetos ou acontecimentos.

 

Analisemos cada uma destas respostas de per si.

 

a) Não se poderia dizer que aos olhos da inteligência apareça evidente nexo entre «ferradura de cavalo» e «felicidade do homem», entre «sentarem-se treze pessoas à mesa» e «morte de um dos convivas»... Quem considera a essência de cada um desses fenômenos, não vê embebido na mesma o vínculo de causa e efeito que se lhes atribui vulgarmente.

 

Na melhor das hipóteses, verifica-se afinidade extrínseca e vaga entre os fenômenos que a voz popular relaciona entre si.

 

Assim, objetivamente falando, «entrega de uma faca a alguém» é uma coisa; «ruptura de amizade com essa pessoa» é outra coisa, por si totalmente independente da anterior. A voz popular, porém, afirma que «dar uma faca a alguém acarreta ruptura de amizade». Na base de que o afirma ? Não na base de afinidade intrínseca, como se um dos dois conceitos naturalmente evocasse o outro na mente de quem raciocina, mas apenas na base de uma semelhança extrínseca, simbolista, entre faca (instrumento cortante) e corte de amizade. Dessa semelhança, porém, é afoito e gratuito concluir que quem entrega uma faca terá também que cortar uma amizade !... Numa tal afirmação a fantasia toma a dianteira sobre a razão.

 

Dizem outrossim que «quem finca um prego, se preserva do mal e fixa o seu destino para o bem» ! De novo uma semelhança meramente extrínseca, simbolista, funda tal associação de idéias («fincar»... «fixar»), desta vez, porém, já em conflito com a sã razão, pois esta ensina que não há destino ou força cega que prevaleça sobre o livre arbítrio do homem ; cf. «P.R.» 3/1957, qu.4.

 

Observe-se mesmo que às vezes é tão pouco lógica a associação de causa e efeito professada pelos supersticiosos que o mesmo objeto aparece associado a realidades contraditórias. Assim, por exemplo, o número 13 é tido ora como sinal de infortúnio, ora como símbolo de bom agouro.

 

É, sim, considerado como símbolo de desgraça, já que treze eram os convivas da última ceia de Cristo, dos quais Jesus morreu crucificado e Judas Iscariotes se enforcou; a sexta-feira (dia em que Jesus morreu) foi consequentemente associada ao horror que a cifra 13 provocava nas gerações cristãs. Por isto muitas pessoas evitam viajar em sexta-feira 13; em alguns hotéis, não há quarto No 13, mas, sim, No 11a; a numeração dos camarotes de teatro omite por vezes a cifra 13...

 

Como se vê, a crença na má sorte do No 13 parece estar baseada ao menos no testemunho da S. Escritura... — Este testemunho, porém, é tão arbitrariamente entendido e as observâncias que a ele se prendem são tão pouco ditadas pela natureza intrínseca das coisas, que o mesmo número 13 em vastas regiões da terra (até em países cristãos) é estimado como símbolo justamente da boa sorte.

 

O argumento dos otimistas se baseia no fato de que 13 é número afim a 4 (1 e 3 dão 4); ora 4 é simbolo de próspera fortuna... Consequentemente, na Índia 13 é cifra religiosa muito apreciada: os pagodes hindus apresentam normalmente treze estátuas de Buda. Na China, os dísticos místicos dos templos são encabeçados não raro pelo número 13. Também os mexicanos primitivos consideravam o número 13 como algo de santo; adoravam, por exemplo, treze cabras sagradas. — Passando agora de novo a ambientes de civilização cristã lembraremos que nos EE.UU. da América do Norte o número 13 goza de estima, porque treze eram os Estados que inicialmente constituíam a união norte-americana; além disto, o lema da União («E pluribus unum») consta de treze letras; a águia norte-americana está revestida de treze penas em cada asa; Jorge Washington hasteou o estandarte republicano com uma salva de treze tiros. Mesmo em outros países da América e na Europa o No 13 pode figurar em medalhas e bibelôs como símbolo portador de felicidade; por vezes as loterias afixam o cartaz : «Hoje sexta-feira 13, dia de boa sorte.

 

Os exemplas acima dão claramente a ver quanto a associação dos conceitos de sorte e azar com a idéia de 13 é arbitrária. Ninguém, portanto, se deixará abalar pelos prognósticos espalhados «em nome do número 13»...

 

b) Dado que não haja nexo intrínseco entre determinado fenômeno e a causa misteriosa que a superstição lhe atribui, poder-se-ia conjeturar que o Senhor Deus tenha revelado a um vidente que tal ou tal objeto (uma ferradura, por exemplo) ou tal acontecimento (o encontro com um corcunda...) acarretam tais e tais consequências (faustosas ou desgraçadas).

Qual o ponto de vista do cristão diante dessa hipótese?

 

A pressuposta comunicação só se poderia dar mediante o que se chama «uma revelação particular».

Convém aqui recordar a distinção que a S. Teologia faz entre «revelação pública» e «revelação particular».

 

A revelação pública é a manifestação das verdades que constituem o patrimônio sagrado da fé ; impõe-se a todos os cristãos. Com a morte do último dos Apóstolos (São João Evangelista, cerca do ano 100), encerrou-se a revelação pública.

 

Continua a haver, porém, revelações particulares, ou seja, a comunicação de verdades que se dirigem a uma alma só ou a grupos particulares de fiéis, sem se tornar objeto necessário da fé de todos os cristãos. A Igreja não só admite a possibilidade de tais comunicações particulares, mas também deu aprovação direta ou indireta a algumas delas (como às de Lourdes, Fátima, Paray-le-Monial...). A Santa Igreja, porém, examina com certa severidade os fenômenos desse gênero, os quais devem ser autenticamente comprovados, jamais podem ser pressupostos; como dissemos, o conteúdo dessas comunicações nunca se tornará objeto obrigatório da fé de todos os cristãos; ele só se impõe a quem tenha plena evidência de que Deus realmente se manifestou em tal ou tal caso (está claro que quem tivesse essa evidência e não cresse, estaria contrariando a Deus). Cf. «P. R.» 19/1959, qu. 4 e 5.

 

Donde se conclui que os fiéis hão de ser muito cautelosos ao admitir pretensas revelações divinas feitas a tal ou tal santo a respeito da eficácia de determinada oração ou de determinado objeto. Na maioria dos casos em que se apregoam fórmulas «garantidas» ou «reveladas» pelo Céu, não há senão ilusão humana e vã superstição.

 

É certamente isto o que se dá no caso das «correntes de orações» (de S. Judas Tadeu, Sto. Antônio...): o iniciador da corrente manda transmitir determinada prece a treze pessoas, uma por dia, durante treze dias consecutivos, predizendo enormes benefícios para quem o faça, assim como tremendos infortúnios para quem o despreze. — Trabalho perdido, expectativa sem fundamento !...

 

Mesmo quando publicadas com o «Imprimatur» ou a aprovação de um bispo, tais fórmulas estão longe de representar o genuíno pensamento da Igreja. O significado do «Imprimatur» é mais negativo do que positivo; apenas quer dizer que a autoridade diocesana em tal ou tal escrito nada vê contra a fé e a moral cristã; disto, porém, não se segue que a Santa Igreja se empenhe por fomentar a difusão das idéias contidas tia mencionada obra.

 

Convém outrossim que os fiéis se abstenham de resolver as suas dúvidas abrindo aleatòriamente a Sagrada Escritura e tomando como oráculo divino, para o seu caso, a primeira frase bíblica sobre a qual ponham o dedo. Deus não está obrigado a dar resposta no momento predeterminado pelo homem, passando por vias que já não são habituais; a insistência em tal prática poderia equivaler ao que se chama «tentar a Deus», ou seja, exigir do Senhor graças extraordinárias.

 

Quanto às apregoadas revelações obtidas por sonho ou por horóscopo, veja-se respectivamente «P.R.» 16/1959, qu. 2 e 6.

 

c) Removidas a primeira e a segunda hipótese que acima formulamos para justificar as crenças supersticiosas, poder-se-ia ainda conceber que o demônio ou os espíritos maus provoquem os efeitos que em linguagem popular são comumente atribuídos a tal objeto ou tal acontecimento...

 

Em resposta a isto, a fé cristã observa que o demônio não possui direitos definitivamente adquiridos sobre este mundo; o Maligno não tem poder estável ou garantido sobre algum dos elementos do universo. Sobre o homem em particular, ele só consegue prevalecer caso o individuo se entregue voluntariamente à sua ação. É a Providência Divina, e não Savanas, quem governa o mundo. Ora a Providência (tendo em vista a santificação da criatura humana) pode permitir que o Maligno assalte os nossos bens espirituais e materiais; mas não há de antemão indícios de que Ela o permitirá, quando, por exemplo, treze pessoas se assentarem à mesma mesa ou quando um automobilista encontrar um gato negro na estrada ou quando alguém viajar numa sexta-feira 13; da mesma forma não há de antemão indícios de que Satanás se detenha diante de uma ferradura de cavalo ou diante de um talismã pendurado ao pescoço de alguém. Ademais, quando a Providência permite ao demônio tentar o homem, Ela sempre dispensa a graça correspondente para que este não sucumba à maior ou à única desgraça que é o pecado; Deus nunca põe a criatura em situação desesperadora, a braços com forças invencíveis que necessária e mecanicamente acarretem o mal para o homem.

 

A respeito dos malefícios e da sua eficácia, cf. «P.R.» 18/1959, qu. 1.

 

A fim de evidenciar ainda mais claramente que na origem das superstições não há revelação divina nem intervenção sobrenatural, o parágrafo abaixo, recenseando algumas das principais superstições, indicará a razão histórica pela qual elas são apregoadas.

 

2. A verdadeira explicação

 

2.1. Treze: Já à pág. 93 averiguamos os motivos pelos quais o número 13 é tido ora como cifra de mau presságio, ora como símbolo de bom agouro.

2.2. A ferradura de cavalo: é estimada pelo fato de que em Roma outrora, e ainda até o séc. XVI na Itália, as ferraduras de animais eram de ouro ou prata ; por conseguinte, encontrar uma ferradura eqüivalia realmente a encontrar pequeno tesouro.

2.3. O derramamento de sal sobre a mesa: diz-se que quem comete tal desastre, será certamente vítima de desgraça, a menos que lance uma pitada do mesmo sal por trás do ombro. — Afirmam-nos que esta crença tem fundamento bíblico, pois «desastre» semelhante se teria dado por ocasião da última ceia de Cristo (de que livro da Escritura se depreende isto ?) ; além do que, a mulher de Lote foi transformada em estátua de sal por ter olhado para trás em viagem (cf. Gên 19,26)... Como se vê, o fundamento é vago e muito arbitrário ; em absoluto não se percebe nexo entre as narrativas bíblicas e os efeitos apontados pela superstição.

 

2.4. « Quem quebra um espelho, atrai infelicidade sobre si Quem quebra um espelho, atrai infelicidade sobre si ». Por que ? — Porque, dir-nos-iam, a imagem da pessoa refletida no espelho é parte do fluido vital dessa pessoa; quando, pois, a imagem é esfacelada no espelho, o próprio emissor do fluido ou o corpo do indivíduo vai ser prejudicado, tornando-se mais sujeito aos avanços dos infortúnios. — Ora o postulado de um fluido vital é totalmente gratuito; é mesmo ilógico do ponto de vista filosófico, e contraditório a resultados adquiridos por experiências recentes.

 

2.5. «O trevo de quatro folhas, portador do felicidade...». No Piemonte, na Suíça e na França acredita-se que quem encontra tal portento, pode estar seguro de que será feliz por toda a vida. E por que? — Porque o trevo de quatro folhas é coisa rara, como a felicidade é rara... À guisa de comentário, seja licito repetir: analogia meramente extrínseca não implica nexo intrínseco; a associação de conceitos no caso obedece a uma intuição infrarracional; o homem, porém, tem que viver como ser racional.

 

2.6. Pode-se ainda observar que algumas crenças supersticiosas parecem não ter sido originariamente senão normas de educação e prudência; a fim, porém, de as incutir com mais autoridade e êxito, a sabedoria popular (consciente ou inconscientemente) as terá munido com as sanções supersticiosas hoje apregoadas.

 

De fato, não serão simples regras de boa educação as seguintes proposições ?

 

Não comer com chapéu na cabeça (em caso contrário, dizem, o diabo se juntaria aos convivas).

Não derramar sal sobre a mesa.

Não varrer a casa jogando o lixo para fora (a boa sorte também iria embora...)

Não caçoar dos defeitos alheios (acarretaria os mesmos defeitos para o zombeteiro).

Não passar a vassoura nos pés de moça solteira (pois custaria a casar-se).

 

E não seriam meras normas de prudência os seguintes axiomas ?

Não andar de costas (pois os pais do respectivo sujeito morreriam).

Não passar debaixo de uma ponte quando um veículo transita por cima (desastre em previsão).

Não construir uma casa em lugar onde já caiu raio (cairia novo raio).

Não remendar a roupa no corpo de pessoa viva (morreria... Sim; talvez porque a agulha a ferisse mortalmente).

 

Duas pessoas não lavem as mãos na mesma bacia nem as enxuguem na mesma toalha (brigariam...).

 

2.7. Por fim, será preciso levar em conta os recentes estudos de Pavlov a respeito dos «reflexos condicionados». A Psicologia moderna ensina que um órgão humano pode entrar em atividade tanto sob a influência de seus excitantes naturais (remédios adequados, por exemplo) como sob a excitação de estimulantes meramente convencionais. Por conseguinte, caso se diga a alguém que determinado objeto ou determinada fórmula ou determinado tratamento é benéfico para o corpo, pode acontecer que, embora tais objetos ou fórmulas ... sejam de todo indiferentes e inoperantes, a pessoa que, impressionada ou sugestionada, os aplique a si, experimente um beneficio corpóreo. Tal «estímulo-sinal» terá produzido verdadeira reação biológica favorável à cura, por causa da confiança e da convicção do paciente; será oportuno até para recolocar em atividade um órgão paralisado do organismo do paciente.

 

Estas reações, ditas «reflexos condicionados», elucidam a eficácia atribuída a certos processos da «medicina» supersticiosa: trata-se de agentes inócuos em si, mas transformados em fatores benéficos por causa da convicção que o paciente, após haver sido (consciente ou inconscientemente) doutrinado, nutre a respeito de sua «eficácia».

 

Em consequência, vê-se que não há dificuldade em admitir o bom êxito da seguinte receita dos curandeiros: quem queira curar-se de verrugas, procure um osso no campo, friccione a verruga com a parte do osso que estava voltada para o chão, coloque de novo o osso no lugar e vá-se embora às carreiras... O tratamento pode dar resultado, pois afirmam os médicos que a verruga pode ser combatida pela sugestão (cf. Dr. A. da Silva Mello, Mistérios e Realidades deste e do outro Mundo. Rio 1950, 421).

 

Após haver enumerado causas, possíveis e reais, das afirmações supersticiosas, passamos agora, a titulo de complemento e conclusão, a uma breve análise da mentalidade do homem supersticioso.

 

3. A mentalidade do homem supersticioso

 

O que até aqui dissemos, permite-nos concluir que a superstição é expressão do senso religioso decadente. Este, não sabendo mais a Quem se dirigir, atribui poderes e efeitos sobrenaturais ou divinos a causas por si inadequadas.

 

3.1. Explica-se a superstição (mas não se justifica) pelo desejo, inato em todo homem, de encontrar a razão de ser dos fenômenos misteriosos que o cercam. Em vez de raciocinar para chegar à devida solução, a pessoa pode deixar-se mover pela preguiça de pensar ou pela covardia (em suma, pela lei do menor esforço); relaciona então efeitos estranhos com causas ineptas, que impressionam o observador por motivos acidentais ou por semelhança meramente externa com os ditos efeitos. Em última análise, como dizíamos, tal atitude significa decrepitude do. pensamento, fuga do homem a si mesmo e à sua dignidade de criatura racional.

 

Verifica-se que principalmente em períodos de guerras a superstição campeia. Muitos, não sabendo mais como se defender razoavelmente das ingentes calamidades que os ameaçam, recorrem a soluções irracionais ou a objetos apotropéicos (espantalhos do mal). Não tendo mais energias em si para conceber e justificar suas atitudes, muitos então tendem a se definir, guiados não pròpriamente pelo raciocínio (o que acarretaria responsabilidade), mas pelo encontro de sinais que eles indevidamente julgam reveladores de um plano superior ou divino (julgando assim, desembaraçam-se da responsabilidade de suas atitudes). Precário paliativo, que tende a levar ao fatalismo! O supersticioso se assemelha ao doente desesperado, que costuma acreditar em todos os remédios e receitas que lhe recomendam, sem refletir muito, impressionado, de um lado, pelo seu esgotamento e, de outro lado, pela aparente autoridade de quem fala.

 

Sobre estes aspectos negativos da superstição, veja-se «P. R.» 8/1958, qu. 8.

 

3.2. Contudo, apesar de reprovável, a superstição não deixa de ter seu significado positivo.

Chama, sim, nossa atenção o fato de que não somente os ignorantes aderem frequentemente à superstição, mas também pessoas de alta intelectualidade e cultura.

 

Grandes adeptos do positivismo e do ateísmo, como o escritor Émile Zola e o Presidente Mazaryk, da Tchecoslováquia, professaram abertamente suas crendices supersticiosas, apesar de afirmarem não ter fé religiosa.

 

Zola, por exemplo, julgava que os múltiplos de 3 eram números favoráveis; mais tarde preferiu os de 5 e 7. Do seu lado, o músico Chopin tinha horror do número 7; Mérimée, o artista, tinha o número 13 na conta de benfazejo, enquanto Vítor Hugo e Gabriel d'Annunzlo lhe eram contrários. Schubert chamava a cor verde «cor malvada» e abominava-a a ponto de dizer que estava pronto a ir às extremidades do globo para poder evitá-la (outros julgam que precisamente o verde é a cor da esperança).

 

Perguntamo-nos : tão estranhas afirmações serão simplesmente vazias de sentido ?

Não. Elas atestam uma realidade profunda, isto é, o senso religioso inato em todo homem. A Religião é expressão característica e indelével do ser racional ou humano como tal; em consequência, ou ela se aplica ao seu Objeto devido — o Deus transcendente e pessoal, uno, Criador e Salvador do homem —, e assim a inteligência se dignifica;

ou, caso o homem queira negar Deus e crença religiosa, a Religião, longe de se extinguir, toma a forma de um subproduto ou substitutivo, aplicando-se a objetos indignos, levando o homem (até mesmo as mais relevantes figuras da humanidade) a cair em contradição consigo mesmo e a desfigurar-se no absurdo e ridículo.

 

É, sem dúvida, a nostalgia do Divino que, apesar de tudo, se faz ouvir nas afirmações errôneas da superstição. Em outros termos : quando o homem perde a fé numa Providência Divina que governe sabiamente o universo e cada indivíduo, esse homem tende a curvar a cabeça sob o império de uma força dominadora e brutal, criada pela própria fantasia humana.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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