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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS No 25 – janeiro 1960

 

O Pensamento Filosófico de Henri Bergson

LACERDA (Rio de Janeiro):Qual o pensamento filosófico de Henri Bergson, cujo primeiro centenário de nascimento ocorreu em 1959 ? Que significado terá esse filósofo na hora presente?

 

Antes de analisarmos a mensagem filosófica de Henri Bergson, parece oportuno expor rapidamente alguns traços biográficos desse autor. É o que passamos a fazer abaixo.

 

1. Dados biográficos

 

Henri Bergson nasceu em Paris aos 18 de outubro de 1859; filho de família israelita da Irlanda.

Foi sucessivamente aluno e professor da Escola Normal Superior de Paris, onde se doutorou em Filosofia no ano de 1889; Enquanto lecionava Filosofia, não deixava de escrever, produzindo as obras «Matière et Mémoire» (1896), «Le rire» (1900), «L'Évolution créatrice» (1907). Em 1900 tomou-se professor do Colégio de França, onde ensinou com grande sucesso até 1924, ano em que espontaneamente se retirou. Em 1927 conquistou o Prêmio Nobel de Literatura. Passou seus últimos anos afastado da cátedra por motivo de saúde, entregando finalmente a alma ao Criador aos 4 de janeiro de 1941, em circunstâncias que merecem especial atenção:

 

Aos poucos, Bergson, que não professava credo algum, mas se preocupava sinceramente com o problema religioso, foi-se aproximando do Catolicismo: por volta de 1933, após 25 anos de procura e reflexão; começou a afirmar a existência de Deus. De então por diante compraz-se em observar que só o Cristianismo mudara alguma coisa no gênero humano; donde concluía, embora em termos vagos, que só a religião de Cristo poderia salvar a humanidade:

 

«Não creio que a natureza humana possa ser transformada. Quanto mais me adianto em idade, tanto mais adquiro opinião pessimista a respeito dos homens, cujo fundo é formado por interesse, vaidade, inveja, que geram os ódios e as guerras. Contudo essa natureza humana foi abrandada pelo Cristianismo; somente este pode salvar a humanidade, suposto que ela seja suscetível de salvação» (texto transcrito do artigo «A propos du centenaire de Bergson, em «L'Ami du Clergé», 2 de julho de 1959, 421).

 

Evoluindo mais e mais em seu pensamento, Bergson chegou a um ponto em que se aguardava a sua próxima conversão ao catolicismo, como atestam os seus amigos Henry Bordeaux, Jacques Chevalier, P. Pouget e outros. Uma coisa, porém, o deteve até o fim da vida: o amor à condição de perseguido, condição que afetava o povo judeu (ao qual ele pertencia) nos países ocupados pelo nacional-socialismo e que cedo ou tarde se podia tornar também a partilha de Bergson! O filósofo assim se explicava quatro anos antes de morrer, em seu testamento espiritual, datado de 1937:

 

«Minhas reflexões trouxeram-me cada vez mais perto do Catolicismo, no qual vejo a consumação do judaísmo. Eu me converteria, se não tivesse visto preparar-se de alguns anos para cá (em parte grande, aliás, por culpa de certos judeus inteiramente destituídos de senso moral) a tremenda onda de antissemitismo que se vai desencadear sobre a mundo. Resolvi permanecer entre aqueles que serão amanhã perseguidos. Espero, porém, que um sacerdote católico venha fazer sufrágios em minhas exéquias, desde que o Cardeal-Arcebispo de Paris o autorize. Caso não se dê esta autorização, será preciso chamar um rabino, sem, porém, lhe ocultar, e sem ocultar a quem quer que seja, minha adesão moral ao Catolicismo e meu desejo previamente formulado de ser assistido pelas orações de um sacerdote católico» (transcrito da fonte acima citada).

 

A este trecho de Bergson, Jacques Chevalier, no seu valioso estudo «Bergson et le P. Pouget» (Paris 1954), acrescenta o seguinte comentário:

 

«O testamento é datado de 8 de fevereiro de 1937 e assinado por H. Bergson. Na verdade, como nos confirmaram o Cardeal Suhard e a filha do filósofo (a qual respeitou o desejo de seu pai), um sacerdote católico, o Cônego Lelièvre de Neuilly, na falta daquele que fôra designado e que já morrera, foi recitar as preces da Igreja sobre o homem que recebera o batismo de desejo».

 

Batismo de desejo... Tal terá sido, conforme o historiador, a via pela qual Bergson se agregou ao Catolicismo.

Que quer dizer propriamente essa expressão ?

 

Certamente Bergson não desejou em termos explícitos o sacramento do Batismo; ao contrário, recusou-o para não ser afagado por alguma vantagem social dai decorrente, ou seja, para não perder a condição de perseguido, que ele antevia para si qual tesouro precioso. Por conseguinte, só se poderia falar de um Batismo de desejo implícito no filósofo. Tal expressão teria o significado seguinte: julga-se que Bergson era movido por sinceridade tal na demanda da verdade que, caso alguma vez houvesse compreendido o insubstituível valor do sacramento do Batismo (valor que não exclui as graças anexas ao estado de perseguição e penitência, mas, ao contrário, as atrai e fecunda plenamente), o filósofo teria pedido e recebido tal sacramento. Faltou-lhe apenas a compreensão exata do que é o Batismo e do que é tomar a cruz de Cristo todos os dias numa vida cristã coerentemente vivida. Se Bergson tivesse entendido isto, ele, que procurava a graça do opróbrio (a qual, em última análise, não é senão a cruz de Cristo), não se teria deixado ficar no limiar da Igreja de Cristo, mas haveria solicitado explicitamente o Batismo sacramentai. Só não o fez porque não soube exatamente onde localizar esse Cristo que ele implicitamente procurava no seu itinerário espiritual. — Ora, afirmam os teólogos que o Senhor leva em conta toda a sinceridade daqueles que assim O procuram; tais indivíduos tornam-se cristãos por possuírem o desejo de Batismo implicitamente contido em sua sincera procura da Verdade.

 

Somente Deus sabe até que ponto será válida a Interpretação dada por Chevalier à conduta de Bergson. Não recusamos crer que seja autêntica.

 

Faz-se agora mister expor

 

2. As principais doutrinas de Bergson

 

2.1. Bergson, à semelhança de outros pensadores modernos (tenham-se em vista principalmente os existencialistas), coloca-se na linha de reação contra o intelectualismo (racionalismo) exagerado que encheu as escolas do século passado. Em vez da raison raisonnante e do «cientificismo» ou scientisme que desde Descartes (+1650) imperam na Filosofia, levando os estudiosos ao materialismo e ao positivismo, Bergson preconiza a intuição ou a consciência (conscience). Esta vem a ser, para o filósofo parisiense, uma espécie de simpatia intelectual que leva a apreender os objetos na sua estrutura essencial, ou que leva a «viver por dentro» os objetos do conhecimento. Em oposição à intuição, Bergson afirma que o raciocínio e as ciências empíricas apenas permitem descrever os objetos e exprimi-los de maneira simbólica; consequentemente, as teorias das ciências, assim como os dogmas da Religião, gozam apenas de valor relativo, pois não atingem a realidade profunda e autêntica; torna-se necessário ultrapassá-los mediante a intuição.

 

2.2. Um dos primeiros resultados a que leva o método de Bergson, é a percepção de que tudo no mundo se acha em incessante flutuação; a realidade não apresenta duas vezes a mesma fisionomia a quem a observa. A esse fluxo perene o mestre dá o nome de duração real; esta é, no homem, a unidade resultante da sucessão continua dos diversos estados da alma.

 

2.3. A fonte inesgotável do fluxo em que se acham o homem e o universo, é o impulso vital (élan vital). Não se trata de uma substância, mas de uma força que, por evolução, produz sempre novas e melhores formas. Tal Impulso se afirma tanto na vida vegetativa como na sensitiva, elevando-se no homem até o plano da consciência e da liberdade. Admitindo em todos os seres o impulso vital capaz de se desenvolver até o grau intelectivo, Bergson pretendia emancipar das teorias mecanicistas e materialistas a vida, dando a esta um significado espiritual.

 

Ora a esse élan vital o filósofo chama por vezes «Deus». Destarte o estudioso é induzido a considerar a questão religiosa e moral tal como ela se propôs a Bergson. — Dotado de tempera ardente, o filósofo francês focalizou o aspecto prático e vivido da Religião muito mais do que a teoria. Uma das teses que ele muito acentuou, é a famosa distinção entre «Moral (ou Religião) estática» e «Moral (ou Religião) dinâmica».

 

Aquela seria própria de quem se contenta com o estrito cumprimento da lei, fechando-se a qualquer iniciativa de perfeição que ultrapasse os limites do dever; é, em suma, a ética do burguês rotineiro. A moral dinâmica, ao contrário, caracterizaria as almas abertas a todos os nobres objetivos, almas tendentes a fazer mais do que aquilo que é de estrita obrigação; exercer-se-ia, por exemplo, na prática das bem-aventuranças evangélicas («Bem-aventurados os pobres..., bem-aventurados os que têm fome e sede..., bem-aventurados os que sofrem perseguição...»). É pela Moral dinâmica que o homem se adapta por excelência ao «impulso vital», e chega à vida mística. Esta significa emancipação frente a toda lei e todo dogma religioso; Deus fala interiormente aos místicos, levando-os a rejeitar as proposições das religiões positivas, pois os dogmas, para Bergson, não são mais do que a expressão subjetiva e simbólica da experiência mística. Assim se esvanece qualquer forma de Religião objetiva, com suas proposições dogmáticas e morais.

 

Tais são as grandes linhas do pensamento bergsoniano, tal como se depreende das obras do filósofo.

 

3. Uma palavra de apreciação

 

3.1. Como se vê, a raiz e, ao mesmo tempo, o vício capital de toda a síntese filosófica de Bergson é o seu anti-intelectuaIismo exagerado. Recusando a adesão sadia e natural ao raciocínio, o filósofo francês se fechou à realidade objetiva, sujeitando-se às divagações arbitrárias da fantasia, divagações tanto mais perigosas e deletérias quanto mais inspiradas por profundo senso místico.

 

A posição básica de Bergson teve suas consequências mais lamentáveis no setor da Religião, o qual foi talvez o que mais prendeu a atenção do mestre. A Religião, para Bergson, é algo de estritamente subjetivo; é o indivíduo quem a concebe, independentemente de algum magistério religioso. Ora não há quem não veja que tal religião é ilusória, pois certamente a Deus, e não ao homem, compete formular o credo e os preceitos religiosos; em matéria de religião, o homem será sempre discípulo e Deus sempre Mestre (não há dúvida, porém, de que o Senhor pode falar aos homens por meio de outros homens devidamente chamados e credenciados para serem autênticos porta-vozes do Altíssimo). Na verdade, Deus se dirigiu às criaturas por Cristo (Deus e Homem) de maneira objetiva e reconhecível por critérios seguros; essa Revelação divina se acha atualmente depositada na Santa Igreja Católica.

 

É nesta, portanto, que todo homem tendente à vida mística há de aprender as sendas que levam a Deus. — Sobre as credenciais de Cristo e da Igreja Católica, cf. «P.R.» 7/1957, qu. 1; 7/1958, qu. 4; 14/1959, qu. 2.

 

A contribuição imprescindível da razão humana na tarefa de apreender a verdade já foi explanada em «P. R.» 20/1959 qu. 1. Ninguém negará que o homem, além de dispor de sua razão, possui a faculdade de conhecer também por intuição; é o que se dá em grau máximo na experiência mística sobrenatural. Contudo mesmo a intuição mística supõe as bases da razão; o Senhor Deus não a concede à criatura independentemente de uma dogmática objetiva, dogmática que impede o místico de se perder em devaneios da imaginação.

 

Em virtude do imanentismo subjetivista que professam, algumas obras de Bergson foram pela S. Igreja colocadas no índice dos livros proibidos. Será difícil, porém, dizer em que medida Bergson, no fim da sua vida, ainda subscreveria as idéias religiosas relativistas acima expostas; o desejo de se converter ao Catolicismo implicava remoção de tais conceitos.

 

3.2. A nossa ligeira apreciação não se poderia encerrar sem um complemento de índole positiva. Ao menos um grande mérito toca a Bergson: o de haver sublinhado que Religião não é algo de estático, ou de ter realçado o caráter dinâmico do genuíno Cristianismo. Ele bem compreendeu que, sendo o Catolicismo «a Metafísica do amor» («il [le Catholicisme] apparait comme une métaphysique de la Charité» - é esta uma das frases finais de Bergson, contida em sua última obra), o cristão autêntico vem a ser essencialmente um homem sequioso e sedento, sempre aberto à procura da perfeição evangélica; por graça de Deus, ele tende normalmente a uma entrega cada vez mais generosa de si ao Senhor e ao próximo; o sermão sobre a montanha (Mt 5-7), com suas normas aparentemente desconcertantes, deve tomar realidade crescente na conduta prática do cristão.

 

É o que tão bem inculca uma das mais expressivas passagens de Bergson referentes ao Catolicismo, que aqui citamos à guisa de ilustração e conclusão:

 

«A Moral do Evangelho é essencialmente a Moral da alma aberta: não terão razão aqueles que observam que ela atinge o paradoxo, e mesmo a contradição, nas mais precisas das suas recomendações?... O paradoxo, porém, desaparece, a contradição se esvanece, desde que se considere o fim visado por essas máximas, que é o de provocar um estado de alma... Bem-aventurado o pobre 'em espírito'! O que é belo, não é o ser despojado, nem mesmo o despojar-se; é o não sentir o despojamento» (Les deux sources de la Morale et de la Religion. Paris 1934, 56s).

 

Ao julgar o autor dessas linhas, o Pai do Céu terá levado em conta a nobreza de alma de que ele aqui dá provas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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