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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 023 – novembro 1959

 

As Instruções Secretas dos Jesuítas

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

CLAUDOMIRO (Rio de Janeiro): “Que pensar das famosas Instruções Secretas dos jesuítas, das quais se tem espalhado um ou outro estranho fragmento entre nós ?”

 

A questão se refere a um opúsculo intitulado Monita Secreta («Instruções Secretas») ou também «Arcanos da Companhia de Jesus, Anatomia da Companhia de Jesus, O Gabinete Jesuítico», opúsculo do qual analisaremos abaixo o conteúdo, o histórico e a autoridade de que possa gozar aos olhos da crítica moderna.

 

1. O conteúdo das «Instruções Secretas»

 

O libelo Monita Secreta se apresenta ao seu leitor como obra reservada exclusivamente aos Superiores e a membros iniciados da Companhia de Jesus; pretende conter as normas capitais (de índole hipócrita e maquiavélica) mediante as quais os jesuítas se deveriam nortear para obter o domínio sobre a vida pública das nações! Através dos dezessete capítulos do opúsculo, vasados num estilo de cinismo e falsa unção, colhe-se a impressão de que os discípulos de S. Inácio se propõem recorrer a todas as táticas a fim de conseguirem dos poderosos deste mundo os favores desejados; quaisquer meios seriam lícitos em vista de tal fim.

A titulo de exemplo, vai aqui citado um ou outro dos tópicos mais característicos do libelo:

 

Os jesuítas, tendo em vista enriquecer-se, deverão fundar colégios exclusivamente nas cidades ricas, pois o fim da Companhia é imitar Cristo, que vivia de preferência em Jerusalém e apenas transitava por localidades menos importantes (cap. I; seja lícito observar que a exegese do S. Evangelho aqui pressuposta é de todo falsa). Os Superiores farão ver às pessoas ricas e piedosas a extrema necessidade em que se encontrarem suas casas; e, ao receberem alguma esmola, distribuí-la-ão ostensivamente aos indigentes, pois isto causará boa impressão e lhes merecerá ainda maiores favores.

 

Os capítulos mais curiosos do opúsculo são os que se referem às viúvas ricas (cap. VI-VIII). Sacerdotes provectos, mas de ânimo juvenil, serão designados para agir junto a elas; visitá-las-ão, exaltarão o seu estado de viuvez, procurando dissuadi-las de novas núpcias. Tratarão de pôr a seu serviço um grupo de domésticos dedicados aos jesuítas. Caso alguma viúva adoeça, enviar-lhe-ão um médico de confiança, que ponha os Religiosos a par de possível perigo de morte. Se as viúvas tiverem filhos, os padres as exortarão a mandar as donzelas para o convento e esforçar-se-ão por ganhar os rapazes, junto com a respectiva herança, para a Companhia.

 

Mas não somente o dinheiro dos ricos, também o favor dos príncipes e poderosos há de ser captado pelos jesuítas. Bajularão, por conseguinte, os governantes civis, imiscuindo-se em seus litígios para terem a honra e a vantagem de os apaziguarem; tratarão de obter missões junto aos nobres vizinhos e aos grandes monarcas. Os Superiores colocarão à disposição dos príncipes alguns casuístas relaxados, que optem pelas soluções mais cômodas para os monarcas.

 

Também junto aos prelados e dignitários eclesiásticos exercerão uma atividade de conquista, prestando-lhes grandes homenagens e procurando edificá-los pela pregação de exercícios espirituais: assim os jesuítas ganharão para si priorados, paróquias e benefícios eclesiásticos (sic!)...

 

Em suma, para obterem a prosperidade temporal da Companhia, os seguidores de S. Inácio são exortados nos Monita Secreta a sacrificar Deus e os homens, a própria alma e a vida eterna!...

 

2. O histórico do libelo

 

Em agosto de 1614, apareceu pela primeira vez tal opúsculo em Cracóvia (Polônia), com o título de «Monita privata Societatis Jesu» (mais tarde, também dito «Monita Secreta» ou «Arcana»). Trazia a data de 1612 e, como lugar de edição, o nome de «Notobirga», cidade até hoje não identificada nos mapas geográficos. A página de título acrescentava tratar-se de manuscrito espanhol encontrado em Pádua (Itália); extraviara-se dos arquivos da Companhia, fôra então traduzido para o latim, mandado a Viena e, por fim, a Cracóvia, onde era dado ao público.

 

Contudo nem todos os estudiosos da época (séc. XVII) se deram por satisfeitos com tal explicação. Puseram-se, por conseguinte, a contar histórias diversas: segundo uns, os holandeses haviam descoberto o manuscrito a bordo de uma nau que por conta dos jesuítas atendia ao comércio com as índias; outros pretendiam que um capitão prussiano apreendera o documento nos arquivos dos jesuítas de Glatz (Prússia); terceiros asseguravam que a peça provinha de um esconderijo aberto na parede de um sótão do Colégio de Heidelberg (Alemanha); por fim, não faltava quem dissesse que os «Monita» haviam saído da Congregação da Propagação da Fé de Roma, o que ocasionou uma edição do libelo com a rubrica: «Roma, tipografie della Propaganda, con permissione»...

 

Em breve, porém, descobriu-se o verdadeiro autor da peça: após minucioso processo, apurou-se que fôra Jerônimo Zahorowski, desde 1613 membro egresso da Companhia. Em virtude de desafetos vários, resolvera difamar seus antigos Irmãos de hábito ! — Tal asserção é hoje comumente aceita pelos críticos mais abalizados.

 

Como se compreende, o panfleto foi, sem demora, condenado pelo bispo de Cracóvia e, em 1616 e 1621, colocado no Índice dos Livros proibidos pela Igreja. Embora Zahorowski, antes de morrer, se tenha arrependido da sua fraudulência, como sugerem alguns cronistas, o opúsculo mereceu grande crédito no decorrer dos séculos XVII-XIX : a peça era, sim, muito hábil, pois deixava de parte as graves calúnias (acusações de assassínios, envenenamentos, tiranicídios...) comuns nos panfletos protestantes da época, para recorrer à maledicência moderada e velada, suficientemente burilada, porém, para impressionar a fundo a opinião pública. O número de reedições do opúsculo, ora intato, ora retocado e aumentado, se multiplicou, espalhando-se pela Itália, a França, a Espanha, Portugal e a Alemanha; não faltavam à Companhia inimigos vários... (cf. «P. R.» 20/1959, qu. 6). Apesar das múltiplas refutações que iam sendo opostas ao libelo, havia sempre quem respondesse com Ch. Sauvestre : «Os jesuítas negam.. .; por conseguinte, é verdade !»

 

3. O juízo da critica contemporânea

 

Já não há historiador sério que defenda a autenticidade dos «Monita Secreta». Negam-na explicitamente os autores protestantes Gieseler, Hubert, Tschackert, Reuscha, Paulus, Nippold, assim como os «Velhos Católicos» (irmãos separados de Roma após 1870) Dõllinger e Friedrich (Janus). Deve-se a A. von Harnack, o crítico liberal, a seguinte observação: «É lamentável, hajam sido explorados contra a Companhia de Jesus falsos documentos, como os Monita Secreta. Procuremos precaver-nos, nós, protestantes, de falsos testemunhos contra o próximo» (Theolog. Literatur Zeitung 1891, 122).

 

Merece atenção outrossim o fato de que, quando se tratava de extinguir a Companhia de Jesus na França do século XVIII, apareceu em 1761 nova edição dos «Monita Secreta» em latim e francês atribuída ao ano de 1661. Contudo nem o Parlamento de França, nem os autores dos «Extraits des Assertions» (coleção de textos anti-jesuítas) exploraram o libelo, o que é geralmente tido pelos críticos como testemunho do descrédito lançado sobre tal documento. Pascal, aliás, que se valeu das obras de vários autores para impugnar os jesuítas, silenciou por completo o opúsculo polonês; donde se depreende que os informantes do filósofo provavelmente lhe fizeram ver o caráter espúrio dessa peça.

 

Ademais alguns comentadores observam o seguinte: entre os «Monita Secreta», de um lado, e, de outro lado, as Regras oficiais e outros documentos normativos, certamente genuínos, da Companhia de Jesus, verifica-se por vezes flagrante contradição. Assim, por exemplo, sempre vigorou entre os jesuítas expressa proibição de aceitarem dignidades eclesiásticas (a não ser que o Sumo Pontífice o mande); pois bem, os «Monita Secreta» contradizem frontalmente a essa proibição. A «Instrução aos Confessores dos Príncipes» baixada pelo Superior Geral Pe. Aquaviva em 1602 prescreve aos Religiosos manterem-se à parte dos movimentos políticos e recusarem qualquer favor ou presente; ora é ao mesmo Pe. Aquaviva que se atribuem os «Monita», os quais promulgam orientação oposta a esta...

 

Não nos alongaremos na enumeração de dados e depoimentos. Os que foram citados já bastam para evidenciar que os «Monita Secreta» carecem de credenciais para ser utilizados por algum historiador consciencioso. Constituem um depoimento contra os adversários da Companhia e da Igreja antes do que contra os próprios jesuítas. Sim, quem precisa de recorrer à fraude para impor uma tese, parece defender causa desesperada !

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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