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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 22 – outubro 1959

 

A Igreja e a Escravatura

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

J. LIMA (Recife) e MARX (Rio de Janeiro):Qual a atitude da Igreja frente à escravatura ?

Como se explica que tenha reconhecido o comércio de escravos ?

 

Procuraremos, antes do mais, formular um juízo sobre a escravatura à luz da consciência cristã, para depois percorrermos as grandes linhas da sua história.

 

1. A escravatura: apreciação moral

 

As palavras «escravo, escravidão», provêm da raiz slav, a partir da qual se designavam certos povos da Europa Oriental, povos que em sua língua materna se intitulavam «os Eslavos», isto é, os Brilhantes ou Ilustres. Esses povos foram sendo reduzidos a cativeiro pelos Germanos nos séc. IX/X d.C.; daí, por ironia da sorte, ter-se feito do vocábulo «eslavo» (que em português deu naturalmente escravo) o sinônimo de cativo.

 

Em termos de definição mais precisa, escravidão vem a ser o estado de uma pessoa que em tudo depende de outra, sem poder em absoluto dispor de sua vontade própria; é a alienação completa da personalidade humana. — Pois bem, pergunta-se: como julgar, do ponto de vista moral, esse estado de vida ?

 

Não somente a consciência cristã, mas também a ética natural, repudiam a escravatura; e isto, por dois motivos principais:

 

a) A condição de escravo é contrária à dignidade e à finalidade do homem. Com efeito, todo indivíduo foi concebido pelo Criador a fim de refletir, mediante as notas próprias de sua personalidade, algo da infinita perfeição de seu Autor. É o que faz que a ninguém seja lícito cancelar uma personalidade humana, reduzindo-a à categoria de objeto inanimado, movido despoticamente por outrem. Ora, para que a personalidade se possa expandir devidamente, ela possui direitos inalienáveis, como são os de viver, conservar a integridade de corpo e alma, usar da sua liberdade de consciência e constituir família estável, baseada nos atrativos do amor; a derrogação arbitrária a esses direitos vem a ser, em última análise, ofensa ao Criador.

 

Tenha-se em vista a observação de S. Tomás: «O homem difere das criaturas irracionais por ser senhor de seus atos» (S. Teol. I/II q.1, a.l).

 

Vão seria apelar para qualidades ou deficiências de raça, a fim de fundamentar a escravatura: todos os homens, qualquer que seja a sua estirpe, possuem no plano de Deus uma dignidade própria inalienável. Era o que afirmava o Papa Leão XIII. quando inculcava «a fraternidade que une todos os homens, pois todos têm a mesma origem, todos foram salvos pela mesma Redenção, todos foram chamados à mesma felicidade eterna» (Ad singulos catholici orbis episcopos, 20 de novembro de 1890).

 

b) A escravidão é, de modo particular, funesta à alma humana e à sua salvação sobrenatural. Efetivamente, a condição de escravo, criando um ambiente desumano, facilmente sufoca mesmo as aspirações fundamentais da alma; tende a embrutecer o psíquico de um ser inteligente. Além disto, sabe-se que os próprios patrões, talvez ainda mais do que os servos mesmos, correm graves riscos no plano moral e religioso pelo fato de possuírem escravos.

 

A título de complemento, note-se que, segundo bons autores, não se opõe ao direito natural o estado em que alguém coloca irrestritamente o seu trabalho a serviço de um senhor, sem outra remuneração que não a de casa e alimento (perpetuus famulatus pro perpêtuis alimentis). Supõe-se que esse tipo de entrega não afete a personalidade como tal (a qual goza inalienavelmente dos direitos acima mencionados), mas apenas a atividade da pessoa; esta ainda se poderia beneficiar das garantias de subsistência — teto e comida — que de tal regime lhe proviriam. O caso se deu na Idade Média, quando os pequenos camponeses em tempos turbulentos desejavam assegurar a sua incolumidade; deu-se também por motivo de devotamento a certas instituições ou estabelecimentos religiosos. — Contudo é ardentemente para desejar que toda personalidade usufrua da liberdade de dispor do seu trabalho, ao menos dentro dos limites ditados pelas exigências do bem comum.

 

Consideremos agora a atitude que no decorrer da história os homens e, em particular, os cristãos tomaram diante da escravatura.

 

2. A escravatura antes do Cristianismo

 

2.1. A condição de escravos deve sua origem, em parte, aos antigos costumes de guerra: o soldado vencido e capturado era tido como propriedade do povo vencedor.

 

Alguns filósofos querem derivar a palavra servus, servo, do fato de que o vencedor, embora tivesse o direito de tirar a vida do vencido, a conservava, fazendo por conseguinte um homem «servatus» ou um servo (indivíduo sem direito algum). A condição de servo, por conseguinte, em suas origens ainda exprimiria uma atitude de benevolência do homem mais forte para com o mais fraco ! — Esta explicação carece de autoridade.

 

O estado de escravidão se deve também ao abuso da força por parte de homens prepotentes, muitas vezes piratas e bandidos, que subjugavam crianças e homens livres com o fito de os vender como escravos.

 

A guerra e a sequestração criminosa explicam que a escravidão tenha sido chamada mancipium, termo latino proveniente de manu capere, apreender com as mãos, capturar.

 

Por fim, note-se que filho de escravo foi geralmente tido como escravo. Em consequência, assinala-se uma terceira fonte de que reabasteceu a escravidão através dos tempos: o nascimento em condição servil.

 

Para explicar a escravidão, ainda se apontam certos costumes do juridismo romano antigo, os quais, porém, não têm a mesma importância que as três fontes acima indicadas:

 

1) em Roma o devedor incapaz de pagar as suas dívidas era vendido pelo credor Trans Tiberim, além do Tibre, isto é, fora do território da cidade;

2) o cidadão que se eximisse do serviço militar ou de um recenseamento público era, geralmente por ordem dos cônsules, tratado de modo semelhante;

3) a mesma pena era infligida à mulher livre romana que tivesse relações com um escravo, à revelia do patrão deste;

4) era outrossim imposta a mesma sanção a quem fosse condenado ad bestias ou ad metalla, isto é, à morte no anfiteatro ou ao trabalho forçado em minas.

 

2.2. Oriunda, como se vê, a diversos títulos, a escravidão tomou vulto notável tanto entre os povos do Oriente e do Egito antigos como no mundo greco-romano. Já um dos mais velhos monumentos da civilização, o código de Hamurabi (séc. XIX/XVII a. C.), atesta a prática da escravatura na Mesopotâmia.

 

Entre os gregos, a sociedade era preponderantemente aristocrática; uma elite privilegiada a representava, tendo abaixo de si, como que para sustentá-la, os grupos de estrangeiros (também ditos «bárbaros»), libertos e escravos: o cidadão livre era tido como tipo inteligente e belo, cuja alma não podia ser afetada por preocupações sórdidas nem o corpo deformado por trabalho manual. “A ociosidade é irmã da liberdade?”, teria dito Sócrates (+399 a.C.), conforme Eliano (Var. hist. X 14); o que significava que os escravos é que deviam trabalhar para assegurar aos homens livres os meios de ser ociosos. Assim fala Sócrates na expressão de Xenofonte:

 

«As artes chamadas mecânicas são mal vistas, e é com razão que os governos fazem pouco caso delas. Estragam o corpo daqueles que as praticam e se lhes dedicam, forçando-os a permanecer sentados, a viver na sombra, e por vezes mesmo a se deter habitualmente perto do fogo. Além disto, as artes manuais não deixam tempo para se fazer coisa alguma em favor dos amigos ou do Estado, de sorte que passamos por maus amigos e covardes defensores da pátria. Por isto, em algumas repúblicas, principalmente nas que são tidas como guerreiras, é proibido a todo cidadão exercer uma profissão mecânica» (Econom. 4).

 

Por sua vez, Aristóteles (+322 a.C.) é autor da frase famosa por sua dureza : «O escravo é incapaz de felicidade, como incapaz é de livre arbítrio» (Ética a Nicômaco III V II).

 

Dadas estas concepções, entende-se que em Atenas, ao lado de 20000 cidadãos livres, tenha havido 400000 escravos: Corinto contava 460.000 destes, e Egino 470.000. No célebre mercado de Delos, venderam-se em um só dia 10.000 escravos...

No Império Romano, o estado de servidão ainda tomou maior vulto, embora os romanos fossem. capazes de atitudes muito mais liberais do que os gregos: um só cidadão podia ter a seu serviço 10.000 ou 20.000 escravos. As vitórias dos romanos acarretavam a vinda de multidões de prisioneiros para Roma; César, após a conquista da Gália, vendeu mais de um milhão deles.

 

2.3. Em Israel, ou seja, no povo do Antigo Testamento, estava em vigor a escravatura — o que não admira, pois os israelitas herdaram de seus antepassados caldeus esse costume. A Lei de Moisés, porém, tratou de mitigar as condições de vida do escravo; é o que se depreende claramente da comparação desse documento israelita com a legislação de Hamurabi da Babilônia: enquanto esta favorece geralmente o patrão, aquele visa de preferência os interesses dos servos. A mitigação da sorte destes em Israel se explica, em boa parte, pelo fato de que os judeus, contrariamente a muitos povos antigos, estimavam o trabalho manual, fosse o da indústria, fosse o dos campos: «Pois que comerás do fruto do trabalho de tuas mãos, serás feliz e prosperarás», exclamava o salmista (SI 127,2).

 

Era principalmente a guerra que, fornecendo prisioneiros, alimentava os mercados de escravos entre os povos bíblicos; cf. 1 Sam 30,3 ; Am 1,9 ; Ez 27,13 ; 1 Mac 3,41. Além disto, note-se que todos os filhos de uma escrava em Israel eram considerados propriedade do patrão; cf. Êx 21,4. Um israelita, por via de regra, não podia ser reduzido à condição de escravo (cf. Lev 25.42-46). Acontecia, porém, que um filho de Israel incapaz de pagar suas dívidas podia ser vendido pelo credor como escravo (cf. 4 Rs 4,1; Ne 5,5.8; Êx 22,3). Todo patrão israelita era obrigado a conceder a liberdade aos seus servos, quando de sete em sete anos irrompia o ano sabático, assegurando-lhes então um pecúlio mínimo para que pudessem viver honestamente (cf. Lev 25,39-54 ; Èx 21,2 ; Dt 15,12-18).

 

Os ascetas hebreus chamados «Essênios» e «Terapeutas» se mostraram francamente avessos à prática da escravidão; cf. Eusébio, Praep. evang. VIII 12 ; Flávio José, Ant. jud. XVIII I 5.

 

Foi nesse mundo judaico e, a seguir, no ambiente greco-romano, que começou a ser pregado o Evangelho. Qual a atitude dos primeiros arautos deste perante a escravatura então vigente ?

 

3. O Cristianismo e a escravatura

 

3.1. Nos três primeiros séculos. O Evangelho, quando começou a ser apregoado ao mundo, encontrou uma ordem de coisas humanas já instituída; encontrou, em particular, um sistema econômico e condições sociais estabelecidos, e estabelecidos na base do regime da escravidão. Esta se achava de tal modo integrada no plano de coisas vigente que não se poderia pleitear a sua extinção sem promover a catástrofe geral da vida pública. Ademais, o governo imperial, que detinha em suas mãos a administração dos bens públicos, era diretamente hostil aos cristãos. Sendo assim, entende-se que o papel do Evangelho, ao entrar neste mundo, não tenha sido o de provocar uma revolução brutal contra o sistema social vigente, mas se haja reduzido a duas atividades :

 

a) mudar a mentalidade dos homens em relação à escravatura, criando de maneira paciente e constante as premissas e o ambiente favoráveis à eliminação da mesma. A mudança de mentalidade seria trabalho lento, pois certos fatos históricos, de que abaixo falaremos, contribuíram para dar foros de liceidade a uma ou outra modalidade de servidão.

 

Interessante é notar que no séc. IV houve uma seita — a dos Eustacianos — que incitava os escravos ao ódio de classe e à recusa de obediência; tal escola, porém, não prevaleceu na Tradição cristã, pois seus efeitos seriam destrutivos tanto no plano espiritual como no material ou temporal.

 

b) mitigar a sorte dos escravos, e até proporcionar-lhes libertação total em casos particulares.

Vejamos de per si uma e outra destas atuações do Cristianismo.

 

Os Apóstolos exortavam os escravos cristãos à submissão e a obediência, lembrando, por exemplo, que um escravo, por sua fidelidade, poderia tornar-se eloquente arauto da doutrina de Cristo paciente (cf. Tit 2,9s ; 1 Tim 6,7s ; 1 Pdr 2,18). Não deixavam de incutir aos patrões que, aos olhos de Deus, não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre (cf. Gál 3,28; Ef 6,5-9; Col 3,22-24); esta última declaração não implicava o cancelamento de toda distinção entre os homens, mas significava que a alma humana possui um destino que ultrapassa as categorias sociais e pode ser atingido em todo e qualquer quadro de vida. — Não se poderia deixar de mencionar neste contexto a epístola de S. Paulo a Filemon: não é senão uma carta de recomendação em favor de um escravo fugitivo, Onésimo, que S. Paulo havia acolhido e convertido e que o Apóstolo mandava de volta ao seu patrão: «Recebe-o não mais como escravo, mas como irmão amado» (v. 16).

 

O Cristianismo também suscitou a remodelação do conceito de trabalho manual, conceito que fomentava na antiguidade pagã o regime de escravos: a operosidade das mãos, longe de ser tida como algo de infra-humano, foi apresentada ao mundo como continuação da obra do Criador, que confiou ao homem o domínio do mundo material; foi também apregoada como elemento de santificação, pois, dando ensejo à penitência, configura o cristão a Cristo crucificado.

 

Além disto, o Cristianismo combateu o luxo desenfreado dos pagãos e a ambição de possuir bens materiais. No íntimo da família purificou os afetos de modo a impedir que os pais expusessem seus filhos ao comércio de escravos.

 

c) No tocante à mitigação da sorte dos servos, note-se o seguinte :

 

No foro eclesiástico, os escravos gozavam de todos os direitos que competiam aos homens livres; uma vez libertos, podiam-se tornar clérigos e bispos: o Papa Calixto I (218-222), por exemplo, trazia em seu corpo os sinais da sua antiga condição de servo. As autoridades eclesiásticas ocuparam-se outrossim com a emancipação dos escravos ; assim os bispos, visando tal fim, mais de uma vez venderam as alfaias e os vasos sagrados; também exortavam frequentemente os patrões a libertar benevolamente o pessoal de sua serventia. Aliás, durante todo o decorrer da história da Igreja, enquanto houve escravos, registraram-se empreendimentos altamente generosos em favor da libertação dos mesmos: haja vista a fundação de duas Ordens Religiosas que, durante seis séculos, se aplicaram a remir os prisioneiros de guerra feitos escravos — a Ordem dos Trinitários, devida a S. João da Matha em 1198, e a dos Mercedários, iniciada por S. Pedro Nolasco e S. Raimundo de Penaforte em 1223. O próprio S. Vicente de Paulo deixou-se capturar pelos turcos, sofrendo duríssimo tratamento de 1605 a 1607, a fim de resgatar escravos; o seu exemplo foi seguido por seus discípulos Jean le Vacher (mais de uma vez) e M. Poissant em 1741. Semelhante foi o procedimento de outros Religiosos, como os dominicanos Estêvão de Lu- signàn, Ângelo Calepino, um capuchinho confessor de D. Juan da Áustria; o jesuíta Pe. Mariano Mameri, que fêz treze viagens à Berbéria, e o Pe. Júlio Mancinelli, que fundou uma Congregação Religiosa em vista da redenção de escravos.

 

2. Do séc. IV ao séc. XVI.

 

No séc. IV o Imperador Romano deixou de perseguir a Igreja, fazendo-se ele mesmo cristão a partir de Constantino (313). O fato possibilitou mais ampla ação dos bispos em favor de uma renovação da ordem social e econômica vigente; assim nos séc. IV/VI era muito comum que um patrão libertasse seus servos ou no ato de ingressar no mosteiro ou no momento de receber o batismo ou em artigo de morte («pro remedio animae», em benefício da alma do moribundo).

 

Visando ainda mitigar a sorte dos escravos, as autoridades eclesiásticas foram obtendo leis que proibiam fossem eles vendidos independentemente da terra em que trabalhavam. Tal medida proporcionou aos servos estabilidade em sua residência e consequentemente vida familiar normal; constituía um passo em vista da instituição dos «servos da gleba».

 

Estes tomaram grande vulto na Idade Média em virtude das invasões bárbaras, que a partir dos séc. V/VI tornavam caótica a vida pública européia: em meio à instabilidade da ordem de coisas, muitos camponeses se sentiam incapazes de garantir o ganha-pão por si sós; procuraram então livremente colocar-se sob a tutela de um senhor poderoso, ao qual dedicavam inteiramente o trabalho de seus braços, ficando fixos ao solo que habitavam; em troca disto eram devidamente defendidos contra as hordes dos invasores germânicos; instaurou-se assim uma semi-servidão, que certamente significava abrandamento em confronto com o antigo regime de escravos (antigo regime que, apesar de tudo, ainda subsistia em certas proporções), mas ainda não era o termo ideal a que o Evangelho devia levar a sociedade; unicamente as circunstâncias históricas da Idade Média justificavam a instituição dos servos da gleba. É o que notam os grandes teólogos do séc. XIII, como, por exemplo, S. Tomaz:

 

«O fato de que este homem, e não aquele, seja servo, em si não se justifica por motivos naturais; só se explica em vista de alguma vantagem que possa decorrer da servidão. Com efeito, pode tornar-se útil a tal indivíduo ser regido por outro mais sábio, como a este outro pode tornar-se útil ser ajudado por aquele» (S. Teol. II/II q. 57, a. 3, ad 2).

 

Aliás, verifica-se em toda a história do Cristianismo que nem sempre a libertação de servos foi benéfica para estes; em muitos dos casos, os libertos viram-se repentinamente entregues a si mesmos, sem possuir outro bem que não a liberdade de dispor do seu trabalho, destituídos, porém, de formação moral e técnica para poderem governar-se a si e prover à sua subsistência. É o que explica tenham os libertos não raras vezes preferido voltar à sua antiga servidão.

 

Ainda para entender a persistência do regime de escravatura durante a Idade Média, considere-se que tal regime era em parte sustentado por maometanos e judeus, os quais, convivendo ao lado dos cristãos, não podiam deixar de exercer influência sobre as instituições de economia, comércio e indústria da época. — Não se negarão, porém, abusos cometidos por comerciantes cristãos: principalmente os navegantes de Veneza e Gênova, ao regressarem das costas do Oriente e da África, ou ao obterem vitórias sobre piratas, desembarcavam nos mercados europeus escravos negros e sarracenos, que em parte eram vendidos como pagens às famílias nobres. Embora o tratamento infligido a esses servos domésticos fosse geralmente benigno, os Papas (como Inocêncio IV 1243-54, João XXII 1316-34, Martinho V 1417-31) não deixaram de protestar contra tal praxe.

 

3. Do séc. XVI ao séc. XIX

 

Passada a Idade Média, no séc. XVI a escravatura conheceu modalidades e voga novas; instaurou-se, sim, em vista da exploração das terras da América recém-descoberta, o tráfego de escravos entre o Estado e os cidadãos particulares ou entre Estados diversos. Não sendo eficaz o índio para os pesados trabalhos braçais, os colonizadores recorreram ao negro africano, de constituição física mais robusta (o negro, aliás, já era utilizado como escravo por Portugal e pela Espanha antes da descoberta da América). Portugal foi uma das nações que iniciaram a nova praxe, ao passo que a Inglaterra, desde Elisabete até o início do séc. XIX, se tornou a mais célebre nação comerciante de escravos, ameaçando de guerra outros países a fim de manter certo monopólio nesse tráfego. Foi somente no Congresso Internacional de Viena (1815) que os estadistas da Inglaterra, da Áustria, da França, de Portugal, da Prússia, da Espanha, da Rússia e da Suécia resolveram assinar solene protesto contra a importação e a exportação de africanos, dando assim inicio ao declínio da escravatura nos países coloniais.

 

Frente a essa nova ordem de coisas, a Igreja tomou atitudes restritivas. Logo que se iniciou a importação de escravos da África para a Europa, o Papa Pio II, em 1462, denunciou a escravatura como «magnum scelus» (grave crime) e mandou aos bispos infligissem censuras eclesiásticas a quem a praticasse. O Pontífice Paulo III, em 29 de maio de 1537, ordenou ao arcebispo de Toledo protegesse os índios da América, e ameaçou de excomunhão (cuja absolvição ficava reservada ao Papa) quem reduzisse esses homens à escravatura. Os Papas seguintes renovaram semelhantes admoestações. Note-se ainda que Bento XIV em 1741 escreveu ao bispo do Brasil e ao rei de Portugal lamentando que as disposições de seus predecessores sobre o assunto não tivessem sido devidamente observadas. Por sua vez, Gregório XVI em 3 de dezembro de 1837 publicou uma encíclica exortando os bispos a fazerem tudo para obterem a supressão da escravatura, que desde o Congresso de Viena era oficialmente reconhecida pelas nações como algo de indigno.

 

Verdade é que certas circunstâncias justificavam por vezes a condescendência dos missionários cristãos para com o regime dos escravos. Sim; na África, por exemplo, as populações de certas regiões eram em maioria constituídas de escravos, que haviam sido reduzidos a tal condição pelas leis locais em castigo de algum delito (furto, homicídio, adultério...); sendo assim, em muitos casos a praxe dos colonos europeus não consistia em escravizar os negros, mas apenas em fazer que homens já escravizados mudassem de patrão, passando para a casa de um proprietário cristão, geralmente mais benigno e compreensivo; daí a tolerância de certos missionários. — O papel do dominicano Bartolomeu de las Casas (+1566) não é muito claro, prestando-se a mal-entendidos: foi este frade, a quanto parece, quem propôs o recurso, na América, a escravos provenientes da África, em substituição aos índios (sabe-se que a escravidão negra já era praticada em pequena escala antes mesmo da descoberta da América); se Ias Casas fez tal proposta, fê-la visando extinguir a miserável sorte dos aborígenes americanos explorados pelos conquistadores europeus; em breve, porém, julga-se que se arrependeu de ter sugerido a importação de negros, pois em 1518 escreveu um projeto de colonização no qual silenciava por completo o tráfego de africanos.

 

Os missionários na África e na América procuraram indefessamente aliviar o jugo dos escravos, distinguindo-se entre todos S. Pedro Claver S. J. (+1654), que assinou sua carta de profissão religiosa com a fórmula: «Pedro, escravo dos negros para sempre». O fato de que, não obstante esses esforços, o regime de servidão se tenha mantido nas colônias durante quase quatro séculos, deve-se em grande parte aos interesses dos latifundiários e administradores públicos, que tinham toda vantagem em explorar a mão de obra servil...

 

Considerando agora o Brasil em particular, observemos que este foi, dentre os países cristãos, o que por mais tempo conservou o sistema de escravatura. Por todo o decurso do século passado, os nossos bispos fizeram ouvir suas vozes, em favor da abolição, propondo finalmente que esta fosse decretada em comemoração do jubileu sacerdotal do Papa Leão XIII (1888), o que realmente se deu. S. Santidade respondeu a este gesto em carta congratulatória dirigida ao episcopado brasileiro, carta em que Leão XIII recordava outrossim quanto a Igreja havia feito em prol dos escravos.

 

Poder-se-ia aqui ainda referir a seguinte notícia recém divulgada pela imprensa e altamente significativa da mentalidade da Igreja:

 

«Está examinando a Sagrada Congregação dos Ritos o processo de beatificação de Giuseppina Bakhita. Vendida no Sudão como escrava a um diplomata italiano, foi à Itália, onde recebeu a liberdade. Convertida, ingressou num mosteiro de monjas. Após vida santa, veio a falecer em 1947». (CRF).

 

Em nossos dias ainda se pratica a escravatura no Tibé, na Arábia e na Abissínia.

 

Em conclusão de quanto até aqui foi dito, reconhecer-se-á que a persistência da escravatura em ambientes de civilização cristã durante tantos séculos constitui certamente estranho fenômeno. O fato, porém, se explica a quem considera de perto os agentes da história: o Cristianismo não criou, mas encontrou já vigente o regime de servidão. Não o podendo ab-rogar pela revolução armada, os arautos do Evangelho procuraram revolver a mentalidade dos povos de sorte a obter a extinção espontânea de tal desordem. A meta foi realmente atingida; a longo prazo, porém, em virtude de vicissitudes diversas: enquanto, de um lado, os patrões prepotentes muitas vezes protraiam iniquamente o sistema de exploração dos escravos, estes, por seu lado, não sempre recusavam um regime em que se sentiam providos dos elementos necessários à sua subsistência.

É o historiador protestante Dobschütz quem escreve:

 

A repentina abolição da escravatura «equivaleria a uma revolução social irrealizável no mundo cristão, por mais reduzido que este fosse; revolução impossível aos olhos dos patrões, cujos haveres constavam principalmente de escravos; impossível também aos escravos, os quais teriam sido, em maioria, despojados dos meios de subsistência que eles recebiam dos senhores» (Die urchristlichen Gemeinden 1902, pág. 89).

 

O Papa Leão XIII fazia a mesma observação:

 

«A Igreja não se apressou por remir e libertar os escravos, consciente de que a precipitação acarretaria tumulto e ocasionaria detrimento tanto para os próprios escravos como para o bem comum» (Enc. «In plurimis», do ano de 1888).

 

Ou ainda:

 

«A ação da Igreja, educadora e moralizadora por excelência, era indispensável; teria sido vão abolir o tráfego, os mercados e a condição mesma dos escravos, se os espíritos e os costumes tivessem ficado bárbaros» (alocução de 2 de maio de 1891).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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