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Artigo

Dom de línguas, repouso no Espírito e outras questões

Padre Luiz Fernando Alves Ferreira (*)

 

Primeiramente quero deixar bem claro que meu intuito não é retirar a fé de nenhuma pessoa neste ou naquele aspecto do pentecostalismo. Apenas quero dar uma resposta a partir da teologia bíblica para esta questão que muito me tem sido perguntada ultimamente. De início cito que estou usando para esta postagem o texto da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia) comentada.

 

Para falar sobre o dom das línguas e o repouso no Espírito vou partir do contexto no qual a primeira carta aos Coríntios foi escrita, uma vez que é nela que se apoia a maioria dos argumentos sobre este tema. Nós Católicos seguimos por muitos anos a exegese histórica-crítica que busca os fundamentos das coisas, o contexto e as intenções. O Papa Bento XVI a conhece bem e a utiliza no seu livro “Jesus de Nazaré” cuja segunda parte foi lançada recentemente. Conheço os limites de tal abordagem e também o Papa. Mas, é o instrumental teórico que por ora possuo e espero contribuir para deixar mais claro este controverso tema.

 

O Contexto da Primeira Carta aos Coríntios

 

A primeira carta aos Coríntios foi escrita por São Paulo em sua terceira viagem, por volta do ano 56 quando este estava na cidade de Éfeso, acompanhado de Apolo por meio de quem soubera dos acontecimentos que motivaram a carta. A cidade de Corinto era uma Metrópole portuária com cerca de meio milhão de habitantes. A pregação de São Paulo decorreu por 18 meses entre 50 e 52 numa cidade cosmopolita. A maior parte de sua população era de trabalhadores e escravos, provindos de todas as partes do Império Romano, da Ásia Menor e doutras partes do Adriático e do Egeu com quem se comunicava pelos portos. Era uma população bastante heterogênea nos costumes e nos cultos, abrigando desde os cultos de fertilidade da deusa Greco-romana Cibele aos cultos da deusa egípcia Ísis.

 

A pregação cristã, primeiro de Paulo e depois de Apolo, era fecunda e sólida, mas, lançava raízes em um terreno heterogêneo e um tanto relativista em relação aos costumes. A primeira carta é um reflexo, quase uma fotografia, deste contexto social-religioso: os grupos conflitantes dentro da comunidade (cap. 1), vida sexual dissoluta (cap. 6), a erudição da filosofia pagã e do gnosticismo (cap. 1-2) que contrastavam com a firmeza e clareza da fé cristã genuína (cap. 15). A isso se acresça os costumes dos cultos pagãos que, sutilmente, iam entrando na assembleia cristã (cap. 11-14). É para dar resposta a estas questões que São Paulo escreve esta epístola que, de tão veemente no seu modo de expressar, capta a alma pungente do Apóstolo.

 

A oração em línguas

O que é a oração em línguas? Em bom e claro português, segundo a TEB (cf. 1Cor 12,1 nota o), a Bíblia do Peregrino (cf. 1Cor 12,8-10 nota) e a Bíblia de Jerusalém (cf. 1Cor 12,10 nota f), é a articulação de sílabas ou fonemas de modo não compreensível em um estado mais ou menos extático, ou seja, em estado de êxtase religioso. Tecnicamente é dado o nome de glossolalia. Este particular da comunidade de Corinto não é compartilhado por nenhuma outra comunidade com a qual São Paulo se corresponde. A visibilidade dos eventos extáticos dos cultos pagãos interpela a nascente comunidade cristã de Corinto a ser também ela “produtora” do divino. De fato, naqueles cultos pagãos, o sacerdote ou a sacerdotisa e os participantes “produziam” a presença do divino através do êxtase religioso, da embriaguês e de eventos extáticos como a glossolalia, o desmaio, a predição do futuro, etc.

 

A argumentação de São Paulo parte da analogia do corpo (cap. 12). O corpo é um, assim como a Igreja deve ser una. Os membros do corpo são codependentes do mesmo modo que os membros da Igreja são codependentes. Cada membro do corpo exerce uma função distinta do outro, do mesmo modo que o único Espírito de Deus distribui seus dons aos membros da Igreja conforme a utilidade destes dons para a edificação da Igreja (cf. 1Cor 12,7. 14,4). Ao final do cap. 12, São Paulo realiza o esclarecimento de toda esta comparação: as funções na Igreja são dons do Espírito e não são todas as pessoas que receberam os mesmos dons para realizar todas as coisas.

 

No capítulo 13 São Paulo faz a hierarquia das coisas: o que é mais importante? É o ágape. A caridade. O amor fraterno. O versículo 11 – a comparação das coisas de criança com as coisas de adulto – é o recado para os Corintos: Eles já não são mais crianças na fé. Podem deixar as coisas de criança, ou seja, os costumes herdados do paganismo, para aderir completamente a Jesus Cristo. Muitos dos cristãos de Corinto eram pagãos antes de sua conversão. Isto mostra-nos que conversão não é algo instantâneo como vemos acontecer por aí. O versículo 11 está estreitamente ligado à argumentação do v. 8 quanto à ordem das coisas.

 

Depois de dialogar com a ordem do corpo místico, a Igreja, no capítulo 12 e a ordem dos dons do corpo místico no capítulo 13, São Paulo redige a conclusão óbvia do cap. 14. Como consequência lógica da correta ordem no corpo místico de Cristo no qual todos os membros possuem o dom dado para o bem de todos, no qual Ele é a cabeça (cap. 12; Col 1,18), o ágape deve ser a lei básica do cristão, um caminho que é o mais excelente dentre todos (cf. 1Cor 12,31). O ágape permanece junto a fé e a esperança como o fundamento do crer e do agir cristão: ágape = modo de relacionar com o próximo; fé = modo de relacionar com Deus; esperança = modo de relacionar com Deus e o próximo. Seguindo este caminho traçado por São Paulo, o capítulo 14 dá então a regra prática para o exercício do amor fraterno também no culto: é melhor edificar o irmão na assembleia que edificar-se a si mesmo (cf. 1Cor 14,4-5.26); o falar em línguas no culto cristão é inútil, visto que este não é um culto no qual aquele que dele toma parte necessita entrar em êxtase para se comunicar com a divindade. Pelo contrário, é Deus que se comunica conosco. O Espírito manifesta-se no conhecimento das escrituras através das quais se dá o conhecimento de Jesus Cristo (cf. Jo 15,13). São Paulo ainda define que as profecias devem ser ditas uma por vez, uma pessoa por turno, sem confusão e a partir do senso comum. Tudo deve ser feito para edificação de todos: quando se fala em língua este falar em línguas deve ser interpretado para a comunidade, caso contrário o irmão deve se calar; quando se profetiza esta profecia deve ser julgada pela assembleia (cf. 1Cor 14,27-29). Por fim, São Paulo orienta os Corintos a seguir a tradição de todas as Igrejas cristãs que seguem, por sua vez, a orientação dos apóstolos (Cf. 1Cor 14,36-38).

 

O Pentecostes

 

Alguns podem argumentar com o texto de At 2,1-13 a favor da glossolalia com a finalidade de justificar seu uso nos dias atuais. Há neste texto, segundo a TEB, duas experiências distintas: uma que pode ser identificada com a glossolalia (cf. At 2,4) e a outra é a expressão na língua dos povos representados pela lista de At 2,5.8-11. A teologia do texto de Pentecostes liga a dispersão de Babel (Gn 11,1-9) com a universalidade da salvação levada pela Igreja até os confins do mundo (cf. At 1,8). A experiência da glossolalia em At 2,4 liga-se à experiência profética do período pré-monárquico no qual os profetas e Israel e das religiões dos povos circundantes entravam em êxtase para proferir as profecias (cf. 1Sm 10,5-6). Com o tempo, a profecia em Israel foi deixando de lado este caráter extático e tomando os contornos que conhecemos dos grandes profetas, a saber, de ser boca de Deus. Portanto, a glossolalia neste contexto não quer dizer nada mais que um simples evento desencadeado pela abundância do Espírito no princípio da Igreja. Nem Atos dos Apóstolos nem Paulo institucionalizam a glossolalia como um dom do Espírito Santo para toda a Igreja. Paulo ainda o considera, com muita reserva, na comunidade de Corinto muito mais pela sensibilidade pagã daquela comunidade recém-convertida do que por ser um dom para toda a Igreja (cf. 1Cor 13,11).

 

O papel do Espírito na Igreja

 

Afinal de contas, para quê serve o Espírito Santo na Igreja? Faço esta pergunta aparentemente sem sentido em virtude da interpelação que este tema me traz: O Espírito serve para fazer as pessoas balbuciarem coisas sem nexo e desmaiarem quando estão por ele tomadas? O Espírito de Deus precisa deste modo de comunicação para se fazer sentir, notar e entender? As pessoas precisam desmaiar e falar em línguas para crer que Deus existe e que o Espírito Santo é real? Afinal, o que significa isto: “passa fogo no meu braço agora…”; “eu quero sentir o seu Espírito…”; “eu quero mais de Deus…”; “toma meu ser, Senhor…”?

 

Quero reproduzir textualmente o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica acerca do papel do Espírito Santo na Igreja. Vamos lá:

 

737 A missão de Cristo e do Espírito Santo realiza-se na Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo. Esta missão conjunta associa a partir de agora os fiéis de Cristo à sua comunhão com o Pai no Espírito Santo: o Espírito prepara os homens, antecipa-se a eles por sua graça, para atraí-los a Cristo. Manifesta-lhes o Senhor ressuscitado, lembra-lhes sua palavra, abrindo-lhes o espírito à compreensão de sua Morte e Ressurreição. Torna-lhes presente o mistério de Cristo, eminentemente na Eucaristia, a fim de reconciliá-los, de colocá-los em comunhão com Deus, a fim de fazê-los produzir “muito fruto”.

 

739 Por ser o Espírito Santo a unção de Cristo, é Cristo, a Cabeça do Corpo, que o difunde em seus membros, para alimentá-los, curá-los, organizá-los em suas funções mútuas, vivificá-los, enviá-los a testemunhar, associá-los à sua oferta ao Pai e à sua intercessão pelo mundo inteiro. É pelos sacramentos da Igreja que Cristo comunica aos membros de seu Corpo o seu Espírito Santo e Santificador.

O Catecismo ainda acrescenta que é função do Espírito socorrer a nossa fraqueza para que oremos ao Pai como convém. Pergunto: onde estão os desmaios, as línguas sem nexo, o fogo no braço e o “entorpecente” divino? Os sacramentos da Igreja não são suficientes para manifestar o Espírito? São ineficazes?

 

Os Grupos de Oração e o Pentecostalismo

 

Os grupos de Oração e a própria Renovação Carismática Católica nasceram de um evento numa universidade norte-americana no qual se uniram católicos e evangélicos. A experiência evangélica trouxe o pentecostalismo que não se aproxima da doutrina bíblica ou católica acerca do Espírito Santo, ao contrário, distancia-se uma vez que o Espírito passa a ser compreendido não mais como um dom do Pai e do Filho para a Igreja (Qui ex Patre Filióque procédit), mas, como uma unção particular de Deus para o crente. Evidente que esta visão do Espírito Santo está estreitamente ligada à visão Protestante de mundo que se firmou a partir dos cinco solas: sola fide, sola Christus, sola scriptura, soli Deo gloria, sola Gratia e do livre-exame das escrituras sem a interferência/necessidade de um Magistério e da Tradição.

 

Conclusão

 

A Igreja reconheceu o sopro do Espírito na Renovação Carismática Católica através do reconhecimento Pontifício de várias das novas comunidades a ela ligadas. Este brevíssimo texto não quer exaurir o dom de Cristo à Igreja, pelo contrário. Quer somente dar uma contribuição da teologia bíblica acerca deste fenômeno. Uma coisa é patente: falar em línguas, curar, entre outros dons, são dons particulares que estão no final da lista de São Paulo e que devem, igualmente, estar no último lugar da busca e do interesse do cristão. Antes de tudo a mútua e contínua caridade. Não duvido que o Espírito sopre onde quer e que dê seus dons (sejam eles quais forem) a quem quiser. O que me interroga é o modo quase abusivo como isso é feito hoje em dia. Muitas pessoas que frequentam cultos neopentecostais e G.O. agem como se a glossolalia fosse quase obrigatória para o ingresso ali. Outras posturas de pessoas que catalogam e condenam aqueles que não entendem, não aceitam e não praticam os “carismas”. Estes carismas, como orientou a Igreja, são particulares e são dados por Deus a algumas pessoas. Logo, nem todos os possuem. Eles são dados para o bem do corpo místico e não para o deleite pessoal do crente.

 

É errado o que acontece hoje em dia: noites de derramamento do Espírito, encontros de batismo no Espírito Santo, etc. O derramamento do Espírito se dá no batismo e o batismo é o batismo no Espírito Santo e não há outro. O que se faz, desculpem, é heresia. Pois, o Espírito Santo é invocado como se fosse um espírito ou um demônio para possuir, entrar, no corpo de uma pessoa, dominá-la e dar-lhe seu poder. Isto é absurdo! O Espírito nos dá poder sim, mas é outro! O poder de amar como Jesus, sacrificar-se como Jesus, viver como Jesus. Ele nunca precisou orar em línguas ou desmaiar e, sabemos, o Espírito Santo estava sempre com Ele.

 

Caríssimos, espero poder ter ajudado a esclarecer alguma coisa com este texto.

 

(*) Padre da Diocese de Itumbiara

Graduado em Filosofia no Instituto Dom Jaime Collins e Teologia no Instituto Santa Cruz em Goiânia.

Secretário do Conselho Presbiteral da Diocese de Itumbiara,

Coordenador Regional de Pastoral e Promotor Vocacional Diocesano

 


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