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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 008 – agosto 1958

 

A Fé Fiducial Protestante

Fidelino Esperançoso (Rio): “Desejaria um esclarecimento sobre a fé fiducial, que alguns crentes querem basear no texto de Hebr 11,1: ‘A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem’ (trad. de Ferreira de Almeida)”.

 

1. A chamada fé fiducial se baseia em idéias de Lutero, que assim se concatenam:

 

O pecado de Adão afetou a natureza humana a ponto de a tornar definitivamente ferida. Donde se segue que todas as obras que o homem realize por suas forças naturais, são radicalmente viciadas. A concupiscência desregrada, que todos recebem como herança de Adão, deve ser identificada com o pecado; ela é o pecado mesmo a residir no homem. A concupiscência é invencível; pelo que se torna vão falar de «livre arbítrio» ou de liberdade para praticar o bem; aliás já São Paulo exclamava : «Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?... Assim eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado» (Rom 7,24s).

 

Que acontece então quando o homem se converte, concebendo a contrição de suas culpas e a fé no Redentor?

Nessas circunstâncias, o Pai do céu se digna não imputar à criatura o pecado que nela reside e continuará a residir; o crente é revestido dos méritos de Cristo, sem, porém, deixar de ser pecador, como Jacó foi revestido com os trajes de Esaú, sem deixar de ser Jacó, o Suplantador fraudulento. O Pai do céu, portanto, declara a criatura justificada ou agraciada em termos meramente jurídicos, sem que por isto ela seja renovada interiormente.

 

Prosseguindo na sua explanação, diria Lutero que o meio preciso pelo qual o pecador se reveste do manto de Cristo, é a fé. Esta consiste em crermos, cheios de confiança, que Deus nos quer gratuitamente perdoar os pecados e salvar por Cristo. A fé assim concebida vem a ser movimento afetivo muito mais do que assentimento do intelecto a proposições reveladas; é a fé fiducial. Alguns protestantes do século passado, como Schleiermacher, chegaram a conceber toda a vida cristã fundada sobre uma fé sem dogmas, meramente emotiva e sentimental : «Fé em Cristo significa apego a Cristo, emoção forte de amor e gratidão» (Sanday, Comentário da epist. aos Rom. XLVI).

 

Como se vê, um dos esteios do conceito protestante de fé fiducial é a tese de que a concupiscência e o pecado não podem ser superados nem cancelados no homem. Bem diversa é a posição doutrinária do católico (e da Sagrada Escritura. ..). Este sabe que a natureza humana é atingida e sanada interiormente pela graça do Redentor; o Batismo realiza uma renovação ontológica no neófito, tornando-o «participante da natureza divina» (2 Pdr 1,4), «filho de Deus, não apenas de nome, mas no mais íntimo do seu ser» (cf. 1 Jo 3,1). Em consequência, a fé, para o católico, não é propriamente um ato de confiança cega na mensagem da salvação gratuita, mas é primariamente a adesão da inteligência às verdades que Deus revelou (entre as quais está sem dúvida a mensagem de renovação intrínseca da natureza contaminada pelo pecado). O Cristianismo é Revelação da Verdade, possui um conteúdo intelectual destinado a ser apreendido como tal. A fé, porém, não pode ficar no plano meramente intelectual, pois a Palavra de Deus vem ao encontro do homem exalando amor; por conseguinte este só lhe pode responder cabalmente exalando, também ele, amor, isto é, confiança e entrega generosa ao Pai do céu.

 

2. O texto de Hebr 11,1 é citado como um dos fundamentos da doutrina da fé fiducial. Examinemos, pois, o seu significado preciso.

 

a) O autor sagrado diz primeiramente que a fé é a hypóstasis dos bens que esperamos.

Qual será a acepção do termo grego hypóstasis?

 

Ao pé da letra, esta palavra significa «o que se coloca debaixo»; por conseguinte, «suporte, base, fundamento». Na linguagem tardia dos papiros (que corresponde à época em que foi redigida a epístola aos Hebreus), designava frequentemente «propriedade» ou «direito de posse» ou «garantia de posse»; podia também indicar o conjunto de documentos depositados nos arquivos a fim de atestar um autêntico direito de propriedade. À luz destas notas filológicas, bons exegetas não hesitam em entender o termo hypóstasis de Hebr 11,1 no sentido de «posse antecipada» ou «garantia objetiva, caução, penhor» das realidades invisíveis, eternas, que esperamos desfrutar em plenitude após a morte. A fé vem a ser, portanto, a realidade celeste a nós outorgada na terra sob a forma de gérmen. Quem possui uma caução, possui o tesouro mesmo a que ela corresponde, nas condições, porém, de um papel ou documento de aparência vil; assim quem tem a fé, tem os bens celestes, mas ainda encobertos pelos véus aparentemente vis dos sacramentos e dos mistérios da vida presente. Contudo fé e visão de Deus face a face estão na mesma linha, formam um só todo continuo; a fé se vai desenvolvendo aos poucos neste currículo terrestre até desabrochar na contemplação direta da Divindade. — Não seria preciso repetir muito que a fé assim entendida é a fé viva, não meramente teórica, mas traduzida em conduta prática coerente.

 

Foi Erasmo de Rotterdam no séc. XVI quem pela primeira vez propôs para o vocábulo hypóstasis de Hebr 11,1 o sentido de «sólida confiança», «segurança». Seguiram-no o reformador Zwingli e muitos autores protestantes posteriores: Melanchton, Grócio, Tholuck, Delitzsch, Holzmann, Robinson, etc. Tal modo de traduzir, porém, não se impõe necessariamente ao filólogo (note-se que a Bíblia de Ferreira de Almeida, geralmente usada pelos protestantes, dá a hypóstasis a acepção de «firme fundamento»).

 

b) O hagiógrafo afirma outrossim que a fé é o élenchos das coisas que não se veem. Élenchos em grego vem a ser «aquilo que torna certo ou seguro,..»; é o argumento, a prova, o titulo que gera convicção. Assim entendido, o segundo termo da frase completa o sentido do primeiro. A fé não é somente garantia objetiva de posse, mas é também o elemento que em nós produz a persuasão de que existem as realidades invisíveis que esperamos atingir. A fé fornece permanentemente ao cristão a demonstração e a evidência do invisível; destarte ela concorre para aumentar a energia de conduta, corroborar a paciência, suscitar o esforço do discípulo de Cristo.

 

Eis como o autor da epístola aos Hebreus descreve a fé numa visão grandiosa e profunda, que não seria lícito interpretar à luz de teses teológicas preconcebidas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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