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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS -003 / outubro 1957

 

Maria, mãe de Deus?

 

METODISTA (São Gonçalo): "Como pode Maria, uma criatura, ser Mãe de Deus?"

 

A afirmação de que Maria é Mãe de Deus pode parecer paradoxal: seria Maria anterior a Deus?.. algo mais do que o próprio Deus? O aparente paradoxo, porém, é mera consequência do mistério de Cristo ou da reta fé em Cristo.

 

Merece atenção o fato de que os teólogos começaram a focalizar a Maternidade Divina por ocasião de seus estudos sobre Cristo; foi, pois, por causa de Cristo, e para corroborar verdades concernentes a Cristo, que Maria se tornou objeto de consideração especial da teologia e da piedade cristãs, tão intimamente está ela associada a Jesus! — É o que passamos a ver.

 

No início do séc. 5.° em Constantinopla o Patriarca Nestório pôs-se a explicar de modo errôneo o mistério de Cristo; atribuía a Jesus duas naturezas e duas personalidades, afirmando assim uma união assaz vaga entre o Divino e o humano no Redentor. O Filho de Deus estaria contido no homem Jesus como a estátua está no templo. A consequência disto era que Maria não deveria ser chamada Mãe de Deus (Theotókos), como se fazia desde tempos remotos; seria apenas a mãe do homem Jesus, ao qual sobreveio a pessoa do Filho de Deus para nele habitar em união meramente moral, em concórdia semelhante à que se pode dar entre duas pessoas justapostas. No máximo, dizia Nestório, Maria poderia ser dita Mãe de Cristo (Christotókos), pois gerou uma pessoa humana que, uma vez unida a Deus, se chama Cristo. O Patriarca assim resumia toda a sua doutrina na negação da Maternidade Divina de Maria; rejeitando o título Theotókos, julgava ter afirmado sua nova Cristologia.

 

A tese de Nestório, porém, não satisfazia aos dados da Revelação, a qual afirma união muito mais íntima entre o humano e o Divino em Cristo; a nossa Redenção implica uma consagração muito mais rica do humano. Em consequência, os bispos e teólogos da Igreja reunidos no concilio geral de Éfeso (Ásia Menor) em 431 declararam, inspirando-se na fé tradicional, haver em Cristo duas naturezas, sim, (a divina e a humana), mas uma só Pessoa (a Divina).

Que significa exatamente esta fórmula?

 

Por "natureza" entende-se a essência de um ser, aquela estrutura íntima que faz que ele seja tal e atue como tal; é, pois, em linguagem técnica, o princípio radical da atividade de um ser. A natureza do homem, por exemplo, aquilo que faz que ele seja homem, não é nem a sua estatura ereta, nem a sua linguagem, mas a sua racionalidade; é desta que decorre o modo de agir característico do homem no conjunto das criaturas. Todos os homens têm necessariamente a mesma natureza, como se entende; em caso contrário, deixariam de ser homens.

 

Sabemos, porém, que na realidade concreta não se encontram animais racionais simplesmente ditos, indiferenciados uns dos outros; o ser racional só subsiste revestido de notas que o individualizam e o distinguem dos outros indivíduos possuidores da mesma natureza. Sim; Pedro, Paulo e João são homens, têm a mesma natureza humana, mas cada um tem sua personalidade própria, que o individualiza; é somente debaixo de tais personalidades individuais que a natureza se encontra no mundo.

 

Distingue-se, portanto, da natureza a personalidade. Esta é o que dá subsistência real àquela; é o Eu que, com suas modalidades individuais, utiliza as faculdades da natureza ou do fundo comum a todos os homens.

 

Pois bem; a fé ensina que em Cristo havia duas naturezas ou dois princípios de ação — o Divino e o humano — não mutilados, mas íntegros. Acrescenta, porém, que a natureza humana em Cristo não subsistia por efeito de uma personalidade humana e, sim, porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade lhe dava subsistência ou personalidade; esta mesma Pessoa, em virtude da Encarnação, passou a subsistir em duas naturezas: a Divina, na qual se achava desde toda a eternidade, e a humana, que ela tomou no seio de Maria Santíssima. Tão íntima era a união do humano com o Divino em Cristo que o Eu de Jesus não era um Eu humano, mas Eu divino.

 

Destas premissas se conclui que Maria pode e deve ser dita Mãe de Deus. De fato, pelo S. Evangelho sabemos que ela gerou a Cristo, esse indivíduo que subsistia em virtude de uma personalidade divina. Ora, visto que quem gera, gera uma pessoa, não uma natureza abstrata, Maria, gerando a natureza humana de Cristo, gerou também a personalidade divina que lhe estava unida; gerou-a não de maneira a lhe dar o ser simplesmente, mas gerou-a como Pessoa Divina subsistente na natureza humana.

 

Não basta, portanto, dizer que Maria é Mãe de Cristo (na acepção nestoriana). Quem lhe denega o título de Mãe de Deus, nega ao mesmo tempo o mistério de Cristo e a sublime maneira pela qual o Pai Eterno quis realizar a Redenção do nosso gênero; esta não implica menos do que a divinização da natureza humana, segundo a bela concepção dos Santos Doutores:

 

Para que os homens nascessem de Deus, nasceu Deus primeiramente dos homens.

Cristo é Deus e Cristo nasceu dos homens.

Na terra só procurou mãe, porque já tinha Pai no céu.

Nasceu de Deus aquele por quem havíamos de ser formados, e nasceu da mulher aquele por quem havíamos de ser reformados...

O Verbo quis nascer do homem... para que tu realmente nascesses de Deus e dissesses a ti mesmo: 'Não foi em vão que Deus quis nascer do homem. Apreciou-me como se eu fosse coisa importante, a ponto de me tornar imortal, nascendo Ele mortalmente por meu amor” (S. Agostinho, Comentário em S. João tr. 2,1).

 

Vê-se assim que a fórmula "Maria, Mãe de Deus" vem a ser uma breve síntese das verdades centrais da fé católica.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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