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Artigo

A Eva Mitocondrial

por Mário Eugênio Saturno

A Bíblia afirma que todos nós somos descendentes de uma única mulher, chamada Eva e de um único homem, chamado Adão. Cientistas fizeram análises de DNA de homens e mulheres do mundo todo e constataram que todos descendemos, de fato, de uma mulher que viveu, provavelmente, há 150 mil anos.

O DNA é uma molécula que registra todas as informações para que um ser vivo exista e se reproduza. É o DNA que mantém a hereditariedade, que faz com que os filhos sejam semelhantes aos pais.

O DNA localiza-se no núcleo das células, porém existe um DNA pequeno que habita o citoplasma das células, é o DNA mitocondrial. As mitocôndrias são as geradoras de energia nas células.

O DNA mitocondrial humano é circular, muito pequeno (apenas 16.569 pares). Acredita-se que as mitocôndrias eram microrganismos independentes que, englobados por ancestrais de nossas células, tornaram-se simbiontes ao longo da evolução, tanto que conservam características de DNA de um micróbio.

Como as mitocôndrias do espermatozóide se consomem na tarefa de encontrar o óvulo, todos nós herdamos as mitocôndrias de nossas mães, ou seja, os homens não transferem suas mitocôndrias para os filhos. E o DNA mitocondrial dos filhos é igual o das mães.

Com o cromossomo Y, que somente os homens têm (nos homens forma-se o par XY enquanto que nas mulheres forma-se o par XX), acontece o mesmo, é transmitido somente pelo pai e o Y do filho é igual o do pai.

Eventualmente, o cromossomo Y e o DNA mitocondrial podem sofrer mutações inofensivas, gerando variações. Quanto mais o tempo passa, mais o acúmulo de mutações diferencia as pessoas.

Um estudo da pesquisadora Rebecca Caan, da Universidade da Califórnia, constatou que os africanos tinham um DNA mitocondrial variado enquanto o dos europeus mostrava pouca variação (portanto os DNA eram mais jovens), constituindo uma única linhagem. Os estudos das variações chegaram a uma única mulher da qual descendemos todos, a Eva Mitocondrial, que viveu há 150 mil anos. É a homo sapiens mais antiga que podemos rastrear. Ela e seu grupo viviam na África central cercados por desertos.

Há 80 mil anos, os humanos estavam nas costas da África. Nessa época, o mundo vivia uma Era Glacial, o nível do mar era 45 metros mais baixo, ao norte havia um grande deserto que extinguiu todos os homo sapiens que viviam até no Oriente Médio, como pôde ser constatado em fósseis humanos encontrados em Israel (acredita-se que foram extintos há 110 mil anos em uma grande seca). Porém, o Iêmem, mais verde e úmido, estava há apenas 16 km.

Nessa época, deveriam existir perto de dez mil seres humanos espalhados pela África. A fome deve ter encorajado um grupo de 250 homo sapiens a atravessar o mar Vermelho. Nesse pequeno grupo estava a nova Eva, a mãe de todos os humanos fora da África. Os cientistas estimam que depois de mil anos, as cinco ou seis linhagens genéticas de mitocôndrias foram reduzidas a apenas uma, dessa nova Eva.

Em menos de seis mil anos, esses humanos, com a melhora do clima, foram para o oriente até chegar na Malásia, dez mil km da África. Como sabemos? O vulcão Toba, da Sumatra, explodiu há 74.000 anos, cobrindo de cinzas e preservando para nós as evidências de nossos antepassados. A análise do DNA dos malaios confirmou essa tese.

A imigração também ocorreu ao norte, pelo Oriente Médio, Ásia e, finalmente, a Europa, aonde chegaram há 40.000 anos. Aí, os negros tornaram-se brancos, de cabelos lisos e olhos claros. Há uns 20.000 anos, uma nova era glacial baixou os oceanos ligando a Ásia à América, permitindo nova expansão humana pelo nosso continente.

Na Europa, já viviam os neandertais, espécie humana mais primitiva. Então há 27.000 anos, eles foram extintos. Pelos homo sapiens? Ninguém sabe exatamente. Também na Ásia, os últimos homo erectus foram extintos, depois de existirem por cerca de dois milhões de anos.

Pela primeira vez, em cinco milhões de anos, só havia uma espécie humana no planeta, o homo sapiens.

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Mário Eugênio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e professor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Catanduva

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